Metástase de João

A Metástase de João é uma lenda não canônica que narra a morte do apóstolo João, com versões relacionadas encontradas em diversos manuscritos dos Atos de João (106-115). A narrativa inclui o relato da descida de João à sepultura que ele próprio ordena a seus discípulos que cavem.

As versões independentes da Metástase de João, provavelmente originadas em siríaco, datam dos séculos IV-V. Apesar de sua antiguidade, essa obra nunca alcançou grande aceitação nas igrejas primitivas.

Chreia

A chreia, em grego χρεία, no plural chreiai, χρεῖαι, é uma breve anedota centrada em um dito ou ação memorável de uma figura proeminente. Na retórica antiga, era uma técnica de atribuir um contexto a um dito, usualmente a alguém importante.

Originária da retórica grega, a chreia significa “o que é útil”, especialmente em confrontos. A chreia consiste em uma referência a uma pessoa conhecida e um comentário ou gesto marcante. A figura central pode ser o agente ou o receptor da ação. Como forma oral, a chreia era flexível, permitindo expansões com detalhes sobre encontros, ocasiões e reações. Filósofos estoicos usavam chreiai como ilustrações em discursos, enquanto cínicos as empregavam em confrontos sociais e como modelos de comportamento.

Na pesquisa do Novo Testamento, muitos estudiosos descrevem as anedotas de Jesus nos evangelhos sinóticos como chreiai, por abrangerem mais histórias e ditos do que termos anteriores como “história de pronunciamento” ou “apoftegma”. A sequência de chreiai nos sinóticos sugere semelhanças sociais entre o cristianismo primitivo e os cínicos helenísticos.

Os fragmentos de Papías (c. 125 d.C.) tratam o evangelho de Marcos como chreiai (“anedotas”) sobre Jesus formuladas por Pedro, que Marcos havia “recordado” (apomnēmoneusen). (Papías, citado em Eusébio, Hist. eccl. 3.39.14–16).

Um exemplo de chreia nos evangelhos é quando Lucas descreve o início do ministério de Jesus na Galileia, na sinagoga de Nazaré (4:16–30). Lucas transforma a história de uma simples chreia ou anedota ilustrando como o “profeta não tem honra” em sua própria casa, na história do sermão inaugural de Jesus.

Mashal

O termo hebraico מָשָׁל mashal designa um gênero literário que abrange desde provérbios curtos até parábolas e alegorias extensas. Seu propósito é didático e comparativo, transmitindo sabedoria por meio de analogias e figuras de linguagem.

No Antigo Testamento, mashal aparece em diversos contextos, como a literatura sapiencial (Provérbios, Eclesiastes), a profecia (Ezequiel) e as narrativas históricas (Juízes). Muitas vezes associado a חִידָה (khidah, “enigma”), pode assumir o formato de ditado moral, sátira, cântico ou sentença legal. Sua concisão e imagética vívida favorecem a memorização e a transmissão oral.

No judaísmo rabínico, mashal tornou-se um recurso pedagógico fundamental, especialmente em parábolas que ilustram verdades espirituais por meio de situações do cotidiano. Jesus utilizou esse estilo em seus ensinamentos, aproximando-se da tradição rabínica, mas com uma intencionalidade singular. Suas parábolas não eram meras ilustrações morais, mas veículos de revelação sobre o Reino de Deus. Diferiam das fábulas, pois evitavam personagens animais falantes, e da alegoria complexa, privilegiando um impacto direto sobre o ouvinte. Seu efeito era provocativo, desafiando a audiência a uma decisão ética e espiritual. Muitas parábolas de Jesus terminam com um desfecho surpreendente, que inverte expectativas e confronta o ouvinte com uma verdade inescapável.

A tradição rabínica e os evangelhos compartilham algumas imagens e estruturas narrativas, mas frequentemente aplicam-nas com propósitos distintos. Enquanto Jesus empregava mashal para revelar mistérios do Reino e questionar convenções religiosas, os rabinos o usavam para reforçar ensinamentos morais e haláquicos. A convergência estrutural sugere um fundo cultural comum, no qual o mashal funcionava como um meio privilegiado de ensino na sociedade judaica do período do Segundo Templo.

A natureza polissêmica dos mashalim reflete a versatilidade da linguagem figurada.

Gilberto, o Universal

Gilberto, o Universal, Gilbert Universalis ou Gilbertus Universalis (falecido em 1134) foi um bispo de Londres.

Educado em Laon, era notório por sua erudição. Escreveu comentários sobre Lamentações, Pentateuco e Profetas Maiores. Foi contemporâneo aos biblistas de Paris. Foi colocado como bispo em 1128.

Gilberto, o Universal, escreveu uma Glossa ordinaria. Trava-se de uma compilação do que comentaristas escreveram sobre os livros da Bíblia ao longo da história de sua recepção.

Biblistas de Paris

A Escola de Paris de exegese bíblica, florescente nos séculos XII e XIII, representou um marco na interpretação das Escrituras. Conhecidos como “os biblistas de Paris” ou “os vitorinos,” em referência à Abadia de São Vítor onde boa parte estava associado, seus membros buscaram uma abordagem mais literal e histórica, em contraste com a exegese alegórica predominante.

Composta por clérigos da Abadia de São Vítor, estudiosos da escola da catedral de Notre Dame e leigos da nascente Sorbonne, os biblistas de Paris reacenderam os interesses pela exegese. Praticavam a lectio continua, isto é, uma leitura expositiva livro a livro das Escrituras.

William de Champeaux, Hugo de São Vítor, André de São Vítor, Pedro Lombardo, Pedro Abelardo e Stephen Langton figuram entre os seus principais expoentes. Hugo de São Vítor enfatizou a importância do estudo das línguas originais e da geografia bíblica, enquanto André de São Vítor se destacou por seu profundo conhecimento do hebraico e por sua consulta a fontes judaicas. Pedro Lombardo, com suas Sentenças, fundamentou uma crítica dialética que influenciaria tanto teologia medieval quanto a harmonização de passagens bíblicas. Stephen Langton contribuiu para a divisão da Bíblia em capítulos.

Uma versão popular da Bíblia foi escrita por Pedro Comestor. Sua Historia scholastica, uma paráfrase da Bíblia escrita para a escola da catedral de Notre Dame, acabou tornando-se um texto amplamente copiado para uso nas universidades e na devoção popular.

A Escola de Paris impulsionou o desenvolvimento da crítica textual e histórica, pavimentando o caminho para a exegese moderna.