Paraíso

O paraíso refere-se a um tipo de jardim, um lugar ou estado de deleite, um estado pós-morte.

O termo provavelmente vem do proto-irânico para *parādaiĵah-, significando “recinto murado” e chegou ao assírio como pardesu, referindo-se a um “domínio”.

No Antigo Testamento, o termo hebraico גן עדן (Gan Eden), traduzido como “Jardim do Éden”, descreve um lugar de beleza e abundância, onde Adão e Eva desfrutavam da comunhão com Deus. A expulsão do jardim, narrada em Gênesis 3, marca a perda da inocência e o início da história humana marcada pelo sofrimento e pela morte.

Xenofonte utilizou o termo παράδεισος (parádeisos) para descrever “parques para animais”. A palavra também foi adotada no aramaico (pardaysa) como “parque real” e no hebraico (פַּרְדֵּס pardes) como “pomar”, aparecendo três vezes na Bíblia Hebraica: Cântico dos Cânticos 4:13, Eclesiastes 2:5 e Neemias 2:8. A Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento, utilizou parádeisos para traduzir tanto pardes quanto gan (jardim), como em Gênesis 2:8 e Ezequiel 28:13, associando o termo ao Jardim do Éden. Essa associação se perpetuou no árabe (firdaws فردوس) e no Corão.

O conceito de um recinto murado se perdeu em muitos usos iranianos posteriores, passando a significar simplesmente uma plantação ou área cultivada, como o persa Pardis e seus derivados.

Na Bíblia Hebraica, o termo pardes surge no período pós-exílico, referindo-se a parques ou jardins, como os parques reais de Ciro, o Grande, descritos por Xenofonte. No judaísmo do Segundo Templo, “paraíso” passou a ser associado ao Jardim do Éden e às profecias de sua restauração, sendo transferido para o conceito de céu. No apócrifo Apocalipse de Moisés, Adão e Eva são expulsos do paraíso (e não do Éden) após a queda. Após a morte de Adão, o Arcanjo Miguel leva seu corpo para ser enterrado no Paraíso, no Terceiro Céu.

A literatura intertestamentária e o Novo Testamento trazem novas perspectivas sobre o paraíso. A ideia de um lugar de recompensa para os justos após a morte ganha destaque, como evidenciado em Lucas 23:43, onde Jesus promete ao ladrão crucificado: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. Em 2 Coríntios 12:4: Paulo descreve um paraíso no terceiro céu. Apocalipse 2:7 menciona a “árvore da vida” no paraíso de Deus, simbolizando a restauração da comunhão divina.

Alguns estudiosos sugerem que a concepção do paraíso no Novo Testamento pode ter sido influenciada por ideias helenísticas, como o conceito de Campos Elíseos. No entanto, a centralidade da figura de Cristo e a promessa de ressurreição distinguem a visão bíblica de outras tradições.

O paraíso, portanto, pode ser compreendido como um lugar de deleite terreno, um estado de comunhão com Deus ou uma realidade futura de recompensa eterna. Sua interpretação varia de acordo com diferentes tradições teológicas e abordagens exegéticas. Independentemente da perspectiva adotada, o paraíso representa a busca humana pela felicidade plena e pela reconciliação com o divino.

Diamante

Diamante (יַהֲלֹם, yahalom; ἀδάμας, adamas), embora frequentemente traduzido como “diamante” em versões modernas da Bíblia, possui um significado e identificação incertos no contexto do Antigo Testamento. A palavra hebraica yahalom aparece na lista de pedras preciosas do peitoral do sumo sacerdote (Êxodo 28:18; 39:11) e na descrição do rei de Tiro (Ezequiel 28:13).

A identificação com o diamante moderno (carbono puro cristalizado) é problemática, pois o diamante era extremamente raro no antigo Oriente Próximo, e a tecnologia para lapidá-lo não era amplamente desenvolvida.

O termo grego adamas, usado na Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) para traduzir yahalom e em outras obras da literatura grega antiga, referia-se a um material de extrema dureza, possivelmente o diamante, mas também outras pedras duras, como o coríndon ou até mesmo o aço.

Dada a incerteza, é mais provável que yahalom se referisse a outra pedra preciosa de alta dureza e valor, como um tipo de quartzo, cristal de rocha, topázio ou mesmo o já mencionado coríndon (variedade da qual fazem parte a safira e o rubi). A identificação exata permanece um ponto de debate entre estudiosos da Bíblia e da mineralogia antiga. O simbolismo associado à pedra, independentemente de sua identificação exata, permanece ligado à beleza, raridade, durabilidade e valor.

Cenáculo

Cenáculo (ἀνάγαιον, anagaion; עֲלִיָּה, aliyah) refere-se ao aposento superior de uma casa em Jerusalém, onde Jesus celebrou a Última Ceia com seus discípulos (Marcos 14:15; Lucas 22:12). O termo grego anagaion (usado em Marcos e Lucas) e seu sinônimo ὑπερῷον (hyperōon, usado em Atos) denotam um cômodo localizado no andar de cima de uma residência, frequentemente amplo e utilizado para refeições e reuniões.

O Cenáculo, além da Última Ceia, foi o lugar onde os apóstolos se reuniram após a ascensão de Jesus (Atos 1:13) e onde ocorreu o Pentecostes, o derramamento do Espírito Santo (Atos 2:1-4). Essa associação faz do Cenáculo um dos primeiros centros de culto cristão.

Embora a localização exata do Cenáculo original seja incerta, a tradição cristã, desde o período bizantino, aponta para um local no Monte Sião, em Jerusalém. A estrutura atual, conhecida como o Cenáculo (ou Sala da Última Ceia), é uma construção medieval, provavelmente do período das Cruzadas, e não a construção original dos tempos bíblicos. O local, todavia, é um importante ponto de peregrinação e simboliza os eventos ocorridos no anagaion bíblico.

Boanerges

Boanerges (Βοανεργές, Boanerges; בְּנֵי רֶגֶשׁ B’nei Regesh [interpretação tradicional, porém debatida]), é um epíteto aramaico dado por Jesus a Tiago e João, filhos de Zebedeu, em Marcos 3:17. O texto bíblico oferece uma interpretação grega do termo: “Filhos do Trovão” (υἱοὶ βροντῆς, huioi brontēs). A origem e o significado exato de Boanerges têm sido objeto de debate acadêmico.

A interpretação tradicional, baseada na tradução grega de Marcos, associa o termo ao caráter impetuoso e zeloso dos irmãos. Esta interpretação é suportada por episódios narrados nos Evangelhos, como o desejo de Tiago e João de invocar fogo do céu sobre uma cidade samaritana (Lucas 9:54) e o pedido de posições de destaque no Reino de Deus (Marcos 10:35-37).

Contudo, a etimologia exata do termo aramaico é incerta. Alguns estudiosos sugerem que o original aramaico seria B’nei Ra’ash (בְּנֵי רַעַשׁ), que significa “filhos do tumulto” ou “filhos do terremoto”, enquanto outros propõem B’nei Regesh (בְּנֵי רֶגֶשׁ), com o significado de “filhos da ira” ou “filhos do clamor”. A dificuldade reside em harmonizar essas propostas com a tradução grega fornecida por Marcos.

Mitra

Mitra (מִצְנֶפֶת, mitz’nephet; μίτρα, mitra) designa uma cobertura para a cabeça com características e significados distintos ao longo do tempo.

No Antigo Testamento, o termo hebraico mitz’nephet referia-se a um tipo de turbante ou diadema usado pelo sumo sacerdote de Israel (Êxodo 28:4, 37, 39; Levítico 8:9). Este adorno, confeccionado em linho fino, simbolizava a santidade e a autoridade do sumo sacerdote em seu serviço perante Deus. É importante notar que mitz’nephet difere de migba’ah (מִגְבָּעָה), termo usado para os chapéus dos sacerdotes comuns.

A palavra grega mitra (μίτρα), embora apareça na Septuaginta para traduzir mitz’nephet, tinha originalmente um significado mais amplo no mundo greco-romano, referindo-se a uma faixa de cabeça, cinto ou, em alguns casos, um tipo de turbante.

A transição da mitz’nephet bíblica para a mitra episcopal cristã ocidental– um chapéu alto e pontiagudo, frequentemente bipartido – é um desenvolvimento complexo e não totalmente documentado nos primeiros séculos do cristianismo. Não há evidências diretas do uso da mitra como adorno episcopal distintivo antes do século XI. A mitra episcopal, tal como se desenvolveu na tradição ocidental, provavelmente evoluiu de toucados cerimoniais usados por autoridades civis e religiosas, adquirindo gradualmente sua forma característica e simbolismo litúrgico. A partir do século XII, a mitra tornou-se um símbolo amplamente reconhecido da autoridade episcopal na Igreja Católica e, posteriormente, em algumas igrejas da Reforma.