O matrimônio ou o casamento designa a união social, sexual, jurídica e religiosa entre pessoas, tal como reconhecida pela comunidade e regulada por normas familiares e cultuais.
A Bíblia Hebraica emprega diversos termos relacionados ao matrimônio. Entre eles, destaca-se a raiz כרת (kārat), cujo sentido literal é “cortar”. Esse verbo é amplamente utilizado na expressão “cortar uma aliança”, que indica o estabelecimento de uma relação pactual. Nessa perspectiva, o casamento é compreendido como uma aliança.
O principal verbo associado ao ato de casar-se é לָקַח (lāqaḥ), que significa “tomar”, “receber” ou “assumir”. Trata-se da forma mais comum de descrever o matrimônio de um homem com uma mulher. Em Gênesis 4:19, por exemplo, afirma-se que Lameque “tomou” duas esposas. O verbo enfatiza a iniciativa e a responsabilidade assumidas pelo marido ao integrar a mulher ao seu grupo familiar. Seu emprego não implica a aquisição de uma escrava. Antes, indica a incorporação da esposa à estrutura doméstica, econômica e social da família.
O substantivo אִשָּׁה (ʾiššâ) pode significar tanto “mulher” quanto “esposa”, pois o hebraico bíblico não possui um vocábulo exclusivo para designar a condição matrimonial feminina. O significado é determinado pelo contexto. O termo correspondente para “homem” é אִישׁ (ʾîš). A proximidade fonética entre ʾîš e ʾiššâ é explorada em Gênesis 2:23 para expressar a íntima relação entre homem e mulher.
A dimensão pactual do casamento aparece de modo explícito no substantivo בְּרִית (berît), “aliança”. Em Malaquias 2:14, a esposa é descrita como “a mulher da tua aliança”, o que indica que o vínculo matrimonial possui natureza religiosa e jurídica diante de Deus. A associação entre a raiz כרת (kārat) e a aliança provavelmente deriva de antigos ritos nos quais animais eram divididos durante a cerimônia de ratificação pactual, como ocorre em Gênesis 15. Embora tal ritual não seja descrito para casamentos nas Escrituras, tradições judaicas posteriores compreenderam o matrimônio como uma forma de aliança estabelecida perante Deus.
Outros termos relevantes incluem חָתָן (ḥātān), “noivo” ou “genro”, e כַּלָּה (kallâ), “noiva”. O primeiro está relacionado à entrada em um novo status familiar. O segundo tornou-se a designação habitual da mulher prometida ou recém-casada.
Particular importância possui a expressão עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ (ʿēzer kenegdô), empregada em Gênesis 2:18 e 20. Tradicionalmente traduzida como “auxiliadora idônea”, a expressão é de difícil interpretação. O substantivo עֵזֶר (ʿēzer), “auxílio” ou “ajudador”, é frequentemente utilizado para Deus como auxílio de Israel e não sugere inferioridade. O termo כְּנֶגְדּוֹ (kenegdô) significa “correspondente a ele”, “diante dele” ou “à sua altura”.
No conjunto da Bíblia Hebraica, o casamento é apresentado como uma aliança caracterizada pela fidelidade, pela lealdade e pelo compromisso mútuo diante de Deus. Esse ideal relaciona-se ao conceito de חֶסֶד (ḥesed), termo que expressa fidelidade pactual, amor leal e compromisso.
O Antigo Testamento preserva exemplos de poligamia, principalmente nos períodos patriarcais e entre reis como os matrimônios de Jacó (Gênesis 29:15-30). Os antigos israelitas gradualmente adotaram a monogamia como ideal normativo, sendo assim praticado na era do Segundo Templo.
O relato de Gênesis 2:21-24 tornou-se a principal formulação teológica da união conjugal, apresentando o casamento como vínculo de interdependência mútua, intimidade e permanência. A expressão “uma só carne” designa uma comunhão de vida. Essa interpretação foi reafirmada por Jesus em Marcos 10:6-9, onde a união matrimonial é descrita como obra divina.
Na sociedade israelita antiga, o casamento possuía dimensão econômica e familiar. A mulher, geralmente vinculada à casa paterna até o matrimônio, passava à esfera do marido mediante acordos familiares que incluíam o pagamento do מֹהַר (mōhar), frequentemente traduzido como “preço da noiva” (Gênesis 34:12). Essa prática vinha da estrutura patriarcal na qual o corpo feminino era inserido em circuitos econômicos de troca. Apesar disso, o casamento garantia estabilidade social, preservação patrimonial e continuidade da descendência.
A fertilidade era considerada bênção divina, enquanto a esterilidade frequentemente aparecia como sinal de sofrimento ou reprovação social. Essa crença cultural é subvertida pelo próprio testemunho bíblico em narrativas como as de Sara, Ana, Isabel e Maria, nas quais a bênção do Espírito irrompe justamente onde a biologia falha.
A fidelidade conjugal constituiu um dos princípios éticos centrais da legislação mosaica. O adultério foi proibido explicitamente no Decálogo (Êxodo 20:14; Deuteronômio 5:18) e associado à violação da aliança comunitária e religiosa. Não se trata da proteção da propriedade masculina, mas da ruptura da koinōnia estabelecida por Deus entre os cônjuges e a comunidade. A literatura sapiencial exaltou a alegria e a exclusividade do vínculo matrimonial (Provérbios 5:18-19), enfatizando a reciprocidade do prazer e o deleite mútuo. Essa visão bíblica desautoriza a redução do corpo feminino a mero instrumento de procriação.
Os profetas utilizaram o casamento como metáfora da relação entre Deus e Israel. Em Oseias, a infidelidade conjugal simboliza a idolatria e a ruptura da aliança. A metáfora, porém, não termina na condenação. Deus, como esposo fiel, continua buscando Israel por amor restaurador. A prostituição, literal ou metafórica, tornou-se imagem recorrente do afastamento religioso e moral (Êxodo 34:15; Oseias 9:1).
A legislação deuteronômica admitia o divórcio mediante documento escrito entregue pelo marido à esposa (Deuteronômio 24:1-2). A concessão reflete as estruturas de poder da época, nas quais a mulher não possuía autonomia legal para dissolver o vínculo.
Entre as formas particulares de matrimônio no Antigo Testamento destaca-se o levirato (Deuteronômio 25:5-10), obrigação segundo a qual o irmão de um homem falecido sem descendência devia casar-se com a viúva para preservar o nome e a herança do morto. Também funcionava como proteção econômica da viúva, que, sem vínculo matrimonial, permanecia desprotegida em uma sociedade patriarcal.
O Novo Testamento, escrito em grego koiné, emprega um vocabulário mais específico para tratar do matrimônio. O verbo mais comum é γαμέω (gameō), “casar-se”, utilizado para descrever o ato de contrair matrimônio, especialmente por parte do homem. O substantivo relacionado é γάμος (gamos), que pode significar “casamento”, “festa de casamento” ou “banquete nupcial”.
Outro verbo importante é γαμίζω (gamizō), empregado para indicar o ato de dar alguém em casamento, especialmente uma filha sob autoridade paterna. O termo aparece em contextos como Mateus 24:38 e Lucas 17:27.
O substantivo γάμος (gamos) desempenha papel relevante na linguagem simbólica do Novo Testamento. As parábolas do banquete nupcial em Mateus 22:1-14 e a narrativa das bodas de Caná em João 2:1-11 ilustram essa importância. O termo também aparece em Apocalipse 19:7-9 para descrever as bodas do Cordeiro, imagem escatológica da união definitiva entre Cristo e seu povo.
Entre as metáforas mais significativas encontram-se νύμφη (nymphē), “noiva”, e νυμφίος (nymphios), “noivo”. Jesus identifica-se como o noivo em passagens como Mateus 9:15 e Mateus 25:1-13. João Batista descreve-se como o amigo do noivo em João 3:29. Paulo utiliza a imagem da noiva para representar a igreja prometida a Cristo em 2 Coríntios 11:2. O livro de Apocalipse desenvolve essa mesma simbologia ao retratar a consumação escatológica da união entre Cristo, o noivo, e a comunidade redimida, representada pela noiva e pela Nova Jerusalém.
A discussão sobre o divórcio reaparece no Novo Testamento, especialmente nos evangelhos sinóticos. Jesus distingue a concessão mosaica do propósito original divino, enfatizando a indissolubilidade do casamento (Marcos 10:2-12; Mateus 19:3-9). Essa indissolubilidade, contudo, deve ser compreendida como proteção da mulher contra o repúdio arbitrário, não como aprisionamento em vínculos abusivos. No contexto greco-romano do século I, mulheres também podiam iniciar o divórcio.
No Novo Testamento, o casamento conserva relevância ética e simbólica. Parábolas de banquetes nupciais e imagens do noivo e da noiva descrevem o Reino de Deus (Mateus 25:1-13; Lucas 14:16-24; Apocalipse 19:7-9). O noivo é Cristo. A noiva é a comunidade do Espírito, reunida entre todas as nações, gêneros e condições.
Apesar disso, a expectativa escatológica reduz a instituição para o tempo presente. Em Marcos 12:25 afirma-se que, na ressurreição, não haverá casamento.
Em 1 Coríntios 7, Paulo aconselha a permanência no estado em que cada pessoa se encontra e recomenda prudência diante da iminência do fim dos tempos. Sua preferência circunstancial pelo celibato não implica rejeição do matrimônio ou do corpo. Antes, deriva da convicção de que efemeridade deste mundo (1 Coríntios 7:31).
