Maurice Wiles (1923-2005) foi um teólogo e filósofo britânico que realizou trabalhos sobre cristologia.
Wiles, teólogo anglicano e Professor Regius de Divindade na Universidade de Oxford, foi expoente o liberalismo teológico britânico através de uma produção acadêmica centrada na revisão das estruturas dogmáticas do cristianismo. Sua premissa fundamental estabelecia que a teologia deve submeter-se à investigação histórica crítica e aos pressupostos da ciência, rejeitando qualquer cisão entre as conclusões da razão e as afirmações da fé.
Wiles formulou o método da crítica doutrinária para avaliar como as formulações herdadas, embora historicamente condicionadas, poderiam ainda servir ao propósito de fomentar o amor e a vida cristã. Em obras como The Making of Christian Doctrine (1967) e The Remaking of Christian Doctrine (1974), ele argumentou que as doutrinas são construções humanas em resposta ao divino, e não verdades proposicionais reveladas.
Sua contribuição para o simpósio The Myth of God Incarnate (1977) consolidou seu questionamento da ortodoxia de Calcedônia. Wiles sustentou que a encarnação, entendida como a união metafísica de duas naturezas em uma pessoa divina pré-existente, constitui uma estrutura mitológica do mundo antigo sem correspondência literal na realidade contemporânea. Para ele, Jesus foi um ser humano plenamente responsivo a Deus, cujo valor reside no exemplo e no ensino, e não em uma singularidade ontológica. Essa revisão estendeu-se à expiação, na qual rejeitou teorias de substituição penal em favor de uma visão de reconciliação inspirada pela obediência de Jesus, e à ressurreição, interpretada não como reanimação biológica, mas como a vindicação divina da vida de Cristo através de encontros transformadores.
Quanto à natureza de Deus e da providência, Wiles propôs uma ação divina não coercitiva que opera exclusivamente por meio das leis naturais e da agência humana, o que o levou a descartar milagres como intervenções que suspendem a ordem física. O dogma trinitário foi redefinido como um modelo para compreender o engajamento diversificado de Deus com a criação, priorizando a Trindade econômica sobre a immanente. A autoridade das Escrituras foi preservada apenas como testemunho primário de experiências religiosas e fonte de paradigmas para a fé. Wiles defendeu que a unidade da Igreja deve repousar no discipulado compartilhado e na ética, e não na uniformidade doutrinária, mantendo a honestidade intelectual como o critério final para a profissão de fé.
