Crítica literária

A crítica literária considera as técnicas e teorias literárias presentes na Bíblia.

Pode utilizar as diversas abordagens literárias (narratologia, estudos de personagens, retórica, recepção, dentre outras) para compreender sincronicamente o texto bíblico.

Várias abordagens de análises aparecem na crítica literária. A análise léxica tenta entender termos-chave e o significado das palavras. A análise estilística estuda a dicção (escolha de palavras), estruturas (como o quiasmo e paralelismo), as figuras de linguagem (metáforas, metonímias, hipérbole, etc). A tipologia em seu sentido estrito também é estudada na crítica literária, junto da análise temática e análise de motivos literários. Tipos e gêneros textuais fazem parte da crítica literária.

A história da recepção, história dos efeitos e a crítica orientada ao leitor são abordagens literárias que enfocam na interpretação dos textos bíblicos. Obras literárias, como Esaú e Jacó de Machado de Assis, são comparados com os textos bíblicos.

Resume Alter: “Por análise literária, entendo as múltiplas variedades de atenção minuciosamente discriminativa ao uso artístico da linguagem, ao jogo mutável de ideias, convenções, tom, som, imagens, sintaxe, ponto de vista narrativo, unidades de composição e muito mais; o tipo de atenção disciplinada, em outras palavras, que através de todo um espectro de abordagens críticas iluminou, por exemplo, a poesia de Dante, as peças de Shakespeare, os romances de Tolstoi.” (Alter, 2011, p 12-13).

BIBLIOGRAFIA

Alter, Robert; Kermode, Frank (orgs.). Guia literário da Bíblia. São Paulo: Edunesp, 1997.

Alter, Robert. The art of biblical narrative. Basic Books, 2011.

Auerbach, Erich. Mimesis: The representation of reality in western literature. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1953.

Frye, Northrop. The great code: The Bible and literature. Vol. 19. University of Toronto Press, 2006.

Crítica canônica

A crítica canônica da Bíblia é uma abordagem exegética sincrônica que estuda o texto tal como foi recepcionado por comunidades de fé, interpretando-o em seu contexto canônico e reconhecendo a Bíblia como uma coleção unificada e inspirada de escritos. Esse método se concentra em ler a Bíblia como um todo coerente, buscando captar sua mensagem teológica e literária integral e sua relevância para as comunidades que a recepcionaram.

Definição e Princípios Fundamentais

A crítica canônica, também conhecida como Abordagem Canônica, enfatiza a leitura da Bíblia como um conjunto harmonioso, a Palavra de Deus para a igreja e para a comunidade de fé. Trata-se de uma metodologia que busca entender as escrituras dentro de seu próprio contexto literário e teológico, reconhecendo a Bíblia como uma seleção cuidadosamente formada de textos sagrados. É uma abordagem frequentemente adotada por cristãos que leem a Bíblia com uma perspectiva de fé, focando-se em compreender seu significado espiritual e moral para suas vidas e suas comunidades.

Princípios-Chave

  1. Verdade: A Bíblia é lida com a expectativa de encontrar a verdade, seja ela literal, histórica, poética ou simbólica. Passagens que podem não ser historicamente precisas são ainda consideradas portadoras de verdades profundas e espirituais.
  2. Relevância: Todo o conteúdo bíblico é visto como eternamente relevante para os fiéis, mesmo quando trata de questões específicas do período da igreja primitiva. Os leitores buscam o significado contínuo desses textos para o contexto contemporâneo.
  3. Importância: Cada passagem da Bíblia é considerada significativa e portadora de sabedoria divina. Nenhuma parte das escrituras é vista como trivial ou irrelevante.
  4. Autoconsistência: A Bíblia é entendida como um documento que fala com uma voz única e unificada. Contradições aparentes entre passagens são encaradas como oportunidades para uma leitura mais aprofundada e uma interpretação harmonizadora dos diferentes pontos de vista no contexto da narrativa bíblica.
  5. Conformidade com o Ensino da Igreja: Especialmente enfatizado em contextos católicos, esse princípio sugere que a interpretação bíblica deve se alinhar com os ensinamentos e tradições centrais da igreja, assegurando que as interpretações sejam fundamentadas na fé histórica da comunidade.

Características Distintivas

A crítica canônica distingue-se de outras abordagens exegéticas por seu foco em certos aspectos centrais:

  • Ênfase na Bíblia como Unidade Completa: Diferentemente de métodos que analisam textos ou versículos isoladamente, a abordagem canônica valoriza a interconectividade das escrituras, buscando compreender a Bíblia como um todo integrado.
  • Foco na Fé e na Comunidade: Esta abordagem reconhece o papel essencial da Bíblia na formação da fé e da vida espiritual da comunidade cristã. O texto é lido em diálogo com as tradições e práticas da comunidade de fé.
  • Sensibilidade a Temas Teológicos: A crítica canônica está particularmente atenta às mensagens teológicas da Bíblia, explorando suas implicações para a crença e prática cristã.

Comparação com Outras Abordagens

Ao contrário de abordagens críticas tradicionais que utilizam fontes extrabíblicas para esclarecer aspectos históricos e culturais, a crítica canônica considera a Bíblia em seus próprios termos. Embora reconheça a importância dos contextos históricos e culturais, esta abordagem não depende deles; em vez disso, prioriza referências e alusões internas para elucidar passagens desafiadoras.

Não é parte do escopo da crítica canônica examinar tradições ou partes menores internas a um livro, como faz, por exemplo, a crítica das fontes. Dessa forma, esse método coloca a Bíblia como um documento completo e divinamente inspirado, direcionando sua interpretação de modo a buscar sentido e unidade teológica.

Forças

  • Promove uma Leitura Holística e Unificada da Bíblia: Estimula os leitores a considerarem a Bíblia em sua totalidade, o que favorece uma visão abrangente de sua mensagem.
  • Encoraja o Envolvimento com a Mensagem Teológica da Bíblia: Convida os intérpretes a explorar as profundezas espirituais e doutrinárias das Escrituras.
  • Fomenta um Sentimento de Continuidade com a Tradição Cristã: Ao alinhar-se com os ensinamentos históricos da igreja, preserva a conexão com as interpretações tradicionais da fé.

Limitações

  • Tendência a Negligenciar Particularidades Históricas e Literárias: Pode deixar de lado as nuances e o contexto de textos específicos, focando mais na unidade global.
  • Risco de Impor Interpretações Teológicas Pré-Concebidas: Ao partir de uma visão de unidade e harmonia, corre-se o risco de encaixar interpretações em uma moldura predefinida, em vez de permitir conclusões mais abertas.

Conclusão

A crítica canônica, desenvolvida por Brevard Childs (1923-2007), oferece uma estrutura rica e unificadora para a leitura da Bíblia dentro de um contexto de fé e comunidade. Ao enfatizar a unidade, relevância e profundidade teológica das escrituras, essa abordagem convida os leitores a se engajarem com a Bíblia como a Palavra viva de Deus. Mesmo com suas limitações, a crítica canônica continua a ser uma ferramenta importante para aqueles que buscam uma interpretação da Bíblia enraizada na tradição e na continuidade da fé cristã.

Bibliografia

Childs, Brevard. Introduction to the Old Testament as Scripture. Philadelphia, PA: Fortress Press, 1979.

Arnold, B. T. & Beyer, B. E. Encountering the Old Testament: A Christian Survey. Grand Rapids: Baker, 1999.