Boanerges

Boanerges (Βοανεργές, Boanerges; בְּנֵי רֶגֶשׁ B’nei Regesh [interpretação tradicional, porém debatida]), é um epíteto aramaico dado por Jesus a Tiago e João, filhos de Zebedeu, em Marcos 3:17. O texto bíblico oferece uma interpretação grega do termo: “Filhos do Trovão” (υἱοὶ βροντῆς, huioi brontēs). A origem e o significado exato de Boanerges têm sido objeto de debate acadêmico.

A interpretação tradicional, baseada na tradução grega de Marcos, associa o termo ao caráter impetuoso e zeloso dos irmãos. Esta interpretação é suportada por episódios narrados nos Evangelhos, como o desejo de Tiago e João de invocar fogo do céu sobre uma cidade samaritana (Lucas 9:54) e o pedido de posições de destaque no Reino de Deus (Marcos 10:35-37).

Contudo, a etimologia exata do termo aramaico é incerta. Alguns estudiosos sugerem que o original aramaico seria B’nei Ra’ash (בְּנֵי רַעַשׁ), que significa “filhos do tumulto” ou “filhos do terremoto”, enquanto outros propõem B’nei Regesh (בְּנֵי רֶגֶשׁ), com o significado de “filhos da ira” ou “filhos do clamor”. A dificuldade reside em harmonizar essas propostas com a tradução grega fornecida por Marcos.

Mitra

Mitra (מִצְנֶפֶת, mitz’nephet; μίτρα, mitra) designa uma cobertura para a cabeça com características e significados distintos ao longo do tempo.

No Antigo Testamento, o termo hebraico mitz’nephet referia-se a um tipo de turbante ou diadema usado pelo sumo sacerdote de Israel (Êxodo 28:4, 37, 39; Levítico 8:9). Este adorno, confeccionado em linho fino, simbolizava a santidade e a autoridade do sumo sacerdote em seu serviço perante Deus. É importante notar que mitz’nephet difere de migba’ah (מִגְבָּעָה), termo usado para os chapéus dos sacerdotes comuns.

A palavra grega mitra (μίτρα), embora apareça na Septuaginta para traduzir mitz’nephet, tinha originalmente um significado mais amplo no mundo greco-romano, referindo-se a uma faixa de cabeça, cinto ou, em alguns casos, um tipo de turbante.

A transição da mitz’nephet bíblica para a mitra episcopal cristã ocidental– um chapéu alto e pontiagudo, frequentemente bipartido – é um desenvolvimento complexo e não totalmente documentado nos primeiros séculos do cristianismo. Não há evidências diretas do uso da mitra como adorno episcopal distintivo antes do século XI. A mitra episcopal, tal como se desenvolveu na tradição ocidental, provavelmente evoluiu de toucados cerimoniais usados por autoridades civis e religiosas, adquirindo gradualmente sua forma característica e simbolismo litúrgico. A partir do século XII, a mitra tornou-se um símbolo amplamente reconhecido da autoridade episcopal na Igreja Católica e, posteriormente, em algumas igrejas da Reforma.

Ministério

Ministério (διακονία, diakonia; שֵׁרוּת, sherut) refere-se ao serviço realizado em nome de Deus e para o benefício da comunidade de fé. O termo grego diakonia, utilizado no Novo Testamento, abrange uma variedade de atividades, desde o serviço prático, como o cuidado dos necessitados, até a proclamação do evangelho e o cuidado espiritual. A ideia central é a de um serviço humilde e abnegado, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir” (Marcos 10:45).

O conceito de ministério é frequentemente contrastado e, ao mesmo tempo, relacionado com outras palavras que denotam serviço. Enquanto diakonia enfatiza a ação voluntária e motivada pelo amor, outros termos como doulos (δοῦλος; עֶבֶד, eved) referem-se a um servo ou escravo, submisso a um mestre, e leitourgia (λειτουργία; עֲבוֹדָה, avodah) denota um serviço público ou litúrgico, muitas vezes associado ao culto no templo. Hyperetes (ὑπηρέτης) é um termo que descreve um assistente ou subordinado, que executa ordens.

Embora doulos possa implicar uma posição de menor autonomia, o Novo Testamento frequentemente utiliza essa palavra para descrever os seguidores de Cristo, indicando uma submissão voluntária à vontade divina. Leitourgia, por sua vez, conecta o ministério ao culto e à adoração. Hyperetes, aplicado a ministros como Paulo, enfatisa o papel de cooperadores de Deus. Todas estas palavras compartilham a ideia de serviço, mas diakonia se destaca pela ênfase no amor, na humildade e na motivação altruísta.

Ouro

O ouro (זהב, zahav; χρυσός, chrysós), um metal precioso de cor amarela brilhante, é mencionado extensivamente na Bíblia, desde o Gênesis até o Apocalipse. Valorizado por sua beleza, raridade e maleabilidade, o ouro desempenhava múltiplos papéis nas culturas do antigo Oriente Próximo e no mundo bíblico. Era utilizado na fabricação de ornamentos, joias, objetos de culto, utensílios reais e como moeda de troca. No contexto religioso, o ouro simbolizava a divindade, a realeza, a pureza e a glória celestial.

No Antigo Testamento, o ouro é associado à riqueza e ao poder, como nas descrições do Templo de Salomão, adornado com grandes quantidades do metal. Também era empregado na confecção de objetos sagrados, como o propiciatório da Arca da Aliança e os utensílios do Tabernáculo. No Novo Testamento, o ouro é um dos presentes oferecidos pelos magos ao menino Jesus, simbolizando sua realeza. Em Apocalipse, a Nova Jerusalém é descrita como uma cidade de ouro puro, representando a glória e a perfeição do reino de Deus.

Sacrifício

O sacrifício, um ato ritualístico central em diversas religiões, incluindo o antigo Israel, envolve a oferenda de algo valioso a uma divindade.

Na Bíblia, o sacrifício abrange desde oferendas vegetais até o sacrifício de animais, e assume variadas funções, como purgação de pecados, demonstração de gratidão, comunhão com a divindade e súplica. A prática sacrificial no Antigo Testamento é detalhadamente regulamentada na Torá, especialmente em Levítico, especificando os tipos de ofertas, os procedimentos rituais e os participantes. O sistema sacrificial israelita possuía um complexo simbolismo teológico, apontando para a santidade de Deus, a gravidade do pecado e a necessidade de reconciliação.

A interpretação do sacrifício evoluiu ao longo da história judaico-cristã, com o Novo Testamento apresentando a morte de Jesus Cristo como o sacrifício supremo e definitivo, que supera e cumpre os sacrifícios do Antigo Testamento.

No período do Segundo Templo e no judaísmo rabínico, a destruição do Templo de Jerusalém (70 d.C.) e a subsequente impossibilidade de realizar os sacrifícios prescritos levaram a uma reinterpretação da prática. A oração, o estudo da Torá e as boas ações passaram a ser vistos como formas de sacrifício espiritual, substituindo a oferenda material em muitas vertentes do judaísmo.

Na filosofia e na cultura ocidental, o conceito de sacrifício expandiu-se ainda mais. A renúncia a desejos e prazeres pessoais em prol de um bem maior, a dedicação a uma causa, o heroísmo que implica risco de vida e a abnegação em favor do próximo passaram a ser compreendidos como formas de sacrifício. Essa ampliação semântica reflete a internalização e a moralização do conceito original, agora desvinculado do ritual religioso específico, mas ainda carregado de valor moral e espiritual. O sacrifício, assim, tornou-se sinônimo de esforço, renúncia e entrega em nome de um ideal, seja ele religioso, moral, político ou pessoal.