Codex Climaci Rescriptus

O Codex Climaci Rescriptus é um manuscrito palimpsesto produzido no Mosteiro de Santa Catarina, no deserto do Sinai, entre os séculos IX e X. Monges do mosteiro rasparam manuscritos mais antigos para reutilizar o pergaminho, compondo um novo codex com uma tradução siríaca de escritos teológicos de João Clímaco, abade do mosteiro no século VII. Sob o texto siríaco posterior, ficaram preservados escritos muito mais antigos, ocultos no próprio pergaminho.

O projeto de pesquisa

Ao longo de uma década, o Codex Climaci Rescriptus Project, coordenado em Tyndale House, reuniu pesquisadores da Early Manuscripts Electronic Library, do Lazarus Project da Universidade de Rochester e da iniciativa acadêmica do Museum of the Bible. A equipe utilizou técnicas de imageamento multiespectral capazes de revelar camadas de escrita invisíveis a olho nu, recuperando a escrita subjacente oculta sob o texto siríaco. O projeto foi concluído no verão de 2023, após dez anos de pesquisa colaborativa.

Textos recuperados

Textos astronômicos e científicos

Entre os textos recuperados estão escritos astronômicos e científicos dos séculos V e VI, entre os quais partes do catálogo estelar de Hiparco, fragmentos dos Phainómena de Arato, os Katasterismoí de Eratóstenes, um proêmio anônimo a Arato e diagramas astronômicos com mapas estelares. O manuscrito preserva a mais antiga tentativa conhecida de mapear todo o céu noturno, junto com medições científicas da Antiguidade antes desconhecidas.

Material bíblico grego

O palimpsesto revelou substancial material bíblico grego dos séculos VII e VIII. Os pesquisadores recuperaram passagens dos quatro evangelhos e fragmentos de Josué e dos Salmos. Novas edições publicadas entre 2022 e 2023 corrigiram leituras anteriores e revelaram variantes textuais até então desconhecidas, acrescentando evidências para o estudo da transmissão do texto do Novo Testamento.

Aramaico palestino cristão

Igualmente significativa foi a recuperação de textos em aramaico palestino cristão, um dos dialetos aramaicos mais raros da Antiguidade Tardia. Os materiais dos séculos V e VI incluem porções do Antigo Testamento, com trechos de Êxodo, Deuteronômio, Reis, Jó, Salmos e Isaías, bem como passagens do Novo Testamento de Mateus, Marcos, Atos e das Epístolas. O projeto revelou ainda obras apócrifas, entre as quais a Dormição da Mãe de Deus (Liber Requiei Mariae). Em conjunto, esses textos formam um dos maiores corpora sobreviventes do aramaico palestino cristão primitivo.


Referências

ALVES, Leonardo Marcondes. Avanços em descobertas de manuscritos e decifrações linguísticas. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/05/12/avancos-em-descobertas-de-manuscritos-e-decifracoes-linguisticas/. Acesso em: 12 maio 2026

GYSEMBERGH, V.; WILLIAMS, P. J.; ZINGG, E. New evidence for Hipparchus’ Star Catalogue revealed by multispectral imaging. Journal for the History of Astronomy, Londres, v. 53, n. 4, p. 383-393, 2022. DOI: 10.1177/00218286221128289.

MARCHANT, J. First known map of night sky found hidden in Medieval parchment. Nature, Londres, 2022. DOI: 10.1038/d41586-022-03296-1.

MALIK, P. Joshua Fragment from Codex Climaci Rescriptus: a new edition based on the multispectral images. Vetus Testamentum, Leiden, 2022. DOI: 10.1163/15685330-bja10116. Publicação antecipada online.

MALIK, P. Psalms 135.13-136.7, 140.10-142.1 in Codex Climaci Rescriptus: a new edition of the Greek text based on multispectral images. Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, Berlim, v. 135, n. 1, p. 16-40, 2023. DOI: 10.1515/zaw-2023-1002.

WILLIAMS, P. J.; JAMES, P.; KLAIR, J.; MALIK, P.; ZAMAN, S. Newly discovered illustrated texts of Aratus and Eratosthenes within Codex Climaci Rescriptus. The Classical Quarterly, Cambridge, p. 1-28, 2022. DOI: 10.1017/S0009838822000726.

Pentateuco de Damasco

O Pentateuco de Damasco, conhecido também como Codex Sassoon 507, datado do século X, quase completo dos cinco livros da Torá na versão massorética. Produzido por um escriba anônimo, é distinto do Documento de Damasco, um texto relacionado à comunidade de Qumran.

Bíblia Rorigo

A Bíblia Rorigo, atualmente preservada na Bibliothèque nationale de France como MS Latin 3, é uma Bíblia latina produzida em Tours por volta do ano 835 d.C., durante o auge das reformas carolíngias.

Composta em um único volume, possui 409 fólios, distribuídos em texto de duas colunas com 51 ou 52 linhas por página. Sua decoração inclui títulos e rubricas em prata ou ouro sobre fundos púrpura, além de iniciais pintadas e tabelas canônicas, refletindo a sofisticação artística da época. Fechada, a Bíblia mede 49,5 centímetros de altura por 38 centímetros de largura, sendo considerada um exemplar típico de volume de púlpito.

A produção da Bíblia Rorigo está intrinsecamente ligada ao contexto das reformas promovidas por Carlos Magno e seus sucessores, que enfatizavam a correctio, ou seja, a correção de erros textuais e a preservação da doutrina correta. O texto, baseado na Vulgata, foi cuidadosamente revisado para garantir sua exatidão, incluindo divisões por capítulos e marcas de kephaleia (κεφάλαια), elementos que evidenciam a preocupação com a organização e a clareza do texto sagrado.

A Bíblia recebeu esse nome devido à sua doação pelo conde Rorigo, um nobre franco que restaurou a abadia de Saint-Maur-de-Glanfeuil, próxima ao rio Loire, na década de 830. Conforme anotação do século X no manuscrito, Rorigo entregou pessoalmente o volume ao abade Gauzfred, seu irmão e monge da abadia de Saint-Maur-des-Fossés, pedindo orações por sua alma. Com a invasão viking no vale do Loire em 868, a comunidade de Glanfeuil transferiu-se para Saint-Maur-des-Fossés, levando a Bíblia consigo.

No século XVII, após o fechamento da abadia de Saint-Maur-des-Fossés, o manuscrito foi transferido para Saint-Germain-des-Prés, sobrevivendo à dissolução dessa abadia em 1789, durante a Revolução Francesa. Desde então, encontra-se preservado na Bibliothèque nationale de France.

A Bíblia inclui um acréscimo posterior de um caderno com dezesseis fólios contendo a Vida de São Mauro, fundador de Glanfeuil, e uma história da abadia.

Evangelhos de Garima

Os Evangelhos de Garima são um conjunto de manuscritos do Evangelho que consiste em dois volumes, guardados no Mosteiro de Abuna Garima, localizado em Tigray, no norte da Etiópia. Esses manuscritos antigos são escritos em ge’ez, a antiga escrita etíope, e apresentam iluminuras requintadas executadas no estilo bizantino. Os Evangelhos de Garima possui grande valor dentro da Igreja Ortodoxa Etíope e são reverenciados como relíquias sagradas pelos monges que residem no mosteiro.

A datação dos Evangelhos de Garima situa sua criação com base na análise de datação por carbono dos materiais usados para a escrita. O manuscrito Garima 2 data de aproximadamente 390 a 570 d.C., enquanto Garima 1 fica entre 530 e 660 d.C. Em razão disso, seria uma das mais antigas bíblias ilustradas. A idade e o valor histórico desses manuscritos contribuem para seu status estimado entre estudiosos e comunidades religiosas.

Lendas e folclore cercam os Evangelhos de Garima. De acordo com uma crença popular, o fundador do mosteiro, Abba Garima, é creditado por copiar e ilustrar sozinho esses textos sagrados em um período milagroso de um único dia.

Os Evangelhos Garima são valiosos não apenas por seu significado religioso e histórico, mas também por suas qualidades artísticas. As iluminuras encontradas nesses manuscritos exemplificam o estilo bizantino, com desenhos intrincados e elaborados, cores vivas e atenção meticulosa aos detalhes.

Manuscrito de Shapira

O Manuscrito de Shapira era um conjunto de tiras de couro com inscrições em grafia paleo-hebraica trazida a público pelo comerciante de antiguidades Moses Wilhelm Shapira em 1883. Seria uma versão distinta de Deuteronômio, mas na época foi considerado uma falsificação pela comunidade acadêmica. Shapira suicidou-se e o manuscrito desapareceu.

O manuscrito eram quinze tiras de couro provenientes em Wadi Mujib, região do Arnon, na Transjordânia, perto do Mar Morto.

Possuía uma variante nos Dez Mandamentos: “Não odiarás teu irmão em teu coração: Eu sou Deus, teu Deus.” Exceto no decálogo, as leis são ditas em terceira pessoa.

Depois da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto foram feitas análises posteriores dos fac-símiles sobreviventes. Biblistas como Menahem Mansoor (1959) e Idan Dershowitz (2021) argumentam que seria uma versão anterior ao Deuterônimo na versão massorética que chegou ao presente. Dershowitz argumenta que seria um discurso de despedida de Moisés, correspondente a Deuteronômio 1-11; 27-32.

BIBLIOGRAFIA

Dershowitz, Idan. The Valediction of Moses: New Evidence on the Shapira Deuteronomy Fragments. ZAW 133, 2021.

Mansoor, Menahem. The case of Shapira’s Dead Sea (Deuteronomy) scroll of 1883. Madison: University of Wisconsin, 1959.

Rollston, Christopher. “Deja Vu all over Again: The Antiquities Market, the Shapira Strips, Menahem Mansoor, and Idan Dershowitz” Rollston Epigraphy – 10 March, 2021.

Tigay, Chanan. The Lost Book of Moses: The Hunt for the World’s Oldest Bible. New York: Ecco, 2016.

Tigay, Chanan. O livro perdido de Moisés: a procura da Bíblia mais antiga do mundo. Lisboa: Temas e Debates, 2017.

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