Westminster Sisters

Agnes Smith Lewis (1843–1926) e Margaret Dunlop Gibson (1843–1920), eruditas bíblicas britânicas especializadas em línguas semíticas. Conhecidas pela redescoberta dos manuscritos da Geniza da Sinagoga do Cairo.

Filhas gêmeas de um jurista afluente, falavam alemão, francês e italiano quando deciriram aprender mais línguas e viajaram pela Europa e Oriente Médio em 1868.

As irmãs viajaram para o mosteiro de Santa Catarina no Sinai em 1892 e descobriram uma das primeiras versões siríacas dos Antigos Evangelhos Siríacos. Continuaram a coletar manuscritos e livros, fazendo importantes avanços nos estudos do aramaico cristão palestiniano. Colaboraram com os eruditos europeus de sua época, juntando mais de 1.700 manuscritos.

Identifiacaram na Geniza da Sinagoga Ben Ezra no Cairo, os fragmentos do qual seria um dos maiores achados em estudos bíblicos.

Pesquisaram em colaboração com Universidade de Cambridge, a qual nunca lhes concedeu diplomas às irmãs. Todavia, receberam títulos honorários das universidades de Halle, Heidelberg, Dublin e St Andrews.

Sarah Trimmer

Sarah Trimmer (1741 – 1810) foi uma filantropa e biblista britânica.

Anglicana devota, fundou várias escolas dominicais e escolas de caridade em sua paróquia. Escreveu livros e manuais para iniciar suas próprias escolas, inspirando outras mulheres, como Hannah More, a estabelecer programas de escola dominical e a escrever para crianças e os pobres. Trimmer argumentava que as escolas dominicais deviam ensinar não apenas a ler a Bíblia, mas a raciocinar e tirar conclusões teológicas e políticas.

 Publicou o  A Help to the Unlearned (1805), um comentário de um volume publicado em 1805 para disseminar o conhecimento bíblico.

Grace Aguilar

Grace Aguilar (1816 – 1847) foi uma escritora e biblista britânica.

Nascida em uma família judia de ascendência portuguesa, Aquilar defendia a formação de escolas para a população pobre, tanto para meninos quanto meninas. Promoveu o estudo do hebraico entre mulheres judias e a ampla leitura das Escrituras em inglês mesmo entre os judeus.

Ao entrar em contato com um rabino e editor americano Isaac Leeser, arranjou para a publicação seu tratado teológico The Spirit of Judaism (1842) como o volume inicial de uma nova série de livros. O manuscrito original foi perdido no mar, mas Aguilar foi capaz de recriá-lo a partir de suas notas.

Em 1845 apareceu As Mulheres de Israel – uma série de retratos delineados de acordo com as Escrituras e Josefo.

Elizabeth Baxter

Mary Elizabeth Foster Baxter (1837-1926) escritora, missionária e biblista britânica.

Nascida em uma família de quakers em Worcestershire, na Inglaterra. Converteu-se aos 21 anos e dedicou-se ao ministério evangelístico. Casada com Michael P. Baxter em 1868, foram pais de Michael Paget Baxter. O casal fundou a Casa Bethshan em 1880 para cuidar da cura do corpo e da alma. Foram influenciados por Andrew Murray, D. L. Moody e Ira Sankey. Em razão disso, participaram ativamente do movimento “Higher Christian Life”, promovido por William E. Boardman e difundido pela Convenção de Keswick.

O casal apoiava as campanhas de Moody na Inglaterra, publicando um pequeno jornal chamado “Signs of Our Times”. O jornal se expandiu para se tornar “The Christian Herald”.

Em viagem em férias à Suíça, o casal começou a realizar reuniões evangelísticas. Durante uma viagem na Alemanha, Elizabeth teve a experiência de ser capaz de pregar em alemão o suficiente para ser entendida, embora ela soubesse apenas poucas palavras do idioma. Nesse período, Elizabeth conheceu o pastor Otto Stockmayer, Samuel Zeller e teve contato com as obras de Dorothea Trudel e Johann Blumhardt.

Em 1886, os Baxters abriram uma casa de treinamento missionário, formando centenas de missionários. Estabeleceram as Missões Gerais Kurku e Central Hills e Ceilão e Índia na Índia. Na década de 1890, Elizabeth viajou pelo Canadá e pelos Estados Unidos. Em 1894, também conheceu e tornou-se amiga de Carrie Judd (mais tarde Montgomery), que havia aberto sua própria casa de recuperação em Nova York. Mais tarde, viajaria para as missões na Índia.

Publicou mais de quarenta livros, além de tratados volantes e panfletos. Seu Women in the Word (1897) faz um panorama com vários perfis de mulheres nas Escrituras.

Neutäufer

Originários dos avivamentos da Suíça e sul da Alemanha no século XIX, os Neutäufer buscam viver o cristianismo primitivo a partir de uma leitura simples da Bíblia e uma vida transformada pelo evangelho.

O movimento nunca teve uma designação uniforme. Foram chamados de Neutäufer (“novos batistas” em contraste com os menonitas), Fröhlichianer, Nazarénusok, Gemeinschaft Evangelisch Taufgesinnter, New Amish, Nazarener-Gemeinde, Apostolic Christian Church, Nazarenos, dentre outras nomenclaturas.

O fundador foi o suíço Samuel Heinrich Fröhlich (1803-1857). Fröhlich estudou teologia nas universidades de Zurique e Basel, mas não simpatizava com o racionalismo da teologia acadêmica da época. Participante do réveil suíço, em 1825 passou por uma experiência de conversão. Proibido pelas autoridades de pregar o avivamento, deixou a Igreja Reformada estatal.

Recebeu apoio da Sociedade Continental dos irmãos Haldane para continuar a evangelizar. Em 1830 Fröhlich foi batizado em Genebra por Ami Bost e iniciou a pregar em reuniões domésticas atraído novos convertidos. Passou também a pregar em congregações menonitas. Em 1834, por questão do modo de batismo, santa ceia e demanda por disciplina, vários menonitas organizaram congregações separadas sob orientação de Fröhlich. Incapaz de coordenar tão grande comunidade, Fröhlich pediu apoio aos batistas londrinos e entabulou planos com Johann Gerhard Oncken em 1846 para unirem-se com os batistas. No entanto, tal união não fruiu. Em 1844 Fröhlich foi expulso da Suíça e asilou-se em Estrasburgo onde morreu.

O movimento ganhou adeptos entre classes trabalhadoras urbanas e rurais na Europa Central. Das regiões de fala alemã, o movimento esparramou-se pelo território do antigo Império Austro-Húngaro. Formaram-se congregações de língua húngara, sérvia, eslovaca e alemã. A primeira igreja na América do Norte foi organizada em 1852 entre os Amish em Croghan, Nova York.

Mesmo o ostracismo e as perseguições fizeram o movimento florescer. Resultante de uma organização congregacionalista, complicada por fatores de língua e etnicidade, bem como diferentes arranjos legais a cada nação, o movimento nunca esteve sob uma só denominação. As principais denominações são:

  • Apostolic Christian Church of América -Igreja Cristã Apostólica da América– com uma centena de igrejas nos Estados Unidos e algumas no Canadá, México e Japão, com aproximadamente 11.500 membros. Remonta das primeiras igrejas fundadas no meado do século XIX.
  • Apostolic Christian Church (Nazarean) -Igreja Cristã Apostólica (Nazareana) – com cerca 50 congregações nos Estados Unidos, 14 congregações no Canadá , 16 congregações na Argentina, além de igrejas na Austrália, Hungria, Brasil (Igreja PAZ e Igreja Evangélica Nazareno, não confundir com a Igreja do Nazareno) e no México, além de trabalho missionário na Nova Guiné, Zâmbia, Israel e Paraguai. Formada por migrantes da Europa Central e Oriental que se estabeleceram nos Estados Unidos, manteve comunhão com as igrejas europeias. Moderadamente, adotou costumes comuns aos evangelicais. Um membro conhecido da denominação é o palestrante e autor Nick Vujicic.
  • Nazarene Christian Congregation – Congregação Nazarena Cristã – reúne membros com vínculos com a antiga Iugoslávia (onde possui mais igrejas), Austrália, Estados Unidos e Canadá.
  • Bund Evangelischer Täufergemeinden – União dos Evangélicos Neo-Batistas – Alemanha, Suíça, Áustria e França (Alsácia), com cerca de 2500 membros.
  • Nazarenos: grupos dispersos na Suécia, Hungria, Sérvia, Croácia, Romênia, Ucrânia e Eslováquia.
  • Há ainda congregações e redes menores de congregações independentes na Europa e Estados Unidos.

Junto dos menonitas russos e dos Bruderhof, os Neutäufer são exemplos dos remanescentes anabatistas “plain” (aqueles que não adotaram costumes correntes dos evangélicos em geral) na Europa. Juntos do Movimento dos Irmãos (de Plymouth) constituem os herdeiros do réveil que mais retiveram práticas primitivistas.

Os Neutäufer creem somente na Bíblia como fonte de autoridade. No geral, sua teologia é anabatista, mas com uma ênfase na conversão pessoal típica do pietismo e do réveil. A centralidade da fé em Jesus Cristo é manifesta na conversão. A conversão é vista como um processo de autoexame, arrependimento e restituição de erros pendentes até alcançar paz com Deus. Considerando o ser humano totalmente dependente da graça de Deus, creem que o pecado é perdoado somente pelo sangue de Jesus na conversão. Sendo então santificados, os pecados eventuais posteriores dependem do perdão alcançado pela intercessão de Jesus Cristo perante Deus Pai.

A crença de que os remidos formam uma comunidade santificada resulta em meticulosas normas de vida comunitária. A violação das normas comunitárias equivale à queda da fé. Membros tomam como responsabilidade a exortação mútua para auxiliar na caminhada na fé e na correção dos eventuais desvios.

As práticas e costumes denominacionais variam conforme os grupos, mas um complexo corpo de normas tácitas são amplamente conhecidos e praticados a cada congregação. Há desde movimentos que são semelhantes a outros evangélicos, como as Igrejas PAZ no Brasil ou a Bund Evangelischer Täufergemeinden alemã, mas boa parte são tradicionalistas quanto a costumes e práticas de culto. No entanto, esses costumes não possuem tanta autoridade como entre outros grupos “plain” dos anabatistas (menonitas e Amish).

Cada congregação local é autônoma totalmente em matérias de gestão financeira, eleição dos ministros e disciplina dos membros. As decisões denominacionais são feitas por consenso, com participação de representantes de todas as igrejas. Alguns grupos possuem conselhos de ministros permanentes enquanto outros reúnem-se em assembleias gerais esporádicas. Homogeneidade comportamental é esperada em todas congregações dentro de uma denominação.

Tradicionalmente, os Neutäufer reúnem-se para cultos nos quais os hinos são somente cantados a capella. Crendo firmemente na guia do Espírito Santo no culto, as pregações são sem preparação prévia (normalmente, com a Bíblia aberta aleatoriamente) e as orações são feitas espontamentes. Os cultos são presididos coletivamente por um grupo de anciãos que alternam nas pregações conforme sentirem movidos pelo Espírito Santo. Os anciãos e diáconos são eleitos pela congregação local e não frequentam seminários. Nos cultos, observam o assento separado por gênero e as mulheres usam véus. Alternam pregações, hinos e orações. No final, há a bênção apostólica e a saudação com o ósculo santo. Normalmente fazem dois cultos de formatos similares no domingo, um cedo e outro à tarde. Realizam um almoço comum, a ágape bíblica.

Somente adultos podem ser batizados. Antes, o convertido deve testemunhar seu arrependimento da vida de pecado e sua restituição dos erros em uma reunião privada com a igreja antes de descer às águas. Após o batismo há uma oração com a imposição das mãos simbolizando o selo do Espírito Santo.

Avessos às coisas do mundo, evitam o serviço militar (se convocados, servem em posição de não combatentes) e não concorrem a cargos públicos. Não admitem partidarismo ou instrumentalização política de suas igrejas. O casamento somente é permitido entre membros da denominação. Frequentar cultos de outras denominações é proibido. A influência de outras persuasões religiosas é rejeitada, embora privadamente os membros possam ler literatura de teologias diversas. Homens e mulheres observam modéstia no trajar e no consumo, com os trajes femininos sendo saias e vestidos. Rejeitam fazer juramentos. Consideram como pecados que levam à morte matar alguém e relacionamento sexual fora do casamento, pecados que levam à exclusão permanente das congregações locais, pois consideram que somente Deus pode perdoá-los. Embora aceitem a conversão de pessoas divorciadas ou com segundas núpcias, após o batismo não é mais permitido o divórcio ou novo casamento.

Combinando as tradições anabatistas, pietistas e do réveil, os Neutäufer mantém um caráter coletivo de vida cristã. A adesão e caminhada na vida cristã é pregada em tons contemplativos, piedosos e convidativos, mas sem apelos de salvacionismo individualista comum no evangelicalismo anglo-americano. Dessa forma, não há espaço para destaques personalistas de pregadores ou líderes. O culto e a vida fora da Igreja é orientada para juntos seguirem as instruções de Jesus Cristo.

BIBLIOGRAFIA

Alves. L. Notes on fieldwork at ACCA Ellington, Connecticut, 2007.

Anderson, Cory. 2018. “A Socio-Religious Introduction to the Apostolic Churches in North America.” Journal of Amish and Plain Anabaptist Studies 6(1):26-60.

Djurić-Milovanović, Aleksandra. 2010. “Conservative Neo-Protestants: Romanian Nazarenes in Serbia.” Occasional Papers on Religion in Eastern Europe 30(3).

Gratz, Delbert L. Bernese Anabaptists and their American descendants. Elverson, PA: Old Springfield Shoppe, 1994.

Pfeiffer, Joseph. 2018. “The Nineteenth Century Apostolic Christian Church: The Dynamics of the Emergence, Establishment, and Fragmentation of a Neo-Anabaptist Sect.” Journal of Amish and Plain Anabaptist Studies 6(1):1-25.

Rosa, Juliano. Igreja Apostólica Cristã da América. 2011.

Johann Tobias Beck

J. T. Beck (1804- 1878) foi um teólogo alemão notório por sua posição biblicista, realista e existencial.

Filho de uma família de classe média de Württemberg, estudou na Universidade de Tübingen de 1822 a 1826. Influenciado pelo pietismo radical e por Johann Albrecht Bengel; serviu como ministro em várias paróquias em Württemberg. Em 1836 passou a lecionar Universidade de Basel, mas em 1843 ele voltou para Tübingen.

Críticos dos hegelianos e das posições liberais e conservadoras teológicas de sua época, Beck era expoente de uma escola teológica própria. A Escola de Württemberg contrastava tanto com a escola crítica de Tübingen representada por Ferdinand Christian Baur quanto a escola historicista de F. Delitzsch e C. F. Keil. Para Beck, ambas eram demasiadamente especulativas.

A base para teologia não seria o “conhecimento especulativo” somente “conhecimento para a fé”. Qualquer coisa que não fosse biblicamente fundamentado não se qualifica como verdadeiro conhecimento de Deus. Ao invés de olhas as Escrituras como um objeto a ser examinado em seu contexto do passado histórico, Beck buscou encontrar nela a História de Salvação. Nisso, os eventos e testemunhos humanos que dariam origem ao texto bíblico canônico são irrelevantes à fé, pois o encontro do crente com esse plano divino na história documentada na Bíblia levaria à ação e paradoxos que forçariam a conhecer relacionamente a Deus. A razão humana ou a síntese feita pela Igreja poderiam até produzir ou não conhecimento verdadeiro, mas a exegese espiritual (pneumática) da Bíblia resulta da obra do Espírito Santo. Dessa forma, a teologia sistemática aos moldes da História de Salvação produzirá o conhecimento real de Deus.

Beck antecede muito da teologia dialética. Por exemplo, introduziu Søren Kierkegaard aos alunos em Tübingen e depois Karl Barth veria nele um interlocutor.

BIBLIOGRAFIA

Einleitung in das System der christlichen Lehre (1838, 2a ed. 1870)
Die christliche Lehrwissenschaft nach den biblischen Urkunden (1841)
Umriss der biblischen Seelenlehre (1871)
Christliche Reden (6 band, 1834-1870)
Leitfaden der christlichen Glaubenslehre (1869)
Christliche Liebeslehre (1872)
Erklärung der zwei Briefe Pauli an Timotheus (1879)
Pastorallehren nach Matthäus und der Apostelgeschichte (1880)
Vorlesungen über christliche Ethik (3 band, 1882-83)
Erklärung der Offenbarung Johannes 1–12 (1883)
Erklärung des Briefs an die Römer (1884)
Erklärung der Briefe Petri (1896)

Anselmo

Anselm da Cantuária (1033-1109) foi filósofo, teólogo e arcebispo medieval.

Nasceu perto de Aosta, na fronteira da Borgonha com a Lombardia. Aos 23 anos iniciou uma viagem de três anos aparentemente sem rumo até se estabelecer na Normandia em 1059. Entrou para abadia beneditina de Bec, sob direção de Lanfranc, um brilhante professor de dialética.

Mais tarde, Anselmo foi eleito abade de Bec e o transformo em um centro intelectual. Escreveu suas obras Monologion (1075–1076), Proslogion (1077–1078) e seus quatro diálogos filosóficos: De grammatico (c. 1059–1060), De veritate, De libertate arbitrii e De casu diaboli (1080–1086).

Em 1093, Anselmo foi nomeado arcebispo da Cantuária, a sé principal da Inglaterra. Quando Anselmo viajou a Roma em 1097 sem sua permissão, o rei William não permitiu seu retorno. Depois da morte do rei em 1100, seu sucessor, Henrique I, autorizou o retorno de Anselmo. Mas seria novamente exilado de 1103 a 1107.

Suas obras como arcebispo da Cantuária incluem a Epistola de Incarnatione Verbi (1094), Cur Deus Homo (1095–1098), De conceptu virginali (1099), De processione Spiritus Sancti (1102), a Epistola de sacrifício azymi et fermentati (1106– 1107), De sacramentis ecclesiae (1106–17) e De concordia (1107–8). Anselmo morreu em 21 de abril de 1109.

O pensamento de Anselmo provocou uma grande mudança teológica no ocidente. Na busca da comprensão de Deus como um ser, rompeu com a tradição apofática ao propor examinar a essência divina como um ser.

Seu método é primordialmente lógico-dedutivo. A lógica de Anselmo segue a recepção latina deAristóteles mediada por Porfírio e Boécio. Subscrevia ao realismo na questão dos universais, argumentando que os gêneros e as espécies não desapareceriam se afastados todas as suas instâncias.

Promoveu assim, o argumento ontológico para a razoabilidade da existência de Deus. Com base nos atributos divinos inferidos a priori e dedutivamente, revisitou a teoria do resgate da expiação. Propôs a doutrina da satisfação para o ato expiatório, pois considerava ímpia a noção de resgate como uma transação comercial paga a Satanás. Assim, justificou porque era necessário que Deus se tornasse humano para satisfazer a justiça divina, maculada pelo pecado original.

Desse modo, pode-se resumir o pensamento da teologia de Anselmo que Deus é o ser com os máximos atributos possíveis. Sendo o mais justo, teria que ter sua justiça divina satisfeita. Essa seria a razão pela qual Deus se tornou humano e morreu pelos pecados dos seres humanos. Pelo pecado, a humanidade ofendeu a honra de Deus, e a justiça de Deus exige satisfação por essa ofensa. Porém, somente alguém totalmente santo e puro poderia realizar essa satisfação do pecado. Por isso, Jesus Cristo foi Deus encarnado. Sua morte fiel permitiu satisfazer a necessidade divina por justiça.

A soteriologia forense e a noção de justiça de Anselmo foram concebidas em uma matriz cultural do direito franco-germânico medieval. Hasting Rashdall (1919) vê a soteriologia de Anselmo como um advogado lombardo em uma corte feudal.

Nesse ambiente cutural, Anselmo concebia a justiça de Deus de forma múltipla. A justiça divina, em um aspecto, seria distinguir o bem e o mal. Em outro aspecto, ontológico, a própria justiça de Deus como caráter próprio da divindade.

O argumento ontológico de Anselmo foi criticado pelo monge Gaunilo (século XI) com o exercício de pensamento da ilha perfeita. Se alguém imagina uma ilha perfeita, há de existir uma mais perfeita ilha, porém não correponde necessariamente a ilha existente e a imaginada. Nessa linha, Lutero, os reformadores radicais e, mais recentemente, Barth e a teologia não realista rejeitaram muito da teologia dos atributos, especialmente atributos a priori ou não revelados em Jesus Cristo como categorias lógicas arbitrárias.

O legado de Anselmo é notável na teoria da expiação vicária ou substituição penal desenvolvida por Lutero e Calvino.

BIBLIOGRAFIA

Anselmo. Proslogion.

Anselmo. Cur Deus homo

McGrath, Alister E. Iustitia Dei: a history of the Christian doctrine of justification. Cambridge University Press, 2005.

Rashdall, Hasting. The Idea of Atonement in Christian Theology. Londres: Macmillan, 1919.

Williams, Thomas, “Saint Anselm”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2020 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <https://plato.stanford.edu/archives/win2020/entries/anselm/&gt;.

Francescon. Circular de 1939

Circular emitida em 1939 por Louis Francescon. Esclarece questões sobre a controvérsia do consumo de sangue de 1925, a organização das igrejas da Itália e Brasil em 1929 e 1936. Salienta sua oposição contra organizações e autoridade supra igreja local.

https://zenodo.org/record/5196638#.YRaiF4gzY2w

Vito Nicola Moles

Vito Nicola Moles (também grafado Nicholas Moles) (1967-1944) foi um dos pioneiros do avivamento pentecostal de Chicago e Los Angeles, onde congregou em Azusa Street.

Nascido em Albano di Lucania, na Basilicata, Itália imigrou para Chicago. Algumas fontes inferem que já era evangélico antes de imigrar. É algo plausível, pois na sua região havia atividades da Igreja Livre, dos metodistas wesleyanos, batistas e da Igreja dos Irmãos ao menos desde a década de 1870. Em Chicago, tornou-se membro da First Italian Presbyterian Church.

Casou-se com Angelica DeGrazia, também originária da Basilicata, da aldeia de Calvello, com quem teve as filhas Carmela, Helen e Ruth. Mais tarde, já em Los Angeles, teriam os filhos John e Joshua.

O casal Moles acompanhou Francescon e outros crentes italianos ao batismo presidido por Giuseppe Beretta no Lake Front de Chicago em 1903. Teriam se batizado e participado das reuniões de culto domésticas.

Quando houve a cisão com o grupo de Beretta por causa da guarda do domingo, junto das famílias Francescon e DiCicco os Moles passaram a se reunir semanalmente para culto e santa ceia. No entanto, poucos meses depois os Moles se mudariam para Los Angeles em busca de melhores oportunidades.

Em Los Angeles Nicola Moles trabalhou como padeiro e depois abriu uma barbearia.

Quando em 1906 houve o avivamento de Azusa Street, suas filhas souberam e foram visitar a Missão de Azusa. Após alguns dias receberam os dons com sinais de falar em novas línguas. Seus pais passaram a acompanhá-las.

Carmela, Hellen e Ruth

Em Azusa encontraram outras crentes italianas: Annie Vienna Holmgren, Rosina Tanzola e suas filhas Angie e Jeannie.

Depois da conversão de mais crentes italianos, o grupo organizou cultos domésticos no verão de 1907. O lar dos Moles na Mozart Street, no coração da Little Italy de Los Angeles, se tornou uma casa de oração.

Um ano depois, quanto ocorreu o avivamento entre os italianos de Chicago, certamente os Moles se comunicaram com eles. Assim, nos finais de 1907 Rosina Moles veio a Los Angeles e no começo do ano seguinte vieram Louis Francescon e Giacomo Lombardi. Em suas memórias, então escritas em avançada idade, Francescon relembra essa passagem:

Em fins de Outubro [de 1907], o Senhor enviou minha esposa a Los Angeles, Cal., a fim de dar o testemunho da promessa à família do irmão N. Moles, que residia naquela cidade há cerca de um ano antes da manifestação do Espírito Santo, resultando assim, que também alguns deles foram selados e então se uniram com os irmãos Americanos que ali habitavam. (…) Em 15 de Julho, me veio encontrar em St. Louis, Mo, o irmão Lombardi e de lá partimos para a Califórnia, em princípios de Setembro. Ele voltou a Chicago para depois partir para Roma (Itália) onde diversos foram pelo Senhor chamados e eleitos para serem Suas testemunhas naquela nação. Eu fiquei em Los Angeles, e acolhi em casa do irmão N. Moles algumas irmãs italianas já salvas e batizadas com o Espírito Santo, nas Igrejas Americanas daquela cidade. Naquele tempo, o Senhor salvou o irmão Serafino Arena e família, além de outros e após tempos, o irmão S. Arena sentiu-se levar o testemunho na Sicília (Itália), onde foi bem sucedido. Em 3 de Março de 1909, voltei a Chicago.

Nessa época, com a bênção de William Seymour (conforme um antigo membro da Christian Assembly, C.G.) foi formada a Italian Pentecostal Mission, mais tarde renomeada Italian Christian Assembly. Inicialmente a casa de oração localizava-sa na esquina da 15th e San Pedro Streets. Depois mudaram para várias localizações até assegurar um local na 22nd Street.

Dada a ausência de outras igrejas pentecostais italianas na cidade, os crentes ocasionalmente congregavam e mantiveram comunhão com outros crentes americanos na Victoria Hall Assembly, pastoreada por Warren Fisher. Lá, mantiveram comunhão com outros expoentes do movimento, como William Seymour e Aimee McPherson.

A igreja italiana propagou-se organicamente. Depois da assistência de Francescon veio John Perrou para servir como ancião. Os Moles foram membros ativos dessa congregação e a viram crescer.

BIBIOGRAFIA

Arnold, Eric E. A History of the Christian Assembly Foursquare Church. 1979.

C. G.- Contato pessoal. Brasileiro membro da CCB que migrou a Los Angeles nos anos 1950 e foi por algum tempo membro da Christian Assembly.

Francescon, Louis. Fedele testimonianza. Chicago, 1954.

Domenico Fulginiti

Domenico Fulginiti (1884-1967) foi ministro do evangelho e pioneiro do pentecostalismo na Calábria.

Nos anos 1920 emigrou aos Estados Unidos onde se converteu em uma igreja pentecostal afro-americana em Reading, Pennsylvania.

Sem conhecer o movimento pentecostal italiano originário de Chicago, retornou à Itália onde deu iníciou a um núcleo de crentes em Gasperina, Calábria, em 1926.

Depois de um período novamente nos Estados Unidos, retornou definitivamente à Itália. Mas em 1935, dada a perseguição fascista aos crentes pentecostais, foi preso.

Depois da liberação da Itália, continuou a evangelizar. Igrejas em Gasperina, San Vito sullo Jonio e Satriano eram atendidas por ele. Em outras localidades teve início a Obra por crentes que ele evangelizou.

Em 1944 entrou em contato com outros crentes da Itália e ele e as igrejas que ele atendia se uniram ao movimento pentecostal italiano.

Em seu ministério foi instrumental na conversão da família de Giuseppe Manafò, depois dirigente da Igreja Pentecostal Italiana de Montreal, e de Guido Scalzi, autor e ministro ítalo-americano.