Congregação Cristã na América do Norte

Este ensaio foi um trabalho que resumia para fins didáticos o desenvolvimento histórico da Congregação Cristã na América do Norte. No entanto, ainda serve como uma introdução à sua história como um movimento global.

Scotch Baptists

Grupo primitivista batista que existiu na Escócia da metade do século XVIII ao XIX.

O grupo iniciou quando dois ex-presbiterianos Robert Carmichael e Archibald McLean (1733–1812) tornaram-se glassitas. Por razões disciplinares, deixaram os glassitas em 1764. No ano seguinte, ficaram convencidos do batismo adulto por imersão. Como não conheciam nenhum batista na Escócia, Carmichael viajou para Londres, onde foi batizado por John Gill. Ao retornar à Escócia, Carmichael batizou outros adeptos e formaram uma igreja aos moldes glassitas, mas com batismo por imersão, conhecidos como Scotch Baptists (batistas escoceses), iniciando sua primeira congregação em Edinburgh.

Apesar de serem não credais ou confessionais, um anúncio de um jornal batista de Londres na década de 1850 revela as práticas e crenças comuns dos Scotch Baptists.

‘Senhor, você me permite perguntar através desse meio do Christian Advocate se houver qualquer pessoa residente em ou perto de Londres, que acredite nas seguintes doutrinas e práticas a serem ensinadas no Novo Testamento e deseje unir-se na comunhão da igreja com aqueles que assim creem:

1. Redenção Particular.

2. Comunicação do conhecimento da verdade salvadora pela Palavra de Deus acompanhada pelo poder do Espírito Santo.

3. Imersão na água numa profissão de crença na verdade.

4. Comunhão semanal na Ceia do Senhor.

5. O ósculo da caridade.

6. A exortação e orações de todos os irmãos nas assembleias da igreja.

7. A leitura constante de porções consideráveis ​​das Escrituras na igreja.

8. Pluralidade de anciãos.

9. Presidência sempre confinada aos anciãos.

10. Atenção à Ceia do Senhor somente sob a presidência de um ancião.

11. Festas de Caridade.

12. Comunhão na Igreja confinada àqueles que são de coração unânime em todas as doutrinas e práticas do Novo Testamento.

Christian Advocate and Scotch Baptist Repository, Beverley, October 1860, p.240.

Diferente dos Glassitas, os Scotch Baptists não apregoavam um separatismo ou uma disciplina rígida, além de serem mais ativos em atividades missionárias.

Havia outros batistas na Escócia, como aqueles influenciados pelos irmãos James Haldane e Robert Haldane, que adotaram alguns princípios e práticas dos Scotch Baptists, inclusive a imersão adulta em 1808. Outros grupos infuenciados pelos batistas ingleses distinguiam-se por suas atitudes moderadas e menos rígidas que os Scotch Baptists. Esses diversos grupos fundiram-se em 1869. Igrejas locais aos poucos perderam as distintivas dos Scotch Baptists até a última congregação, a de Academy Street, Aberdeen, foi dissolvida em 1920.

Houve influências dos Scotch Baptists no movimento das Igrejas de Cristo nos Estados Unidos. Uma congregação local, Kircaldy Church of Christ, em uma cidade no norteste da Escócia é hoje ligada a esse movimento.

BIBLIOGRAFIA

Murray, D. B. (1989). The Scotch Baptist Tradition in Great Britain. Baptist Quarterly: Vol. 33, No. 4, pp. 186-198

Owston, John (1997) “Scotch Baptist Influence on the Disciples of Christ,” Leaven, Vol. 5: 1, 11 https://digitalcommons.pepperdine.edu/leaven/vol5/iss1/11

Camowen Green e primitivistas anglo-americanos

Entre 1800 e 1830 várias igrejas locais independentes que esposavam um evangelicalismo primitivista surgiram na Irlanda, Grã-Bretanha e Canadá. Camowen Green é uma delas.

Em 1804 um dos irmãos Haldanes visitou a Irlanda. Pregou em Omagh, no Ulster, onde convenceu dois irmãos presbiterianos, John e James Buchanan, aos ideais primitivistas de cristianismo. Desde a morte do pastor presbiteriano em 1799, a igreja deles não tinha contratado um pastor adequado. Então, em 1807 começaram a reunir-se para leituras bíblicas e a procurar parâmetros neotestamentários de fé e ordem para a igreja. Esse grupo formou uma igreja livre em Camowen Green perto de Omagh.

James Buchanan teve contato com John Walker e Thomas Kelly, os quais propunham práticas semelhantes para a vida em igreja. Em 1816 boa parte dos membros emigraram, entre eles James Buchanan. Ele foi nomeado cônsul britânico aos EUA de 1819 a 1843. Buchanan organizou uma igreja semelhante em Nova Iorque, a qual mais tarde se uniria ao movimento das Igrejas de Cristo.

A igreja de Camowen Green desenvolveu uma identidade batista. Depois, na década de 1860, parte deles organizaram uma Assembleia de Irmãos Abertos.

Em 1º de março de 1818, uma assembleia da “igreja do Novo Testamento” em Nova York envivou uma carta circular a igrejas semelhantes em todo o mundo. Dizia que sete anos antes vários cristãos haviam se separado das várias denominações para se reunirem como uma igreja do Novo Testamento. Buscavam comunhão com todos os crentes (evangélicos).

A Igreja, professando a obediência à fé em Jesus Cristo, reunida em Nova York;

Às Igrejas de Cristo espalhados sobre a terra, a quem esta comunicação vir. Graça, misericórdia e paz vos sejam multiplicadas parte de Deus Pai, pelo Espírito Santo e por nosso Senhor Jesus Cristo…

Exigimos a quem recebemos em comunhão que deva crer em seu coração e confessar com a sua boca que Jesus é o Cristo; que ele morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; e que por essa confissão somente, devam ser batizados…

É necessário observar que nossos anciãos trabalhem em seus respectivos trabalhos, para seus sustentos e para não serem pesados à igreja; mas em caso de necessidade, ou se no desempenho do ofício tornar-se necessário, a igreja considera em seu dever e privilégio comunicar liberalmente a eles conforme “digno é o obreiro de seu salário”.

Nas relações de um com outros como cristãos, somos todos irmãos, sem distinção na igreja…As questões e disputas que geralmente ocorrem entre cristãos professantes não têm lugar entre nós…O conhecimento da simples verdade, declarada por nosso Senhor Jesus e seus apóstolos — e a piedade prática derivada desse conhecimento, são as coisas nas quais desejemos prestar atenção.

Não devemos omitir que, em todas nossas medidas e decisões, a unanimidade e não a maioria é considerada a regra bíblica.

William Ovington

Henry Erritt

Jonathan Hatfield

James Saunders

Benjamin Hendrickson

Esta carta teria circulado entre contatos pessoais nas Ilhas Britânicas, Canadá e Estados Unidos. Vinte e uma carta de respostas de congregações independentes nesses países reportaram crenças e práticas semelhantes.

Nas próximas décadas, diversas congregações adenominacionais similares emergiram em diversos países, boa parte integrando-se com outros grupos e movimentos, notoriamente como o Movimento dos Irmãos (de Plymouth) e com as Igrejas de Cristo.

BIBLIOGRAFIA

Anônimo. Letters Concerning their Principles and Order from Assemblies of Believers in 1818-1820. London, 1889.

Walkerites

Os Walkerites foram um grupo evangélico primitivista originários da Irlanda no começo do século XIX.

Teve início com o ministério de John Walker (1768-1833). Filho de um clérigo da Igreja da Irlanda, estudou no Trinity College em Dublim, onde fez amizade com Thomas Kelly. Tornou-se o responsável pela Capela de Bethesda em Dublim, congregação conectada com o ministério de George Whitefield e de Lady Huntingdon, mas pertencente à Igreja da Irlanda.

Por defender de modo irredutível algumas posições teológicas, foi desligado da Igreja da Irlanda 1804. Walker passou a frequentar uma congregação em Stafford Street, Dublim, que se autodenominava “a igreja de Deus” (a church of God), mas eram conhecidos como Walkerites.

Teologicamente eram hipercalvinistas, embora não sistematizem sua teologia, a qual era centrada na fé de que “Cristo morreu por nós e assim nos salvou e a todos os homens que crêem nEle” (Martin 1971). Arrependimento significava mudança de mentalidade, não sentimento de culpa ou penitência. Praticavam Santa Ceia semanal restrita somente a membros, ósculo santo e batismo por imersão adulto (mais tarde alguns grupos pararam de fazer batismo, admitindo novos membros pela comunhão). Cada congregação era autônoma e o ministério coletivo era composto por anciãos e diáconos leigos, normalmente quase todos os homens eram reconhecidos para tais funções. Consideravam que o mundo jazia no maligno. E, em razão disso, eram extremamente separatistas, sequer conversando publicamente sobre questões religiosa ou orando com não membros. No entanto, não eram contra diversões públicas ou educação profissional como outros grupos primitivistas. Não guardavam o domingo ou outro dia como sagrado. Recusavam a fazer qualquer tipo de juramento.

Os cultos dominicais era presidido em rodízio. Um ancião abria o serviço, cantava-se um hino, outro membro diriga a primeira oração, outro partia o pão, leitura das Escrituras, exortação, seguiam-se a coleta, hino e a
segunda oração em rodízio de presidência. As leituras consistiam de um salmo, um capítulo do Antigo Testamento e um capítulo do Novo Testamento a cada domingo. A pregação não era definida previamente, mas deixado ao impulso do Espírito Santo. Qualquer membro masculino adulto podia falar, e não necessariamente pregar sobre as Escrituras que foram lidas. Encerrava-se com o ósculo santo. Uma vez por mês havia um estudo bíblico à tarde.

Apesar desse separatismo, o grupo teve tentativas de fusão com os grupos de James Buchanan em Camown Green e com os Kellytes.

Em seu auge, tinha cerca de uma dúzia de igrejas na Irlanda, além de duas grandes congregações em Birmingham e Londres. Em 1834 havia apenas três igrejas Walkerites. O grupo continuou, reunindo em casas. No início do século XX teve um pequenos núcleo na Rússia. A última congregação, a de Dublim, incrementalmente se tornou mais semelhante ao Movimento dos Irmãos, mas fechou em 1921.

BIBLIOGRAFIA

Martin, C.P. “Recollections of the Walkerite or so-called Separatist Meeting in Dublin,” Christian Brethren Research Fellowship Journal 21 (May 1971): 2-10.

Walker, John. ‘A brief account of the people called Separatists’. Essays and correspondences, I. pp 550-560.

Walker, John. Seven letters to a friend on the Primitive Christianity. (1819). Essays and correspondences, I. p. 409.

Kellytes

Grupo evangélico primitivista irlandês fundado pelo ex-ministro anglicano Thomas Kelly (1769- 1855).

Kelly era filho de um juiz irlandês. Educado em uma vertente evangélica, em 1792 foi ordenado. Suas pregações fora da estrutura da Igreja da Irlanda levou-o a separar-se em 1802.

Fundou igrejas independentes em vários lugares na Irlanda e Escócia. Com sua fortuna familiar, Kelly construiu igrejas em Athy, Portarlington, Wexford, Waterford e outros lugares.

Nessas igrejas havia um presbítero reconhecido, mas nenhuma ordenação formal ou ministério exclusivo. Praticavam a pregação extemporânea e o batismo dos crentes.

Junto dos Walkerites e da igreja independente de Camowen Green, os kellytes integravam um movimento de retorno ao cristianismo primitivo. Esse movimentos compartilharam muito das práticas e eclesiologia do Movimento dos Irmãos (de Plymouth) que viria ter origem na Irlanda na década de 1820.

John Walker e Thomas Kelly tentaram unir seus movimentos. Entretanto, diante da recusa de Kelly em dizer que John Wesley estava no inferno, tal união foi interrompida. Teologicamente Kelly tendia a um calvinismo moderado e era aderente da expiação geral.

Kelly foi um autor de hinos muito prolífico. A edição de 1853 de seu hinário possuía 765 hinos. Um número considerável deles chegou aos hinários dos irmãos e dos anglicanos.

Depois da morte de Kelly suas igrejas foram extintas em poucos anos.

SAIBA MAIS

Akenson, Donald H. Discovering the End of Time: Irish Evangelicals in the Age of Daniel O’Connell. McGill-Queen’s Press-MQUP, 2016.

Carter, Grayson. Anglican evangelicals: Protestant secessions from the via media, c. 1800-1850. Wipf and Stock Publishers, 2015.

Igreja Evangélica Livre Italiana

A Igreja Evangélica Livre Italiana (Chiesa Evangelica Libera Italiana), também chamada de Igreja Cristã Livre d’Italia (Chiesa Cristiana Libera da Itália), ou simplesmente Igreja Livre (Chiesa Libera), foi uma denominação evangélica parte do risveglio italiano no século XIX.

HISTÓRIA

Inicialmente formada em 1850 em Londres entre exilados italianos, nos dois anos seguintes coincide com a expansão política do reino de Piemonte e Sardenha e sua política de tolerância religiosa. Nesse ambiente, vários evangélicos italianos propuseram em Gênova em 1852 a ideia de unir todos os protestantes em uma única igreja evangélica na Itália.

Nesse contexto no Risorgimento, esse movimento atraiu novos convertidos predominantemente de tendências anticlericais, liberais, democráticas e garibaldianas. Contudo, diferenças culturais (e linguística), políticas e eclesiológicas com os valdenses levaram a uma ruptura com eles em 1854. A tentativa de unir-se com as denominações históricas protestantes de origem estrageira também não fruiu.

O movimento cresceu até antigir cerca de 60 comunidades em 1870, ocorreu a cisão com a ala “espiritual”, menos politizada e mais congregacionalista, que levou à formação das Igrejas Cristãs Livres dos Irmãos (Chiese cristiane libere dei fratelli). A partir de então, a Igreja Evangélica Livre passou a existir separadamente com 23 igrejas.

Entre seus principais líderes estavam o ex-padre católico barnabita Alessandro Gavazzi (1809-1889) e Bonaventura Mazzarella (1818-1882). Com a morte de seus principais líderes a denominação enfraqueceu. Então, em 1904, a igreja livre se fundiu oficialmente com a Igreja Metodista Italiana. Vários de seus membros também foram absorvidos por batistas e outros grupos evangélicos.

DOUTRINA E PRÁTICA

A Igreja Evangélica Livre inspirava-se muito da teologia e organização das igrejas livres do réveil suíço. Como parte desse avivamento continental, valorizava a conversão pessoal por fé em Jesus Cristo, guia do Espírito Santo no culto, rejeição de práticas tidas como não bíblicas das igrejas estabelecidas (especialmente do catolicismo romano). Possuía uma eclesiologia mista prebítero-congregacionalista, cujos dirigentes eram anciãos e diáconos.

Seus artigos de fé expressam muito do entendimento do risveglio italiano do século XIX, os quais há traços de continuidade no movimento pentecostal italiano e movimentos correlatos.

BIBLIOGRAFIA

 Spini, Giorgio. L’evangelo e il berretto frigio. Storia della Chiesa Cristiana Libera in Italia (1870-1904), Torino, Claudiana, 1971.

Spini, Giorgio. Risorgimento e protestanti, Il Saggiatore, Milano, 1989.

Neutäufer

Originários dos avivamentos da Suíça e sul da Alemanha no século XIX, os Neutäufer buscam viver o cristianismo primitivo a partir de uma leitura simples da Bíblia e uma vida transformada pelo evangelho.

O movimento nunca teve uma designação uniforme. Foram chamados de Neutäufer (“novos batistas” em contraste com os menonitas), Fröhlichianer, Nazarénusok, Gemeinschaft Evangelisch Taufgesinnter, New Amish, Nazarener-Gemeinde, Apostolic Christian Church, Nazarenos, dentre outras nomenclaturas.

O fundador foi o suíço Samuel Heinrich Fröhlich (1803-1857). Fröhlich estudou teologia nas universidades de Zurique e Basel, mas não simpatizava com o racionalismo da teologia acadêmica da época. Participante do réveil suíço, em 1825 passou por uma experiência de conversão. Proibido pelas autoridades de pregar o avivamento, deixou a Igreja Reformada estatal.

Recebeu apoio da Sociedade Continental dos irmãos Haldane para continuar a evangelizar. Em 1830 Fröhlich foi batizado em Genebra por Ami Bost e iniciou a pregar em reuniões domésticas atraído novos convertidos. Passou também a pregar em congregações menonitas. Em 1834, por questão do modo de batismo, santa ceia e demanda por disciplina, vários menonitas organizaram congregações separadas sob orientação de Fröhlich. Incapaz de coordenar tão grande comunidade, Fröhlich pediu apoio aos batistas londrinos e entabulou planos com Johann Gerhard Oncken em 1846 para unirem-se com os batistas. No entanto, tal união não fruiu. Em 1844 Fröhlich foi expulso da Suíça e asilou-se em Estrasburgo onde morreu.

O movimento ganhou adeptos entre classes trabalhadoras urbanas e rurais na Europa Central. Das regiões de fala alemã, o movimento esparramou-se pelo território do antigo Império Austro-Húngaro. Formaram-se congregações de língua húngara, sérvia, eslovaca e alemã. A primeira igreja na América do Norte foi organizada em 1852 entre os Amish em Croghan, Nova York.

Mesmo o ostracismo e as perseguições fizeram o movimento florescer. Resultante de uma organização congregacionalista, complicada por fatores de língua e etnicidade, bem como diferentes arranjos legais a cada nação, o movimento nunca esteve sob uma só denominação. As principais denominações são:

  • Apostolic Christian Church of América -Igreja Cristã Apostólica da América– com uma centena de igrejas nos Estados Unidos e algumas no Canadá, México e Japão, com aproximadamente 11.500 membros. Remonta das primeiras igrejas fundadas no meado do século XIX.
  • Apostolic Christian Church (Nazarean) -Igreja Cristã Apostólica (Nazareana) – com cerca 50 congregações nos Estados Unidos, 14 congregações no Canadá , 16 congregações na Argentina, além de igrejas na Austrália, Hungria, Brasil (Igreja PAZ e Igreja Evangélica Nazareno, não confundir com a Igreja do Nazareno) e no México, além de trabalho missionário na Nova Guiné, Zâmbia, Israel e Paraguai. Formada por migrantes da Europa Central e Oriental que se estabeleceram nos Estados Unidos, manteve comunhão com as igrejas europeias. Moderadamente, adotou costumes comuns aos evangelicais. Um membro conhecido da denominação é o palestrante e autor Nick Vujicic.
  • Nazarene Christian Congregation – Congregação Nazarena Cristã – reúne membros com vínculos com a antiga Iugoslávia (onde possui mais igrejas), Austrália, Estados Unidos e Canadá.
  • Bund Evangelischer Täufergemeinden – União dos Evangélicos Neo-Batistas – Alemanha, Suíça, Áustria e França (Alsácia), com cerca de 2500 membros.
  • Nazarenos: grupos dispersos na Suécia, Hungria, Sérvia, Croácia, Romênia, Ucrânia e Eslováquia.
  • Há ainda congregações e redes menores de congregações independentes na Europa e Estados Unidos.

Junto dos menonitas russos e dos Bruderhof, os Neutäufer são exemplos de remanescentes anabatistas “plain” (aqueles que não adotaram costumes correntes dos evangélicos em geral) na Europa. Juntos do Movimento dos Irmãos (de Plymouth) constituem os herdeiros do réveil que mais retiveram práticas primitivistas.

Os Neutäufer creem somente na Bíblia como fonte de autoridade. No geral, sua teologia é anabatista, mas com uma ênfase na conversão pessoal típica do pietismo e do réveil. A centralidade da fé em Jesus Cristo é manifesta na conversão. A conversão é vista como um processo de autoexame, arrependimento e restituição de erros pendentes até alcançar paz com Deus. Considerando o ser humano totalmente dependente da graça de Deus, creem que o pecado é perdoado somente pelo sangue de Jesus na conversão. Sendo então santificados, os pecados eventuais posteriores dependem do perdão alcançado pela intercessão de Jesus Cristo perante Deus Pai.

A crença de que os remidos formam uma comunidade santificada resulta em meticulosas normas de vida comunitária. A violação das normas comunitárias equivale à queda da fé. Membros tomam como responsabilidade a exortação mútua para auxiliar na caminhada na fé e na correção dos eventuais desvios.

As práticas e costumes denominacionais variam conforme os grupos, mas há um complexo corpo de normas tácitas amplamente conhecidas e praticadas a cada congregação. Há desde movimentos que são semelhantes a outros evangélicos, como as Igrejas PAZ no Brasil ou a Bund Evangelischer Täufergemeinden alemã, mas boa parte são tradicionalistas quanto a costumes e práticas de culto. No entanto, esses costumes não possuem tanta autoridade como entre outros grupos “plain” dos anabatistas (menonitas e Amish).

Cada congregação local é autônoma totalmente em matérias de gestão financeira, eleição dos ministros e disciplina dos membros. As decisões denominacionais são feitas por consenso, com participação de representantes de todas as igrejas. Alguns grupos possuem conselhos de ministros permanentes enquanto outros reúnem-se em assembleias gerais esporádicas. Homogeneidade comportamental é esperada em todas congregações dentro de uma denominação.

Tradicionalmente, os Neutäufer reúnem-se para cultos nos quais os hinos são somente cantados a capella. Crendo firmemente na guia do Espírito Santo no culto, as pregações não são preparadas antecipadamente (normalmente, a parte lida resulta de abrir a Bíblia aleatoriamente) e as orações são feitas espontamentes. Os cultos são presididos coletivamente por um grupo de anciãos que alternam nas pregações conforme sentirem movidos pelo Espírito Santo. Os anciãos e diáconos são eleitos pela congregação local e não frequentam seminários. Nos cultos, observam o assento separado por gênero e as mulheres usam véus. Alternam pregações, hinos e orações. No final, há a bênção apostólica e a saudação com o ósculo santo. Normalmente fazem dois cultos de formatos similares no domingo, um cedo e outro à tarde. Realizam um almoço comum, a ágape bíblica.

Somente adultos podem ser batizados. Antes, o convertido deve testemunhar seu arrependimento da vida de pecado e sua restituição dos erros em uma reunião privada com a igreja antes de descer às águas. Após o batismo há uma oração com a imposição das mãos simbolizando o selo do Espírito Santo.

Avessos às coisas do mundo, evitam o serviço militar (se convocados, servem em posição de não combatentes) e não concorrem a cargos públicos. Não admitem partidarismo ou instrumentalização política de suas igrejas. O casamento somente é permitido entre membros da denominação. Frequentar cultos de outras denominações é proibido. A influência de outras persuasões religiosas é rejeitada, embora privadamente os membros possam ler literatura de teologias diversas. Homens e mulheres observam modéstia nas vestimentas e no consumo, com os trajes femininos sendo saias e vestidos. Rejeitam fazer juramentos. Consideram como pecados que levam à morte matar alguém ou relacionamento sexual fora do casamento. Tais pecados que levam à exclusão permanente das congregações locais, pois consideram que somente Deus pode perdoá-los. Embora aceitem a conversão de pessoas divorciadas ou com segundas núpcias, após o batismo não é mais permitido o divórcio ou novo casamento.

Combinando as tradições anabatistas, pietistas e do réveil, os Neutäufer mantém um caráter coletivo de vida cristã. A adesão e caminhada na vida cristã é pregada em tons contemplativos, piedosos e convidativos, mas sem apelos do salvacionismo individualista comum no evangelicalismo anglo-americano. Dessa forma, não há espaço para destaques personalistas de pregadores ou líderes. O culto e a vida fora da Igreja é orientada para juntos seguirem as instruções de Jesus Cristo.

BIBLIOGRAFIA

Alves. L. Notes on fieldwork at ACCA Ellington, Connecticut, 2007.

Anderson, Cory. 2018. “A Socio-Religious Introduction to the Apostolic Churches in North America.” Journal of Amish and Plain Anabaptist Studies 6(1):26-60.

Djurić-Milovanović, Aleksandra. 2010. “Conservative Neo-Protestants: Romanian Nazarenes in Serbia.” Occasional Papers on Religion in Eastern Europe 30(3).

Gratz, Delbert L. Bernese Anabaptists and their American descendants. Elverson, PA: Old Springfield Shoppe, 1994.

Pfeiffer, Joseph. 2018. “The Nineteenth Century Apostolic Christian Church: The Dynamics of the Emergence, Establishment, and Fragmentation of a Neo-Anabaptist Sect.” Journal of Amish and Plain Anabaptist Studies 6(1):1-25.

Rosa, Juliano. Igreja Apostólica Cristã da América. 2011.

Primitivismo

“O cristianismo histórico primitivo deve ser sempre essencialmente normativo, e se tipos posteriores de religião divergem tanto do tipo primitivo que passam a considerar o que é encontrado no Novo Testamento mais uma vergonha do que uma inspiração a questão é se eles ainda podem ser reconhecidos como cristão.” — James Denney. The Christian Doctrine of Reconciliation, pp. 26-27.

O primitivismo é uma doutrina, atitude e ideal encontrado entre alguns grupos cristãos que veem na Igreja do Novo Testamento um parâmetro para ser seguido. Assim, doutrinas, regras de convívio, práticas de culto, organização de seus crentes, rejeição de “novidades” formam um conjunto de traços valorizados pelas comunidades primitivistas como replicando a primitiva igreja dos apóstolos.

O historiador Grant Wacker nota no primitivismo um anseio por pureza em doutrina, nas origens e no cumprimento de um mandado divino — tudo intocado pelas limitações e corrupções da existência ordinária.

Frequentemente o primitivismo demanda uma teologia da história para explicar sua própria existência. Nessa teologia há três tipos de narrativas. A primeira é a da fundação independente quando alguém ou um grupo honesto e cândido redescobre a eclesiologia dos cristãos primitivos sem intermediários denominacionais ou eruditos pela leitura pura da Bìblia. A segunda narrativa é a da sucessão marginal, pelo qual o grupo reivindica uma “história alternativa” de sucessão de grupos (montanistas, donatistas, paulicianos, valdenses e anabatistas são alguns favoritos), cuja ligação entre si e suas histórias são mal atestadas por serem grupos subalternos e perseguidos. Por fim, há a teologia restauracionista, no qual considera que em alguma fase histórica o cristianismo desviou-se totalmente e extinguiu-se, carecendo uma dispensação ou revelação que restaurassem doutrinas, práticas ou eclesiologia do cristianismo autênticas do Novo Testamento.

Ordens medicantes medievais, o movimento joaquimita, os anabatistas (e a Reforma em geral por sua busca ad fontes de voltar aos princípios do cristianismo), os pietistas radicais (morávios, dunkers, metodistas primitivos), os batistas primitivos, o movimento de restauração (Igrejas de Cristo e Discípulos de Cristo), o movimento dos Irmãos (de Plymouth ou Casa de Oração), muitos grupos pentecostais e cristianismo indígenas esposam alguma forma de primitivismo.

A exclusão social e sua atração por classes populares fazem com que adeptos do primitivismo vivam em tensão com instituições da sociedade dominantes. Assim, muitos grupos rejeitam algumas profissões e educação avançada que os ponha em contato próximo com o mundo secular. Casamentos tendem a ser endogâmicos. O isolamento denominacional leva a não compartilhar o púlpito com ministros não filiados. Nesse ambiente, muitos desenvolvem uma mentalidade exclusivista de ser o melhor e o único representante fiel do cristianismo do Novo Testamento com base em seletos pontos de identidade do grupo.

Muitas críticas há em relação ao primitivismo. A imaginação idealizada sobre os primeiros cristãos leva a desconsiderar os problemas da Igreja primitiva. Faccionalismo, heresias e controvérsias são registrados no Novo Testamento. Adicionalmente, grupos primitivistas fazem uma leitura arbitrária das Escrituras para selecionar quais traços serem critérios de validade e comunhão. A atualização e contextualização de práticas e doutrinas do século I para os tempos atuais também é seletiva. Por fim, a doutrina de Cristo e dos apóstolos preemptoriamente rejeita a comunhão de salvação com Deus com base em associação com um grupo, atitude comum em vários grupos insulares em nome de um primitivismo.

Com suas doutrinas, história e práticas próprias, o primitivismo deve ser reconhecido como uma legítima expressão da cristandade. Sua atitude anti-estabelecimento possibilita o exercício ativo do ministério e missão por segmentos diversos da população. O desejo honesto de moldar-se conforme os parâmetros bíblicos de vida em Igreja é um alerta contra a adição e supressão de elementos do cristianismo para se conformar detrimentalmente às exigências políticas e culturais dominantes nas sociedades locais.

BIBLIOGRAFIA
Cameron, Euan. “Primitivism, Patristics and Polemic in Protestant Visions of Early Christianity.” Em Van Liere, Katherine, Simon Ditchfield, and Howard Louthan, eds. Sacred history: uses of the Christian past in the Renaissance world. Oxford University Press on Demand, 2012.

Hughes, Richard Thomas, ed. The American quest for the primitive church. University of Illinois Press, 1988.

União Evangélica

Duas denominações evangélicas de origem britânica, uma baseada na Argentina e outra da Escócia.

1. Unión Evangélica. Denominação evangélica argentina iniciada oficialmente com a fundação de sua primeira igreja em Tres Arroyos, Buenos Aires em 1904 pelo missionário neozelandês Robert Elder (1884-1949).

Robert Elder cresceu em uma família presbiteriana antes de se tornar batista. Em 1895 mudou-se para Londres onde estudou no Preachers’ College de Charles Spurgeon e juntou-se a uma sociedade missionária formada por membros do Metropolitan Tabernacle, a Regions Beyond Missionary Union, da qual Elder seria um dos primeiros a partir para missões.

Enviado à Argentina em 1900, estabeleceu-se em Las Flores e depois em 1903 em Tres Arroyos, uma cidade de projeto de colonização agrícola ao sul da província de Buenos Aires. No ano seguinte organizou a igreja em Tres Arroyos.

Seria à Igreja de Tres Arroyos que Louis Francescon encaminhou os membros da família Menna, convertidos em sua missão junto de Lucia Menna e Giacomo Lombardi em 1909.

Em 1910 por ocasião da Conferência Missionária de Edimburgo, evento que antecedeu o moderno movimento ecumênico, a União Evangélica Sul-Americana fundada em 1892 como Help for Brazil por Sarah Kalley, fundiu-se com a Regions Beyon Missionary Union.

Dessa fusão, concretizada em 1911 formou-se a Evangelical Union of South America (Unión Evangélica de Sud América), acrescida ainda pela Gospel Mision Union (Unión Misionera Evangélica). Em 1991, essa organização missionária foi renomeada Latin Link (Enlace Latino) e as igrejas originárias dessa atividade missionária são em boa parte filiadas à Unión Evangélica. A preocupação evangélica com o compromisso social e com políticas públicas de reparação de injustiças, atitudes herdeiras do ministério de Spurgeon, levaram a Unión Evangélica ser ativa no movimento de Missão Integral.

2. Evangelical Union (União Evangélica) foi uma denominação evangélica escocesa do século XIX que se originou na suspensão do Rev. James Morison (1816-1893), ministro da denominação dissidente da Igreja da Escócia, a United Secession em 1841. Morison foi julgado herético sobre sua perspectiva sobre a fé, a obra do Espírito Santo na salvação e a extensão da expiação. Com seu pai, que era ministro em Bathgate, e dois outros ministros, tambéms depostos, se encontraram em Kilmarnock em 1843  e formaram-se em uma associação sob o nome de União Evangélica, “com o propósito de apoiar, aconselhar e ajudar uns aos outros, também com o propósito de treinar jovens espirituais e devotados para levar adiante a obra e ‘ prazer’ do Senhor. ”

A teologia da união centrava-se nos “Três Universais”: o amor de Deus por todos; a morte de Cristo por todos; a obra do Espírito em todos, ainda que nem todos respondessem. Tais aspectos refletiam a posição original amiraldista de James Morison, refletidos na liberdade de consciência individual e congregacional. Mais tarde Morison aderiu ao arminianismo e foi seu principal propagador na Escócia.

A União não exercia jurisdição sobre congregações individuais. Assim, havia congregações dirigidas por assembleias de todos os membros bem como congregações governadas por um corpo de anciãos.

Apesar das variações devido ao extremo congregacionalismo, em geral as práticas de temperância e uma estrita observância do descanso semanal eram comuns. O fervor missionário fez com que vários evangelistas fossem mandados tanto pela Escócia quanto ao exterior. Um notório missionário da União Evangélica foi James Dunlop Liddell, pai de Eric Liddell (1902 – 1945), atleta olímpico e missionário retratado no filme de Carruagens de Fogo (1981).

Em 1889, a denominação contava com 93 igrejas; e em 1896, após prolongada negociação, a União Evangélica foi incorporada à União Congregacional da Escócia.

Glassitas

Denominação primitivista que existiu entre 1730 e 2000, iniciada por John Glas (1695-1773), ex-ministro da Igreja da Escócia (Presbiteriana), ao rejeitar o controle estatal sobre a Igreja. Para Glas, somente a Bíblia deveria guiar a Igreja.

Oficialmente chamada de Church of Christ (Igreja de Cristo), também é referida como Glassitas, Kail kirk (igreja da “sopa de repolho”), Sandemanianos, Glassite e Glasite.

HISTÓRIA
Em uma época que o estado governava a vida religiosa dos cidadãos, John Glas começou a pregar que ser cristão era um ato de fé individual e não imposição estatal. O grupo influenciado por suas pregações acabou expelido da Igreja da Escócia e formou as primeiras congregações independentes na década de 1730.

Robert Sandeman (1718-1771), genro de Glas, continuou o trabalho na Inglaterra. Depois organizou a igreja nos Estados Unidos, cuja comunidade principal localizava-se em Danbury, Connecticut. Depois de algumas perseguições por causa do pacifismo, alguns glassitas se refugiram no Canadá durante a Guerra de Independência Americana.

Nas décadas entre 1730 e 1830 os glassitas influenciaram vários outros pregadores e movimentos em um avivamento que percorreu a Grã-Bretanha, Irlanda e costa leste da América do Norte. Notoriamente, os irmãos Haldane estiveram associados e adotaram muito das práticas e doutrinas glassitas.

Entre as pessoas notórias de tradição glassita contam o ativista e pensador político William Godwin (1756 – 1836) esposo de Mary Wollstonecraft e pai de Mary Shelley; o químico e bibliotecário Charles Wilson Vincent (1837–1905) e o cientista Michael Faraday (1791 – 1867), que foi diácono e depois ancião glassita.

Supostamente pela rigidez de suas práticas, no final do século XIX a Igreja Glassita entrou em declínio. Sua última congregação nos Estados Unidos fechou em 1890. Em 1989 a última congregação em Edimburgo encerrou os cultos e seu último ancião morreu em 1999. Desde então, a igreja pode ser considerada extinta.

DOUTRINA
A igreja glassita não possuía credos. Considerava a Bíblia como a completa revelação e a perfeita guia para a religião cristã. Devida à sua adesão radical ao sacerdócio universal dos crentes, não possuiu teólogos autorizados ou textos representativos de sua teologia. Contudo, as práticas e os detalhes de sua doutrina podem ser inferidos pelos escritos de seus anciãos, principalmente de Glas e Robert Sandeman (1718 – 1771).

Os glassitas criam na salvação pela fé. A fé consistia em receber a obra redentora de Cristo, mas não uma adesão a uma proposição doutrinário abstrata. Contudo, muitos detratores de Sandeman o acusavam de ensinar que bastava a fé como assentimento para salvação. Apesar disso, presbiterianos e o batista Andrew Fuller, criticavam o movimento por não demandarem nenhuma coisa além da fé para o efeito da graça sobre o indivíduo. Em resposta a essas acusações, Sandeman registrou em seu epitáfio:

“Que a morte nua e crua de Jesus Cristo, sem qualquer pensamento ou ação da parte do homem, é suficiente para apresentar o principal dos pecadores imaculado diante de Deus.”

Para os glassitas o batismo deveria ser livre e consciente para expressar a fé de que fora liberto da corrupção e do pecado. Assim, rejeitavam que o batismo como um ato de inserção nos registros paroquiais, quer anglicano ou presbiteriano, fosse um verdadeiro ato de fé. Contudo, os glassitas batizavam suas crianças.

CULTO
Os cultos consistiam de orações, hinos e pregações realizados em salas de reuniões imaculadas, sem decorações ou imagens. Desafiando as leis escocesas da época, o hinário Hymns and Spiritual Songs foi o primeiro livro de cânticos publicado na Escócia a não conter somente salmos. Qualquer um guiado pelo Espírito Santo podia exortar a congregação ou orar de forma espontânea. Saudavam-se com o ósculo santo.

Os glassitas praticavam o ágape, uma refeição comum, que pelo hábito de servir sopa no ágape levou ao apelido de kail kirk — igreja da sopa de repolho. Ocasionalmente realizavam o lava-pés. A Santa Ceia era realizada com frequência, quando possível, nas tardes de domingo.

Sala de reunião glassita em Edimburgo fechada em 1989.

ORGANIZAÇÃO
O glassitas caracterizavam-se por uma horizontalidade. Crendo na igualdade de seus membros diante de Cristo e na guia do Espírito Santo, rejeitaram qualquer forma de governo exerno à Igreja, quer civil, quer clerical. Um grupo de ministros — anciãos e diáconos — servia em cada congregação, a qual era autônoma em suas decisões, finanças e disciplina.

Os ministros, eleitos sem considerar sua educação ou posição social, eram iguais em autoridade entre si e a igreja não os assalariava. Também recusavam títulos religiosos ou o uso de vestes clericais.

COMPORTAMENTO E VALORES
Os glassitas viviam por um código de conduta muito rígido. Abstinham-se da carne sufocada e do sangue, rejeitavam jogos de azar e diversões públicas, condenavam a avareza. Vestiam-se de forma casta e modesta. Não aceitavam comunhão ou se casar com membros de outras denominações. Recusavam a participar de guerras.

A comunhão da igreja era muito importante. Isso refletia nas refeições comunais, nas regras comunitárias de identidade e conduta, no atendimento aos necessitados.

Davam grande importância ao atendimento dos necessitados. Os diáconos administravam a coleta semanal para os pobres.

DEMOGRAFIA
A igreja glassita sempre foi pequena. Talvez nunca houvesse mais de quarenta congregações na Escócia, Inglaterra e nordeste dos Estados Unidos. Em 1799 sua maior congregação era o Tabernáculo de Glasgow, com cerca de 300 membros. Os cultos eram frequentados por muitos, mas poucos se tornavam membros.

LEGADO
O legado glassita hoje subsiste na influência outros movimentos religiosos.

Seu primitivismo foi transmitido às Igrejas de Cristo (movimento da restauração Campbell-Stone) nos Estados Unidos; e os Scotch Baptists, os Inghamite, os Walkerites e, notavelmente, o movimento dos Haldanes no Reino Unido. Indiretamente influenciaram o primitivismo entre vários grupos metodistas, os avivados galeses, os irmãos de Plymouth e mesmo algumas correntes pentecostais.

Sua insistência em separação entre Igreja e Estado iria influenciar a própria formulação desse doutrina nos Estados Unidos. A célebre carta de Thomas Jefferson aos batistas de Danbury, na qual aparece expressa essa posição, foi destinada a um público de uma cidade que velava pela liberdade religiosa das minorias diante da Igreja estatal puritana congregacional de Connecticut.

A hinódia evangélica anglo-saxã e, consequentemente, mundial é herança teólógica dos glassitas.

O avivamento continental e nas Ilhas Britânicas conduzido pelos irmãos Haldane foi outro legado. Sua simplificação doutrinária centrada na graça possibilitou a formação de congregações locais e denominações cujos critérios de membresia fossem somente a conversão pessoal, sem requistos burocráticos de um presbitério. Indiretamente, essa missiologia influenciou o ministério de Robert R. Kalley na Ilha da Madeira e no Brasil. A fundação e as atividades da Sociedade Bíblica foram também frutos de pessoas influenciadas pelos glassitas. Robert Haldane foi atuante na política editorial e nas edições e distribuição das Escrituras, além de ser o mentor de James “Diego” Thompson, pioneiro da distribuição da Bíblia na América Latina.

BIBLIOGRAFIA

Cantor, Geoffrey. Michael Faraday: Sandemanian and scientist: a study of science and religion in the nineteenth century. Springer, 2016.

Glas, John. Christian Songs : To Which Is Prefixed, the Evidence and Import of Christ’s Resurrection, Versified, for the Help of the Memory (version The 10th ed.). London : Printed for T. Boosey, 1796.

Glas, John. The Works of Mr John Glas : In Four Volumes. Edinburgh: Printed for Alexander Donaldson. Sold at London, by J. Richardson and E. Dilly, 1761.

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Townsend, Shippie. An Inquiry Whether the Scriptures Enjoin the Kiss of Charity, As the Duty of the Disciples of Christ, in Their Church-Fellowship in All Ages. Eighteenth Century Collections Online. Boston, New-England.: Printed by Kneeland and Adams, for Nicholas Bowes, opposite the Old Brick Meeting-House, in Corn-Hill, 1768.