Biblistas de Paris

A Escola de Paris de exegese bíblica, florescente nos séculos XII e XIII, representou um marco na interpretação das Escrituras. Conhecidos como “os biblistas de Paris” ou “os vitorinos,” em referência à Abadia de São Vítor onde boa parte estava associado, seus membros buscaram uma abordagem mais literal e histórica, em contraste com a exegese alegórica predominante.

Composta por clérigos da Abadia de São Vítor, estudiosos da escola da catedral de Notre Dame e leigos da nascente Sorbonne, os biblistas de Paris reacenderam os interesses pela exegese. Praticavam a lectio continua, isto é, uma leitura expositiva livro a livro das Escrituras.

William de Champeaux, Hugo de São Vítor, André de São Vítor, Pedro Lombardo, Pedro Abelardo e Stephen Langton figuram entre os seus principais expoentes. Hugo de São Vítor enfatizou a importância do estudo das línguas originais e da geografia bíblica, enquanto André de São Vítor se destacou por seu profundo conhecimento do hebraico e por sua consulta a fontes judaicas. Pedro Lombardo, com suas Sentenças, fundamentou uma crítica dialética que influenciaria tanto teologia medieval quanto a harmonização de passagens bíblicas. Stephen Langton contribuiu para a divisão da Bíblia em capítulos.

Uma versão popular da Bíblia foi escrita por Pedro Comestor. Sua Historia scholastica, uma paráfrase da Bíblia escrita para a escola da catedral de Notre Dame, acabou tornando-se um texto amplamente copiado para uso nas universidades e na devoção popular.

A Escola de Paris impulsionou o desenvolvimento da crítica textual e histórica, pavimentando o caminho para a exegese moderna.

Bênção

Bênção (בְּרָכָה, berakhah, em hebraico; εὐλογία, eulogia, em grego) é um conceito fundamental na Bíblia, abrangendo tanto a ação de abençoar quanto o resultado dessa ação. A palavra hebraica berakhah deriva da raiz ברך (brk), que significa “ajoelhar-se”, “abençoar”, “louvar”. A palavra grega eulogia significa literalmente “boa palavra” ou “falar bem”, implicando louvor, elogio e a invocação de favor divino.

Na Bíblia, a bênção pode ser:

  1. Divina: Deus é a fonte primária de bênção. Ele abençoa a criação (Gênesis 1:22, 28), indivíduos (Gênesis 12:2-3; 17:16; 24:1), e o povo de Israel (Deuteronômio 7:13-14). A bênção divina pode incluir prosperidade material, saúde, fecundidade, proteção, sucesso, paz e, acima de tudo, um relacionamento especial com Deus. A bênção de Deus é frequentemente associada à aliança e à obediência aos seus mandamentos (Deuteronômio 28:1-14).
  2. Humana: Os seres humanos também podem abençoar uns aos outros, invocando o favor divino sobre eles. Isso pode ocorrer em vários contextos:
    • Patriarcal: Pais abençoam seus filhos, transmitindo herança e autoridade espiritual (Gênesis 27; 48; 49). A bênção patriarcal era considerada irrevogável e profética.
    • Sacerdotal: Os sacerdotes tinham a função específica de abençoar o povo (Números 6:22-27 – a “Bênção Aarônica”). Esta bênção invocava o nome de Deus sobre Israel, pedindo sua proteção, graça e paz.
    • Geral: As pessoas podem abençoar umas às outras em diversas situações, expressando votos de bem-estar, gratidão e louvor a Deus (Rute 2:4; Salmo 129:8).

No Novo Testamento, a bênção (eulogia) adquire um significado ainda mais profundo em Cristo. Jesus abençoa as crianças (Marcos 10:16), os discípulos (Lucas 24:50-51) e o pão e o vinho na Última Ceia (Mateus 26:26). Ele é a fonte suprema de bênção para a humanidade (Efésios 1:3: “Bendito (eulogētós) o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou (eulogēsas) com todas as bênçãos (eulogia) espirituais nas regiões celestiais em Cristo”). A bênção cristã inclui o perdão dos pecados, a adoção como filhos de Deus, a herança da vida eterna e a presença do Espírito Santo.

Benedictus

Benedictus (latim para “Bendito”) é o nome dado ao cântico proferido por Zacarias, pai de João Batista, conforme registrado em Lucas 1:68-79. O nome deriva da primeira palavra do cântico na Vulgata: “Benedictus Dominus Deus Israel” (“Bendito o Senhor Deus de Israel”). O texto grego original começa com Εὐλογητὸς (Eulogētós), que também significa “Bendito” ou “Louvado seja”. Não há um termo hebraico correspondente único para o cântico como um todo, mas a frase inicial seria traduzida como בָּרוּךְ (baruch), que é uma forma comum de louvor em hebraico.

O contexto do Benedictus é o nascimento e a circuncisão de João Batista. Zacarias, que havia ficado mudo por sua incredulidade no anúncio do nascimento de João, recupera a fala e profere este cântico de louvor e profecia.

O Benedictus pode ser dividido em duas partes principais:

  1. Louvor pela Redenção de Israel (vv. 68-75): Zacarias louva a Deus por visitar e redimir seu povo, cumprindo as promessas feitas a Abraão e aos profetas. Ele celebra a vinda do Messias, descendente de Davi, que trará salvação, libertação dos inimigos e a oportunidade de servir a Deus em santidade e justiça.
  2. Profecia sobre João Batista (vv. 76-79): Zacarias profetiza sobre o papel de seu filho, João, como profeta do Altíssimo, que preparará o caminho do Senhor, anunciando o conhecimento da salvação ao povo, através do perdão dos pecados. A vinda do Messias é descrita como a aurora que visita o povo, trazendo luz e paz.

O Benedictus é rico em alusões ao Antigo Testamento, ecoando temas de salvação, aliança, profecia e a esperança messiânica. É um hino de louvor pela fidelidade de Deus às suas promessas e um anúncio da chegada iminente do reino de Deus em Jesus Cristo.

O Benedictus tem sido amplamente utilizado na liturgia cristã, especialmente nas orações da manhã (Laudes) na tradição católica e em outras tradições litúrgicas. Ele expressa a alegria e a esperança da comunidade cristã na obra redentora de Deus, iniciada com a vinda do Messias e continuada através da missão da Igreja.

Beltessazar

Beltessazar (em grego: Βαλτασάρ; em hebraico: בֵּלְטְשַׁאצַּר), nome babilônico dado a Daniel, profeta do Antigo Testamento, evoca duas figuras distintas, embora interligadas.

O primeiro Beltessazar é Daniel, um jovem judeu exilado na Babilônia (Livro de Daniel, capítulos 1-6). Sua inteligência e fidelidade a Deus o levaram a posições de destaque na corte babilônica, onde interpretou sonhos e visões, demonstrando sabedoria divina. O nome Beltessazar, que significa “Bel protege o rei”, reflete a tentativa de integrá-lo à cultura babilônica, mas Daniel manteve sua identidade e fé.

O segundo Beltessazar é mencionado no Livro de Daniel (capítulo 5) como o último rei da Babilônia. Ele é descrito como um monarca que profanou os vasos sagrados do Templo de Jerusalém durante um banquete, desrespeitando a santidade do culto judaico. Esse ato de sacrilégio foi seguido por uma mensagem divina escrita na parede, que Daniel interpretou como um prenúncio da queda de Babilônia.

A relação entre os dois Beltessazares é objeto de debate entre os estudiosos. Alguns sugerem que o rei Beltessazar poderia ser um descendente ou um sucessor do rei Nabucodonosor, que havia dado a Daniel o nome de Beltessazar. Outros propõem que o nome do rei poderia ser uma referência velada a Daniel, indicando que o rei era um admirador ou um seguidor do profeta.

Independentemente da conexão exata, os dois Beltessazares compartilham um nome que os liga à história de Daniel e à queda de Babilônia. Enquanto Daniel, o profeta, representa a fidelidade a Deus em meio à cultura pagã, o rei Beltessazar personifica a arrogância e a impiedade que levaram à destruição do império babilônico.

Bispo

A palavra “bispo” deriva do grego ἐπίσκοπος (epískopos), que significa “supervisor”, “vigilante” ou “superintendente”. No Novo Testamento, o termo epískopos é usado para se referir ao ministro na igreja cristã primitiva, mas sua função exata e relação com outros termos, como “presbítero” (πρεσβύτερος, presbýteros, “ancião”), são temas de debate acadêmico e teológico.

As principais passagens do Novo Testamento que mencionam epískopos são:

  • Atos 20:28: Paulo, dirigindo-se aos presbíteros (anciãos) da igreja de Éfeso, exorta-os a pastorear a igreja de Deus, “na qual o Espírito Santo vos constituiu episkopoi (bispos/supervisores)”. Essa passagem é crucial porque parece usar os termos epískopos e presbýteros de forma intercambiável, referindo-se ao mesmo grupo de ministros.
  • Filipenses 1:1: Paulo e Timóteo saúdam “todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os episkopoi (bispos/supervisores) e diáconos”. Aqui, epískopos aparece como um grupo distinto, juntamente com os diáconos.
  • 1 Timóteo 3:1-7: Paulo lista as qualificações para um epískopos (bispo/supervisor), incluindo caráter irrepreensível, capacidade de ensino, bom governo da própria casa, e outras virtudes.
  • Tito 1:5-9: Paulo instrui Tito a estabelecer presbíteros (anciãos) em cada cidade, e em seguida (v. 7) afirma que o epískopos (bispo/supervisor) deve ser irrepreensível, como “administrador da casa de Deus”. Novamente, parece haver uma sobreposição ou equivalência entre epískopos e presbýteros.

A partir dessas passagens, surgem diferentes interpretações sobre a função do epískopos no Novo Testamento:

  1. Episcopalismo: Argumenta que epískopos e presbýteros se referem a ofícios distintos desde o início, com os episkopoi (bispos) tendo autoridade sobre os presbýteros (presbíteros/anciãos). Essa é a visão tradicional das igrejas Católica, Ortodoxa e Anglicana.
  2. Presbiterianismo: Sustenta que os termos epískopos e presbýteros são usados de forma intercambiável no Novo Testamento, referindo-se ao mesmo ofício de ministério. A ênfase está na pluralidade de líderes (presbíteros/bispos) em cada igreja local.
  3. Congregacionalismo: Concorda que os termos são intercambiáveis, mas enfatiza a autonomia da igreja local, sem uma estrutura hierárquica de bispos ou presbíteros governando sobre várias congregações.

A evolução do ofício de bispo, como um cargo monárquico (um único bispo como líder de uma diocese), ocorreu nos séculos seguintes ao Novo Testamento. A figura do bispo como sucessor dos apóstolos e principal ministro da igreja local desenvolveu-se gradualmente. Já a supervisão episcopal sobre uma região maior coincide com a administração romana das dioceses.