Teoria da satisfação

A doutrina da satisfação para a obra de reconciliação de Jesus Cristo postula qu por sua a vinda e morte pecados foram expiados porque, mesmo que a honra de Deus tenha sido ofendida pelo pecado, Cristo pagou pelos pecadores essa satisfação.

Proposta originalmente pelo teólogo medieval Anselmo em reação à doutrina do resgate da expiação. Anselmo considerava ímpia a noção de resgate como uma transação comercial paga a Satanás. Assim, a teoria da satisfação explicava porque era necessário que Deus se tornasse humano para satisfazer a justiça divina, maculada pelo pecado original.

Pode-se resumir o pensamento da teologia de Anselmo que Deus é o ser com os máximos atributos possíveis. Sendo o mais justo, teria que ter sua justiça divina satisfeita. Essa seria a razão pela qual Deus se tornou humano e morreu pelos pecados dos seres humanos. Pelo pecado, a humanidade ofendeu a honra de Deus. Por isso, a justiça de Deus exige satisfação por essa ofensa. Porém, somente alguém totalmente santo e puro poderia realizar essa satisfação do pecado. Por isso, Jesus Cristo foi Deus encarnado. Sua morte fiel permitiu satisfazer a necessidade divina por justiça.

Nas sociedades urbanas e no direito civil contemporâneo ocidental não é algo corrente pensar em honra e satisfação. A soteriologia forense e a noção de justiça de Anselmo foram concebidas em uma matriz cultural do direito franco-germânico medieval. Por esse motivo, Hasting Rashdall (1919) vê a soteriologia de Anselmo como a atuação de um advogado lombardo em uma corte feudal.

Na sociedade feudal, um ofensor era obrigado compensar ou dar uma satisfação ao ofendido de acordo com o status dessa pessoa. Assim, um crime contra um rei exigiria mais satisfação do que um crime contra um barão ou um servo. Por analogia, a humanidade finita e falha jamais poderia satisfazer a Deus Todo-poderoso. Ela somente poderia esperar apenas a morte eterna. O único meio de reconciliar a humanidade com Deus, portanto, só poderia ser via alguém que fosse tanto Deus – porque Deus poderia vencer o pecado pela impecabilidade – quanto humano – porque os humanos eram culpados de pecado.

Nesse ambiente cutural, Anselmo concebia a justiça de Deus de forma múltipla. A justiça divina, em um aspecto, seria distinguir o bem e o mal. Em outro aspecto, ontológico, a própria justiça de Deus seria o caráter próprio da divindade.

A teoria da satisfação ganhou força entre os escolásticos e depois entre os reformadores, principalmente com a doutrina da imputação da justiça em Lutero e na teoria da substituição penal de Calvino.

BIBLIOGRAFIA

Anselmo. Cur Deus homo? 1099.

Rashdall, Hasting. The Idea of Atonement in Christian Theology. Londres: Macmillan, 1919.

Teoria da influência moral

A teoria da influência moral é uma doutrina subjetiva da reconciliação para explicar o motivo da obra redentora de Cristo e por qual meios ela altera a humanidade.

Por essa doutrina, a justiça de Deus é igual a seu amor. Como o pecado é uma ofensa produzida contra essa justiça e amor, Deus dispensou sua graça para reparar o pecador. Como Deus possui um infinito amor pela humanidade, perdoa os pecados sem exigir punição ou penitência. Deus desperta o amor da humanidade ao enviar Jesus como exemplo obediente de amor. Como o amor deixaria de ser amor se fosse forçado, a obra de ensinos e obediência até a morte de Cristo incutiu o amor a Deus na humanidade.

Os textos bases para essa teoria são João 15:13, 1 Pedro 2:21 e 1 João 2:6.

Originalmente a teoria da influência moral foi proposta pelo teólogo medieval francês Pedro Abelardo. Ele rejeitou a ideia da morte de Jesus como um resgate pago ao Diabo, que atribuía poderes divinos a um oponente maligno. Ele também se opôs à teoria da satisfação de Anselmo de que a morte de Jesus seria uma dívida paga à honra de Deus.

“A nossa redenção está, portanto, naquele amor supremo despertado em nós pela paixão de Cristo, amor que não só nos liberta da escravidão do pecado, mas também nos torna participantes da verdadeira liberdade dos filhos de Deus, para que façamos todas as coisas não por medo mas por amor Àquele que nos concedeu tão grande graça”.

Abelardo. Ad Romanos 2:22

Uma perspectiva relacionada, mas que não deve ser confundida, é a “teoria do exemplo moral”, desenvolvida por Faustus Socinus. Enquanto a teoria do exemplo moral a salvação resulta da imitação das obras e seguir os exemplos de Cristo, a teoria da influência moral postula que a obra reconciliatória de Cristo compele o ser humano pecador, pelo Espírito Santo, a amar a Deus e a fazer obras de justiça. Variantes da teoria da influência moral podem ser encontradas em Friedrich Schleiermacher (1768-1834), Horace Bushnell (1802-1876) e entre os reformados holandes Herman Wiersinga (1927 –2020) .

Raramente lido em seus próprios termos e em seu método dialético, a teoria de influência moral de Abelardo tende a ser representada de forma caricata. Uma das representações distorcidas ocorre principalmente tornar a morte de Cristo sendo um mero exemplo. No entanto, Aberlardo enfatiza que Cristo morreu por causa de nossos pecados porque realmente cometemos essas transgressões. Como um dos primeiro proponentes do intencionalismo da vontade, Abelardo dizia que a fé (a confiança) nesse amor de Deus mediante a influência moral de Cristo possibilitaria alinhar o arbítrio da pessoa com a intenção amorosa de Deus. Assim, o ser humano redimido desviaria-se da intenção de pecar e seria conduzido pelo amor a Deus.

Uma crítica à teoria da influência moral é que não explica o motivo para a vinda e morte de Cristo, pois qualquer mártir poderia despertar tal amor por Deus.

BIBLIOGRAFIA

Barclay, William. The Plain Man Looks at the Apostles’ Creed. Glasgow: William Collins Sons & Co., 1979.

Finlan, Stephen. Salvation Not Purchased: Overcoming the Ransom Idea to Rediscover the Original Gospel Teaching. Eugene: Cascade Books, 2020.

Pedro Abelardo. Expositio in Epistolam ad Romanos.

Rashdall, Hasting. The Idea of Atonement in Christian Theology. Londres: Macmillan, 1919.

Dicta probantia

Dicta probantia ou método de leitura de provas é uma prática e técnica de interpretação bíblica que infere doutrinas a partir de versos isolados.

Enquanto a prática de citar isoladamente as Escrituras sempre existiu, como uma técnica ganhou corpo durante a Reforma a popularização das edições impressas com divisão de capítulos e versos da Bíblia.

Cada versículo lido isoladamente como um artigo em uma legislação ou um verbete de dicionário para provar um ponto de vista ou atender uma necessidade prévia.

A dicta probantia se tornou tão popular na escolástica protestante ou confessionalismo a partir do final do século XVI até os meados do século XVIII.

BIBLIOGRAFIA

Allen, Michael; Swain, Scott R. “In defense of proof-texting”. Journal of the Evangelical Theological Society (JETS). Vol. 54, n.3 set. 2011.

Quenezeu

Família ou povo de significado incerto. Está entre os povos que Deus prometeu a Abraão que os israelitas desapropriariam (Gn 15:19). Os quenezeus viviam no Negebe, região desértica ao sul de Judá, antes da conquista dos israelitas. A tribo de Judá absorveu alguns dos quenezeus como Calebe e Otniel, enquanto Edom absorveu outros. Os quenezeus talvez fossem aparentados dos queneus, compartilhando a metalurgia (1 Crônicas 4:13-14).

O nome provavelmente deriva seu nome de Quenaz – um descendente de Esaú (Gn 36:11, 15) – e chefe dos edomitas (Gn 36:42). Jefoné, o quenezeu, pode ter se casado com uma mulher da tribo de Judá. Seu filho era Calebe (Nm 32:12; Js 14:6, 14; 15:13) e Otniel é chamado de filho de Quenaz.

Pontos de Doutrina: 5. Salvação

Uma exposição bíblica do artigo 5° dos Pontos de Doutrina e de Fé, a respeito da salvação.

Gasparo Contarini

Cardeal Gasparo Contarini (1483 -1542) foi um diplomata e bispo italiano de Belluno. Foi membro da comunidade dos Spirituali, simpatizadores da reforma italiana.

Em 1511, durante um período de crise interior, Contarini chegou à convicção de que a humanidade é justificada diante de Deus pela fé, não pelas obras. Chegou de modo independente a tal posição, quase contemporânea a outros reformadores como Lutero e Zwingli, após um confessor garantir-lhe que obra alguma o justificaria.

Diplomata, iniciou sua carreira em 1518, representando a República de Veneza. Prestaria ainda serviços ao Imperador do Sacro Império Romano Germânico e ao papado.

Acompanhou prelados papais na Dieta de Worms, mas não se encontrou com Lutero. Mesmo sendo leigo, foi nomeado cardeal em 1535. Foi um dos primeiros proponentes do diálogo com os protestantes, após a Reforma, para tal, foi nomeado para presidir uma comissão para estudar uma reforma interna na Igreja Católica Romana.

Além de Contarini, a comissão contava com oito cardeais: Girolamo Aleandro, Tommaso Badia, Giovanni Pietro Carafa (mais tarde papa Paulo IV ), Gregorio Cortese, Federigo Fregoso, Gianmatteo Giberti, Reginald Pole e Jacopo Sadoleto. O relatório Consilium de Emendanda Ecclesia foi entrege a Paulo III em 1537. Embora o papa aceitasse as recomendações, não houve ações concretas. Depois que o documento vazou e foi publicado clandestinamente, inclusive uma versão alemã por Lutero, o documento perdeu sua força. Seria colocado no Index de livros proibidos.

No Colóquio de Regensburg entre católicos e reformadores em 1541, Contarini propôs a doutrina da dupla justificação (ou dupla justiça), que foi rejeitada por ambos partidos e, mais tarde, pelo Concílio de Trento.

Pela doutrina da duplex iustitia, Contarini distinguia entre justiça inerente — a qual seria adquirida por meio de boas obras e graça santificante — e justiça imputada — a qual seria adquirida pela fé por meio da justiça imputada de Cristo.

Pier Paolo Vergerio

Pier Paolo Vergerio (1498-1565) foi um reformador italiano.

Nasceu na cidade de Capodistria, atual Eslovênia, na época território da República de Veneza. Estudou Direito em Pádua, onde foi colega Pietro Martire Vermigli, Marco Antonio Flaminio e Pietro Bembo.

Depois de longo exame exegético e teológico, Vergerio aos poucos veio a simpatizar com a reforma. Nomeado bispo de Capodistria. Depois de um encontro com Francesco Spierà, Vergerio assume publicamente suas posições teológicas. Em razão disso, é exilado e vai ao Cantão dos Grisões, região de fala italiana no sul da Suíça.

Vergerio iniciou uma carreira de escritor, editor e polemista até sua morte.

Bernardino Ochino

Bernardino Ochino (1487-1564) foi um pregador franciscano e depois reformador italiano.

Notório pregador, tornou-se o geral dos capuchinhos. Encontrou a mensagem do evangelho conforme pregada pelos reformadores no círculo de Juan de Valdés em Nápoles (1536).

Ochino passou a enfatizar o benefício de Cristo em suas pregações. Despertaria suspeitas da Inquisição. Começou a circular um livreto com o título “O Benefício de Cristo Crucificado”, cujas suspeitas de autoria caíram em Ochino.

A0s 56 anos, em 1542, Ochino refugiou-se em Genebra, onde deu início à congregaçãod os exilados em língua italiana. Sendo um reformador sem sectarismo, depois de três anos iniciou um ministério de pregação itinerante, passando por Basileia, Augusburgo, Estrasburgo, Londres, Polônia e Morávia. Faleceria na casa de um anabatista italiano na Morávia.

Pessoa

Pessoa (do latim persona) traduz os termos gregos Hipóstase (ὑπόστασις), Prosopon (πρόσωπον; plural: πρόσωπα), os quais no sentido bíblico não tem significado ordinário de um indivíduo dotado de um corpo, mas significa um modo de existência distinta (Hb 1:3).

É o entendimento do cristianismo trintário que Deus nas Escrituras está manifesto como três pessoas distintas e unidas, com perfeita comunhão em suas ações (Mt 3:16-17; Jo14:26; At 7:55-56).

O significado de Pessoa altera-se tanto em diferentes contextos de uso quanto no tempo. Hipóstase é o estado ou substância subjacente (Ousía) e é a realidade fundamental que sustenta tudo. Prosopon indica a aparência, aspecto exterior visível, de um ser humano, animal ou coisa. Por esse motivo também é traduzido como rosto ou face externa do que seria o ser, uma pessoa ou coisa. Porém, prosopon é distinto de personalidade como caráter ou psique, o cerne da apresentação do ser.

Pessoa denota a automanifestação de algo que pode ser estendido por meio de outras coisas. Por exemplo, a hipóstese de um escritor expressa sua prosopon mediante as palavras.