Bernard Sesboüé

Bernard Sesboüé (1929-2021) foi um teólogo francês na área de teologia dogmática e da patrologia, além de padre jesuíta e foi bispo auxiliar da Arquidiocese de Paris.

Sesboüé foi um autor prolífico, publicando vários livros sobre teologia, incluindo “A Ressurreição e a Vida”. Sua teologia concentrava-se na fé cristã, particularmente no contexto das últimas coisas, incluindo a morte, o julgamento, o céu, o purgatório e o inferno, a parte da escatologia que na tradição católica se chama de novíssimo. Discorreu extensivamente sobre ressurreição do corpo e do retorno de Cristo.

Sesboüé explorou o papel dos ministros eclesiais leigos na Igreja Católica Romana, considerando as implicações do seu surgimento no contexto dos ensinamentos do Vaticano II sobre a colegialidade e a eclesiologia da communio. Reconheceu a necessidade de a Igreja se adaptar às novas circunstâncias. Foi membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano e o seu envolvimento na Companhia de Jesus.

Sinodalidade

A sinodalidade, conceito teológico e eclesial que denota o caminhar conjunto do povo de Deus, encontra suas raízes etimológicas no grego syn-hodos, significando “caminhar juntos” ou “jornada em comum”. Este termo descreve uma dinâmica fundamental da Igreja como comunhão (koinonia), participação e missão, onde os diversos membros do corpo eclesial, sob a guia do Espírito Santo, discernem e atuam colaborativamente.

Embora a terminologia precisa seja de desenvolvimento posterior, as Escrituras Sagradas, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, apresentam narrativas e princípios que fundamentam a prática sinodal. No Antigo Testamento, a experiência de Israel como povo da aliança revela momentos de assembleia, consulta e decisão comunitária, como nas grandes congregações diante de Deus e na liderança compartilhada por Moisés com os anciãos. As reuniões tribais (Êxodo 18; Deuteronômio 31) refletem um processo deliberativo que integra liderança e participação coletiva. As tradições proféticas e sapienciais também ecoam a importância do conselho e do discernimento coletivo na busca pela vontade divina.

No Novo Testamento, a sinodalidade manifesta-se na colegialidade apostólica (Gálatas 2:1-10) e na interdependência das comunidades paulinas (1 Coríntios 12). Também no Novo Testamento ocorre o paradigma mais explícito para a sinodalidade no chamado Concílio de Jerusalém, narrado em Atos dos Apóstolos, capítulo 15. Diante de uma questão crucial para a missão da Igreja primitiva – a inclusão dos gentios e a observância da Lei mosaica – os apóstolos e presbíteros se reuniram em Jerusalém, com a participação da comunidade. O processo incluiu escuta atenta de diferentes perspectivas, como os testemunhos de Pedro, Paulo e Barnabé, e a intervenção de Tiago, que propôs uma solução baseada nas Escrituras e na ação do Espírito Santo. A decisão, comunicada por carta às igrejas, foi fruto de um discernimento comum, afirmando que pareceu bem “ao Espírito Santo e a nós”. Este evento é frequentemente citado como um modelo de deliberação eclesial, onde a diversidade de dons e ministérios converge para uma decisão que visa a unidade e o bem da missão.

Ademais do Concílio de Jerusalém, outros elementos neotestamentários sustentam uma eclesiologia sinodal. A colegialidade apostólica, a importância do testemunho mútuo, a prática da consulta em questões comunitárias, como a escolha de Matias em Atos 1 ou a instituição dos Sete em Atos 6, e a compreensão paulina da Igreja como Corpo de Cristo, onde cada membro possui dons (carismas) para a edificação comum (1 Coríntios 12), são expressões dessa dinâmica participativa. A autoridade na Igreja primitiva não era exercida de forma isolada, mas em comunhão e com vistas ao serviço, refletindo a própria natureza trinitária de Deus como comunhão de Pessoas. A escuta do Espírito Santo, protagonista da vida e missão da Igreja, permeia esses processos de decisão e orientação.

A prática sinodal, inspirada nesses fundamentos bíblicos, desenvolveu-se ao longo da história da Igreja, manifestando-se nos concílios ecumênicos e sínodos locais, que foram cruciais para a formulação doutrinária, a disciplina eclesiástica e a resposta aos desafios pastorais. A sinodalidade, portanto, não é meramente um procedimento, mas uma expressão da própria natureza da Igreja como povo peregrino, chamado a discernir coletivamente os caminhos do Evangelho em cada tempo e lugar, fomentando a corresponsabilidade de todos os batizados na vida e missão eclesial. Este caminhar conjunto, radicado na escuta da Palavra de Deus e na abertura ao Espírito, continua a ser um princípio vital para a fidelidade da Igreja à sua vocação.

BIBLIOGRAFIA
Burns, J.H., and Thomas M. Izbicki, editors. Conciliarism and Papalism. Cambridge University Press, 1997.

Franks, Angela. “Christ as the Way of Synodality.” The Thomist: A Speculative Quarterly Review 87.2 (2023): 255-270.

Vondey, Wolfgang. “Synodality and Charisms: A Pentecostal Perspective on Hierarchical and Spiritual Gifts in the Life and Mission of the Church”. Theological Studies, 2024.

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Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher

Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768–1834) ocupa uma posição singular na história intelectual moderna. Teólogo protestante, filósofo e filólogo alemão, marcou o início da teologia liberal, da hermenêutica e, em campos seculares, da teoria da tradução.

Na teologia, Schleiermacher buscou reconciliar o cristianismo com a crítica iluminista sem reduzir a religião à moral ou à metafísica. Em Über die Religion: Reden an die Gebildeten unter ihren Verächtern (Sobre a religião: discursos aos seus desprezadores cultos, 1799), definiu a religião como um sentimento imediato de dependência absoluta (das schlechthinnige Abhängigkeitsgefühl, “sentimento de dependência absoluta”) diante do infinito. A religião não seria, primariamente, um sistema de doutrinas, mas uma forma específica de consciência e experiência vivida no interior de uma comunidade.

Esse deslocamento do dogma para a experiência influenciou a teologia liberal e os estudos da religião. Ao mesmo tempo, revelou um traço constante de seu pensamento: a centralidade da compreensão (Verstehen, “compreensão”) como um processo situado, histórico e mediado pela linguagem.

Na hermenêutica, Schleiermacher propôs uma teoria geral da compreensão, válida não apenas para textos bíblicos ou jurídicos, mas para toda produção discursiva. Interpretar envolve, segundo ele, duas dimensões inseparáveis: a gramatical, voltada para a língua e suas regras, e a psicológica ou técnica, voltada para o autor, seu contexto e sua intenção.

A compreensão opera no interior do chamado círculo hermenêutico: entende-se o todo a partir das partes e as partes a partir do todo. Não se trata de um vício lógico, mas da própria condição da compreensão. Esse modelo influenciou a filosofia hermenêutica posterior, de Dilthey a Gadamer.

Atualizado em 18 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é biblista e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


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Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher. Círculo de Cultura Bíblica, 2021. Disponível em: https://circulodeculturabiblica.org/2021/01/18/friedrich-daniel-ernst-schleiermacher/. Acesso em: 18 jan. 2026.

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