Segundo Clemente

2 Clemente é um breve sermão sobre Is 54:1. É uma obra anônima, dos meados do século II d.C.

Uma tradição posterior atribui esse documento a Clemente de Roma. Encoraja os cristãos à perseverança e arrependimento para que possam desfrutar da vida eterna na ressurreição.

Cananeus

Cananeus eram os habitantes de Canaã antes do estabelecimento do povo de Israel. Etnicamente eram os mesmos povos da costa da Fenícia.

Os cananeus aparecem como descentes de Canaã, filho de Cam, um dos filhos de Noé (Gn 12).

Genericamente, o termo aplica-se ao diversos povos habitantes da região antes do israelitas:

  1. Gênesis 15:19-21 (10): queneus, heteus, amorreus, jebuseus, quenezeus, quenezeus, perizeus, cananeus, cadmoneus, refaim, girgaseus.
  2. Êxodo 3:17 (6): cananeus, pereseus, heteus, heveus, amorreus, jebuseus.
  3. Êxodo 23:28 (3): heveus, cananeus, heteus.
  4. Deuteronômio 7:1 (7): heteus, cananeus, jebuseus, girgaseus, perizeus, amorreus, heveus.
  5. Josué 24:11 (7): amorreus, heteus, jebuseus, perizeus, girgaseus, cananeus, heveus.

Cão

Cão ou Cam, em hebraico חָם, de significado desconhecido, mas conclusivamente sem nenhuma relação semântica como “queimado”, “negro” ou “quente”. É o nome de uma pessoa e dois lugares no Antigo Testamento.

  1. Cão, o filho mais novo de Noé (Gn 9:18, 24). Depois de as águas baixaram, Cam encontrou seu pai, nu e bêbado. Noé amaldiçoou Cão mediante seu filho Canaã (Gn 9:18, 25). Daí surge a justificativa etiológica para os cananeus servirem aos descendentes de Sem e Jafé (Gn 9:26–27; Js. 9:16-27). Foi pai de Cuxe, Mizraim, Put e Canaã (Gn 10:6).
  2. Uma cidade a leste do rio Jordão na época de Abraão, atacada por Quedorlaomer e outros reis aliados (Gn 14:5).
  3. Epítome para o Egito em poesia (Sl 78:51; 105:23, 27).

BIBLIOGRAFIA

Goldenberg, David M. The Curse of Ham: Race and Slavery in Early Judaism, Christianity, and Islam. Princeton University Press, Princeton, 2003,

Críticas minoritárias

As críticas minoritárias são perspectivas exegéticas que levam em consideração os pontos de vista de grupos subrepresentados na produção de exegese bíblica.

Essas críticas incluem as críticas feministas, a crítica latino-americana, a crítica Latinx, a crítica dalit, a teologia minjung, a teologia da missão integral, a teologia da libertação, a teologia womanista, a teologia mujerista, perspectivas indígenas, campesinas, queer (LGBTS+), disabilidade, ecológica, migrante, pentecostal, africana, contextual sulafricana, pacifista, anabatista ou radical, dentre outras. Por vezes, esse conjunto de abordagem é chamado de crítica contextual.

Quanto à pauta, geralmente as críticas minoritárias trazem a presença de eruditos minoritários em três vertentes. Alguns tentam corrigir vieses, identificando leituras negligenciadas pela academia majoritária. Outros buscam contrabalancear os vieses pelo diálogo de outras perspectivas. Por fim, a crítica no sentido de denúncia das instituições e seus envolvimentos com o poder, buscando fazer exegese que desconstrua as ideologias embutidas nas interpretações padronizadas.

Os métodos variam conforme a vertente e a filiação ao grupo minoritário. Por exemplo, tipicamente uma exegese pentecostal aproveita as experiências vividas para contrastar com o texto bíblico. Uma perspectiva feminista pode analisar os papéis das mulheres nas Escrituras. A crítica ecológica presta atenção ao mandado de mordomia da criação e como diferentes atores bíblicos lidavam com seus ambientes. A crítica queer tende a focar em estudos de personagens e terminologias associados a gênero ou sexualidade. Um adepto da crítica camponesa pode partir para a hermenêutica empírica e estudar passagens bíblicas entre agricultores. A crítica contextual sulafricana e a teologia da libertação adotou a leitura popular como método exegético, cabendo ao exegeta reportar as impressões oriundas de leituras feitas em grupos leigos. Muitos exegetas anabatistas focam nas práticas resultantes do entendimento bíblico coletivo das igrejas livres, radicais, mennonitas, quakers, amish, dunkers, e outras.

Irrespectivo dos métodos ou das vertentes, não existe correlação necessária entre a abordagem da crítica minoritária e ativismo. Contudo, muito do resultado da reflexão exegética e teológica oriundo dessas perspectivas contribui à denunciação profética de pecados de amplitude social.

Crítica das ciências sociais

A crítica das ciências sociais (Social-scientific criticism), por vezes chamada indiscriminadamente de crítica sociológica ou crítica antropológica, examina a Bíblia com métodos, informações e teorias das ciências sociais.

O foco da crítica das ciências sociais varia. Pode ser “por trás do texto”, ou seja, as circunstâncias e o contexto da composição do texto bíblico. A análise da sociedade agrária dos tempos bíblicos é um exemplo. O foco pode ser ” no texto”, ou seja, como as relações sociais e aspectos culturais são representados no texto bíblico. Estudos de pureza e poluição conforme ensinado em Levítico são ilustrativos dessa abordagem. Por fim, é possível concentra-se “diante do texto”, ou seja, os processos interpretativos e as implicações da leitura da Bíblia.

BIBLIOGRAFIA

Davis, E. F. (2009). Scripture, culture and agriculture: An agrarian reading of the Bible. New York: Cambridge University Press 

Douglas, Mary. Purity and danger: An analysis of concepts of pollution and taboo. Routledge, 2003.

Harding, Susan. The Book of Jerry Falwell: Fundamentalist Language and Politics. Princeton: Princeton University Press, 2000.

Crítica histórica

A crítica histórica visa compreender tanto o conteúdo (eventos, discursos) registrados quanto os próprios textos que os registram mediante considerações sobre autoria, circunstâncias da época da composição e funções do texto para suas primeiras audiências.

Utiliza métodos e teorias da historiografia aplicada à Bíblia.

A crítica histórica é, por vezes, sinônimo de exegese. No entanto, trata-se de uma abordagem diacrônica, sem precisar levar em conta outros aspectos como recepção teológica ou literária. Visa reconstruir os sentidos propostos no texto.

Há duas grandes vertentes, o método histórico-crítico e o método histórico-gramatical. Alguns autores e tradições tratam essas duas vertentes como sinômimos. Ambas surgiram da historiografia do Iluminismo, consolidando-se no final do século XVIII e passaram por transformações posteriores. Hoje, o método histórico-crítico é o preferido em ambiente acadêmico enquanto o método histórico-gramatical é popular em contextos pastorais, devocionais e confessionais. Não se sustenta uma susposta diferenciação ideológica entre método histórico-gramatical servindo a teólogos “conservadores” e o método histórico-crítico servindo a teólogos “liberais”. Ambos métodos são empregados por exegetas de orientações teológicas diversas ou mesmo sem ter filiação religiosa.

Crítica literária

A crítica literária considera as técnicas e teorias literárias presentes na Bíblia.

Pode utilizar as diversas abordagens literárias (narratologia, estudos de personagens, retórica, recepção, dentre outras) para compreender sincronicamente o texto bíblico.

Várias abordagens de análises aparecem na crítica literária. A análise léxica tenta entender termos-chave e o significado das palavrs. A análise estilística estuda a dicção (escolha de palavras), estruturas (como o quiasmo e paralelismo), as figuras de linguagem (metáforas, metonímias, hipérbole, etc). A tipologia em seu sentido estrito também é estudada na crítica literária, junto da análise temática e análise de motivos literários. Tipos e gêneros textuais fazem parte da crítica literária.

A história da recepção, história dos efeitos e a crítica orientada ao leitor são abordagens literárias que enfocam na interpretação dos textos bíblicos. Obras literárias, como Esaú e Jacó de Machado de Assis, são comparados com os textos bíblicos.

BIBLIOGRAFIA

Alter, Robert; Kermode, Frank (orgs.). Guia literário da Bíblia. São Paulo: Edunesp, 1997.

Alter, Robert. The art of biblical narrative. Basic Books, 2011.

Auerbach, Erich. Mimesis: The representation of reality in western literature. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1953.

Frye, Northrop. The great code: The Bible and literature. Vol. 19. University of Toronto Press, 2006.

Crítica da redação

A crítica da redação ou crítica editorial (Redaktionsgeschichte) tenta descrever como se processou a transmissão escrita adequando o texto para audiências posteriores.

Um exemplo é a redação do Cronista sobre recenseamento de Israel feito por Davi, o qual emprega 2 Samuel 24 para redigir 1 Crônicas 21. Outro exemplo é a comparação das práticas editoriais do lamento registrado tanto e Salmo 18 e em 2 Sam 22.