Supersessionismo

Supersessionismo é a doutrina de que os cristãos (o povo da “nova aliança”) substituíram os israelitas (o povo da “velha aliança”) como povo de Deus. Contrapõe às doutrinas de aliança dual, na qual a Aliança ou a Torá permanece válida para os israelitas, enquanto a Nova Aliança se aplica apenas aos cristãos.

Outras economias de relação Israel e Nova Aliança, especialmente no judaísmo messiânico, vê o plano divino como monolítico, sendo os gentios um enxerto em Israel.

Há várias vertentes do supersessionismo:

  • Substitucionismo: a Igreja é o novo ou verdadeiro Israel que substituiu para sempre a nação de Israel;
  • Supersessionismo punitivo: Israel foi punido por sua rejeição de Cristo;
  • Supersessionismo econômico: o plano divino reservou um papel a Israel que se expirou com a vinda de Cristo;
  • Superssessionismo estrutural: Deus não foi plenamente revelado como redentor nas Escrituras Hebraicas e para o antigo povo de Israel;
  • Marcionismo: o Deus dos hebreus era um deus malévolo, sendo o verdadeiro Deus somente revelando a partir de Jesus Cristo. Tal doutrina foi reformulada no chamado cristianismo positivo do nazismo.

Embora nem toda forma de supersessionismo seja necessariamente antissemita, praticamente todas formas de teologia da cristandade que foram antissemitas possuíam uma ou outra forma de supersessionismo.

VEJA TAMBÉM

Antissemitismo

Lei e Graça

Dispensacionalismo

Judaizantes

Judaísmo messiânico

Neo-israelismo

Teologias da Aliança

BIBLIOGRAFIA

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Peshitta

A peshitta, peshita ou peshitto é conjunto de versões aramaicas da Bíblia na variante siríaca, conjunto de falares do norte da Síria e da Mesopotâmia. Peshitta significa “comum” ou “simples” denotando ser uma versão sem comentários ou aparatos para uso popular (semelhante ao termo vulgata aplicada para a versão latina), sendo empregado pela primeira vez pelo escritor jacobita Moisés bar Kefa (c.813-903/913),

A língua siríaca é um conjunto de variantes do aramaico oriental. Originalmente, judeus no norte da Síria traduziram sua Bíblia para o siríaco no século II d.C. com base em uma versão hebraica hoje perdida, mas possivelmente da família da qual emergeria o Texto Massorético. Depois, cristãos de língua siríaca adotaram a Peshitta e adicionaram uma versão siríaca do Novo Testamento.

Ainda no século II d.C. Taciano editou uma harmonia dos quatro Evangelhos gregos canônicos em siríaco, o Diatessaron. Embora a harmonização de Taciano fosse muito popular no Oriente até o século V d.C., Irineu e outros líderes preferiam manter todos os quatro evangelhos canônicos separados.

Por algum tempo vários eruditos bíblicos atribuíram a autoria ou revisão da Peshitta a Rabbula, bispo de Edessa entre 411 e 435. Contudo, as variantes e a adoção da Peshitta por grupos que depois seriam as igrejas Jacobita e do Oriente demonstram a antiguidade da versão.

A Peshitta foi adotada como versão-padrão por várias denominações orientais, como a Igreja Ortodoxa Grega de Antioquia, várias comunidades uniatas católicas, a Igreja Siríaca Ortodoxa (Jacobita) e a Igreja do Oriente.

Suméria

Os sumérios foram uma civilização no sudeste do atual Iraque, cujo desenvolvimento de centros urbanos ocorreu anos 5.000 e 4.000 e atingiu o pico por volta de 2.000 a.C.

Inicialmente, a civilização suméria formou-se em torno de de templos, os quais eram centros administrativos e comerciais. Dentre elas estavam Kish (Tell el-Oheimir), Kid Nun (Jemdet Nasr), Nippur (Niffer), Lagash (Telloh), Eridu (Abu Shahrain), Shuruppak (Fara), Larsa (Senkere ) e Umma (Jocha), Uruk (Warka), Ur ou Ereque (Tell Muqayyir) — as duas últimas mencionadas na Bíblia.

Deve ser creditado aos sumérios a invenção progressiva da escrita. Passaram de sinais contábeis inscritos em argila para um sistema complexo de escrita chamado cuneiforme. No século XIX sua escrita cuneiforme foi decifrada e a arqueologia dos anos 1910 ao 1930 produziu tais descobertas fascinantes. Na década de 1950, com a publicação desse materal, ficou demonstrado que as raízes da cultura europeia e semítica remontavam à literatura da Idade do Bronze – ao Egito, à Anatólia, à Mesopotâmia e sobretudo da Suméria.

Na Bíblia, a Suméria é chamada de Sinar. Em Gn 10:10, o reino de Nimrode compreende Babel (Babilônia), Ereque (Uruk), Acade e Calné, na terra de Sinar. O rei Anrafel aparece como senhor de Sinar (Gn 14:1,9). Outras menções aparecem em Js 7:21; Is 11:11; Dn 1: 2; e Zc 5:11

Salvação

Salvação é o livramento, resgate, remissão, estado de segurança ou de proteção, bem como um estado de sanidade.
No grego é soteria e deriva-se da raiz sozo: livrar, proteger, curar, salvar, sarar, tornar bem, restaurar a integridade. Até o nome “Jesus” significa “Deus [é] Salvação” ou “Deus Salva”. Soteriologia é o ramo da teologia que estuda as doutrinas da salvação.

Sitz im Leben

Termo em exegese bíblica que se refere às circunstâncias em que ocorreu uma frase, um história ou um gênero textual. O termo foi cunhado pelo biblista Hermann Gunkel (1862 – 1932) para seu estudo de crítica formal.

É um termo mais restrito que contexto, discorrendo sobre os meios e condições em que um texto foi criado, preservado e transmitido. Considera ainda o papel social e o momento dos interlocutores, tanto o emitente quanto a audiência.

Septuaginta

A Septuaginta, cuja sigla é LXX, em sentido amplo refere-se a um conjunto de antigas traduções gregas das Escrituras Hebraicas realizadas entre os séculos III a.C. e meados do século II d.C.

Em sentito estrito, esse conjunto e os livros individuais também são referidos como Old Greek (OG), reservando o nome Septuaginta somente para as mais antigas recensões do Pentateuco.

A carta espúria de Aristeas (século II ou I a.C.) narra uma lenda de que o faraó Ptolomeu II Filadelfo encomendou a tradução para a Biblioteca de Alexandria. Teria requisitado cópias do sumo-sacerdote de Jerusalám Elezear e comissionando setenta (ou setenta e dois) tradutores judeus. Eles teriam produzidos manuscritos idênticos de forma independente.

A Septuaginta registra uma tradição manuscrita de uma fonte (Vorlage) hebraica diferente e anterior àquela preservada em qualquer manuscrito hebraico existente hoje.

Os autores do Novo Testamento demonstram empregar amplamente a Septuaginta, embora não exclusivamente. Contribuiu imensamente também para o vocabulário teológico e retro-influenciou a própria edição das Escrituras quer em hebraico, quer em outras línguas em vários aspectos (divisão do Pentateuco e nome dos livros, por exemplo).

A LXX ajuda a entender como era a interpretação das Escrituras em um estágio inicial de sua canonização.

Saul

Primeiro rei de Israel. Seu nome em hebraico שָׁאוּל‎, em grego Σαούλ. significa “desejado”.

O ciclo de Saul aparece nos livros de 1 Samuel 9-31 e 2 Samuel 1. Saul teria criado o primeiro exército e unificado as tribos israelitas em uma sociedade de estado unificada em uma monarquia. Originário de Gibeá, da tribo de benjamim, foi ungido rei pelo profeta Samuel. Saul enfrentou os filisteus. Depois, passou a perseguir seu genro e potencial concorrente, Davi.

Há várias alusões e sobrescritos nos salmos relacionados a Saul. Davi tocava sua harpa para dissipar a melancolia de Saul. Uma possível alusão aparece em Oseias 13:9-11.

No Novo Testamento outro benjamita, Paulo, é também chamado de Saulo, uma variante de Saul.

Samuel

Juiz e profeta que governou Israel no final do período dos juízes e ungiu os dois primeiros reis.

Samuel é o protagonista no início do primeiro dos dois livros que levam seu nome.

Samuel foi dedicado a Deus desde o nascimento por sua mãe, Ana (1Sam 1). Morando no tabernáculo quando menino, respondeu à voz de Deus para dar o oráculo: uma denúncia contra a casa de Eli, cujos filhos haviam corrompido o culto ao Senhor (1Sm 3:1-14; 1Sm 2:12-17).

Samuel assumiu o papel de juiz. Conteve os filisteus e fazia visitas periódicas às cidades onde julgava os casos que lhe eram apresentados (1Sm 7:13-17).

Em sua velhice, os israelitas pediram um rei (1Sm 8) e, com certa relutância, Samuel ungiu Saul como rei (1Sm 9:1-10:27). Mais tarde, ele rejeitou Saul (1Sm 13:7-14; 1Sm 15:10-29) e ungiu Davi (1Sm 16:1-13).

Após sua morte, uma negromante invoca seu espírito em (1Sm 28), quando Saul espera-lhe um oráculo favorável. O espírito, no entanto, condena Saul.

Sara

Sara, em hebraico שָׂרָ֖ה, grego Σαρρα, a primeira das quatro matriarcas hebraicas, esposa de Abraão. Sua história aparece primariamente no Ciclo de Abraão (Gn 11:26-25:12) em Gênesis.

O nome Sarai, e sua variante Sara, significa “princesa” ou “dama”. Possivelmente é cognato do acadiano Sharratu, o nome da esposa do deus da lua Sin.

De origem provavelmente mesopotâmica, acompanhou o marido em suas peregrinações para Canaã e Egito. (Gn 11:29-31; 12:5). Chamada de irmã de Abraão (Gn 12:10-20; 20:1-18) em incidências em que ela foi tomada por governantes contra sua vontade.

Por um longo período, Sara não teve filhos (Gn 11:29-30). Depois que sua serva Agar deu à luz Ismael (Gn 16:1-6; 21:9-14), Deus disse a Abraão, cujo nome até então era Abrão, para mudar o nome de “Sarai” para “Sara” (Gn 17:15). E anunciou que ela viria a ser mãe de um filho.

No nascimento de seu filho, Isaque (que significa risos ou gargalhadas) teria dito “Deus me fez rir, para que todos os que ouvem riam de mim” (Gn 21:1-7).

A morte de Sara é registrada brevemente. Teria morrido em Quiriate-arba ou Hebrom à idade de 127 anos. Foi enterrada por Abraão na caverna de Macpela (Gn 23; 25:10; 24:67).

Nenhuma outra referência a Sara aparece nas Escrituras Hebraicas, exceto em Is 51:2. Lá, o profeta apela “Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz; porque, sendo ele só, eu o chamei, e o abençoei, e o multipliquei”.

No Novo Testamento Sara aparece no elenco dos heróis da fé de Hebreus 11: “Pela fé, também a mesma Sara recebeu a virtude de conceber e deu à luz já fora da idade; porquanto teve por fiel aquele que lho tinha prometido” (Hb 11:11). Paulo faz menções a ela (Rm 4:19; 9:9; Gl 4:21), utilizando-a como um tipo, principalmente em contraste com Agar.

Sara aparece citada em 1 Pe 3:6 como exemplo de obediência. Entretanto, não há parte em Gênesis em que Sara chama-o de Senhor, exceto Gn 18:12 que não se refere a obediência. Ademais, Abraão é retratado obedecendo as vontades de Sara (Gn 16:2, 6; 21:12). Josefo (Contra Apião 2.25) e Filo (Hypothetica 7.3) retratam Sara como exemplo obediência, revelando ser esse o entendimento do século I d.C.

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VER TAMBÉM

Tabuletas de Nuzi