Nicolau Clenardo

Nicolau Clenardo (Nicolaus Clenardus; neerlandês: Nicolaes Cleynaerts) (1493–1542) foi um humanista, gramático, hebraísta, helenista e orientalista belga, associado ao movimento do humanismo renascentista nos Países Baixos e na Península Ibérica.

Recebeu formação na Universidade Velha de Lovaina, onde mais tarde se tornou professor de latim. Desde cedo manifestou interesse pelas línguas orientais, em especial pelo árabe, motivado pelo desejo de ler o Alcorão no original e investigar as relações entre o hebraico e o árabe no contexto das línguas semíticas. Com esse objetivo, viajou para a Espanha em 1532, onde também lecionou grego em Salamanca.

Em 1533, foi convidado para a corte portuguesa como tutor de D. Henrique, irmão de D. João III. Permaneceu em Portugal até 1538, período no qual se destacou como pedagogo. Em Braga, fundou o Colégio Latino, estruturado segundo métodos didáticos inovadores, alinhados com os princípios humanistas de ensino das línguas clássicas.

Entre suas obras, destaca-se Institutiones Grammaticae Latinae (1551), manual amplamente utilizado no ensino do latim nos séculos seguintes, embora publicado postumamente. Sua produção reflete a preocupação com métodos eficazes de aprendizagem linguística, característica central do humanismo pedagógico.

Após deixar Portugal, em 1540, Clenardo dirigiu-se ao Norte da África, onde buscou aprofundar seus estudos de árabe e empreender esforços missionários entre populações muçulmanas. Essas tentativas de conversão ao cristianismo integravam seu projeto intelectual mais amplo, que combinava filologia, teologia e contato direto com o mundo islâmico.

Urias, filho de Semaías

Urias, filho de Semaías (hebraico: אוריהו בן שמעיהו Ûriyyāhû ben-Šĕmaʿyāhû), foi um profeta de Judá, natural de Quiriate-Jearim, ativo durante o reinado de Jeoaquim, entre 608 e 598 a.C. É mencionado apenas em Jeremias 26:20–23, o único texto bíblico que preserva sua história. Aparece como contemporâneo de Jeremias e portador da mesma mensagem: o anúncio da destruição iminente de Jerusalém e de sua terra.

Ao saber que Jeoaquim pretendia matá-lo, Urias fugiu para o Egito. O rei enviou uma missão chefiada por Elnatã, filho de Acbor, que o trouxe de volta a Jerusalém. Jeoaquim ordenou sua execução por espada e determinou que seu corpo fosse lançado nas sepulturas do povo comum, gesto que indicava desonra e tentativa de apagar sua memória.

O episódio funciona como contraponto à sobrevivência de Jeremias, que contou com a proteção de Aicão, filho de Safã. Ambos proclamaram a mesma mensagem, mas tiveram destinos distintos em razão de sua posição nas redes de poder da corte. O caso de Urias constitui o único relato detalhado de execução de um profeta por um rei de Judá no período pré-exílico e indica a existência de uma presença judaica no Egito antes de 587 a.C.

Tom Gregg

Tom Greggs é um teólogo sistemático britânico, professor de Divindade Marischal na Universidade de Aberdeen e diretor do Center of Theological Inquiry, em Princeton. Nascido em Liverpool, foi o primeiro membro de sua família a prosseguir estudos além dos 16 anos. Inicialmente, orientou sua formação para o ministério metodista.

Estudou teologia no Christ Church, em Oxford, e concluiu o doutorado no Jesus College, em Cambridge, sob a orientação de David Ford. Em 2019, foi eleito membro da Royal Society of Edinburgh.

Entre suas principais obras estão Barth, Origen, and Universal Salvation, publicado pela Oxford University Press em 2009, e The Breadth of Salvation, publicado pela Baker em 2020. Sua produção acadêmica situa-se no campo da teologia sistemática, com ênfase na tradição pós-barthiana, no universalismo cristão e na eclesiologia protestante.

Pagãos

Pagão refere-se, na Antiguidade Tardia e Idade Média, aos não monoteístas. O termo paganus como categoria religiosa oposta aos cristãos ou judeus é, ele mesmo, uma construção tardia e de origem disputada. O uso religioso surge repentinamente entre 360 ​​e 420 d.C., sem antecedentes claros em escritores cristãos anteriores.

A hipótese mais difundida, associada ao interior rural (pagus), sustenta que os cultos tradicionais passaram a ser identificados com o campesinato à medida que as cidades se cristianizaram, especialmente após o Édito de Tessalônica (380 d.C.). Entretanto, essa etimologia é contestada. Alan Cameron e outros argumentam que paganus derivava de seu sentido de “civil, não-militar”. Os cristãos se autoidentificavam como milites Christi, e os não-convertidos seriam os pagani, os que não haviam se alistado na milícia de Cristo. Cameron observa que, embora a etimologia “civil versus militar” (apoiada por Harnack) apresente problemas cronológicos, ela deveria ter surgido antes se Tertuliano (que usa paganus apenas para se referir a “civil” em De corona militis 11) conhecesse o sentido religioso. Qualquer que seja a origem exata, usá-lo retroativamente para o século I impõe uma fronteira que simplesmente não existia com essa nitidez no período neotestamentário, distorcendo o ambiente em que os textos foram produzidos.

O que havia no século I era um espectro religioso extraordinariamente poroso. As categorias “judaísmo”, “cristianismo” e “paganismo” são construções retrospectivas, não realidades dos primeiros séculos. Daniel Boyarin propôs um continuum no qual rabinismo e cristianismo emergiram em tensão, definindo fronteiras por meio da heresiologia. Justino Mártir, Eusébio e os rabinos produziram tais limites a partir do século II d.C. Judith Lieu mostrou que a identidade cristã foi performativa e instável, marcada por práticas ambíguas. Esse entendimento historiográfico produziu evidências contra James Dunn e seu The Partings of the Ways, demonstrando que distinção das identidades religiosas foi tardia, local e muitas vezes incompleta. As categorias de identidades religiosas que tendemos a tratar como mutuamente exclusivas (judaísmo, helenismo, religiões locais e greco-romana) estavam em interpenetração constante.

Fílon de Alexandria (c. 20 a.C.–50 d.C.) é talvez o caso mais eloquente. Era um judeu da elite aristocrática de Alexandria. Seu irmão Alexandre Lisímaco era alabarca e seu sobrinho Tibério Júlio Alexandre chegaria a prefeito romano do Egito. Fílon leu o Pentateuco inteiramente por meio de Platão e dos estoicos, produzindo uma síntese tão sofisticada que a patrística posterior a citou como autoridade teológica. Fílon não estava se sujeitando ao helenismo. Simplesmente, em seu ambiente cultural a Torá que a filosofia grega havia coxistiam sem fricção.

A tradução da Septuaginta já é em si um ato de síntese. Os tradutores alexandrinos escolheram Kyrios para o Tetragrama e Theos para Elohim, escolhas que carregavam todo o peso semântico da teologia grega do divino. Deve-se notar, contudo, que a substituição sistemática do nome divino por Kyrios pode ser um desenvolvimento posterior da tradição manuscrita. Fragmentos como o Papiro Fouad 266 (século I a.C.) preservam o Tetragrama em caracteres hebraicos embutido no texto grego, sugerindo que essa substituição se consolidou gradualmente, sobretudo em contexto cristão, em sinal de aceitação das categorias religiosas helenísticas. O resultado foi uma Bíblia que, como argumenta Timothy Michael Law em When God Spoke Greek (2013), moldou a teologia cristã de modo às vezes mais determinante do que o texto hebraico.

No sentido inverso, a permeabilidade é igualmente documentada. Os theosebeis, os chamados “tementes a Deus”, eram gentios que frequentavam sinagogas, observavam elementos da lei judaica, praticavam o monoteísmo e participavam da vida comunitária judaica sem necessariamente passar pela conversão formal. Atos os menciona repetidamente como audiência privilegiada de Paulo (At 10, 13, 17). Aparecem na inscrição de Afrodísias descoberta em 1976 e publicada criticamente por Joyce Reynolds e Robert Tannenbaum em 1987.

Os hipsistários (Hypsistarians) eram adoradores do Hypsistos, o “Altíssimo”. sSão outro exemplo que invalida qualquer uma categoria rígida ‘de ‘paganismo’. Em sua religião havia monoteísmo, práticas judaicas como o Shabat e a rejeição de imagens, em expressões religiosas greco-romano, sem se identificarem plenamente com nenhuma das tradições. Gregório de Nazianzo, no Discurso 18, menciona que seu próprio pai pertencera a esse grupo antes de se converter ao Cristianismo. O estudo de referência sobre a evidência epigráfica e literária desses grupos é o de Stephen Mitchell (“The Cult of Theos Hypsistos”, 1999).

O estoicismo popular havia produzido no século I uma ética e uma teologia que convergiam em pontos significativos com o monoteísmo abraâmico. Havia a ideia de um logos divino que permeia o cosmos, a fraternidade universal dos homens como filhos de Zeus, a rejeição da riqueza material e a prioridade da virtude interior. Sêneca (c. 4 a.C.–65 d.C.) é contemporâneo direto de Paulo; Epicteto (c. 50–135 d.C.) pertence à geração seguinte; Marco Aurélio (121–180 d.C.) é mais tardio, contemporâneo dos patrística apologista. As semelhanças entre Sêneca e Paulo foram suficientemente impressionantes para que circulasse na Antiguidade uma correspondência apócrifa entre os dois (mencionada por Jerônimo e Agostinho) embora se trate de um pseudepígrafo provavelmente composto no século IV.

A influência do helenismo sobre a literatura rabínica é reconhecido. Saul Lieberman, em Greek in Jewish Palestine (1942) e Hellenism in Jewish Palestine (1950), documentou a extensão do conhecimento de retórica e filosofia grega entre os rabinos. Estudos mais recentes, como os de Maren Niehoff (Philo of Alexandria: An Intellectual Biography, 2018), mostram que categorias hermenêuticas rabínicas apresentam paralelos estruturais tanto com os procedimentos da exegese alegórica alexandrina quanto com a cultura retórica da Segunda Sofística. Hidary demonstrou as dívidas do Talmude à essas duas fontes distintas. A distinção entre essas duas correntes de influência demonstra também que “influência helênica” como se fosse um fenômeno monolítico.

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