Sete seitas dos judeus

As sete seitas dos judeus referem-se a um tema recorrente na literatura patrística que explora a fragmentação do judaísmo durante o período do Segundo Templo e a Antiguidade Tardia. Essas fontes oferecem perspectivas sobre a diversidade religiosa e filosófica entre os judeus dessa época. A ideia de que existiam sete seitas específicas é mencionada em diferentes textos, embora a composição exata das listas varie entre os autores.

Hegésipo, citado por Eusébio em sua História Eclesiástica (4.22.6), apresenta um conjunto de grupos que ele descreve como oponentes à “tribo de Judá e ao Cristo”, incluindo essênios, galileus, hemerobaptistas, masboteus, samaritanos, saduceus e fariseus. Justino Mártir, em seu Diálogo com Trifão (cap. 80), também enumera sete grupos, mas com algumas diferenças: saduceus, genistas, meristas, galileus, helenistas, fariseus e batistas. Já as Constituições Apostólicas (vi. 6-7), um texto do século IV, identificam saduceus, fariseus, basmoteus, hemerobaptistas, ebionitas, essênios e um grupo associado a Simão Mago.

Certos grupos aparecem com frequência nas listas, indicando sua relevância no contexto religioso da época. Os fariseus eram conhecidos por sua observância rigorosa da Lei e das tradições orais, defendendo a ressurreição dos mortos e a providência divina. Os saduceus, compostos majoritariamente pela aristocracia sacerdotal, rejeitavam a lei oral e negavam a ressurreição e a existência de anjos, limitando-se ao texto da Torá. Os essênios, frequentemente associados aos Manuscritos do Mar Morto, viviam em comunidades ascéticas, praticando pureza ritual. Os galileus, zelotes ou sicários destacavam-se pelo fervor nacionalista e pela resistência armada ao domínio romano, frequentemente em conflito com outras facções judaicas e com as autoridades romanas. Os samaritanos mantinham práticas religiosas e uma versão da Torá centrada no Monte Gerizim, diferenciando-se do judaísmo majoritário. Os hemerobaptistas, masboteus e batistas enfatizavam a purificação ritual por meio de lavagens, levantando debates sobre sua possível conexão com os essênios.

A categorização dessas seitas levanta questões quanto à sobreposição de identidades e à fluidez das fronteiras entre elas. Alguns grupos podem representar variações dentro de movimentos maiores, em vez de entidades totalmente separadas. A ideia de categorizar o judaísmo em sete seitas pode ter tido objetivos específicos, como reforçar distinções entre crenças consideradas ortodoxas e heterodoxas ou fornecer um esquema interpretativo para a diversidade religiosa judaica.

O conceito das sete seitas dos judeus reflete a complexidade do judaísmo durante o período do Segundo Templo. Essa pluralidade religiosa informa o ambiente de emergência do cristianismo primitivo e do desenvolvimento do judaísmo rabínico. As divisões destacam não apenas a diversidade interna, mas também os esforços para delimitar crenças e práticas dentro de um quadro pluralista.

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Autor: Círculo de Cultura Bíblica

Leonardo Marcondes Alves é um pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University (Noruega). Especialista em ciências da religião, antropologia, migração, direito e ciências bíblicas, integra a equipe editorial da EDUFU (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil). Biblista e investigador há muito tempo sobre a Congregação Cristã no Brasil, o movimento pentecostal italiano e grupos correlatos. Mantém os sites https://ensaiosenotas.com/ (humanidades e ciências sociais) e https://circulodeculturabiblica.org/ (ciências bíblicas, CCB) para a divulgação científica.

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