A teologia mediadora desenvolveu-se no século XIX, diante da tensão teológica, à medida que o Iluminismo e a modernidade desafia dogmas das autoritades eclesiáticas. Em resposta, alguns teólogos lidavam com um suposto cnflito percebido entre ciência e religião. Ocorria também a aceitação pública de profissão ateísmo, exemplificada pela afirmação de Ludwig Feuerbach de que Deus seria apenas uma projeção da humanidade. Ao mesmo tempo, a vida política perdeu a hegemonia das igrejas estatais, em meio às revoluções europeias e ao processo de desestabelecimento após as Revoluções Francesa e Americana.
Nesse cenário, surgiu uma terceira via (via media). Os teólogos mediadores costumam receber pouca atenção, pois a busca de uma posição intermediária é confundida com mediocridade. Aos olhos dos liberais, pareciam conservadores. Aos pensadores ortodoxos, pareciam liberais. Sua atuação demonstrou que a reação teológica exagerada não precisa constituir a resposta normativa aos desafios da modernidade.
A expressão inglesa mediating theology corresponde ao termo técnico alemão Vermittlungstheologie. O movimento começou em pequena escala com a fundação, em 1828, da revista Theologische Studien und Kritiken, em Heidelberg. Seu editor fundador apresentou uma definição de inspiração hegeliana, segundo a qual a tarefa da teologia consistia em reconduzir oposições relativas a uma unidade originária, alcançando um ponto de vista superior e transcendido. O teólogo holandês Hendrikus Berkhof ofereceu uma definição mais clara ao afirmar que os representantes da teologia mediadora buscavam impedir um afastamento irremediável entre a fé cristã e o pensamento racional moderno de caráter imanentista, estabelecendo uma relação entre o evangelho e a cultura secular.
É importante distinguir a teologia mediadora de uma teologia simplesmente moderada. A Vermittlungstheologie designa uma tentativa metodológica específica de estabelecer mediações entre polos opostos, e não uma posição intermediária adotada de forma arbitrária.
A teologia mediadora procurou construir pontes entre racionalismo e sobrenaturalismo, entre Hegel e Schleiermacher e entre a teologia formal e a vida prática da igreja. Esse projeto metodológico orientou seus principais representantes alemães, entre os quais se destacam Isaak August Dorner, Julius Müller e Richard Rothe.
August Tholuck (1799–1877) defendeu os milagres contra Strauss com argumentos filosóficos, Contudo, utilizou estudos de fenômenos como o “magnetismo animal” para demonstrar que os milagres podiam violar as leis da natureza e mesmo transcendê-las.
Karl Ullmann (1796–1865), editor do periódico Theologische Studien und Kritiken (Estudos e Críticas Teológicas); atacou a obra de Strauss, Das Leben Jesu (A Vida de Jesus), com seu livro Historisch oder mythisch (Histórico ou Mítico, 1838), forçando Strauss a fazer concessões.
O já mencionado Isaak Dorner (1809–1884) foi um dos principais teólogos sistemáticos da mediação. Sua cristologia enfatiza a unidade da natureza divina e humana em Cristo e, portanto, defendeu a possibilidade de milagres como expressões de sua pessoa.
Karl Hagenbach (1801–1874) teve sua obra, Enciclopédia de Ciências Teológicas (1833), como referência, moldando a metodologia da teologia da mediação, que abrangia tanto a pesquisa histórica quanto a reflexão dos fiéis.
Friedrich Bleek (1793–1859) foi um exegeta que combinava o método histórico-crítico enquanto rejeitava o racionalismo radical.
Nos Estados Unidos, surgiram iniciativas comparáveis. A Teologia de Mercersburg, representada por John Williamson Nevin e Philip Schaff, concentrou-se principalmente na eclesiologia, na tradição e na crítica ao individualismo. Horace Bushnell foi o equivalente norte-americano da teologia mediadora alemã, desenvolvendo seu trabalho sob a designação de “ortodoxia progressista”.
Peter Taylor Forsyth (1848–1921) constitui o principal equivalente britânico desse movimento. Desenvolveu uma via media própria ao vincular os avanços da crítica histórico-crítica moderna a uma ortodoxia firmemente cristocêntrica e orientada pela objetividade da revelação. Assim como Horace Bushnell, Forsyth passou por uma profunda transformação intelectual e espiritual, afastando-se do liberalismo otimista de sua juventude para adotar uma teologia centrada na realidade do pecado humano e na dimensão cósmica da cruz. Rejeitou as teorias liberais predominantes de seu tempo, que concebiam a expiação sobretudo como exemplo moral, sustentando que um evangelho sentimentalizado do progresso esvaziava a crucificação de seu verdadeiro poder salvífico e era incapaz de compreender as exigências da santidade divina. Em seu lugar, afirmou que a cruz constitui uma crise objetiva na qual o Deus sofredor propicia, em si mesmo, o seu próprio juízo santo, concepção que se aproxima das formulações tardias de Bushnell sobre a expiação. Ao integrar a cristologia kenótica desenvolvida na Europa ao núcleo experiencial e vital da Reforma, Forsyth antecipou aspectos da neoortodoxia do século XX e estabeleceu uma forma britânica de “ortodoxia progressista”, comprometida com a preservação da doutrina cristã clássica diante dos desafios intelectuais de sua época, sem submetê-la ao espírito do tempo.
Na França, Auguste Sabatier (1839–1901) e Eugène Ménégoz (1838–1921) defenderam com veemência a necessidade radical da fé (fides) na obra salvífica de Cristo vivo, rejeitando ao mesmo tempo a ideia de que os dogmas da Igreja eram proposições estáticas e infalíveis.
No contexto valdenses italiano, Paolo Geymonat (1827–1907) e seu aluno Giovanni Luzzi (1856–1948) forjaram uma ortodoxia evangélica progressista que serviu de ponte entre o rígido escolasticismo protestante e o liberalismo europeu cético. Encarregado de lidar com a transformação intelectual e cultural do Risorgimento italiano, Geymonat defendeu uma teologia científica que submetesse as confissões históricas da Reforma ao rigor acadêmico e histórico moderno, sem comprometer a autoridade bíblica. Luzzi expandiu essa visão mediadora ao adotar ferramentas histórico-críticas para liderar a tradução bíblica de Riveduta, resistindo simultaneamente às reduções radicais de Jesus a um mero mestre moral, defendendo a realidade sobrenatural da ressurreição. Além disso, tal como os impulsos ecumênicos observados na ortodoxia progressista americana, Luzzi aproveitou esse sólido terreno intermediário para construir pontes de colaboração sem precedentes com os modernistas católicos romanos contemporâneos. Visa a defesa de uma fé vital e experiencial capaz navegar na modernidade contemporânea enquanto se mantinha inabalavelmente ancorada no Cristo vivo.
