Heilsgeschichte

Heilsgeschichte, em alemão “História da Salvação”, ou ainda “História da Redenção” designa tanto um princípio de interpretação da Bíblia quanto uma afirmação teológica a respeito da História universal.

Os antigos israelitas se interessavam pela história, não tanto pelos próprios eventos, mas por seus motivos e propósitos. Enquanto os israelitas viam sua história como um desenrolar da relação de aliança entre Israel e Deus, o pensamento cristão considerou os eventos narrados na Bíblia como atos de Deus para a salvação do mundo.

Como teologia da história e, porque não, posição historiográfica, a História de Salvação remonta desde a patrística. De Agostinho temos A Cidade de Deus já com alguns aspectos da História de Salvação. No iluminismo houve uma separação entre história universal e história sacra a partir do aliancismo de Cocceius. A primeira seria objeto tanto da Historie quanto da Geschichte enquanto a segunda era fundada primordialmente na Geschichte. Em alemão Historie é a disciplina que se preocupa com os registros percebidos dos eventos. Já a Geschichte é a interpretação de eventos de forma compreensiva e disposta em forma narrativa, não necessariamente uma reportagem dos eventos como “fatos que aconteceram”, mas sim dos seus significados, bem como aspectos não observáveis como relação de causalidade ou propósitos.

Como uma formulação teológica, a História de Salvação foi uma perspectiva historicista proposta por J.T. Beck (1804- 1878). Beck combinou a dialética de Hegel com a noção de que os tratos de Deus com a humanidade exigiam uma conexão lógica entre os diversos eventos dessa revelação. A revelação seria progressiva e situada historicamente. Assim, enfatizou a importância de cada etapa do processo porque cada uma se tornou parte do todo.

O teólogo luterano Johannes Christian Konrad von Hofmann insistiu que uma visão teleológica da história, cada fase tem sua própria função independente da anterior, contudo, Hofmann evitou um supersessionismo do Antigo Testamento em relação ao Novo Testamento. Em vez disso, a história de salvação revelada no Novo somente faz sentido à luz do Antigo. Pela Kenosis trinitária, quando o Eterno encontrou-se na História ao “esvaziar” em Jesus, houve um clímax que aponta para o fim de reconciliar o mundo inteiro com Deus com base em seu amor. A história mundial só pode ser entendida apropriadamente dentro da da história da salvação. No entanto, a história da salvação não é uma parte da história mundial.

Heilsgeschichte extrapola as limitações do historicismo. Assim, teologicamente, rejeita-se relegar a Bíblia a um produto meramente humano e preso às contigências sociais e históricas de sua composição textual. Nessa linha, Oscar Cullmann interpreta os eventos nas narrativas bíblicas apontando para uma consciência crescente da obra salvadora mediante a intervenção de Deus na história. Assim, no presente os crentes encaram um desafio divino de se posicionar-se no plano revelado de salvação.

Em língua inglesa o batista Eric Charles Rust utilizou esse conceito para dialogar com a historiografia acadêmica. Depois de seu pico entre círculos reformados e luteranos continentais, no final do século XX a História de Salvação encontrou pouca difusão entre correntes evangelicais.

BIBLIOGRAFIA

Cullmann, Oscar. Christ and Time. The Primitive Christian Conception of Time and History. Westminster Presss, 1950.

Cullmann, Oscar. Salvation in History. New York: Harper & Row, 1967.

Frei, Hans W. The Eclipse of Biblical Narrative: A Study in Eighteenth and Nineteenth Century Hermeneutics. New Haven: Yale University Press, 1974.

Rust, Eric Charles. Salvation History a Biblical Interpretation. John Knox Press, 1962.

Rust, Eric Charles. Towards a Theological Understanding of History. 1967.

VEJA TAMBÉM

Dispensacionalismo

A Cidade de Deus

Teologia do Pacto

Aliancismo

Uma consideração sobre “Heilsgeschichte”

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