Imprecação

Imprecação, do latim imprecatio, refere-se a uma invocação de mal ou maldição contra alguém ou algo. Na Bíblia, as imprecações, expressas através de orações ou declarações, são encontradas principalmente nos Salmos, conhecidos como “Salmos Imprecatórios”. O termo hebraico para maldição é קְלָלָה (qelalah), e o termo grego para imprecação é κατάρα (katara).

Os Salmos Imprecatórios, como os Salmos 5, 7, 10, 35, 58, 69, 109 e outros, contêm expressões fortes de ira e desejo de vingança contra os inimigos do salmista, que são frequentemente os inimigos de Deus e do povo de Israel. Essas passagens podem ser perturbadoras que podem questionar a contradição entre o amor e a misericórdia divina e o desejo de vingança expresso nos Salmos. Contudo, os Salmos Imprecatórios devem ser interpretados dentro de seu contexto histórico e cultural. No antigo Israel, a justiça era frequentemente vista como retributiva, e a vingança era considerada um direito de Deus. Além disso, os Salmos Imprecatórios não são necessariamente expressões de ódio pessoal, mas sim clamores por justiça divina contra a injustiça e a opressão.

Os Salmos Imprecatórios também podem ser interpretados como uma forma de desabafo emocional e espiritual, permitindo que o salmista expresse sua raiva e frustração diante de Deus, confiando que Ele fará justiça.

No Novo Testamento, Jesus ensina sobre o amor aos inimigos (Mateus 5:44), o que parece contradizer as imprecações encontradas nos Salmos. No entanto, alguns argumentam que o ensino de Jesus não anula a justiça divina, mas sim a transfere para o âmbito de Deus. O Novo Testamento também enfatiza a importância do perdão e da reconciliação, que são elementos essenciais do amor cristão.

Algumas passagens no Novo Testamento podem ser interpretadas como contendo elementos de juízo ou reprovação que se assemelham a imprecações. Por exemplo, em Mateus 23, Jesus pronuncia uma série de “ais” contra os fariseus e escribas, denunciando sua hipocrisia e sua religiosidade superficial. Embora não sejam invocações diretas de maldição, essas palavras expressam um forte juízo sobre as ações dos líderes religiosos.

No livro de Apocalipse, há diversas passagens que descrevem o juízo de Deus sobre os ímpios e o triunfo final do bem sobre o mal. Essas passagens podem ser vistas como uma forma de imprecação contra as forças do mal, embora o foco principal seja a justiça e a soberania de Deus.

O termo aparece em Salmo 10:7 associado à malícia do ímpio e em Marcos 14:71, quando Pedro nega a Cristo.

Incenso

Incenso, uma mistura de substâncias aromáticas queimadas para produzir uma fumaça perfumada, desempenhou um papel significativo em rituais religiosos e práticas culturais ao longo da história, incluindo no antigo Israel. A palavra hebraica para incenso, קְטֹרֶת (qetoret), e a palavra grega θυμίαμα (thymíama) carregam a ideia de fumaça perfumada ou perfume.

No Antigo Testamento, o incenso era usado no Tabernáculo e, posteriormente, no Templo de Jerusalém como parte dos rituais de adoração. O incenso era queimado em um altar específico, o Altar de Incenso (Êxodo 30:1-10), e sua fumaça era considerada uma oferta a Deus, simbolizando orações e súplicas que ascendiam aos céus (Salmos 141:2). A preparação e o uso do incenso eram regulamentados com precisão, enfatizando sua importância e santidade.

O incenso também era usado em outras ocasiões, como em festas e celebrações, e em contextos domésticos para purificação e aromatização. No entanto, o uso mais significativo do incenso era nos rituais religiosos, onde sua fumaça perfumada criava uma atmosfera de reverência e adoração.

No Novo Testamento, o incenso é mencionado no livro de Apocalipse, onde simboliza as orações dos santos que sobem a Deus (Apocalipse 8:3-4). Essa imagem reforça a associação do incenso com a comunicação entre o céu e a terra.

Pentecostes

Pentecostes, do grego pentēkostē (πεντηκοστή), que significa “quinquagésimo”, é uma festa bíblica celebrada cinquenta dias após a Páscoa. No Antigo Testamento, é conhecida como a Festa das Semanas (חַג שָׁבוּעוֹת, Chag Shavuot), uma das três festas de peregrinação do calendário judaico. Originalmente, era uma festa agrícola, marcando o fim da colheita do trigo e oferecendo os primeiros frutos a Deus (Êxodo 23:16; Deuteronômio 16:9-12). Posteriormente, passou a comemorar a entrega da Lei a Moisés no Monte Sinai.

No Novo Testamento, Pentecostes assume um novo significado. Atos 2 descreve o evento em que o Espírito Santo desceu sobre os discípulos reunidos em Jerusalém, capacitando-os a falar em outras línguas e a pregar o evangelho com ousadia. Este evento é considerado o nascimento da Igreja Cristã.

A conexão entre a Festa das Semanas e o Pentecostes cristão reside na ideia de uma nova aliança e uma nova lei. Assim como a Lei foi dada a Moisés no Sinai, o Espírito Santo é dado aos discípulos no Pentecostes, inaugurando uma nova era na relação entre Deus e a humanidade. O dom do Espírito Santo capacita os crentes a testemunharem de Jesus Cristo e a viverem uma vida transformada.

Páscoa

A Páscoa, ou Pesach (פֶּסַח) em hebraico, é uma das festas mais importantes do calendário judaico, comemorada anualmente para recordar a libertação dos israelitas da escravidão no Egito. A narrativa da Páscoa está registrada principalmente no livro de Êxodo (capítulos 12 e seguintes).

A palavra “Páscoa” deriva do verbo hebraico pasach, que significa “passar por cima” ou “poupar”. Refere-se ao fato de que o anjo da morte “passou por cima” das casas dos israelitas, cujas portas estavam marcadas com o sangue do cordeiro pascal, poupando seus primogênitos da morte.

A Páscoa é uma festa rica em simbolismo. O cordeiro pascal, sacrificado e consumido durante a ceia pascal (Seder), representa o cordeiro cujo sangue protegeu os israelitas da morte. Os pães ázimos (matsot), não fermentados, simbolizam a pressa com que os israelitas fugiram do Egito, sem tempo para que o pão levedasse. As ervas amargas (maror) lembram a amargura da escravidão.

A Páscoa não é apenas uma comemoração histórica, mas também um evento com profundo significado teológico. Ela aponta para a redenção e a libertação do povo de Deus, tanto física quanto espiritualmente. A Páscoa também prefigura a obra redentora de Jesus Cristo, que, como o Cordeiro de Deus, se ofereceu em sacrifício para a salvação da humanidade (1 Coríntios 5:7).

A celebração da Páscoa envolve uma série de rituais e tradições, incluindo a leitura do Hagadá, que narra a história da Páscoa, o consumo dos alimentos simbólicos e a partilha de histórias e ensinamentos sobre a liberdade e a fé.

No Novo Testamento, a Última Ceia de Jesus com seus discípulos é celebrada como uma refeição pascal (Mateus 26:17-30; Marcos 14:12-26; Lucas 22:7-23). A conexão entre a Páscoa judaica e o sacrifício de Jesus é central para a teologia cristã, que vê em Jesus o cumprimento da promessa de redenção simbolizada na Páscoa.

Pastor

A figura do pastor, central na vida do antigo Israel, permeia a Bíblia, tanto literal quanto metaforicamente. No Antigo Testamento, o termo hebraico רֹעֶה (ro’eh) designa o indivíduo responsável por cuidar do rebanho, protegendo-o de predadores, guiando-o para pastos e fontes de água, e garantindo seu bem-estar. O pastor era uma figura essencial na sociedade agrária e pastoril, e a metáfora do pastor cuidando de suas ovelhas tornou-se uma imagem poderosa para descrever a relação de Deus com seu povo.

Deus é frequentemente chamado de Pastor de Israel (Salmo 23:1; Isaías 40:11), enfatizando seu cuidado, proteção e liderança sobre seu povo. Os líderes de Israel, como reis e sacerdotes, também são chamados de pastores, com a responsabilidade de guiar o povo em justiça e retidão (Jeremias 3:15; Ezequiel 34; Salmos 78:70-72). No entanto, a Bíblia também critica os “pastores infiéis” que negligenciavam o rebanho, buscando seus próprios interesses em vez do bem-estar do povo (Jeremias 2:8; Ezequiel 34).

No Novo Testamento, Jesus se autodenomina o “Bom Pastor” (João 10:11, 14), que dá a sua vida pelas ovelhas. Essa imagem ressalta o amor sacrificial de Jesus e seu compromisso em proteger e guiar seus seguidores. Os ministros da igreja primitiva também são chamados de pastores (Efésios 4:11; 1 Pedro 5:2), com a responsabilidade de cuidar da comunidade cristã, ensinando, exortando e guiando os crentes no caminho da fé.

O verbo grego ποιμαίνω (poimainō) significa “pastorear”, “cuidar” e “alimentar” ou “dirigir” (no sentido de um pastor que guia e protege seu rebanho). Nos trechos bíblicos onde aparece, o verbo carrega tanto um significado literal quanto metafórico, referindo-se ao cuidado e à ministério em favor das pessoas, utilizando a imagem familiar do pastor e suas ovelhas.

No Evangelho de Mateus 2:6, o termo é usado em uma citação de Miqueias 5:2, referindo-se ao Messias que “apascentará” (ποιμανεῖ, poimanei, futuro) Israel. O contexto é uma profecia messiânica, onde “apascentar” significa governar e guiar o povo de Deus, estabelecendo um paralelo entre liderança e o zelo de um pastor por suas ovelhas.

Já em João 21:16, Jesus ordena a Pedro: “Apascenta minhas ovelhas” (ποίμαινε, poimaine, imperativo presente). Aqui, o termo representa um chamado direto para que Pedro exerça um cuidado pastoral na Igreja primitiva. As “ovelhas” simbolizam os seguidores de Cristo, e a tarefa de “apascentá-las” envolve cuidado espiritual, orientação e ensino.

No livro de Atos 20:28, Paulo exorta os presbíteros da igreja de Éfeso a “pastorear” (ποιμαίνειν, poimainein, infinitivo presente) a Igreja de Deus. A metáfora do pastor reforça a responsabilidade dos ministros eclesiásticos de proteger, orientar e nutrir espiritualmente a comunidade cristã.

Na Primeira Carta de Pedro 5:2, foi instruído aos presbíteros a “pastorear o rebanho de Deus” (ποιμάνατε, poimanate, imperativo aoristo). O texto destaca o dever pastoral dos ministros cristãos, especificando que esse cuidado deve ser exercido voluntariamente, sem buscar vantagens pessoais, mas com dedicação genuína.

No entanto, na Epístola de Juda 12, o verbo assume um tom negativo ao descrever os falsos mestres como pastores que cuidam apenas de si mesmos” (ἑαυτοὺς ποιμαίνοντες, heautous poimainontes, particípio presente). O contraste entre o verdadeiro pastor, que se dedica ao rebanho, e aqueles que exploram suas posições em benefício próprio ilustra um desvio da verdadeiro ministério espiritual.

No livro do Apocalipse, o verbo aparece em um contexto mais complexo, combinando a ideia de “pastorear” com a de “governar”, às vezes de forma firme e até punitiva:

  • Apocalipse 2:27: Cristo regerá (ποιμανεῖ, poimanei, futuro) as nações com um cetro de ferro. Aqui, a imagem do pastor se une à do juiz e soberano.
  • Apocalipse 7:17: O Cordeiro “pastoreará” (ποιμανεῖ, poimanei, futuro) os que passaram pela grande tribulação, conduzindo-os às fontes de águas vivas. Essa passagem ressalta um cuidado amoroso e protetor.
  • Apocalipse 12:5: O filho varão está destinado a “governar” (ποιμαίνειν, poimainein, infinitivo presente, mas com sentido futuro) todas as nações com um cetro de ferro, associando a figura do pastor à de um rei vitorioso.
  • Apocalipse 19:15: Cristo, agora apresentado como um guerreiro triunfante, “regerá” (ποιμαίνει, poimainei, futuro) as nações com um cetro de ferro, unindo o pastoreio à aplicação firme da justiça divina.

A metáfora do pastor e das ovelhas expressa a relação de cuidado, proteção e dependência que existe entre Deus e seu povo, e entre Cristo e seus seguidores. Ela também destaca a responsabilidade dos ministros em servir e cuidar daqueles que estão sob seus cuidados, seguindo o exemplo do Bom Pastor.