A Bíblia, ao mesmo tempo que condena veementemente a magia, também revela um profundo fascínio por suas práticas e seus poderes. Essa ambivalência se manifesta em diversos textos, desde a proibição explícita de práticas divinatórias em Deuteronômio 18:10-11 (cf. 2 Reis 21:6; 2 Crônicas 33:6) até a narrativa de Moisés transformando seu cajado em serpente diante de Faraó (Êxodo 7:8-13).
A condenação da magia na Bíblia se concentra principalmente em práticas que buscam conhecimento ou poder fora da vontade de Deus, como adivinhação, astrologia e necromancia. Essas práticas são frequentemente associadas à idolatria e à infidelidade, representando um desvio do caminho da fé e da confiança em Deus. Textos como Miqueias 5:11 e Jeremias 27:9 alertam contra aqueles que se desviam para a magia, enquanto Êxodo 22:17-23 prescreve punições severas para feiticeiros.
No entanto, nas culturas dos povos da Bíblia o poder da magia era reconhecido como real. A Bíblia contém referências a amuletos e práticas apotropaicas, como o hitef hinnom, pequenos rolos de prata contendo inscrições com a bênção sacerdotal (Números 6:24-26), descobertos em Jerusalém e datados do século VII a.C. Esses amuletos, utilizados para proteção contra o mal, revelam a coexistência de crenças mágicas e religiosas na cultura do antigo Israel.
A ambivalência da Bíblia em relação à magia reflete a complexa relação entre o mundo natural e o sobrenatural no antigo Israel. A magia, enquanto expressão do desejo humano de controlar o desconhecido, é ao mesmo tempo condenada como uma afronta à soberania divina e utilizada como ferramenta narrativa para exaltar o poder de Deus.
