Iluminação e revelação

Iluminação e revelação são categorias técnico-teológicas empregadas para descrever modos distintos da comunicação e da apropriação do conhecimento divino na tradição cristã. Revelação, no sentido estrito, refere-se ao ato pelo qual Deus torna conhecido um conteúdo antes oculto — seja por meio de teofanias, palavras proféticas, eventos salvíficos ou testemunho apostólico — constituindo o depósito normativo da fé. Iluminação, por contraste, designa a operação do Espírito Santo pela qual a mente humana é capacitada a perceber, compreender, recordar e aplicar essa revelação já dada. Essa distinção, porém, não aparece como esquema conceitual formal nas Escrituras, sendo o resultado de um processo de sistematização teológica posterior, particularmente na tradição latina influenciada pela epistemologia agostiniana da lux interior, segundo a qual toda intelecção verdadeira depende da ação iluminadora de Deus.

Os textos bíblicos descrevem a ação do Espírito por meio de uma constelação de categorias semânticas que a teologia posterior organizou em sistemas. No corpus joanino, por exemplo, o Paráclito é apresentado como aquele que ensina (didaxei), guia (hodēgēsei) e recorda (hypomnēsei) as palavras de Jesus (Jo 14:26; 16:13). O elemento de anamnesis — termo que designa recordação ativa e eficaz — indica não mera rememoração psicológica, mas atualização interpretativa do ensinamento de Cristo na comunidade. Esse aspecto foi posteriormente associado à iluminação, pois envolve a compreensão aprofundada de um conteúdo já revelado. Contudo, o mesmo discurso promete que o Espírito “anunciará as coisas futuras” (ta erchomena anangelei), linguagem que sugere mediação de conteúdo novo e que a tradição classificaria como revelação. A ausência de uma distinção formal no texto evidencia que o Novo Testamento concebe a ação do Espírito de modo funcional e relacional, não por categorias epistemológicas rígidas.

No cristianismo primitivo, a experiência carismática incluía formas de fala inspirada consideradas portadoras de mensagem divina inteligível, como a profecia (1Co 14:3–31), a glossolalia interpretada e as visões apocalípticas (Ap 1:1–3). Essas práticas não eram inicialmente compreendidas como concorrentes da revelação apostólica, mas como manifestações do mesmo Espírito na edificação da comunidade. A necessidade de distinguir entre revelação fundante e manifestações carismáticas emergiu gradualmente em contextos de controvérsia, como o montanismo no século II, quando reivindicações de profecia contínua suscitaram debates sobre autoridade, cânon e disciplina eclesial. A resposta proto-ortodoxa não negou a atividade espiritual, mas redefiniu suas categorias: a revelação normativa foi associada ao testemunho apostólico e às Escrituras, enquanto as experiências posteriores foram reinterpretadas como dons subordinados, frequentemente descritos em termos que a teologia posterior identificaria como iluminação, exortação ou aplicação.

A elaboração conceitual dessa distinção intensificou-se na patrística latina. Agostinho, dialogando com o neoplatonismo, formulou uma teoria do conhecimento na qual Deus é a luz interior que torna inteligíveis as verdades eternas. Embora sua doutrina da iluminação não trate primariamente da distinção entre revelação canônica e compreensão espiritual, ela forneceu a arquitetura epistemológica que permitiu à teologia ocidental diferenciar entre o ato divino de comunicar a verdade e o ato divino de tornar essa verdade compreensível. Na escolástica medieval, essa distinção foi integrada a uma teologia da revelatio como comunicação objetiva e da illuminatio como aperfeiçoamento das faculdades cognitivas pela graça. Na ortodoxia reformada e pós-reformada, a distinção assumiu função apologética e canônica: preservava a suficiência e o fechamento da revelação bíblica enquanto afirmava a necessidade contínua da obra interna do Espírito para a compreensão salvífica das Escrituras.

Apesar de seu desenvolvimento pós-bíblico, a distinção responde a tensões reais no testemunho canônico. Textos que advertem contra acréscimos à palavra revelada (Dt 4:2; Ap 22:18–19), que afirmam a entrega definitiva da fé (Jd 3) e que condenam evangelhos alternativos (Gl 1:8) criam pressão hermenêutica em favor de um conceito de normatividade e fechamento. Ao mesmo tempo, passagens que descrevem a ação contínua do Espírito em ensinar, lembrar, guiar e falar à comunidade exigem uma categoria que reconheça a experiência espiritual sem equipará-la à revelação fundante. A distinção entre revelação e iluminação emerge, portanto, como um teologúmeno: uma construção teórica que organiza dados bíblicos diversos por meio de categorias epistemológicas e pastorais, distinguindo entre revelatio (comunicação normativa e fundante), anamnesis pneumática (recordação interpretativa), didachē espiritual (ensino interior) e illuminatio (capacitação cognitiva e existencial), sem pretender que tais termos correspondam a um vocabulário técnico já presente nas Escrituras.

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Autor: Círculo de Cultura Bíblica

Leonardo Marcondes Alves é um pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University (Noruega). Especialista em ciências da religião, antropologia, migração, direito e ciências bíblicas, integra a equipe editorial da EDUFU (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil). Biblista e investigador há muito tempo sobre a Congregação Cristã no Brasil, o movimento pentecostal italiano e grupos correlatos. Mantém os sites https://ensaiosenotas.com/ (humanidades e ciências sociais) e https://circulodeculturabiblica.org/ (ciências bíblicas, CCB) para a divulgação científica.

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