Milagre

A Bíblia utiliza termos como “sinal” (אות, ‘wt), “maravilha” (מופת, mwpt) e “poder” (δύναμις, dynamis) para se referir a milagres. No Novo Testamento, “sinal” (σημεῖον, sēmeion) frequentemente indica um milagre com significado simbólico, enquanto “maravilha” (τέρας, teras) destaca o caráter extraordinário do evento. O termo moderno “milagre” deriva do latim miraculum, e sua formulação teológica se deve a Agostinho.

Um milagre pode ser definido como um evento que desafia as expectativas comuns de comportamento e é atribuído a um agente sobrenatural, demonstrando a intervenção divina nos assuntos humanos. A Bíblia registra diversos tipos de milagres, como eventos celestiais, curas instantâneas, controle da natureza e ações inesperadas de objetos e animais.

Deus é frequentemente retratado como o agente direto dos milagres no Antigo Testamento, embora muitas vezes utilize intermediários humanos, como Moisés e Elias. As respostas aos milagres variam de acordo com o contexto pessoal, sociopolítico e teológico de cada observador. Os milagres também afetam a reputação do agente, como a fama dos deuses hebreus que precede a chegada dos israelitas em 1 Samuel 4:8.

Os milagres ocupam um lugar central nos Evangelhos, em Atos e no Apocalipse. Jesus é o principal agente de milagres, realizando curas, multiplicação de alimentos e controle da natureza. Seus milagres servem para confirmar Sua identidade e missão, e para validar a mensagem do Evangelho. Os apóstolos também realizam milagres, confirmando sua autoridade e o poder do Espírito Santo.

O Novo Testamento reconhece a possibilidade de falsos milagres realizados por agentes malignos, como falsos profetas e o “homem da lei” em 2 Tessalonicenses 2:9. Em Apocalipse, os milagres são tanto visões celestiais quanto instrumentos das forças de Satanás.

Os milagres bíblicos desempenham diversas funções, sendo classificados como instrumentais (provisão de maná), comunicativos (escrita na parede em Daniel 5), punitivos (tumores nos filisteus em 1 Samuel 5), sociopolíticos (fogo do céu em 1 Reis 18) e teológicos. As funções teológicas incluem a validação de Deus, de Sua mensagem, a sinalização de Sua atividade e a realização de atos de salvação.

As sociedades do antigo Oriente Próximo e da Grécia Antiga viam os milagres como evidência da participação de seres divinos nos assuntos terrenos. Curas, oráculos, portentos celestiais, eventos naturais extraordinários e feitos de “pessoas santas” eram considerados milagres. A distinção entre “milagre” e “magia” dependia da perspectiva do observador, e a crescente suspeita em relação à magia levou muitos curadores e fazedores de maravilhas a serem rotulados como mágicos.

A definição e a compreensão dos milagres têm sido objeto de debate entre teólogos e cientistas. Agostinho argumentava que os milagres não violam a natureza, mas sim as expectativas humanas sobre a natureza. Tomás de Aquino elaborou uma teoria mais complexa, distinguindo entre causas primárias (Deus) e secundárias (naturais). No entanto, a identificação de um milagre permanece um desafio, especialmente diante do avanço do conhecimento científico.

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Autor: Círculo de Cultura Bíblica

Leonardo Marcondes Alves é um pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University (Noruega). Especialista em ciências da religião, antropologia, migração, direito e ciências bíblicas, integra a equipe editorial da EDUFU (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil). Biblista e investigador há muito tempo sobre a Congregação Cristã no Brasil, o movimento pentecostal italiano e grupos correlatos. Mantém os sites https://ensaiosenotas.com/ (humanidades e ciências sociais) e https://circulodeculturabiblica.org/ (ciências bíblicas, CCB) para a divulgação científica.

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