Ḥerem (genocídio)

O ḥerem (hebraico חרם) era uma prática sacrifical na qual toda presa viva — quer pessoa, quer animal — é condenada à morte e devotada a um deus.

Antes, destruí-las-ás [ḥerem] totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos ferezeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor, teu Deus,

Dt 20:16

O termo ḥerem aparece nas línguas semíticas como algo interdito por razões religiosas. No entanto, em Dt 20:16; Js 10:40; na Estela de Mesa, o conceito de ḥerem indica aniquilação total da população apreendida. É nesse sentido de destruição que aparece a última palavra de Malaquias, no final do Antigo Testamento do cânone cristão.

O ḥerem oferece um dilema ético e moral, bem como uma dificuldade bíblica. O teólogo anabatista John Howard Yoder sugere de que o ḥerem evitava que a guerra se tornasse uma fonte de enriquecimento por meio de pilhagem. Assim, seria uma forma incipiente de conter a escalada de violência.

BIBLIOGRAFIA
Hofreiter, Christian. Making Sense of Old Testament Genocide: Christian Interpretations of Herem Passages. Oxford University Press, 2018.

Stern, Philip D. The Biblical Herem: A Window on Israel’s Religious Experience. Brown Judaica Studies 211; Atlanta: Scholars Press, 1991.

Heilsgeschichte

Heilsgeschichte, em alemão “História da Salvação”, ou ainda “História da Redenção” designa tanto um princípio de interpretação da Bíblia quanto uma afirmação teológica a respeito da História universal.

Os antigos israelitas se interessavam pela história, não tanto pelos próprios eventos, mas por seus motivos e propósitos. Enquanto os israelitas viam sua história como um desenrolar da relação de aliança entre Israel e Deus, o pensamento cristão considerou os eventos narrados na Bíblia como atos de Deus para a salvação do mundo.

Como teologia da história e, porque não, posição historiográfica, a História de Salvação remonta desde a patrística. De Agostinho temos A Cidade de Deus já com alguns aspectos da História de Salvação. No iluminismo houve uma separação entre história universal e história sacra a partir do aliancismo de Cocceius. A primeira seria objeto tanto da Historie quanto da Geschichte enquanto a segunda era fundada primordialmente na Geschichte. Em alemão Historie é a disciplina que se preocupa com os registros percebidos dos eventos. Já a Geschichte é a interpretação de eventos de forma compreensiva e disposta em forma narrativa. A Geschichte não é necessariamente uma reportagem dos eventos como “fatos que aconteceram”, mas sim dos seus significados, bem como aspectos não observáveis como relação de causalidade ou propósitos.

Como uma formulação teológica, a História de Salvação foi uma perspectiva historicista proposta por J.T. Beck (1804- 1878). Beck combinou a dialética de Hegel com a noção de que os tratos de Deus com a humanidade exigiam uma conexão lógica entre os diversos eventos dessa revelação. A revelação seria progressiva e situada historicamente. Assim, enfatizou a importância de cada etapa do processo porque cada uma se tornou parte do todo.

O teólogo luterano Johannes Christian Konrad von Hofmann insistiu que uma visão teleológica da história, cada fase tem sua própria função independente da anterior. Contudo, Hofmann evitou um supersessionismo do Antigo Testamento em relação ao Novo Testamento. Em vez disso, a história de salvação revelada no Novo somente faz sentido à luz do Antigo. Pela Kenosis trinitária, quando o Eterno encontrou-se na História ao “esvaziar” em Jesus, houve um clímax que aponta para o fim de reconciliar o mundo inteiro com Deus com base em seu amor. A história mundial só pode ser entendida apropriadamente dentro da da história da salvação. No entanto, a história da salvação não é uma parte da história mundial.

Heilsgeschichte extrapola as limitações do historicismo. Assim, teologicamente, rejeita-se relegar a Bíblia a um produto meramente humano e preso às contigências sociais e históricas de sua composição textual. Nessa linha, Oscar Cullmann interpreta os eventos nas narrativas bíblicas apontando para uma consciência crescente da obra salvadora mediante a intervenção de Deus na história. Assim, no presente os crentes encaram um desafio divino de se posicionar-se no plano revelado de salvação.

Em língua inglesa o batista Eric Charles Rust utilizou esse conceito para dialogar com a historiografia acadêmica. Depois de seu pico entre círculos reformados e luteranos continentais, no final do século XX a História de Salvação encontrou pouca difusão entre correntes evangelicais.

BIBLIOGRAFIA

Cullmann, Oscar. Christ and Time. The Primitive Christian Conception of Time and History. Westminster Presss, 1950.

Cullmann, Oscar. Salvation in History. New York: Harper & Row, 1967.

Frei, Hans W. The Eclipse of Biblical Narrative: A Study in Eighteenth and Nineteenth Century Hermeneutics. New Haven: Yale University Press, 1974.

Rust, Eric Charles. Salvation History a Biblical Interpretation. John Knox Press, 1962.

Rust, Eric Charles. Towards a Theological Understanding of History. 1967.

VEJA TAMBÉM

Dispensacionalismo

Revelação progressiva

A Cidade de Deus

Teologia do Pacto

Aliancismo

Hipótese documentária

Hipótese em crítica textual que postula que o Pentateuco é uma composição de textos ou fontes anteriores. Sua forma clássica foi sintetizada no século XIX pelo biblista alemão Julius Wellhausen.

Esses documentos, indicados pelas iniciais J, E, P e D seriam datados em diversas épocas, mas fundidos em um só documento durante ou depois do exílio.

Desde os anos 1970, praticamente poucos estudiosos (como Richard Elliott Friedman) aceitam a existência de documentos distintos. Outras teorias, como a hipótese suplementar, a hipótese fragmentária, o minimalismo bíblico ou a hipótese neo-documentária oferecem outros modelos de composição bíblica.

Hulda

Profetisa de Jerusalém. Esposa de Salum, guardião dos guarda-roupas reais durante o reinado de Josias (639–609 a.C.).

Consultada pelos oficiais de Josias após a descoberta de um rolo da Lei no Templo, Hulda profetizou a destruição de Jerusalém, embora Josias morreria antes. A profecia de Hulda impulsionou as reformas josiânicas (2Re 22; 2Cr 34).

Hexapla

Edição crítica do Antigo Testamento grego em seis colunas paralelas feita por Orígenes (c. 185-253/254 d.C.). Sua compilação foi iniciada em Alexandria e concluída em Cesareia no século III a.C.

A primeira coluna continha o texto em hebraico, a segunda sua transliteração para o grego, as quatro colunas seguintes as traduções para o grego de Aquila, Símaco, Septuaginta (LXX) e Teodotion.

No texto da LXX, com base no texto hebraico, Orígenes marcava as omissões com um asterisco e as interpolações com um obelo. O sinal de metobelo indicava fim de um perícope.

A obra provavelmente só existiu em um único exemplar de 6.500 páginas (3.000 folhas de pergaminho) em 15 volumes. Teria sido arquivada na Biblioteca Cristã de Cesareia até o século VII. Dessa obra só restaram fragmentos.

Uma versão abreviada também teria sido feita por Orígenas, a Tetrapla. O texto da quinta coluna, a recensão de Orígenes, foi copiado. Sobrevivem dois palimpsestos (Cairo e Milão). Sobreviveu uma tradução siríaca muito literal, a siro-hexapla, feita entre 613 e 617 pelo bispo Paulo de Tella, exceto pelo Pentateuco, com notas marginais com as versões de Aquila, Símaco e Teodotion.

Este trabalho de filologia deu início aos estudos textuais sistemáticos da Bíblia e influenciou recensões posteriores.

Heber

Nome de nove personagens e um lugar bíblicos escritos com duas ortografias e sentidos distintos que se perdem em português.

Com a grafia עֵבֶר, Eber.

1. O bisneto de Sem, pai de Pelegue e Joctã (Gn 10: 24-25; Gn 11: 14-17; 1Cr 1: 18-19; 1Cr 1:25), ancestral de Abrão (Gn 11: 17-26 ) e Jesus (Lucas 3:35). Provável ancestral epônimo dos hebreus ou habiru.

2 Região ao lado da Assíria em (Nm 24:24), provavelmente a região e a população “além do rio” (Eufrates).

3 O cabeça da família sacerdotal de Amoque na geração seguinte àquela daqueles que retornaram a Jerusalém com Josué e Zorobabel (Ne 12:20).

4 Um gadita (1Cr 5:13).

5 Um benjamim, filho de Elpaal (1Cr 8:12).

6 Um benjamita, filho de sasaque (1Cr 8:22).

Com a grafia חבר existem quatro pessoas com o nome Heber:

1 Patriarca epônimo de uma linhagem da tribo de Aser (Gn 46:17; Nm 26:45; 1Cr 7: 31-32).

2 Pai ou fundador de Soco em Judá (1Cr 4:18).

3 família em Benjamin (1Cr 8:17).

4 O marido queneu (“ferreiro”) de Jael que matou Sísera em sua tenda (Juízes 4:21; Juízes 5:24). Heber havia migrado para o território de Naftali, que tinha uma fronteira comum com Aser, e se estabeleceu em paz com Jabim, rei de Canaã, em Hazor (Jz 4:11; Jz 4:17).

Hamurabi

Rei babilônico que compilou um conjunto de leis chamadas como Código de Hamurabi do período amorita ou Antigo Império Babilônico na Idade do Bronze.

No passado, alguns eruditos bíblicos pensavam que Hamurabi fosse o rei Anrafel, rei de Sinar de Gn 14:1-17, mas tal associação foi rejeitada. Embora não seja citado na Bíblia, teria sido aproximadamente contemporâneo da era patriarcal retratada em Gênesis. Seu código legal é uma importante fonte para a pesquisa bíblica, retrando as normas e costumes do Antigo Oriente Médio sob influência mesopotâmica.

A data de seu reinado varia conforme a cronologia adotada (alta cronologia 1848–1806 a.C.; cronologia média 1792–1750 d.C.; baixa cronologia 1728–1686 a.C.; baixa cronologia de James 1627–1584 a.C.).

Haustafeln

Haustafeln (alemão tabelas ou mesas da casa). A origem do termo é atribuída a Martinho Lutero e refere-se ao gênero textual sobre conselhos das relações domésticas.

Esse tipo de conselhos para maridos, esposas, filhos e servos ocorrem vagamente em autores estóicos como Sêneca, Plutarco e Epiteto e entre judeus helenistas, como Filo.

Aparece distintivamente como um gênero textual altamente desenvolvido nos escritos do Novo Testamento.

Lembrando que as igrejas primitivas eram instituições domésticas, não havia distinção entre Igreja e a Casa. É possível que em Paulo, Pedro ou Tiago haja uma apologia: o senhorio de Cristo já não colocavam os cristãos sob o controle da Lei, mas isso não significava uma imoralidade libertina. Antes havia um senhorio universal dos quais todos os crentes seriam partícipes e conviviam entre si com uma ética do amor e confiança na mesma Casa (domus ou domínio).

Entre escritos cristãos do século II, alguns atos apócrifos ou as epístolas de Inácio, retratam, de modo menos elaborado, os cristãos em uma relação de comensalidade. Essa literatura apresentava os cristão como boas pessoas e honrando a família, não o povo esquisito que os detratores queriam apresentar. Não seriam libertinos (vide o Satiricon de Petrônio para constatar o clima dos banquetes romanos), nem misteriosos como os cultos iniciáticos ou associações mortuárias. É uma evidência e ideal de como o cristianismo primitivo se via como uma irmandade, sob o pater familias que seria Cristo.

Os principais textos desse gênero são:

Ef 5:22-6:9, com paralelos em Cl 3:18-4:1.

Aparições menos explícitas ocorrem em 1 Tm 2:1-8; 3:1; 5:17; 6:1; Tt 2:1-10; 1 Pe 2:13-3:7.

BIBLIOGRAFIA

Standhartinger, Angela. “The Origin and Intention of the Household Code in the Letter to the Colossians.” Journal for the Study of the New Testament 23, no. 79 (2001): 117-130.

Martin, Clarice. “The Haustafeln (Household Codes) in African American Biblical Interpretation: ‘Free Slaves’ and ‘Subordinate Women.’ ” In Stony the Road We Trod: African American Biblical Interpretation, edited by Cain Hope Felder, 206–231. Minneapolis: Fortress, 1991.

Habacuque

O livro de Habacuque pertence aos Doze, a coleção dos Profetas Menores. O livro de Habacuque é um debate com Deus acerca da violência e da injustiça, mas finaliza com um hino de esperança.

Seu nome em hebraico é חֲבַקּוּק, mas não se sabe exato o significado. A raiz da palavra é relacionada com o verbo “abraçar”. Pouco se sabe de sua vida, seria provavelmente um profeta público.

Fontes extra-bíblicas adicionaram lendas sobre o profeta. A porção apócrifa adicional ao Livro de Daniel, chamado de Bel e o Dragão, menciona Habacuque trazendo comida a Daniel quando esse estava na cova dos leões. O Talmude identifica-o com o filho da viúva ressuscitado por Eliseu (2 Re 4). Tuiserskan, cidade na antiga região de Ecbatana (noroeste do Irã), possui um mausoléu onde reivindicam que esteja sepultado o profeta.

Escrito por volta do ano 620-610 a.C., quando o Império Caldeu (neobabilônico) levantou-se. Os babilônios derrotaram a aliança assiro-egípcia, tornando-se a potência da região. Foi escrito em Judá e nesse tempo o Reino do Norte, Israel já havia sido conquistado e dispersado pelos assírios. Habacuque seria um profeta pré-exílico, contemporâneo de Jeremias e talvez de Naum e Sofonias.

São dois diálogos e um salmo. Existe a possibilidade de que o Primeiro Diálogo tenha sido escrito logo após o reinado de Josias, quando o reino de Judá se corrompeu sob influência de Joaquim (2 Re 23:36-24:7). Direcionado ao Reino de Judá, anuncia a vinda dos caldeus para punir sua iniquidade. O Segundo Diálogo teria sido às vésperas da invasão Babilônica, cuja violência foi demonstrada na Batalha de Carquemis e na conquista de Nínive. No segundo diálogo dá esperança de restauração futura e punição da violência babilônica.

O manuscrito mais antigo foi encontrado na caverna de ‘ain Feshka, no Mar Morto, contendo os capítulos 1 e 2, e uma peshat, comentário ao estilo mishnaico, datado do século I a.C.

TEMAS

Deus pode parecer não estar atuando, mas está. O Senhor tem um propósito maior. Deus pune a injustiça. Deus escuta e responde as orações, embora as respostas não possam ser aquilo que se esperava. Deus é justo, santo e poderoso. A vida do justo deve ser fundamentada na fidelidade.

Habacuque, ao contrário dos outros profetas que voltavam suas profecias contra as nações, apresenta um diálogo entre o profeta e Deus. Trata-se de uma teodiceia, um enfrentamento da questão dos motivos para o mal, como o Livro de Jó.