Mari

Sítio arqueológico na Mesopotâmia (Tel-el-Harari), no oeste da atual Síria. Localizada próximo ao Eufrates (c. 25 km), a cidade de Mari floresceu como centro comercial e político entre 2900 aC e 1750 aC. As escavações começaram em 1925 e em 1933 foi anunciado a descoberta de cerca 25.000 tabuletas na biblioteca queimada de Zimri-Lim escrita em acadiano de um período de 50 anos entre cerca de 1800 – 1750 a.C.

Mari constitui um relevante testemunho histórico para a Idade do Bronze Médio. Apesar de não haver muitos paralelos diretos com a literatura bíblica, Mari informa muito sobre costumes, nomes e temas encontrados na Bíblia. Há estelas sagradas, revelações proféticas registrados por escrito, a ascensão do jovem herói à realeza, nomes como Naor, Harã, Hazor, Laís, os pastoralistas seminômades amoritas, dentre outros.

As profecias escritas em Mari constituem um gênero literário importante para compreender seu análogo bíblico. Junto de outras profecias assírias datadas dos reinados de Essaradom (680-669 a.C.) e Assurbanipal (668-627 a.C.), as profecias de Mari formam um corpus de 130 textos cuneiformes desse gênero, estranhamente restritos a essas duas instâncias. Obviamente, esses documentos separados dos escritos bíblicos por mais de um milênio não influenciaram diretamente a composição das Escrituras Hebraicas, mas providenciam dados valiosos sobre os contextos histórico, social e literário,

BIBLIOGRAFIA

Malamat, Abraham. Mari and the Bible. Leiden: Brill, 1998.

Magnificat

Em latim é o título incipit da oração de louvor de Maria em Luca 1:46-55.

Possui elementos análogos com o Cântico de Ana (1Sm 2:1-10), sendo um belo exemplo da poesia hebraica, estruturada em paralelismos.

Como o Cântico de Ana, é o cântico de celebração pelo nascimento de uma criança que epitomiza o fim da opressão. Salienta a consumação das promessas messiânicas em tom de extrema humildade dos meios pelos quais Deus se manifesta sua graça.

Matusalém

Em hebraico: מְתוּשֶׁלַח , ; em grego: Μαθουσάλας Mathousalas, um patriarca bíblico cuja vida foi a mais longa da Bíblia, 969 anos de acordo com o Texto Massorético e com a Septuaginta, embora apareça com “meros” 720 anos no Pentateuco Samaritano e no Livro de Jubileus. Irrespectivo de qual recensão, teria morrido no ano do dilúvio.

Matusalém era filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé. É mencionado nas genealogias em 1 Crônicas e no Evangelho de Lucas.

A Lista de Reis Sumérios menciona um personagem chamado Ubara-Tutu com paralelos a Matusalém. Ubara-tutu (ou Ubartutu) de Shuruppak foi o último rei antediluviano da Suméria e teria reinado por 18.600 anos (5 sars e 1 ner). Ele era filho de En-men-dur-ana, uma figura mitológica suméria comparada a Enoque, pois não teria morrido.

Alguns comentadores (Donald V. Etz; Ellen Bennet) argumentam que os anos da genealogia de Gênesis 5, consequentemente a idade de Matusalém, foram interpretadas erroneamente. Sugerem que os termos traduzidos por anos nos seriam, então, estações ou outras unidades, o que reduziriam a idade de Matusalém de 78 a 96 anos, conforme o comentador.

BIBLIOGRAFIA

Etz, Donald V., “The Numbers of Genesis V 3-31: a Suggested Conversion and Its Implications”, Vetus Testamentum, Vol. 43, No. 2, 1994, pages 171–187.

Maria

Maria, forma grega de Miriam.

Sete mulheres no Novo Testamentos aparecem com esse nome, a menos que duas ou mais sejam idênticas.

1. Maria, a mãe de Jesus e esposa de José

Nos Evangelhos sinópticos e em Atos é chamada de “Maria”. No Evangelho de João ela aparece como a mãe de Jesus sem citar seu nome nas bodas de Caná (Jo 2:1-12) e sob a cruz (Jo 10:25-27), quando Jesus a põe sob cuidados do “discípulo amado”. É aludida sem mencionar seu nome por Paulo (Gl 4:4). Aparece com maior detalhe nas narrativas da infância em Mateus e em Lucas.

Mateus 1:18-25 e Lucas 1:26-56; 2:1-38 registram a concepção virginal, anunciada a José em um sonho (Mateus 1:18, Mateus 1: 25) e a Maria pelo anjo Gabriel (Lucas 1: 26-38). Maria viaja de Nazaré à Judeia, para sua parenta grávida, Isabel, que a aclama como “bendita entre as mulheres” e “a mãe de meu Senhor” (Lucas 1: 39-45). Maria responde com um hino (Lucas 1:46-55; o Magnificat). Mais tarde, Simeão diz a Maria que “uma espada também atravessará a sua alma” (Lucas 2:35).

A única instância em que Maria é retratada um tanto negativamente ocorre no perícope que ela e os irmãos de Jesus tentam deter Jesus (Marcos 3:21-30).

Lucas inclui Maria entre as discípulas que oravam no cenáculo com os Doze (Atos 1:14) e também como aquela que recebeu o Espírito Santo no Pentecostes (Atos 2:1-4).

2 Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro (Lucas 10: 38-39; João 11: 1), aparece em (Lucas 10:38-42), sentada aos pés de Jesus e ouvindo seus ensinamentos. Marta reclama que a deixou para servir sozinha, mas Jesus elogia a escolha de Maria. No Evangelho de João, Maria de Betânia unge os pés e os enxuga com seus cabelos (João 12:1-3). Esteve presente com Marta na morte e ressurreição de Lázaro (João 11:19-20, 11:28-32).

3 Maria Madalena ou “de Magdala”, mencionada em primeiro lugar em cada lista das discípulas (Mt 27: 55-56; Mt 27:61; Mt 28: 1; Mc 15: 40-41; Mc 15:47; 16: 1; Lc 8:2-3; 24:10) que apoiavam o ministério de Jesus por seus próprios meios (Lucas 8: 1-3). É uma das únicas mulheres registradas nos quatro evangelhos. Descrita como “de quem haviam saído sete demônios” (Lucas 8:2), testemunha da morte de Jesus (Mt 27:55-56, 61; Mc 15:40-41, 47; Lc 23:49, 55-56, Jo 19: 25) e do túmulo vazio (Mt 28:1, 6; Mc 16:1-6; Lc 24:1-3, 10; Jo 20:1-2). Foi comissionada para anunciar a notícia da ressurreição de Cristo aos discípulos (Mt 28: 5-9; Mc 16: 6-7; Lc 24: 4-10).

A tradição não histórica de que Maria Madalena tinha sido uma prostituta derivou-se da confusão com a mulher não identificada em (Lc 7:36-50), identificação atribuída a Gregório Magno.

4 Maria, a mãe de Tiago, ou de Tiago e José, ou José, ou “a outra Maria”, entre as discípulas na cruz (Mt 27: 55-56; Marcos 15:40), com Maria Madalena no sepultamento, tumba vazia (Mt 27:61; Mt 28: 1; Mc 15:47; Mc 16: 1) e primeira aparição do Cristo ressuscitado (Mt 28: 9).

5 Maria, a esposa de Clopas, uma das mulheres na cruz em (Jo 19:25), talvez a mesma que Maria, a mãe de Tiago e José.

6 Maria de Jerusalém, cuja casa os seguidores de Jesus congregaram após sua morte. Pedro chegou à casa dela após sua fuga da prisão (Atos 12: 11-17). João, filho de Maria, também conhecido como Marcos, acompanhou Barnabé e Paulo em algumas de suas viagens missionárias (Atos 12:25; 13: 5; 13:13; 15: 37-39).

7 Maria de Roma, uma mulher saudada por Paulo em (Rm 16:1-16) e descrita como tendo “trabalhado muito entre vós” (Rm 16:6).

Magos

Em Mateus 2 relata que um grupo de homens do oriente — magoi — viajou para prestar adoração ao menino Jesus quando nasceu.

Gentios, apesar de utilizaram as estrelas como referências (Mt 2:28), desconheciam as profecias das Escrituras Hebraicas sobre o local do nascimento do Messias (Mt 2:2-6).

Mais tarde, tradições populares passram a contá-los em três e a atribuir o título de reis, em uma inferência do número de presentes (Mt 2:11) e aos reis que contemplariam a luz de Deus (Is 60:3).

TERMO

“Homens sábios” é uma tradução imprecisa. A origem do termo mago vem do antigo persa magu– (transmitido ao elamita, aramaico e caldeu maguš, grego mágos μάγος, latim magus) para a designação do sacerdotes dos iranianos nos períodos mediano, aquemênida, parta e sassânida. Sua primeira menção está na inscrição de Bisutum de Dario I, o Grande. A partir do século IV a.C., o uso do termo mago tornou-se ambíguo com a conotação desdenhosa para designar conjuradores, feiticeiros e adivinhos. Já durante os períodos parta e sassânida, esse termo foi usado para os sacerdotes zoroastrianos.

De acordo com Heródoto (Histórias 1.101), os magos seriam uma das seis tribos medas e formaram o clã sacerdotal hereditário, com membros influentes na corte como intérpretes e adivinhos de sonhos (1.107). Para os autores gregos e romanos os magos tinham funções rituais conectadas com astrologia e magia, daí o termo mágica e magia. Há também uma confusão das palavras “magos” e “caldeus” na literatura grega, sendo-as atribuídas tanto aos sacerdotes babilônios e quanto aos magos iranianos.

As porções preservadas da Avesta, no entanto, não contêm referências indiscutíveis aos magos, além de empregar o termo āθravan- para os sacerdotes. No entanto, os ensinos de Zoroastro tornaram-se conhecidos dos gregos e romanos principalmente durante o período helenístico como a religião dos magos. No Ocidente fora das fronteiras dos impérios persas havia adeptos na Ásia Menor e no Egito.

RECEPÇÃO DO PERÍCOPE DOS MAGOS DE MATEUS

Várias reinterpretações da passagem dos magos ocorreram nos primeiros séculos do cristianismo na bacia do Mediterrâneo, talvez pelo embaraço de sua associação ou com o concorrente império persa ou com as práticas divinatórias caldeias. Dentre os principais documentos a referirem-se a essa passagem de Mateus estão:

  1. Protevangelho de Tiago: simplifica e reconta a passagem sob o gênero de literatura parabíblica.
  2. Justin Mártir; chama os magos de “árabes” e os associa a uma profecia de Isaías 8:4,
  3. Irineu de Lyon: contrapõe a estrela de Balaão com o discernimento tido pelos magos (Haer. 3.9 , 16; Epid. 58).
  4. Tertuliano: denunciou as práticas de magia e sugeriu que os magos fossem reis (Idol. 9.3).
  5. Orígenes: interpreta os magos de Mateus pela profecia de Balaão (Nm 23).
  6. Hipólito: empregou os magos ‘caldeus’ de Mateus para interpretar Daniel (Dan. 2; Danielem 1.8-9, 2.1-9).
  7. Há uma tradição de que As Profecias de Hystapes, obra perdida dos meados do século IV a.C., supostamente teria profecias messiânicas, as quais os magos esperavam e a viram cumpridas no nascimento de Cristo. Posteriormente, vários autores cristãos citaram tal obra.

SIMÃO MAGO

O praticante de magia entre os samaritanos convertidos que se chamava Simão em Atos 8:9, 11 é tradicionalmente referido como Simão Mago, entretanto, o contexto indica o uso genérico do termo, sem conexão com os magoi persas.

BIBLIOGRAFIA
Alves, Leonardo M. Zoroastrismo: o louvor ao Bem. Ensaios e Notas, 2018.

Dandamayev, M. A. Magi. Encyclopaedia Iranica, 2012.

Moabe, Moabitas

Os moabitas, juntos dos amonitas, eram povos vizinhos, aparentados e ocasionais inimigos dos antigos israelitas. Viviam na região onde hoje é a Jordânia.

O território de Moabe localizava-se ao leste do Mar Morto, diante do deserto da Judeia. Trata-se de um plano árido até subir abruptamente cerca de 1.200 m de altitude em uma planície mais fértil que se estende por cerca de 24 quilômetros da escarpa até o deserto da Arábia. Seus vizinhos ao norte eram os amonitas e ao sul os edomitas, enquanto que a leste estava o deserto do Norte da Arábia.

Pouco se conhece dos moabitas. As fontes assírias, egípcias e a Bíblia constituem as principais peças para reconstruir sua história. Sua língua, o moabita, era um mero variante do contínuo linguístico cananeu e é atestada pela Estela de Mesa ou Pedra Moabita.

De acordo com a narrativa bíblica, a origem de Moabe seria o filho de Ló nascido de um relacionamento incestuoso com sua filha mais velha (Gn 19:30-38). Mais tarde, na fase final do êxodo, o rei moabita Balaque contratou o profeta Balaão para amaldiçoar os israelitas (Nm 22-24). Israel acampou nas planícies de Moabe antes de entrar na terra prometida (Nm 35:1; Dt 1:5), quando ocorreu o incidente de Baal-Peor (Nm 25).

Já no período dos juízes, o rei moabita Eglom oprimiu os israelitas, mas foi assassinado por Eúde (Jz 3:12-30). A moabita Rute, também ambientada no período dos juízes, é incorporada ao povo de Judá. Saul e Davi lutaram contra os moabitas, conquistando-os (1Sm 14:47; 2Sm 8:2). No período dos reis, os moabitas são mencionados apenas ocasionalmente (2 Re 3; 2 Re13:20; 2Re 24:2; Is 15-16; Jr 48; Sofonias 2:8-11).

Moabe é mencionado pela primeira vez no século XIII a.C. por Ramsés II, assim como referências a Dibom e Butartu.

Os dados arqueológicos identificam três fases da sociedade moabita.

A primeira, durante o período Ferro I, consistia em uma coleção de pequenos povoados do final do 2o Milênio, baseando em economias familiares e comunitárias de subsistência agro-pastoril. Com o controle do wadi de Árnom (Mujib), a região de Moabe viu um aumento dramático no povoamento tanto ao norte quanto ao sul do wadi devido à sedentarização dos povos nômades.

No final do século IX, já no começo da Idade do Ferro II, surge uma chefatura mais centralizada. Isso é condizente com a ameaça do expansionismo da monarquia israelita.

Como sugerem Is 15-16 e Jr 48, no final do século VIII a.C. ocorreu expansão da fronteira norte de Moabe até o estado amonita em Jalul. A Estela de Mesa, uma inscrição de um dos primeiros reis de Moabe, descreve como ele enfrentou os israelitas, aumentou seu território, estabeleceu uma nova capital e centro de culto em Dibom.

O Império Neo-Assírio passou a cobrar tributos dos moabitas e a dominar como suserano a partir do século VIII a.C. Mesmo assim, a produção pastoralista e têxtil cresceram. Já na fase final da Idade do Ferro (Império Babilônico), os moabitas desaparecem como sociedade distinta e sua região foi repovoada por nômades árabes.

Messias

Messias (do hebraico para “ungido”; em grego, traduzido como “Christos”, originalmente designava um líder judeu ungido com óleo como sinal de legitimidade, especialmente os descendentes do rei Davi.

Mais tarde, a palavra tornou-se ligada às esperanças de um novo governante de Israel. As expectativas messiânicas no final do período do Segundo Templo eram diversas. Por exemplo, alguns judeus esperavam um governante militar, enquanto outros esperavam um profeta ou a manifestação divina em pessoa (Targum de Isaías).

Teologia de Mercersburg

Teologia de Mercersburg foi uma corrente teológica da Igreja Reformada Alemã, o equivalente reformado à tendência “High Church” do anglicanismo, com ênfases na restauração litúrgica e sacramental, bem como uma cristologia realista na Igreja.

HISTÓRIA

O nome remete a uma pequena cidade na Pensilvânia onde havia um seminário reformado alemão e o Marshall College. O movimento foi particularmente ativo entre 1836 e 1860, mas sua origem remonta à vinda da Alemanha do teólogo Frederick Rauch (1806-1841). Em 1839 foi organizada a Sociedade para a Promoção da União Cristã, tendo como vice-presidente Rauch.

Outros docentes do seminário, John Williamson Nevin (1803-1886), Philip Schaff (1819-1893) e Emanuel Vogel Gerhart (1817-1904) foram os líderes do movimento, o qual ganhou destaque com a publicação de The Anxious Bench (1843), de Nevin, que atacou os métodos os avivalistas. No ano seguinte, Schaff deu uma palestra sobre os princípios do protestantismo e criticou o mentalismo — a adesão intelectual a uma suposta ortodoxia — esposada pelos puritanos e em sua época pelos princetonianos.

A escola de Mercersburg buscou na patrística e nos reformadores reafirmar uma ortodoxia que fosse evangélica e católica. Propunham uma adesão ao catecismo de Heidelberg sem as interpretações puritanas ou do calvinismo avivalista edwardiano. Por esse motivo, consideravam a expiação como realizada pela pessoa de Cristo e não limitada à sua morte. Assim, os cristãos estão unidos ontologicamente não apenas com Jesus, mas um com os outros — visivelmente na Igreja.

Schaff, um meticuloso historiador da Igreja, instia em analizar o desenvolvimento doutrinário dentro de seus contextos históricos. Para tal, escreveu várias obras de ampla recepção, inclusive sobre a história dos credos e confissões cristãs.

Charles Hodge e a chamada Escola de Princeton fizeram frente à teologia de Mercersburg. O uso de tipologias (“cristianismo petrino”, “cristianismo joanino” e “cristianismo paulino”) dentro de um arcaboço hegeliano e a contextualização histórica das doutrinas cristãs fizeram que Hodge e os princetonianos desconfiassem da teologia de Mercersburg como se fosse mais uma vertente do racionalismo alemão. Também consideravam essa escola muito aberta às diversas denominações sem se firmaram em absolutas proposições doutrinárias. Por fim, o sensos comum realista e uma visão positivista da teologia pelos princetonianos chocava-se com a contextualização histórica do dogma pelos teólogos de Mercersburg.

TEOLOGIA

A teologia de Mercersburg é sobretudo cristológica e, especificamente, encarnacional. Um sumário dela é apresentado por G. W. Richards:

Na encarnação, o Filho de Deus assumiu a caída humana natureza, santificando-a assim em união real, orgânica e eterna com Ele próprio. A natureza humana, criada n’Ele, é o meio e a forma da revelação de Deus, de sua vontade e de todos os atos de Cristo, que, seguindo uns aos outros segundo a lei da ordem natural do ser, constituem as objetivas realidades ou fundamento da salvação cristã. A glorificada humanidade de Cristo continua a ser o único meio de comunicação graciosa de Deus para a humanidade, e de toda aproximação real do homem a Deus, e comunhão com Ele.

Richards (1940, 48).

O relacionamento salvítico com Cristo ocorre pela identidade da pessoa com a igreja de Cristo. Essa posição constratava tanto com os avivalistas quanto com o conversionismo individualista americano que ensinavam que a obra de salvação seria para o indivíduo e não para a Igreja.

A obra expiatória seria mais na plenitude da vida de Cristo. Essa soteriologia encarnacional reformada alemã de Mercerburg contrastava com os modelos puritanos, edwardianos, avivalistas e princetonianos de uma expiação centrada somente na morte de Cristo.

Em Cristo todos os homens são regenerados e unidos como membros de seu corpo, o organismo espiritual, que é a Igreja. A Igreja estende por todas as épocas e inclui todos os povos. Por isso, nenhuma fórmula doutrinária ou estrutura organizacional pode ser final. Assim, a Igreja deve modificar seus ensinamentos de acordo com seu conhecimento progressivo da verdade.

Consideravam a Igreja como uma instituição divina em oposição a uma meramente humana associação de crentes. Também enfatizavam a realidade universal (a catolicidade) da Igreja em oposição à orientação sectária e denominacional.

A vida em Cristo seria somente possível com integral comunhão da Palavra e o sacramento, administrados sob a autoridade da Igreja. Por isso, rejeitavam a premissa de “a Bíblia mais o julgamento privado” do individualismo evangélico e do realismo do senso comum da Escola de Princeton, os quais colocavam a razão individual ao patamar de avaliador da verdade. Para a escola de Mercersburgo a história da Igreja bem como os ensinamentos e sacramentos por ela administrados deveriam guiar a compreensão da fé ensinada pelas Escrituras. Esses critérios resultam da obra de Cristo presente da Igreja pelo Espírito Santo.

LEGADO

A teologia de Mercersburg fez do idealismo alemão e do hegelianismo um dinamismo realista que considerava a harmonia do crente com a Igreja e com Cristo. Essa oposição romântica ao individualismo gerou reações tanto dos avivalistas quanto do senso comum realista de Princeton. Embora nunca numericamente relevante, o legado de Mercersburg sobrevive no ecumenismo, na paleo-ortodoxia e na revalorização litúrgica.

No começo do século XX, a teologia de Mercesburg foi substituída em círculos reformados teuto-americanos pela neo-ortodoxia. Ainda assim, subsiste em um legado denominacional na Igreja Metodista Unida e na Igreja Unida de Cristo. Institucionalmente, a Merscersburg Society publica The New Mercersburg Review e realiza eventos regulares sobre essa teologia. Em 2012, Wipf e Stock começou a publicar a The Mercersburg Theology Study Series.

Dada a importância dada à história da Igreja, a historiografia e a produção literalmente enciclopédica de Schaff também são legados ainda duradouros.

BIBLIOGRAFIA

Gerhart, Emanuel Vogel. Institutes of the Christian Religion. Vol. 1. Funk & Wagnalls Company, 1894.

Nevin, John Williamson. The Mystical Presence: A Vindication of the Reformed or Calvinistic Doctrine of the Holy Eucharist. JB Lippincott, 1867.

Nevin, John Williamson. History and genius of the Heidelberg catechism. German Reformed Church, 1847.

Schaff, Philip. The Principle of Protestantism as Related to the Present State of the Church. ” Publication Office” of the German Reformed Church, 1845.

Fontes secundárias

Barrett, Lee C. “The Distinctive World of Mercersburg Theology: Yearning for God or Relief From Sin?.” Theology today 71.4 (2015): 381-392.

Barrett, Lee C. “Hans Lassen Martensen and the Mercersburg Theology: The Reinforcement of Christocentric Speculation.” In Transatlantic Religion, pp. 168-190. Brill, 2021.

Borneman, Adam S. Church, Sacrament, and American Democracy: The Social and Political Dimensions of John Williamson Nevin’s Theology of Incarnation. Wipf and Stock Publishers, 2011.

DeBie, Linden J. Speculative Theology and Common-Sense Religion: Mercersburg and the Conservative Roots of American Religion. Vol. 92. Wipf and Stock Publishers, 2008.

DiPuccio, William. The Dynamic Realism of Mercersburg theology: The romantic pursuit of the ideal in the actual. Diss. Marquette University, 1994.

Evans, William B. A Companion to the Mercersburg Theology: Evangelical Catholicism in the Mid-nineteenth Century. Vol. 44. Wipf and Stock Publishers, 2019.

Littlejohn, W. Bradford. The Mercersburg Theology and the Quest for Reformed Catholicity. Wipf and Stock Publishers, 2009.

Maxwell, Jack M. Worship and Reformed Theology: The Liturgical Lessons of Mercersburg. Vol. 10. Wipf and Stock Publishers, 1976.

Nichols, James Hastings, ed. The Mercersburg Theology. Wipf and Stock Publishers, 2004.

Nichols, James Hastings. Romanticism in American Theology: Nevin and Schaff at Mercersburg. Wipf and Stock Publishers, 2007.

Richards, George W. “The Mercersburg Theology—Its Purpose and Principles.” Church history 20.3 (1951): 42-55.

Richards, George W. “A Forgotten Theology’. Church History, 9.1 (1940):37-50 . doi:10.2307/3160807 

Yrigoyen, Charles. “Emanuel V. Gerhart: Apologist for the Mercersburg Theology.” Journal of Presbyterian History (1962-1985) 57.4 (1979): 485-500.

Midrash

O midrash, também grafado “midraxe”, é uma interpretação expansiva das Escrituras para fins de pregação (homilética), atualização normativa (midrash halacá) ou explicação narrativa (midrash hagadá).

O midrash toma as Escrituras como ponto de partida e tenta tornar uma passagem compreensível, útil e relevante para a geração presente. Não há preocupação quanto a historicidade ou facticidade da interpretação, mas preencher lacunas interpretativas, harmonizar passagens e atualizar a aplicação de normas para situações não previstas em passagens normativas das Escrituras.

Oriundo da raiz D.R.Sh, que significa “buscar, investigar, estudar”. O termo midrash é encontrado duas vezes na Bíblia, ambas em 2 Crônicas. Em 2 Cr 13:22 menciona “no midrash do profeta Ido” e em 24:27 diz que“estão escritos no midrash do livro dos reis”, referindo-se à fonte do cronista para seu relato de Abias e a sobre os muitos atos e oráculos contra Joás e os seus filhos.

Na exegese intra-bíblica há vários exemplos putativos de midrash:

  • A epístola de Hebreus poderia ser um midrash do Salmo 110;
  • Mateus utiliza amplamente essa técnica aliada à tipologia para citar autores do Antigo Testamento;

A rocha movente de 1 Cor 4:10 era um midrash corrente na Antiguidade Tardia.

BIBLIOGRAFIA

Renée Boch, “Midrash” in Supplément au Dictionnaire de la Bible. Volume 5 ed. H. Cazelles. Paris-IV: Libraire Letouzey et Ané, 1957, p. 1265

Fishbane, Muchael. The midrashic imagination: Jewish exegesis, thought and history. Albany: SUNY Press, 1993..

Cora Harris Mcilravy

Cora Harris Mcilravy (1860-1952), uma pioneira pentecostal em Chicago, seria uma das primeiras biblistas e teólogas a publicar uma obra substancial nesse movimento.

Cora Harris nasceu em La Crosse, Wisconsin, e se estabeleceu em Chicago. Frequentou a Missão de North Avenue dirigida por William H. Durham. Com a morte de Durham em 1912, juntou muitos dos remanescentes de sua congregação na Elbethel Faith Home (mais tarde chamada de The Elbethel Christian Work), um centro de formação espiritual e treinamento para missões.

Cora Harris Mcilravy trabalhou nas publicações, principalmente nas obras de edificação com profecias, comentário bíblico e coletânea de escritos de Durham. Para esse propósito fez da Elbethel uma pequena editora em 1914 para publicar o periódico Elbethel Serial.

Em 1916 publicou Christ and his bride: an exposition of the Song of Solomon (1916), no qual medita em uma leitura cristológica de Cantares.

Auxiliada por Dorothy G. Wright, dirigiu a Elbethel até sua vida. Colaborava com outras igrejas em Chicago, notoriamente com a Christian Congregation Church, à qual comissionou Dorothy Wright para o auxílio das escolas dominicais a partir da década de 1930.

A biografia e a teologia de Mcilravy ainda não receberam um tratamento aprofundado. As informações históricas de seus escritos permanecem virtualmente desconhecidas pela historiografia pentecostal.