Gnosticismo

O termo “gnosticismo” pode ser entendido de forma ampla como uma caracterização de movimentos religiosos que enfatizam uma experiência interna e individualizada de reconhecimento espiritual, conhecida como “gnose” na Antiguidade Tardia.

A gnose é percebida como a descoberta de uma “centelha divina” interior, que conecta o indivíduo a uma força divina superior. Nesse sentido, manifestações de gnosticismo ocorreram em diferentes períodos históricos. No entanto, em um sentido mais restrito, o termo refere-se a um fenômeno específico que alcançou seu apogeu no século II d.C., no Império Romano, e que representou uma faceta das divisões emergentes dentro do cristianismo primitivo.

Embora nem todos os documentos de Nag Hammadi possam ser classificados como “gnósticos” de forma estrita, muitos deles foram atribuídos a autores gnósticos pelos escritos heresiológicos existentes. Desde a descoberta, a tradução e o estudo desses textos têm dominado a pesquisa sobre o gnosticismo, substituindo em grande parte o foco anteriormente dado aos textos heresiológicos. Essa nova base documental ampliou significativamente a compreensão dos sistemas de pensamento associados ao gnosticismo, embora ainda persista o debate sobre o grau em que esses textos refletem uma visão de mundo unificada ou uma diversidade de tradições religiosas e filosóficas.


Interpretações acadêmicas

O consenso acadêmico sobre a natureza do gnosticismo permanece elusivo. Há debates sobre como definir suas fronteiras, se ele pode ser considerado uma mentalidade religiosa antiga coesa e até que ponto o termo “gnosticismo” é apropriado para descrever tais fenômenos. A pesquisa europeia frequentemente adota uma abordagem positivista, utilizando os termos “gnosticismo” ou “gnose” sem reservas. Por outro lado, nos Estados Unidos, muitos estudiosos têm demonstrado maior cautela, empregando o termo entre aspas para expressar desconforto com um conceito que, em grande medida, foi construído como campo de estudo durante o período moderno. Apesar de propostas para substituir o termo por algo mais preciso, nenhuma alternativa satisfatória foi amplamente aceita.

Um segundo ponto de debate acadêmico refere-se às fontes primárias. Até meados do século XX, os estudos sobre o gnosticismo eram prejudicados pela escassez de textos originais provenientes dos próprios grupos gnósticos. A principal fonte de reconstrução do gnosticismo eram os escritos de seus opositores, os heresiólogos cristãos. Essa situação mudou em 1945 com a descoberta de doze códices do século IV nas proximidades de Nag Hammadi, no Alto Egito. Esses textos, conhecidos como Biblioteca de Nag Hammadi ou Códices de Nag Hammadi, contêm cerca de cinquenta e dois documentos, alguns deles já conhecidos e outros completamente perdidos até então.

As principais escolas acadêmicas que moldaram a compreensão contemporânea do gnosticismo as seguintes

A Religiongeschichtliche Schule, também conhecida como Escola da História das Religiões, foi pioneira no exame sistemático do gnosticismo dentro de um contexto histórico e comparativo. Acadêmicos como Wilhelm Bousset, Richard Reitzenstein e Hans Jonas situaram o gnosticismo como um fenômeno religioso sincrético, resultado da interação entre influências filosóficas e religiosas helenísticas, incluindo platonismo, estoicismo e religiões de mistério, bem como tradições iranianas. Essa abordagem frequentemente considerou o gnosticismo como uma corrente pré-cristã que posteriormente incorporou elementos cristãos. Apesar de sua importância, a Escola foi criticada por minimizar as raízes judaicas do gnosticismo e por superestimar a influência de religiões externas.

A abordagem existencialista, representada por figuras como Hans Jonas e Karl Jaspers, interpretou o gnosticismo como uma expressão da alienação humana diante de um cosmos hostil. Sob essa ótica, a experiência gnóstica foi analisada como um anseio pela libertação do mundo material e pelo retorno ao divino. Embora informe sobre a dimensão antropológica e psicológica do gnosticismo, essa escola foi acusada de projetar preocupações existencialistas modernas sobre tradições antigas, afastando-se do contexto histórico em que o gnosticismo surgiu.

A escola fenomenológica, liderada por Gilles Quispel e Ioan Culianu, buscou compreender o gnosticismo como um fenômeno religioso autônomo, explorando seus mitos, símbolos e rituais para desvendar as estruturas internas de sua visão de mundo. Essa perspectiva focou na interpretação interna das narrativas gnósticas e em seu significado espiritual. Contudo, críticos apontam que tal abordagem frequentemente negligenciou os contextos históricos e sociais do gnosticismo, restringindo-se a uma análise puramente simbólica.

A teoria do gnosticismo judaico, promovida por Gershom Scholem e Kurt Rudolph, propôs que o gnosticismo emergiu de tradições místicas e apocalípticas judaicas. Essa visão identificou paralelos entre ideias gnósticas e elementos do misticismo Merkavá e da angelologia judaica, ressaltando a continuidade entre essas tradições. O debate nessa escola gira em torno da legitimidade do conceito de “gnosticismo judaico”, que alguns consideram uma construção posterior, moldada pelo cristianismo.

Os estudos de história social, representados por Elaine Pagels e Bentley Layton, abordaram o gnosticismo dentro das dinâmicas sociais e políticas do mundo romano e sua interação com o cristianismo primitivo. Esses acadêmicos investigaram as estruturas comunitárias dos grupos gnósticos e os fatores que explicam sua atratividade. Embora essa abordagem tenha ampliado a compreensão do gnosticismo como fenômeno social, foi criticada por, em alguns casos, desconsiderar suas dimensões teológicas e filosóficas.

Abordagens pós-modernas e construcionistas, lideradas por Michael Williams e Karen King, questionam a própria categoria de “gnosticismo”. Rejeitam sua validade como um conceito unificado e sugerindo que se trata de uma construção moderna. Esses estudiosos enfatizaram a diversidade e fluidez das crenças associadas ao gnosticismo e o papel do poder e do discurso na formação de narrativas históricas. Apesar de sua contribuição ao desconstruir noções tradicionais, essa perspectiva é frequentemente vista como excessivamente relativista, dificultando a obtenção de conhecimento histórico sólido.

Principais vertentes gnósticas cristãs da antiguidade

CaracterísticaValentinianosBardaisanitasCarpocratianosBasilidianosElcasaitas
CosmologiaEmanações complexas, Pleroma, Sofia caídaSizígias (pares de opostos), cosmos dinâmicoDualista, com um deus superior e um demiurgoEmanações lineares, Grande ArconteDeus Supremo, seres angelicais, influência celestial
SoteriologiaGnose, faísca divina interiorLivre arbítrio, vida ética, reencarnaçãoLibertinismo, transmigração das almasGnose, vida éticaCódigo moral rigoroso, batismo, profecia
AntropologiaTrês classes de humanos (espirituais, psíquicos, materiais)Humanos possuem elementos divinos e materiaisAlma aprisionada no corpoAlma precisa escapar do mundo materialÊnfase na pureza corporal e ascetismo
CristologiaJesus trouxe a gnose para libertar os humanos espirituaisJesus como mensageiro divino, mas não totalmente divinoJesus como modelo de libertaçãoJesus como ser divino, mas não o Deus supremoJesus como profeta, Cristologia angelical
EscrituraValorizavam alguns evangelhos canônicos, também tinham seus próprios evangelhos (ex: Evangelho da Verdade)Rejeitavam o Antigo Testamento, tinham seus próprios hinos e escritosValorizavam alguns evangelhos canônicos, mas interpretados alegoricamenteAceitavam algumas escrituras canônicas, mas com interpretações esotéricasRejeitavam Paulo, valorizavam o Livro de Elcasai
PráticasVariadas, algumas ascéticas, outras mais liberaisÊnfase na vida ética, comunidadeFrequentemente acusados de antinomismo (rejeição das leis morais)Possivelmente práticas ascéticasLeis dietéticas rigorosas, batismo, vida comunitária
Figuras-chaveValentino, Ptolomeu, HeracleãoBardaisan, seu filho HarmoniusCarpocrates, EpifânioBasilidesElcasai
LegadoMuito influentes, diversas escolasInfluenciaram o Cristianismo SiríacoCondenados por sua percebida imoralidadeRigor intelectual, abordagem filosóficaInfluência gnóstica judaica, Encratitas, Ebionitas
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Autor: Círculo de Cultura Bíblica

Leonardo Marcondes Alves é um pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University (Noruega). Especialista em ciências da religião, antropologia, migração, direito e ciências bíblicas, integra a equipe editorial da EDUFU (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil). Biblista e investigador há muito tempo sobre a Congregação Cristã no Brasil, o movimento pentecostal italiano e grupos correlatos. Mantém os sites https://ensaiosenotas.com/ (humanidades e ciências sociais) e https://circulodeculturabiblica.org/ (ciências bíblicas, CCB) para a divulgação científica.

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