Salvador

Salvador, em grego sōtēr (Σωτήρ), aquele que resgata ou restaura. O nome Jesus (yeshua’, “Yahweh salva”) denota esta função.

Na Septuaginta, especialmente nos Salmos, Deus é chamado de salvador (Sl 62:7 [LXX Sl 61:7]; Sl 65:5 [LXX Sl 64:6] Sl 95:1-3, LXX Sl 94:1-3.

No Novo Testamento, Jesus Cristo é chamado de “Salvador” (sōtēr). Contudo, aparece raramente nos Evangelhos e Atos (Lc 1:47; 2:11; João 4:42; Atos 5:31; 13:23), mas é aludido assim nas epístolas gerais e pastorais. Aplica-se a Jesus e a Deus indistintamente (Tt 1:3-4).

Theodora Suk Fong Jim (2022) demonstra que, na Grécia antiga, sōtēr denotava salvação concreta (sōtēria): resgate de perigos físicos, preservação cívica e retorno seguro, concedido a deuses (Zeus Soter, Athena Soteira), heróis e reis helenísticos por atos específicos, sem conotações espirituais ou escatológicas. No Calendário de Priene, César Augusto é enviado como um “salvador” e seu reinado é chamado de “evangelho para o mundo.”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CULLMANN, Oscar. The Christology of the New Testament. 1. ed. Filadélfia: Westminster Press, 1959. p. 238.

JIM, Theodora. S. F. Saviour gods and soteria in ancient Greece. Oxford: Oxford University Press, 2022.

Eclética

Eclética, Eclecte, Eklektē (Ἐκλεκτῇ) ou a Senhora Eleita refere-se à destinatária da Segunda Epístola de João.

Durante séculos, a identidade dessa figura foi debatida entre uma interpretação metafórica, que a via como uma personificação de uma igreja local, e uma interpretação literal, que a identificava como uma mulher cristã específica.

Estudos recentes de Lincoln H. Blumell sugerem que a omissão de duas letras repetidas em manuscritos antigos transformou o nome próprio Ecletica em um adjetivo comum. Enquanto as edições contemporâneas do Novo Testamento imprimem o texto como eklektē kyria (“à senhora eleita”), evidências em papiros e manuscritos como o Codex Sinaiticus e o Codex Alexandrinus indicam que a leitura original seria Eklektē tē kyria (“à senhora Eclecte”). No Codex Sinaiticus, por exemplo, a nota final da carta identifica-a como a “Segunda de João para Eclecte”, reforçando a tese de uma destinatária individual e não de uma metáfora eclesiástica.

A análise onomástica confirma que Ecletica era um nome feminino comum no período greco-romano, aparecendo em inscrições de nomes e sendo mais comum do que outros nomes de mulheres mencionados no Novo Testamento. Historicamente, Clemente de Alexandria já afirmava que a carta fora escrita a uma “mulher babilônica chamada Eclecte”, embora ele interpretasse o nome também como um símbolo da eleição da igreja.

A restauração do endereço original da carta para “à senhora Ecletica” alinha-se perfeitamente com a estrutura de 3 João, endereçada a Gaio, e com os padrões de correspondência pessoal da Antiguidade.

Essa identificação resgata uma figura de liderança feminina no cristianismo primitivo. Ecletica provavelmente era uma influente líder de uma igreja doméstica, responsável por hospedar a comunidade e protegê-la de falsos profetas, conforme o tema central da epístola. A estrutura da carta a ela endereçada espelha a Terceira Epístola de João, enviada a Gaio, o que reforça o caráter pessoal e histórico do documento em vez de uma ficção literária.

BIBLIOGRAFIA

Blumell, Lincoln H. Lady Eclecte: The Lost Woman of the New Testament. Minneapolis: Fortress Press, 2025.

Brown, Raymond E. The Epistles of John: A New Translation with Introduction and Commentary. Anchor Bible 30. New York: Doubleday, 1982.

Bultmann, Rudolf. The Johannine Epistles: A Commentary on the Johannine Epistles. Traduzido por R. P. O’Hara. Hermeneia Commentary Series. Philadelphia: Fortress, 1973.

Klauck, Hans-Josef. Der zweite und dritte Johannesbrief. Evangelisch-katholischer Kommentar zum Neuen Testament XXIII/2. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1992.

Lieu, Judith M. I, II, & III John: A Commentary. New Testament Library. Louisville: Westminster John Knox Press, 2008.

Lieu, Judith M. . The Second and Third Epistles of John: History and Background. Studies of the New Testament and Its World. Edinburgh: T&T Clark, 1986.

Metzger, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament. 2ª ed. Stuttgart: German Bible Society, 1994.

Westcott, Brooke F. The Epistles of St. John: The Greek Text with Notes and Essays. Londres: Macmillan, 1883.

As Sete Petições de Elias

O Sheva Elijjahu (As Sete Petições de Elias) é um encantamento baseado em orações litúrgicas, encontrado na Geniza do Cairo. Seu título é atribuído a Elias, mas a obra em si é uma coleção de material litúrgico e mágico com paralelos na literatura Hekhalot e outros encantamentos antigos. Embora o manuscrito específico date do século XI d.C., a idade exata de sua composição é incerta. A obra consiste em várias orações ou hinos de louvor, cada um com elementos de encantamento com o nome de Elias para fins mágicos e litúrgicos.

Torre de Siloé

A Torre de Siloé é mencionada exclusivamente no Evangelho de Lucas 13:4, quando Jesus a utiliza como exemplo em seu ensino sobre arrependimento e sofrimento.

Localizava-se em Jerusalém, provavelmente perto do Tanque de Siloé no sudeste da Cidade de Davi, uma área associada à fonte de Giom, vital para o abastecimento de água.

No relato, Jesus se refere a um evento trágico recente: “Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” (Lucas 13:4-5, ARC).

A estratégia retórica empregada por Jesus era não de explicar a causa da tragédia, provavelmente vista como uma punição divina por pecados específicos das vítimas. Assim, refuta essa crença, desassociando a calamidade do infortúnio individual e direcionando a atenção de todos para a urgência do arrependimento universal diante da fragilidade da vida e da morte iminente. A queda da torre, um acidente sem inimigos ou interesses políticos, ilustra a condenação geral e da necessidade de salvação.

A arqueologia na área revelou ruínas poderiam ser a base de uma torre, circular e com aproximadamente seis metros de diâmetro, o que poderia corroborar a existência de tal estrutura. O evento da Torre de Siloé, juntamente com o massacre de galileus por Pilatos (Lucas 13:1-3), demonstra a postura crítica de Jesus contra a ideologia que criminalizava as vítimas de tragédias, além do tema lucano na necessidade de conversão imediata para evitar a perdição eterna.

BIBLIOGRAFIA
Buchanan, G. W. (2003). The Tower of Siloam. The Expository Times, 115(2), 37-45. https://doi.org/10.1177/001452460311500201

Supralapsarianismo e infralapsarianismo

O supralapsarianismo e o infralapsarianismo representam uma distinção interna e historicamente debatida dentro da visão da eleição pretemporal, particular e incondicional (calvinismo clássico). Ambas as posições concordam nos princípios centrais dessa doutrina, mas divergem na ordem lógica dos decretos eternos de Deus, especificamente em relação à Queda (o lapsus).

A questão central que procuram responder é: na ordem lógica dos decretos de Deus, o decreto de eleger e reprovar veio antes (supra) ou depois (infra) do decreto de permitir a Queda?

O infralapsarianismo (“depois da queda”) é a visão mais comum e historicamente dominante no calvinismo (adotada pelo Sínodo de Dort, por muitos puritanos e teólogos de Princeton).

Ordem lógica dos decretos

  1. Decreto de criar o mundo e a humanidade.
  2. Decreto de permitir a Queda da humanidade no pecado. (Neste ponto, Deus logicamente vê a humanidade como criada e caída).
  3. Decreto de eleger alguns pecadores caídos para a salvação em cristo (deixando os demais em sua justa condenação).
  4. Decreto de prover a salvação para os eleitos através da expiação de cristo.
  5. Decreto de aplicar a salvação aos eleitos pelo espírito santo.

O infralapsarianismo enfatiza a justiça da reprovação (o ato de não eleger). A escolha de Deus de salvar alguns é vista como um ato de pura misericórdia para com pecadores já culpados. Sua escolha de preterir (deixar de lado) os não eleitos é um ato de justiça, pois Ele os deixa no estado de pecado e condenação que incorreram justamente por causa da Queda.

O objeto da eleição/reprovação é a humanidade caída (massa corrupta ou massa damnata).

Já o supralapsarianismo (“antes da queda”) é uma visão menos comum e mais radical, que coloca a escolha soberana de Deus no absoluto primado. Foi defendida por teólogos como Theodore Beza e Franciscus Gomarus.

A ordem lógica dos decretos

  1. Decreto de eleger alguns indivíduos para a salvação e reprovar outros. (Este é o propósito primeiro e supremo).
  2. Decreto de criar o mundo e esses indivíduos (tanto eleitos quanto reprovados).
  3. Decreto de permitir a Queda como o meio pelo qual a distinção entre eleitos e reprovados se manifesta.
  4. Decreto de prover a salvação para os eleitos por meio de cristo.
  5. Decreto de aplicar a salvação aos eleitos pelo espírito.

O supralapsarianismo enfatiza a soberania absoluta de Deus. A eleição e a reprovação são o propósito último de todas as coisas, incluindo a criação e a queda. A Queda não é uma condição à qual Deus reage, mas um meio que Ele ordena para manifestar Sua glória, tanto em misericórdia quanto em justiça.

O objeto da eleição/reprovação são os indivíduos não criados e não caídos (considerados meramente como possibilidades na mente de Deus). O ato de reprovação é visto de forma mais ativa (predamnation), sendo um decreto positivo para a glória de Deus.

BIBLIOGRAFIA

Muller, Richard A. Christ and the Decree: Christology and Predestination in Reformed Theology from Calvin to Perkins. Reprint, Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008.

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