Hipsistários (do grego Hypsistarioi, derivado de Hypsistos, “Altíssimo”) é a designação dada posteriormente para um grupo ou conjunto de grupos religiosos documentados no Bósforo e na Ásia Menor entre o primeiro século da era cristã e ao menos o século IV de cunho monoteísta.
Adoravam o Deus Altíssimo e Todo-Poderoso. Segundo alguns relatos, observavam o Sábado e alguns preceitos alimentares judaicos, mas rejeitavam a circuncisão, e combinavam essas práticas com uma veneração de caráter mais pagão pelo fogo, pela luz, pela terra e pelo sol, sem, contudo, praticarem ritos idolátricos.
As principais fontes literárias antigas para o grupo foram Gregório de Nazianzo, em Oratio XVIII 5, que mencionou que seu próprio pai havia pertencido a esse movimento antes de se converter ao cristianismo, e Gregório de Nissa, em Contra Eunomium 2. A esses testemunhos acrescentou-se o de Epifânio de Salamina, em Panarion Hæresis LXXX.1–3, que os descreveu, sob o nome de Massalianos, do aramaico meẓallin, “os que oram”, ou Euchomenoi ou Euphemitai, “os que adoram”, como adoradores de Deus Todo-Poderoso ao clarão de muitas luzes, o que sugeriu um culto com uso ritualístico de iluminação intensa.
O grupo, ou grupos afins, apareceu ainda no Codex Theodosianus XVI.5.43 e XVI.8.19, sob o nome latino de Cœlicolæ, “adoradores do céu”, o que correspondeu ao hebraico yir’e shamayim, “os que temem o céu”, denominação que conectou esses grupos à categoria mais ampla dos theosebeis, “tementes a Deus”, documentados em fontes judaicas e neotestamentárias.
Da tradição judaica retiveram elementos centrais como o monoteísmo estrito, a observância do sábado, restrições alimentares e a rejeição de imagens e ritos idolátricos. Da tradição pagã greco-romana conservaram a veneração do fogo e da luz, possivelmente com paralelos no culto solar amplamente difundido nos séculos II e III, e uma sensibilidade cosmológica que associou o divino às forças celestes e naturais. A recusa da circuncisão os situou em posição intermediária entre a conversão plena ao judaísmo e a permanência no mundo gentio.
Essa posição liminar é o que torna o grupo analiticamente relevante. Para segmentos da população do Mediterrâneo oriental, o monoteísmo judaico e a espiritualidade cósmica greco-romana não foram percebidos como incompatíveis. A fronteira entre “judaísmo” e “paganismo”, categorias que as heresiologias cristãs posteriores trataram como mutuamente exclusivas, foi, na prática vivida, permeável e negociável.
A questão de saber se os hipsistários, os massalianos epifanianos, os euchomenoi e os cœlicolæ do Codex Theodosianus constituíram um único movimento com diferentes nomes regionais, ou um conjunto de grupos relacionados, mas distintos, permaneceu debatida. Emil Schürer, em seu estudo sobre os judeus no reino do Bósforo publicado em 1897, documentou inscrições dedicadas ao Theos Hypsistos em numerosos sítios do Ponto e do Bósforo e argumentou pela existência de thiasoi, associações religiosas organizadas em torno desse culto. Franz Cumont aprofundou a análise das evidências epigráficas e propôs conexões com o culto solar supostamente sincretista difundido no período imperial.
A evidência epigráfica cresceu ao longo do século XX. Stephen Mitchell reuniu mais de trezentas inscrições dedicadas ao Theos Hypsistos em todo o Mediterrâneo oriental e argumentou que se trata de um fenômeno religioso amplo e geograficamente difuso, não redutível a um único grupo organizado. Mitchell sustentou que o culto ao Altíssimo representou uma das expressões do monoteísmo pagão no período imperial, uma tendência à henoteização do divino que convergiu, sem se identificar, com o monoteísmo judaico e preparou terreno para a expansão cristã.
Os hipsistários foram provavelmente identificáveis, ao menos em parte, com prosélitos judaicos parciais que retiveram elementos de sua herança pagã. Essa hipótese já havia sido avançada pela Jewish Encyclopedia e o acúmulo de evidências epigráficas e literárias subsequente a tornou mais plausível. A descoberta e publicação da inscrição de Afrodísias, por Joyce Reynolds e Robert Tannenbaum, documentou uma comunidade de theosebeis formalmente associada à sinagoga local. Também confirmou que a participação parcial de gentios na vida religiosa judaica foi um fenômeno institucionalizado, não marginal.
A relação com os theosebeis, “tementes a Deus”, do Novo Testamento, em Atos 10, 13 e 17, foi estruturalmente próxima, embora a identidade terminológica não implique identidade organizacional. Ambos os grupos ocuparam a mesma posição liminar, com monoteísmo sem circuncisão, participação em práticas judaicas sem conversão formal e identidade religiosa que não se enquadrou nas categorias consolidadas pelas heresiologias posteriores.
Do ponto de vista da historiografia religiosa, os Hipsistários foram significativos em ao menos três dimensões. Primeiro, ilustraram a porosidade das fronteiras religiosas no Mediterrâneo oriental dos primeiros séculos, questão central nos debates contemporâneos sobre a separação entre judaísmo e cristianismo, associados a Daniel Boyarin, Judith Lieu, Annette Yoshiko Reed e Adam H. Becker. Segundo, a existência de grupos monoteístas organizados fora das categorias judaica e cristã desafiou a narrativa de uma progressão linear do politeísmo ao monoteísmo conduzida exclusivamente pelo judaísmo e pelo cristianismo. Terceiro, o testemunho de Gregório de Nazianzo sobre a conversão de seu pai a partir dos Hipsistários sugeriu que esses grupos funcionaram, em algumas regiões, como zona de transição para o cristianismo, um reservatório de monoteísmo difuso parcialmente receptivo à mensagem cristã.
BIBLIOGRAFIA
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