Criação ex nihilo

Criação ex nihilo significa a doutrina de que Deus trouxe o universo à existência a partir do nada absoluto, desprovido de qualquer matéria ou condição pré-existente. Deus seria a única condição e causa antecedente para a existência de toda a criação.

A noção de Criação ex nihilo, embora implícita em muitas tradições religiosas, ganhou destaque no pensamento judaico-cristão. O relato bíblico em Gênesis, especificamente os versículos iniciais, apresentou um desafio inicial. As ambiguidades na gramática hebraica permitiram interpretações alternativas: uma postulando que Deus formou o “vazio sem forma” do nada, e outra sugerindo que a criação de Deus envolvia ordenar a matéria pré-existente, mas desorganizada.

Alguns dos primeiros pensadores cristãos, influenciados por filósofos como Platão, inclinaram-se para esta última visão, comparando o papel de Deus na transformação da matéria caótica num cosmos estruturado. No entanto, esta perspectiva suscitou preocupações. Implicava que o poder criativo de Deus era limitado pelas qualidades inerentes da matéria pré-existente, minando potencialmente a onipotência de Deus. As ansiedades teológicas aprofundaram-se à medida que esta ideia parecia questionar a capacidade de Deus de cumprir promessas de salvação.

Para abordar estas preocupações, os teólogos cristãos da segunda metade do século II, começando com Teófilo de Antioquia, avançaram a doutrina da Criação ex nihilo. Este conceito afirmava que o ato criativo de Deus era independente de quaisquer materiais pré-existentes. Tudo, exceto Deus, veio à existência somente através da vontade de Deus. Esta afirmação ofereceu a garantia de que as intenções criativas de Deus eram ilimitadas, sustentando as doutrinas cristãs de salvação.

O Novo Testamento sublinha que a Palavra de Deus ou a Sabedoria pela qual Deus criou o mundo encarnou-se em Jesus Cristo.

O advento da ciência moderna no século XVII reinterpretou a doutrina da Criação ex nihilo. O deísmo afirmou que o papel de Deus se limitava a iniciar a criação, com leis naturais governando os eventos subsequentes, minando a necessidade de Deus explicar os fenômenos cotidianos.

A teologia do processo, influenciada por Alfred North Whitehead, reinterpreta o relacionamento de Deus com o mundo. A criação seria um processo contínuo e dinâmico, em vez de um evento único. O mundo está evoluindo continuamente e em uma parceria com Deus. A criatividade de Deus é expressa no desenvolvimento contínuo do universo. Portanto, o mundo não é estático, mas em constante fluxo.

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Autor: Círculo de Cultura Bíblica

Leonardo Marcondes Alves é um pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University (Noruega). Especialista em ciências da religião, antropologia, migração, direito e ciências bíblicas, integra a equipe editorial da EDUFU (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil). Biblista e investigador há muito tempo sobre a Congregação Cristã no Brasil, o movimento pentecostal italiano e grupos correlatos. Mantém os sites https://ensaiosenotas.com/ (humanidades e ciências sociais) e https://circulodeculturabiblica.org/ (ciências bíblicas, CCB) para a divulgação científica.

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