Yetzer ha-Ra’

Yetzer ha-Ra’, em hebraico יֵצֶר הַרַע, é o conceito judaico de inclinação ou impulso para o mal. O conceito é derivado de Gn 6:5, 8:21.

No pensamento rabínico, Deus fez as inclinações boas (Yetzer Ṭob) e más (Yetzer ha-Ra’). No entanto, mesmo este último tem alguma bondade, porque a humanidade então ordena o amor de Deus. Ambas as inclinações são inerentes à humanidade e não interagem de forma dissociada. Juntos, eles ajudam a criar a vida humana pelos interesses da ânsia de lucrar, casar, ter filhos, comer e beber. É similar ao conceito de vícios privados, benefícios públicos da fabula abelhas de Bernard de Mandeville.

Segundo os rabinos, o Yetzer ha-Ra’ tem sete nomes diferentes na Bíblia: mal (Gn 8:21); incircunciso (Dt 10:16); impuro (Sl 51:12); inimigo (Pv 25: 21); pedra de tropeço (Is 57:14); pedra (Ez 36:26); e oculto (Jl 3:20). É popularmente identificado com as concupiscências da carne, vingança, avareza, traquinagem infantil, ira, violência, vaidade, idolatria, inveja e outros atos reprováveis.

Mais tarde, na Idade Média, o conceito foi identificado com Satanás e com o anjo da morte (B. B. 16a; comp. Maimônides, “Moreh”, 3. 12, 3. 22).

O Yetzer ha-Ra’ não é de origem humana ou demoníaca, mas tem Deus como o Criador de tudo. O ser humano é responsável por ceder à sua influência. Com as instruções de Deus (Torá), a humanidade é capaz de resistir às más inclinações e fazer o bem.

De acordo com Rabi Jonathan, o Yetzer, como Satanás, engana o homem neste mundo e testemunha contra ele no mundo vindouro (Suk. 52b). No entanto, distingue-se de Satanás. Em outras ocasiões é apresentado como paralelo ao pecado. (Gen. Rabbah 22; a parábola de 2 Sm 12. 4). Deus finalmente destruirá o Yetzer ha-Ra’, como prometido em Ez 36:26.

O termo “yetzer” aparece tanto em Dt 31:21 e em Is 26:3 para a disposição da mente. No Judaísmo do Segundo Templo, essa inclinação tornou-se mais cristalizada em Siraque 15:14: “Deus criou o homem desde o princípio… e o entregou nas mãos de seu Yetzer.” (Cf. Siraque 6:22; Ed 4:8, Rm 7:7-24)

O conceito de pecado original não existe no judaísmo no sentido de a queda de Adão ter transmitido malícia e culpa à posterioridade humana. Adão e Eva já tinham a inclinação para o mal, mas o pecado de desobediência não foi motivado pela Yetzer ha-ra’. Antes, na escolha deles sopesou as duas Yetzer. Por vezes, as noções de depravação humana irremediável ou de concupiscência no cristianismo são comparáveis com o conceito de Yetzer ha-Ra’.

VER TAMBÉM

BIBLIOGRAFIA

Allen, Wayne. Thinking about Good and Evil. JPS Essential Judaism. Lincoln: Jewish Publication Society, 2021. 

Rosen-Zvi, Ishay. Demonic Desires. Divinations: Rereading Late Ancient Religion. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2011.

Rosen-Zvi, Ishay. “Refuting the Yetzer: The Evil Inclination and the Limits of Rabbinic Discourse.” The Journal of Jewish Thought & Philosophy 17, no. 2 (2009): 117-41.

Sol, Adam. “”Were It Not for the Yetzer Hara”: Eating, Knowledge, and the Physical in Jonathan Rosen’s “Eve’s Apple”.” Shofar (West Lafayette, Ind.) 22, no. 3 (2004): 95-103.

Towers, Susanna. “The Rabbis, Gender, and the Yetzer Hara: The Origins and Development of the Evil Inclination.” Women in Judaism 15, no. 2 (2018): 1.

“Yeẓer ha ra'”  Jewish Encyclopedia.

Agostinianismo

Agostinianismo ou agostinismo é um sistema teológico iniciado pelo bispo e filósofo norte-africano Agostinho de Hipona (354– 430 d.C.). Depois foi desenvolvido por outros pensadores, afetando profundamente as doutrinas do cristianismo ocidental.

Entre as obras mais importantes de Agostinho estão A Cidade de Deus, Sobre a Doutrina Cristã, Sobre a Trindade, Manual sobre fé, esperança e caridade, Contra os Acadêmicos e suas famosas Confissões.

Dentre as influências recebidas por Agostinho incluem o neoplatonismo, o estoicismo, a retórica e cultura jurídica romana. Seu embate com o maniqueísmo e com os adeptos de Pelágio refinaram seu pensamento. Os anos finais e decadentes do Império Romano do Ocidente também refletem em sua filosofia de história.

DOUTRINA

Doutrina central do agostinianismo é que a natureza do ser humano foi corrompida pela culpa do pecado original, mas quando se crê em Cristo mediante o Evangelho, o ser humano torna-se partícipe de sua Igreja, a qual porta a revelação divina através da história, e pela luz do Espírito Santo (o vínculo do amor de Deus) compreende essa revelação. 

Sumário extendido:

  • Deus ordenou desde a eternidade todas as coisas que deveriam acontecer com vistas à manifestação de sua glória;
  • Deus criou o homem puro e santo, com liberdade de escolha;
  • Neste plano, Adão foi testado, desobedeceu, perdeu sua liberdade e tornou-se escravo do pecado;
  • Toda a humanidade caiu com Adão e é justamente condenada nele à morte eterna, o que é chamado de pecado original;
  • O pecado original causou uma desordem do Eu de tal forma que a razão, a vontade e o desejo não são mais corretamente subordinados um ao outro nem a Deus.
  • Deus, em sua presciência, enviou Cristo para a redenção e oferecer a vida eterna;
  • Cristo, nascido de Maria virgem, não possuia pecado. (Agostinho era adepto do seminalismo e acreditava que as mulheres eram somente um vaso, com o ser humano formando-se a partir do sêmen paterno. Portanto, Cristo não portaria ao pecado original);
  • Mas Deus, em sua misericórdia soberana, elegeu parte dessa massa corrupta para a vida eterna, sem qualquer consideração de mérito, ao que chama graça;
  • Pela graça os eleitos são convertidos, justificados, santificados e aperfeiçoados;
  • Os eleitos formam uma Igreja invisível conhecida somente por Deus;
  • A Igreja visível tem um papel importante na comunicação da graça;
  • Somente pela iluminação divina seria possível compreender as coisas de Deus;
  • O Espírito Santo tem papel indispensável na compreensão das coisas de Deus bem como mover para praticar obras de justiça;
  • O Espírito Santo é o vínculo de amor entre Deus Pai e o Deus Filho. Por ser amor, o Espírito Santo dá a graça de alinhar a razão, a vontade e o desejo para o amor a Deus e ao próximo. Desse modo, todo bem vem de Deus.
  • Enquanto o conselho de Deus é inescrutável, porém justo, o resto da humanidade fica no estado de condenação.
  • Assim, no castigo eterno dos ímpios revela-se a glória de sua justiça.
  • A teodiceia agostiniana busca reconciliar a existência do mal com Deus onipotente e onibenevolente, localizando-se o mal na ausência de Deus.

LEGADO

O agostinianismo praticamente não impactou o cristianismo oriental. Foi submetido à crítica por vários outros teólogos da tradição cristã ocidental.

O agostinianismo extrapola os confins da teologia e tem ramificações na filosofia. Outros pensadores nessa tradição incluem Boécio, Gregório Magno, Anselmo de Cantuária, Boaventura, Lutero, Calvino, René Descartes, Cornélio Jansênio e Pascal.

Dentre os subsistemas e sistemas teológicos derivados ou baseados no agostinianismo se destacam o sistema penal-sacramental católico romano, a soteriologia forense, o luteranismo, os sistemas reformados e o jansenismo.