Parabíblica, Literatura

Literatura parabíblica refere-se ao gênero literário de obras que expandem, reformulam ou parafraseiam textos bíblicos.

Similar expansão ou reescrita ocorre na midrash, mas com caráter interpretativo livre. Muito da literatura parabíblica é pseudoepígrafa, atribuíndo sua autoria ou versando sobre personagens célebres da história israelita ou cristã.

  • Apócrifo do Gênesis
  • Livro dos Jubileus
  • Pseudo-Filo

Poço de Miriam e a rocha movente

Durante o êxodo Moisés aparece extraíndo água da rocha em dois lugares: Refidim (Êx 17) e Meribá (Nm 20). A associação dessas passagens com Miriam fizeram que a fonte também fosse chamada de poço de Miriam.

Intérpretes na Antiguidade Tardia fizeram um midrash para concluir que as duas rochas eram a mesma. Portanto, seria uma rocha móvel que acompanhou os israelitas durante 40 anos.

“E assim o poço que estava com os israelitas no deserto era uma rocha, do tamanho de um grande vaso redondo, subindo e borbulhando para cima, como da boca de uma pequena garrafa, subindo com eles aos montes, e descendo com eles aos vales. Onde quer que os israelitas acampassem, acampava com eles, em um lugar alto, em frente à entrada da Tenda da Congregação.” (Tosefta, Sukka 3.114).

“Mas quanto ao seu próprio povo, ele os levou para o deserto: quarenta anos fez chover pão do céu para eles, e trouxe-lhes codornizes do mar, e um poço de água seguindo-os” Pseudo-Filo. Antiguidades Bíblicas, 10.7.

Paulo menciona essa interpretação midráshica para argumentar que a presença de Cristo estava na jornada dos israelitas no deserto, cuidando deles, fornecendo a água que permitia a vida:

“E [os israelitas] beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo.” 1 Cor 10:4

BIBLIOGRAFIA

Enns, Peter E. “The” Moveable Well” in 1 Cor 10: 4: An Extrabiblical Tradition in an Apostolic Text.” Bulletin for Biblical Research 6.1 (1996): 23-38.

Pedro

Chamado de Simão e Cefas (forma aramaica de Pedro, “rocha”), foi um dos mais proeminentes discípulos de Jesus e um dos apóstolos.

Confessou que Jesus era o messias de Israel (Mt 16: 16-23), mas negou Jesus três vezes antes da crucificação (Mt 26: 69-75; Mc 14: 66-72; Lc 22: 54-62; Jo 18: 25-27). Todavia, teve uma conversa com Jesus após sua ressurreição (Jo 21:15-17).

Ocupou uma posição de líderança da igreja primitiva de Jerusalém, onde fez discursos evangelísticos públicos (At 2–4). Participou da conversão de Cornélio (At 10). Esteve na assembleia que discutiu as obrigações dos convertidos gentios (At 15). Duas epístolas, 1 e 2 Pedro, recebem seu nome.

Não há registros neotestamentários ou históricos sobre o final de sua vida.

A tradição registrada a partir de 160 d.C. de que Pedro esteve em Roma não é corroborada por textos anteriores da igreja em Roma (1 Clemente, Justino Mártir, Ignácio de Antioquia, literatura marcionita, Papias, por exemplo). Com Irineu de Lyon, Dionísio de Corinto, Clemente de Alexandria (final do século II e início do século III) surge essa tradição de sua estada e morte em Roma. Detalhes lendários sobre sua morte aparecem no Bellum Judaicum, uma paráfrase de Josefo escrita em latim no século IV e atribuída a certo Hegésipo, com relatos de uma perseguição em Roma movida por Nero na qual teria morrido Pedro.

Outra tradição diz que Pedro esteve em Antioquia e colocou seus sucessores lá. (Teodoreto. “Dial. Immutab.1, 4, 33a; João Crisóstomos. Homilia sobre Santo Ignácio, 4. 587). Essa versão é viva nas igrejas de tradições bizantinas e siríacas.

Paulo

Paulo, Παῦλος, nome que significa pouco; também chamado de Saulo (Atos 13: 9), chamado de o apóstolo dos gentios, foi um dos propagadores e articuladores doutrinários da fé cristã nos meados do século I.

Em algumas passagens de suas cartas, Paulo revela dados biográficos. O livro de Atos dedica considerável parte para narrar sua vida e missão.

Judeu da tribo de Benjamim (Fl 3,5), Paulo nasceu em Tarso, na região da Cilícia (At 9,11; 21,39; 22,3), de cidadania romana (Atos 16:37, 38; 22:25-29), teve um chamado por Cristo (Gl 1: 13-17); suas viagens a Jerusalém (Gl 1: 18-2: 14); e as agruras que sofreu (2Cor 11, 23-29). O livro de Atos inclui discursos com resumos de sua própria biografia (At 22:1-21; At 26:2-23).

Paulo foi um fariseu leal à tradição judaica e inicialmente perseguiu os cristãos até que ele teve um encontro com o Cristo ressuscitado. Tornou-se missionário, concentrando seus esforços no ministério aos gentios, a quem ele acreditava que poderiam receber a graça de Deus em pé de igualdade com os judeus, ou seja, pela fé em Cristo.

Quase metade dos escritos do Novo Testamento (treze de vinte e sete) são atribuídos a ele.

Pardes

Abordagem de interpretação bíblica judia desenvolvida na Idade Média, mas com raízes no período do Segundo Templo. Pressupõe que a cada passagem bíblica seja possível que haja quatro níveis interpretativos.

Os princípios ou abordagens do pardes são:

  • Peshat (esparramado) a denotação mais simples, óbvia e literal. Apesar de literal, leva em consideração as figuras de linguagem e pensamento facilmente reconhecíveis pelo leitor. Há preocupações filológicas, como a etimologia e gramática.
  • Remez (sugestão ou alusão) interpretações tipológicas ou alegóricas enfocando desde uma só letra, palavra ou perícope (trecho).
  • Derash (investigação) inferências de acordo com os middot, ou regras hermenêuticas, tais como as Sete regras de Hillel, as Treze regras do rabino Ismael ben Elias e as 32 regras do rabino Eliezer ben José ha-Galili.
  • Sod (oculto) a interpretação mística.

Das letras iniciais desses princípios surgiu o acrônimo PaRDeS, que coincide com o termo persa e hebraico paraíso. 

BIBLIOGRAFIA

Alves, Leonardo M. “Pardes: os níveis da exegese judaica” Ensaios e Notas, 14 de maio de 2020.

Pesher

Pesher é uma técnica exegética que aplica os significados de textos da Bíblia Hebraica para uma situação ou evento conteporâneo.

O termo, cuja raíz significa interpretar, aparece uma vez na Bíblia Hebraica “Quem é como o sábio? E quem sabe a interpretação (pesher) das coisas? A sabedoria do homem faz brilhar o seu rosto, e a dureza do seu rosto se muda”. Eclesiastes 8:1.

Seu termo cognato em aramaico peshar aparece 31 vezes na porção aramaica de Daniel, onde se refere principalmente à interpretação dos sonhos.

A técnica consiste de fazer um comentário interpretativo após uma citação bíblica. Entre os manuscritos de Qumran o pesher ganha autonomia como uma literatura separada do texto bíblico, com os pesharim “contínuos”. Essas obras citam um livro profético verso a verso com objetivo de ler eventos históricos e escatológicos nas profecias bíblicas.

Associada a essa técnica está o conceito de raz, que aparece nove vezes na porção aramaica de Daniel. O raz é a revelação divina sem sua interpretação. O raz é o primeiro estágio da revelação, mas permanece um mistério até sua explicação pelo peshar.

Em uma hermenêutica historicista, o pesher permite modificações do texto original citado para atender as necessidades teológicas ou interpretações da história por parte da comunidade.

Assim, o intérprete mudava a aplicação do texto conforme o desevolvimento do pensamento e interesse do argumento.

Alguns exemplos de exegese intra-bíblica são ao estilo do pesher. A interpretação das 70 semanas que Daniel faz de Jeremias, as muitas citações de Mateus, são exemplos disso.

Papiro

O papiro deriva-se da parte fibrosa de uma planta aquática da família dos juncos que crescia abundantemente nas águas rasas do Nilo, nas proximidades do Delta (Jó 8:11) e no oásis de En-Gedi, próximo do Mar Morto.

Assemelhando-se a um caule de milho, a planta era usada de várias maneiras além da escritas, também como combustível, comida, remédios, roupas, tapetes, velas, cordas e até para mascar.

Na manufatura de “papel”, o caule da planta madura era cortado em seções de cerca de trinta a quarenta centímetros de comprimento. Depois abria cada um deles longitudinalmente e o núcleo da medula era removido e fatiado em tiras muito finas. Essas tiras colocadas longitudinalmente em uma superfície plana sobrepostas umas às outras e todas voltadas para a mesma direção. Em seguida, uma segunda camada era colocada em ângulos retos. As duas camadas eram então pressionadas ou amassadas até formarem um tecido.

Cerca de vinte folhas individuais de papiro poderiam ser unidas ponta a ponta para formar um rolo. A partir desse rolo, os pedaços seriam cortados no tamanho necessário para escrever uma carta, um recibo, escritura ou qualquer outro registro.

O papiro textual mais antigo encontrado é o Diário de Merer ou o Papiro Jarf. Este registro das atividades de um grupo construtores foi descoberto em 2013. É datado do reinado do faraó Khufu (2589 e 2566 a.C.).

Na Idade do Ferro o papiro começou a ser comercializado em larga escala pelo Mediterrâneo. É notória a relação mercantil entre o Egito e a Fenícia no século XI a.C., como registrada na Jornada de Wen-Amon à Fenícia. Nessa mesma época, o Faraó Smendes (1076–1052) enviou 500 rolos de papiro ao rei de Byblos. Byblos se tornou o centro comercial e o próprio termo byblon passou a se referir ao volume ou rolo de papiro em língua grega.

O papiro não é muito durável quanto o pergaminho. Em média duravam, com um cuidadoso manuseio, por uns 30 anos. Contudo, as areias secas do Egito provaram ser ambientes propícios para sua preservação.

Em 1778 houve uma redescoberta dos papiros do Egito. A procura por papiros antigos foi estimulada pela expedição de Napoleão.

Em 1877 começaram as tentativas de reprodução das técnicas de fabricação, sendo produzido na Sicília. Nesse mesmo ano ocorreu a descoberta dos papiros de Fayum, o primeiro grande achado de uma coleção de papiros. Levado à Áustria, essa coleação estimulou a pesquisa entre investigadores de língua alemã, dentre eles Ulrich Wilcken, um dos fundadores da papirologia como disciplina.

As escavações de Flinders Petrie encontrou o Papiro Petrie I em 1891, ano quando também foi publicada a Constituição dos Atenienses, de Aristóteles, a partir de dois papiros (um encontrado em Fayum em 1879, outro apareceu no mercado egípcio em 190).

O termo “papirologista” foi cunhado em 1896. O material frágil, seu caráter fragmentário, múltiplas línguas fizeram da papirologia uma ciência histórica complexa, extremente importante e demandando extensivo trabalho.

Entre 1896 e 1906 os estudiosos P.B, Grenfell e A.S Hunt de Oxford foram procurar em sítios arqueológicos e depósitos de lixo no Egito restos de papiros. Consolidou-se com eles a papirologia como ciência especializada.

A classificação dos papiros pela papirologia em tipos documentais (datados, com poucas cópias, fins de produzir provas ou lembrança factual, como as cartas) e literários (sem datas, exceto em colofões; para fins religiosos, artísticos, com cópias reproduzidas com maior frequência) é útil para outras estudos bíblicos.

Os principais sítios arqueológicos onde foram encontrados papiros são:

  • Oxyrhynchus
  • Hermópolis
  • Aphroditopolis
  • Panopolis (Akhmim)
  • Elefantina
  • Nag-Hammadi
  • Geniza do Cairo
  • Monastério de Santa Catarina
  • Arqueólogos canadenses escavam 2000 rolos de papiros em Kellis, Ismant el-Kharab, próximo ao oásis de Dakhla, Egito ocidental.(1998).

SAIBA MAIS

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Livros dos Profetas

A locução “Profetas”, “Livros dos Profetas” e (em sentido estrito) ” Livros Proféticos” refere-se a duas coletâneas de livros do Antigo Testamento/Bíblia Hebraica.

Nas versões hebraicas são os Livros dos Profetas Anteriores (de Josué a 2 Reis) e os Livro dos Profetas Posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e o Livro dos Doze Profetas).

Nas versões cristãs compreendem de Isaías a Malaquias.

2 Pedro

Exortações a uma vida cristã enquanto se espera o glorioso retorno de Cristo.

Um sermão estruturado como uma carta, possui uma introdução (1:1-11); o testamento petrino (1:2-21); falsos mestres (2); o retorno de Cristo (3:1-13); a pureza na espera (3:14-16); e conclui com uma benção ou doxologia (3:17-18).

Possui vários paralelos com a epístola de Judas.