Moloque

Moloque (em grego: Μολόχ; em hebraico: מֹלֶךְ) é uma figura controversa do Antigo Testamento, associada a práticas de sacrifício de crianças. Sua natureza exata, no entanto, é objeto de debate entre os estudiosos.

Tradicionalmente, Moloque é apresentado como um deus específico, a quem crianças eram oferecidas em sacrifício. Essa visão é reforçada por passagens bíblicas que condenam o culto a Moloque e o sacrifício de crianças (Levítico 18:21, 20:2-5; 2 Reis 23:10; Jeremias 32:35).

No entanto, alguns estudiosos propõem que “Moloque” não seria o nome de uma divindade específica, mas sim um título ou epíteto usado para se referir a um deus ou a um rei. A palavra hebraica mlk (מלך), que forma a raiz do nome Moloque, significa “rei”. Essa hipótese sugere que Moloque poderia ser um título usado para designar o rei de um determinado povo, como os amonitas, ou ainda um epíteto para um deus associado à realeza, como Baal ou Chemosh.

Essa interpretação é apoiada por evidências textuais e arqueológicas. Em algumas inscrições antigas, a palavra mlk aparece em contextos que sugerem um título real ou divino, e não o nome de uma divindade específica. Além disso, a prática de sacrifícios de crianças era comum em várias culturas do antigo Oriente Próximo, e não necessariamente ligada a uma única divindade.

Adônis

Adônis, em gregoΑδωνις, derivado de ’adōn, “senhor”, era uma divindade síria associada à vegetação, que murcha sob o calor intenso do verão. Conhecido como tammuzu ou dūzi em Acade, e tammuz em hebraico, era chamado de ’adōnī na Síria e Fenícia, origem de seu nome grego, Adônis.

No contexto babilônico, Adônis é identificado com Tammuz (ou o sumério Dumuzi), jovem pastor e esposo da deusa Ishtar. Segundo os poemas babilônicos, ele morre tragicamente na juventude, e Ishtar desce ao submundo para trazê-lo de volta à vida. Cultuado em todo o Oriente Próximo, Egito e Grécia, Adônis era celebrado em um festival realizado entre junho e julho. Durante esse período, que simbolizava a morte da vegetação devido ao calor abrasador, acreditava-se que ele descia ao submundo. Sua esposa, a deusa Ishtar, também descia para reanimá-lo na primavera seguinte.

Esse mito centraliza a morte e o renascimento associados às estações do ano, particularmente após a colheita, quando o espírito da vegetação parecia morto. A morte de Tammuz era celebrada em festivais realizados no início do quarto mês (correspondente a junho no calendário moderno), período que leva o nome do deus. O célebre poema O Descenso de Ishtar aos Infernos era recitado nessas ocasiões, simbolizando a descida ao mundo dos mortos e a esperança de renovação da vida.

Com o tempo, o culto a Tammuz passou de Babilônia para a Síria, onde foi associado às figuras de Astarte e Esmun (Adônis). Esse culto chegou à Grécia nos séculos VI e V a.C., transformando-se no mito de Adônis e Afrodite. No relato grego, Adônis, filho de Mirra, uma princesa transformada em árvore, era tão belo que foi disputado por Afrodite e Perséfone. Ele passava um terço do ano no submundo com Perséfone e o restante com Afrodite. Ferido mortalmente por um javali nas florestas do Líbano, Adônis morre desangrado, e de seu sangue nasce a anêmona, flor efêmera que simboliza a fragilidade da vida.

O culto de Adônis teve seu centro em Biblos, próximo à nascente de Afka (atualmente Nahr Ibrahim), onde se acreditava que ele havia morrido. Durante seus festivais, os “jardins de Adônis” eram cultivados: sementes de trigo e anêmonas eram plantadas em pequenos vasos, germinando rapidamente para logo murcharem, um emblema da brevidade da vida. Em Alexandria, as adonias duravam três dias, encerrando-se com alusões à vida celestial de Adônis, possivelmente influenciadas pelos mitos de Osíris.

No mundo greco-romano e em partes do Oriente Próximo, as celebrações tinham um caráter funerário.

Em Ezequiel 8:14, menciona-se mulheres israelitas chorando pelo deus Tammuz junto a um dos portões do Templo, indicando a presença de seu culto em Israel. Há também uma possível alusão ao seu culto em Isaías 17:10, onde a expressão “plantas agradáveis” ou “jardins de Na’aman” pode referir-se aos jardins de Adônis. Por fim, é possível que Zacarias 12 possa conter outra alusão ao luto das adonias.

Embora alguns autores cristãos, como Orígenes e Jerônimo, tenham relacionado o culto de Adônis à ideia de ressurreição.Essa associação provavelmente resultou da influência do mistério cristão, uma vez que o culto de Adônis, essencialmente campestre e naturalista, não atingiu o status de um mistério religioso. Tentativas de conectar o mito de Adônis com a morte e ressurreição de Cristo foram rejeitadas, destacando-se as diferenças teológicas e simbólicas entre ambos os contextos.

Bel

Bel

Bel, בֵּל, Bēl, cognato do semita ocidental Baal, “senhor” ou “possuidor”, era um título associado a deidades na antiga Mesopotâmia. Bel seria o equivalente sumério de Bel era En, que designava Enlil, o deus do vento e das tempestades, uma das principais divindades da tríade original de Sumer.

Com o estabelecimento da supremacia de Babilônia, o deus principal da cidade, Marduque (Merodaque no Antigo Testamento), adquiriu os atributos de Enlil, recebendo também o título honorífico de Bel. Esse título acabou por substituir o nome Marduque no uso comum, consolidando a posição de Bel como a principal divindade babilônica.

No Antigo Testamento, Marduque é mencionado explicitamente apenas em Jeremias 50:2. Já Bel aparece em Isaías 46:1 e em Jeremias 50:2 e 51:44, geralmente em contextos que denunciam a idolatria. Nos apócrifos Bel e o Dragão e na Epístola de Jeremias 6:41, Bel é criticado como símbolo de adoração a deuses falsos. O nome de Bel também é encontrado como parte de nomes próprios, como no caso de Belsazar (Belshazzar), o rei mencionado em Daniel 5.

A transição de Enlil para Bel ilustra a evolução religiosa na Mesopotâmia, com a centralização do poder divino em Marduque refletindo a ascensão de Babilônia como hegemonia cultural e política da região.