Estoicismo

Em grego Στωικοί, os estoicos eram uma vertente filosófica influente durante os períodos helenista e romano que enfatizava a harmonia e resignação diante da natureza.

Os estoicos são mencionados em Atos 17:18, junto com os epicureus. Em At 17:28, Paulo cita um poeta estóico, Arato: “Pois nós realmente somos sua geração”.

Zenão (342-270 aC) foi o fundador do estoicismo. Seria originalmente um fenício que por acaso naufragou em Atenas. Por um tempo, conviveu com os ascéticos cínicos e depois passou a ensinar sob um pórtico (stoa). Seu discípulo Cleantes, apesar de respeitável, possuía pouca habilidade filosófica. Depois dele, Crisipo assumiu a direção da escola de 232 a 206 aC. Reorganizada, funcionaria ainda por quatro séculos. Entre os romanos Epiteto, Sêneca e Marco Aurélio foram autores estoicos amplamente difundidos.

A escola estoica enfatizava a linguagem e lógica (Logos) como meios de apreensão racional da natureza (Physis). Em sua ética argumentavam que o comportamento adequado resultaria da resignação ao destino (fatum). Assim, gramáticos e retóricos estoicos se tornaram procurados pelo mundo do Mediterrâneo.

A filosofia e o currículo da educação estoica eram dividos em três partes: lógica, física e ética.

Rejeitando bases empíricas, pois as percepções humanas são imperfeitas, os estoicos buscam a verdade no exame racional de conceitos pela lógica, preferindo um raciocínio dedutivo. Como a lógica proposicional era intimamente ligada à linguagem, os estoicos empregaram exaustivamente as disciplinas da gramática, retórica e dialética para fundamentar seus raciocínios.

Essa preocupação com a linguagem gerou algumas ramificações. No estoicismo há algumas pressuposições epistemológicas e de filosofia de linguagem que são distintivamente fundamentais no estoicismo, como a de que existe uma distinção clara entre ideias e matéria.

Outro pressuposto é que seria pela linguagem proposicional, ao invés dos objetos ou fenômenos em si, que se transmitiria e mediaria o Logos. Assim, criou-se uma confiança em uma epistemologia objetivista de correspondência entre objetos e seus signos, conforme expressos por proposições.

Mediante o conceito de Physis – natureza – os estoicos viam o mundo em dualismo (agente e paciente). Visto que a Razão (Logos) penetra todas as coisas, todo evento dependeria de uma lei universal de Destino ou Providência. Assim, pressupunha que a Physis seria o parâmetro para se buscar harmonia, pois seria inerentemente boa. Essa posição notoriamente gerou o problema do Mal. Assim, a teodiceia estoica nunca foi satisfatória ou uniforme.

Como na lógica proposicional empregada pelos estoicos reside a dicotomia entre verdadeiro ou falso, muito de seus preceitos éticos acabaram sendo direcionados por dilemas. Por essa razão, o determinismo tornou-se rampante entre os estoicos. Epiteto dizia que a humanidade estava em uma peça de teatro cujos papéis e desfecho seriam já pré-determinados. O próprio universo estaria destinado a uma conflagração no qual a Physis existiram em perfeita harmonia.

Em ética, os estóicos defendiam a responsabilidade na vontade. Por esse motivo, rejeitaram a legitimidade do prazer e enfatizaram a virtude do caráter e uma vida de aceitação das adversidsdes. Em vez de evitar persistentemente a dor, consideraram que valia a pena correr riscos mesmo que isso causasse desprazeres.

A ética e o determinismo afetavam a escatologia estoica. Apesar da oposição entre alma e corpo, os estoicos esperavam que a alma sobrevivesse a destruição do corpo. Assim, o mais válido seria aceitar as injustiças e sofrimentos nessa vida e esperar uma restauração da harmonia e da justiça na existência futura.

A verdadeira conquista da virtude é difícil. A physis humana é cruel e tola. Uns poucos passam por uma conversão repentina e instantânea e compreendem a physis pela providência do Logos. Infelizmente, poucas pessoas se converteriam. Mesmo assim, isso só aconteceria tarde após uma vida árdua de incompreensão do Destino.

BÍBLIA

Fora as partes já mencionadas em At 17, pouco a Bíblia refere diretamente ao estoicismo. Contudo, era uma filosofia pervasiva no mundo do Novo Testamento.

Os fariseus praticamente assimilaram, traduziram e adaptaram o estoicismo para sua doutrina. Sua concepção de Torá passa a ser congruente com Logos e Physis. A valorização da ética, a importância da vontade e da alma, os debates, as questões da retórica e gramática do texto da Lei, a aceitação do sofrimento, são elementos estoicos encontrados entre os fariseus.

Há uma notável familiaridade de Paulo com o estoicismo. Sua formação farisaica, seus termos, lista de vícios e virtudes, elenco de vicissitudes sofrida, argumentos com diatribes parecem substanciar essa associação. As pseudoepígrafas correspondências de Paulo e Sêneca indicam que na Antiguidade muitos viram um paralelismo entre os pensamentos de ambos. Contudo, o exame sistemático tanto dos textos paulinos e do contexto não dão suporte conclusivo à tese de que Paulo teria sido influenciado pelo estoicismo.

Outro trecho supostamente com conotações estoicas é 2 Pedro 3:10-12. Contudo, a concepção estoica de natureza está ausente da Bíblia. Ademais, a intervenção ativa e súbita do poder divino, equiparado ao Dilúvio, contrasta com uma progressão natural da natureza conforme o Destino estoico parecia planejar a conflagração universal.

A recepção do pensamento estoico no cristianismo ocidental não deve ser subestimada. Os escritos de Epiteto, Marco Aurélio e Sêneca foram cuidadosamente e abundantemente copiados ao longo de textos bíblicos durante a Idade Média. A ética de aceitação do sofrimento foi vista como virtude. Zwinglio e Calvino foram estudiosos do estoicismo. Muito da teologia ocidental foi fundada em termos e ideais estoicos. A reinterpretação de Sêneca (e Paulo) por meios do estoicismo renascentista levaram a uma extrapolação interpretativa dos escritos paulinos de modo muitas vezes eisegéticos.

A religiosidade popular ocidental também funda-se em vários aspectos do estoicismo: a crença de que tudo tem um propósito, a existência de um Destino, a busca pela harmonia com a intrinsicamente benévola Natureza. Esses são alguns elementos presentes nas cosmovisões de muitas sociedades influenciadas pelas culturas do Ocidente.

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