Reforma na Espanha

A ideia de uma Reforma na Espanha anterior a Lutero tem sido objeto de debate na historiografia. Em vez de um movimento unificado comparável ao luteranismo ou ao calvinismo, os estudos apontam para um conjunto de correntes espirituais, tensões sociais e disputas teológicas que, entre os séculos XV e XVI, questionaram práticas e estruturas do cristianismo ibérico tardo-medieval. Esses processos envolveram de modo decisivo os conversos de origem judaica, a reflexão sobre a graça e a fé, e o lugar da Escritura na vida cristã.

Os distúrbios de Toledo em 1449, marcados por estatutos de “limpieza de sangre” e hostilidade contra cristãos-novos, desencadearam respostas teológicas de alto nível. Alonso de Cartagena, bispo de Burgos, no Defensorium unitatis christianae, e Alonso de Oropesa, geral dos jerônimos, no Lumen ad revelationem gentium, defenderam a plena validade da conversão dos judeus e a igualdade espiritual dos fiéis em Cristo. Seus argumentos recorreram de forma sistemática à Escritura e à tradição patrística para afirmar que a salvação se funda na fé em Cristo, não na origem étnica. Ao insistirem na unidade da Igreja como um só corpo formado por crentes de todas as nações, esses autores reagiam tanto ao exclusivismo social quanto a concepções que limitavam a eficácia da graça.

Essa teologia não rompeu com Roma nem propôs uma reforma institucional da Igreja. Contudo, ao deslocar o eixo da identidade cristã para a fé interior e para a autoridade das Escrituras, abriu espaço para leituras mais pessoais e intensas da vida espiritual. Em meios de conversos letrados, difundiu-se a prática do estudo bíblico, a meditação sobre a paixão de Cristo e a ênfase na transformação interior. Ao longo do fim do século XV e início do XVI, essas tendências confluíram com correntes místicas e devocionais que mais tarde seriam agrupadas sob o rótulo de alumbradismo, termo amplo que a documentação inquisitorial aplicou a experiências diversas de interioridade religiosa.

O Édito de Toledo de 1525, dirigido contra alumbrados, dexados e perfectos, mostra que certas formas de espiritualidade centradas na passividade da alma, na ação direta da graça e na relativização de mediações externas eram vistas como ameaça. A repressão não visava um “protestantismo” organizado, mas práticas e discursos que pareciam diminuir o papel das obras, das observâncias e da hierarquia. Muitos acusados pertenciam a redes de conversos, o que revela a interseção entre conflito religioso e tensão social.

Enquanto isso, a Reforma europeia avançava. A partir da década de 1550, surgiram na Espanha focos claramente influenciados pelo protestantismo, em cidades como Sevilha y Valladolid. Nomes como Casiodoro de Reina, Cipriano de Valera, Juan Pérez de Pineda e Antonio del Corro pertencem já a esse segundo momento, ligado à circulação de livros reformados, à tradução da Bíblia para o castelhano e ao exílio. Aqui se pode falar, com mais precisão, de protestantismo espanhol, ainda que minoritário e rapidamente desmantelado pela Inquisição.

A noção de uma Reforma espanhola anterior a Lutero deve, portanto, ser usada com cuidado. Ela não designa uma igreja alternativa nem um programa doutrinal coerente, mas um clima de renovação espiritual, de centralidade bíblica e de crítica moral que atravessou ordens religiosas, círculos eruditos e comunidades de conversos. A Inquisição atuou nesse cenário não apenas como instrumento de uma política religiosa uniforme, mas como arena onde se decidiram os limites da ortodoxia num império marcado pela diversidade de origens e pela vigilância sobre a sinceridade da fé.

BIBLIOGRAFIA

BATAILLON, Marcel. Érasme et l’Espagne: recherches sur l’histoire spirituelle du XVIe siècle. Paris: Droz, 1937.

BENZION, Netanyahu. The origins of the inquisition in fifteenth century Spain. New York: New York Review Books, 2001.

CABANILLAS GARCÍA, Gustavo. Lumen ad revelationem gentium: Alonso de Oropesa y el problema de los conversos. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2003.

CARTAGENA, Alonso de. Defensorium unitatis christianae. In: CANCIONERO DE DON ÁLVARO DE LUNA. Edición y estudio de Ana María Jorge García. Madrid: Real Academia Española, 2020. (Edição crítica ou referência à obra).

EDWARDS, John. The Spanish Inquisition. Stroud: Tempus, 1999.

HALICZER, Stephen. Inquisition and society in the kingdom of Valencia, 1478–1834. Berkeley: University of California Press, 1990.

HOMZA, Lu Ann. The Spanish Inquisition, 1478–1614: an anthology of sources. Indianapolis: Hackett Publishing, 2006.

JIMÉNEZ CALVENTE, Teófanes. Alumbrados y herejías en la España del siglo XVI. Madrid: Caparrós, 1999.

KAMEN, Henry. The Spanish Inquisition: a historical revision. New Haven: Yale University Press, 1998.

KINDER, A. Gordon. Casiodoro de Reina: Spanish reformer of the sixteenth century. London: Tamesis Books, 1975.

LADERO QUESADA, Miguel Ángel. Los conversos de origen judío después de la expulsión. Madrid: Real Academia de la Historia, 2010.

LAWRENCE, Jeremy. Humanism in the Iberian Peninsula. In: GOODMAN, Anthony; MACKAY, Angus (Ed.). The impact of humanism on Western Europe. London: Longman, 1990. p. 220-258.

MARQUEZ, Antonio. Los alumbrados: orígenes y filosofía (1525–1559). 2. ed. Madrid: Taurus, 1980.

MONTER, E. William. Frontiers of heresy: the Spanish Inquisition from the Basque lands to Sicily. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

NETANYAHU, Benzion. Toward the Inquisition: essays on Jewish and converso history in late medieval Spain. Ithaca: Cornell University Press, 1997.

NOVALÍN, José Luis González. El inquisidor general Fernando de Valdés (1483–1568): su vida y su obra. 2 vols. Oviedo: Universidad de Oviedo, 1968–1971.

OROPESA, Alonso de. Lumen ad revelationem gentium. Edición crítica, estudio y notas de Gustavo Cabanillas García. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2003.

RAWLINGS, Helen. The Spanish Inquisition. Oxford: Blackwell Publishing, 2006.

SELKE, Angela. Los alumbrados de Sevilla: contribución al estudio del radicalismo místico del siglo XVI. Madrid: Castalia, 2013.

SUÁREZ FERNÁNDEZ, Luis. Documentos acerca de la expulsión de los judíos. Alcobendas: Fundación Universitaria Española, 1990.

YERUSHALMI, Yosef Hayim. From Spanish court to Italian ghetto: Isaac Cardoso: a study in seventeenth-century Marranism and Jewish apologetics. New York: Columbia University Press, 1971.

Renascimento carolíngio

Renascimento carolíngio foi período, cujo ápice foi o reinado do rei franco Carlos Magno, com um florescimento da erudição nos séculos VIII e IX na Europa católica.

Sob a dinastia carolíngia, especialmente durante o reinado de Carlos Magno, a guerra tornou-se intrinsecamente ligada à cristianização dos territórios recém-conquistados. As campanhas militares de Carlos Magno visavam não apenas expandir seu império, mas também promover o cristianismo. A ameaça dos muçulmanos no oeste e no sul e a presença de tribos pagãs na Europa central justificaram as campanhas militares sob pretextos religiosos. Os missionários acompanharam os exércitos francos, espalhando o Evangelho entre as populações pagãs encontradas durante as conquistas. A assimilação dos povos conquistados ao rebanho cristão era vista como um passo necessário para unificar o império sob uma fé comum.

Os governantes carolíngios, reconhecendo a importância da Igreja na consolidação de sua autoridade, forneceram patrocínio eclesiástico significativo. Instituições monásticas foram estabelecidas e o clero desempenhou papéis cruciais nos assuntos religiosos e administrativos. Além disso, igrejas e mosteiros serviram como centros de educação e preservação cultural. A estreita associação da Igreja com o estado carolíngio entrelaçou ainda mais a guerra, a cristianização e a promoção de empreendimentos intelectuais e culturais.

Nesse período, houve avanços na tecnologia editorial, afetando as Escrituras e teologia. Foi fundada a Biblioteca de St. Gall (719), na atual Suíça. O papel chegou ao mundo do Mediterrâneo após a batalha de Talas (751-794), com um centro produtor de livros em papel próximo a Damasco (825). Seu custo menor favoreceu o desuso da scripta continua, popularizando espaçamento e pontuações. No ocidente, a minúscula carolíngia (780) também acelerou a produção de textos. As mínusculas bizantinas também popularizaram. Em the 813 o concílio de Tours reconhece e encoraja as traduções.

Vários teólogos se destacam nesse período, como:

Tecla de Kitzingen (século VIII): freira e poetisa do mosteiro de Kitzingen. Escreveu hinos e poesias religiosas que expressavam sua devoção e seu compromisso com sua vocação.

Venerável Beda (672/673-735) foi um monge, erudito e teólogo inglês. Conhecido como o “Pai da História Inglesa”, escreveu obras influentes e narrou o início do período medieval na Inglaterra. Beda traduziu os evangelhos para o Old English,

Alcfrida de Wilton (m. 794): foi uma abadessa e poetisa anglo-saxônica que compôs poesia religiosa em latim.

Alcuíno de York (c. 735-804): erudito e teólogo inglês que se tornou conselheiro de Carlos Magno. Estabeleceu da Escola do Palácio em Aachen.

Teodulfo de Orleans (c. 750-821): um bispo, poeta e teólogo franco. Fez reformas educacionais e litúrgicas. Promoveu o aprendizado clássico e patrocinando estudiosos. Revisou a Vulgata com o auxílio de um “hebreu” anônimo.

Teodrada de Troyes (c. 760-?): uma freira e estudiosa da corte carolíngia. Ela era conhecida por seu aprendizado e envolvimento em discussões teológicas durante o período carolíngio.

Rabano Mauro (c. 780-856): também conhecido como Hrabanus Maurus ou Rhabanus Maurus, foi um monge beneditino franco, teólogo e escritor. Serviu como arcebispo de Mainz e era conhecido por seu conhecimento enciclopédico e contribuições para vários campos, incluindo teologia, educação e estudos bíblicos.

Paschasius Radbertus (c. 790-865): monge e teólogo beneditino franco. Foi autor De Corpore et Sanguine Domini” (“Sobre o Corpo e o Sangue do Senhor”), na qual apresentou uma doutrina controversa sobre a presença real de Cristo na Eucaristia.

João Escoto Erígena (c. 800-c877) foi um teólogo e monge erudito. Propôs uma educação nas artes liberais. Uma das raras pessoas competente em grego no mundo ocidental de sua época, comentou autores patrísticos e desenvolveu uma teologia influenciada pelo neoplatonismo.

Dhuoda (c. 803-c. 843): uma nobre e escritora visigótica que compôs o “Liber Manualis” (“Manual”), um livro de conselhos e orientação espiritual para seu filho. É uma das primeiras obras sobreviventes da escrita feminina medieval.

Hincmar de Reims (806-882): arcebispo de Reims e teólogo durante o período carolíngio. Envolveu-se em discussões eclesiásticas e políticas, particularmente nas disputas entre governantes seculares e a igreja.

Gottschalk de Orbais (c. 808-c. 867): teólogo e monge que se envolveu na “Controvérsia da Predestinação”. Seus ensinamentos sobre predestinação foram condenados pelas autoridades da igreja e estevepreso durante grande parte de sua vida.

Cláudio de Turim (c. 810-827) foi um teólogo e bispo. Nascido na Espanha, mais tarde mudou-se para a cidade de Turim, Itália, onde serviu como bispo. Cláudio ganhou reputação como um erudito, reformador, iconoclasta e comentarista bíblico.

Alfredo, o Grande, rei anglo-saxão, traduz os salmos e os 10 mandamentos para o old English c.871-899.

Dentre os eventos mais significativos desse período estão:

Sínodo de Whitby (664): Este sínodo, realizado na Nortúmbria, Inglaterra, resolveu a controvérsia sobre a data da Páscoa e a tonsura, solidificando a adoção de práticas cristãs romanas em detrimento das práticas cristãs celtas nas Ilhas Britânicas. Marcaria a absorção do cristianismo celta ao catolicismo romano, mesmo no continente.

Em 711 DC, Tariq ibn Ziyad liderou a conquista da Península Ibérica, marcando o início do domínio muçulmano na região após a Batalha de Guadalete.

Entre 710 e 714, São Pirmínio escreveu o “De singulis libris canonicis scarapsus”, que continha uma versão inicial do que mais tarde se tornaria conhecido como o Credo dos Apóstolos.

De 722 a 729, o imperador Leão III do Império Bizantino forçou conversões a montanistas, judeus, e proibiu o uso de imagens religiosas no culto.

A Reconquista, um período de séculos de esforços cristãos para recuperar a Península Ibérica do domínio muçulmano, começou em 722 e durou até 1492.

Em 732, ocorreu a Batalha de Tours, onde as forças francas, lideradas por Charles Martel, interromperam a expansão do Califado Omíada na Europa Ocidental.

Entre os anos 740 e 920, os khazares, um povo turco seminômade, passaram por conversões em massa ao judaísmo, estabelecendo uma significativa presença judaica na região.

O Califado Abássida, que durou de 750 a 1258, emergiu como um poderoso império islâmico, centrado em Bagdá, e fez contribuições culturais e intelectuais significativas.

Em 774-775, ocorreu um evento extremo de partículas energéticas solares, resultando em uma taxa de produção extraordinariamente alta. Este evento é conhecido como o “Evento Carlos Magno” e foi a tempestade solar mais poderosa dos últimos dez milênios.

Em 767 Anan Ben David lidera o movimento Ananita na Babilônia, desafiando o mundo intelectual judaico. Movimento Caraíta (século VIII em diante): O movimento Caraíta emergiu como uma seita judaica que rejeitou a autoridade do Talmud e se concentrou apenas na Torá escrita. Os caraítas tiveram uma presença significativa em várias regiões, incluindo Oriente Médio, Norte da África e Europa, e eram conhecidos por seu literalismo bíblico.

No final do século VIII, Natrunai ben Haninai, um ex-Gaon da Academia de Pumbedita, introduziu o Talmude no judaísmo ibérico, reescrevendo-o de memória.

Controvérsia Iconoclástica (726-843): O Império Bizantino viveu um período de controvérsia iconoclasta, onde o uso de ícones religiosos no culto foi debatido. Os iconoclastas acreditavam que a veneração de ícones constituía idolatria, enquanto os iconódulos defendiam seu uso. A controvérsia teve implicações significativas para a Igreja Ortodoxa Oriental e resultou na restauração de ícones como parte da prática religiosa.

Doação de Pepino (756): Pepino, o Breve, rei dos francos, fez uma doação de territórios na Itália central ao papa Estêvão II. Essa doação, conhecida como Doação de Pepino, estabeleceu os Estados Papais e solidificou o poder temporal do papado, marcando uma mudança significativa no relacionamento entre a Igreja e os governantes seculares.

Concílio de Niceia II (787): O Sétimo Concílio Ecumênico, realizado em Niceia (atual İznik, Turquia), afirmou a veneração de ícones e condenou o iconoclasmo. As decisões do concílio desempenharam um papel crucial no fim da controvérsia iconoclasta no Império Bizantino e na solidificação do uso de ícones.

Coroação de Carlos Magno (800): O Papa Leão III coroou Carlos Magno, Rei dos Francos, como o Sacro Imperador Romano no dia de Natal de 800. Este evento simbolizou o renascimento do Império Romano no Ocidente e teve profundas implicações para a vida política e religiosa. paisagem da Europa, reforçando a ligação entre a Igreja e a dinastia carolíngia.

Cisma de Fócio (863-867): foi uma divisão significativa dentro da Igreja Ortodoxa Oriental entre o Patriarca Inácio e Fócio, que reivindicou o trono patriarcal de Constantinopla. O cisma destacou as tensões políticas e teológicas e teve repercussões duradouras para o relacionamento entre as igrejas orientais e ocidentais.

Conversão da Escandinávia: No século IX, começou a conversão da Escandinávia ao cristianismo. Eventos notáveis ​​incluem a missão de Ansgar na Suécia e na Dinamarca e a subsequente disseminação do cristianismo por toda a região, levando ao estabelecimento de dioceses e à cristianização dos povos nórdicos.

Concílio de Frankfurt (794): O Concílio de Frankfurt foi convocado por Carlos Magno. Um de seus resultados notáveis ​​foi a condenação da heresia adocionista, que negava a natureza divina de Cristo. Virtualmente reorganizou as igrejas sob controle franco.

Cristianização dos eslavos: No século IX, começou a cristianização dos povos eslavos, em grande parte devido aos esforços de Cirilo e Metódio. Eles desenvolveram os alfabetos glagolítico e cirílico, traduziram textos litúrgicos e desempenharam um papel crucial na disseminação do cristianismo entre as populações de língua eslava. No entanto, a adoção do cristianismo oriental pelos eslavos levaria à conflitos posteriores.

Sínodo de Constantinopla (879-880): O Quarto Concílio de Constantinopla, também conhecido como Concílio Fócio, abordou o cisma entre Roma e Constantinopla. Tentou conciliar as divisões Oriente-Oeste e reafirmar a primazia do patriarca de Constantinopla. No entanto, o concílio não alcançou uma resolução duradoura e o cisma continuou a se aprofundar com o tempo.

Contexto histórico da Bíblia

A narrativa bíblica desenvolve-se a partir da Antiguidade no Levante e conhecer seu contexto histórico é relevante para uma plena compreensão da mensagem bíblica.

As Escrituras Hebraicas covencionalmente começa com a história dos patriarcas (Gênesis) e segue para o surgimento do povo de Israel na região montanhosa da terra do sul do Levante no final do segundo milênio a.C., com a migração dos israelitas desde o Egito (Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio).

Convivendo com populações cananeias (Juízes, Rute), no final do século XI aC, a confederação tribal reuniu-se sob uma monarquia liderada por Saul, que organizou a resistência aos filisteus ao longo da costa. As doze tribos permaneceram unidas sob Davi e seu filho Salomão no século X, mas depois foram divididas em dois reinos, Israel no norte e Judá no sul. (1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 1 Crônicas).

O reino do norte, com capital em Samaria, caiu nas mãos dos assírios, império baseado na Mesopotâmia, em 722. O reino do sul sobreviveu até ser conquistado pelos babilônios no início do século VI aC. (2 Reis, 2 Crõnicas).

De 586 a 539, a liderança do reino de Judá e Ezequiel viveram no exílio na Babilônia. Também inicia o período da Diáspora, a comunidade de israelitas dispersa pelo mundo então conhecido.

O império babilônico foi substituído por uma nova potência, os persas, sob Ciro, o Grande, em 539. Durante o período persa, os exilados retornaram a Jerusalém, iniciando o período do Segundo Templo. A situação política mudou novamente no final do século IV aC, quando o jovem rei da Macedônia, Alexandre, o Grande, derrubou a Pérsia no início do período helenístico.

Os sucessores de Alexandre foram primeiro os Ptolomeus, do Egito (323-198 a.C.), depois os Selêucidas (198-164 a.C.). A revolta dos macabeus levou à inauguração da dinastia dos asmoneus , que gradualmente alcançou autonomia dos selêucidas, até que os romanos sob Pompeu conquistaram Jerusalém em 63 aC.

Durante o período romano, a política local foi turbulenta. Inicialmente administraram o território da Judeia por meio de monarcas locais, instalando Herodes, o Grande, em 40/39 a.C.

Após a morte de Herodes, os romanos dividiram seu reino em três porções menores, “tetrarquias”, três das quais eram governadas por um dos filhos de Herodes. Jesus cresceu na Galileia, governada por Herodes Antipas até sua deposição pelos romanos em 39 d. C.

Os romanos depuseram um dos filhos de Herodes, Arquelau, em 6 a.C. e governaram sua porção do território, a Judeia, por meio de oficiais chamados prefeitos, um dos quais, Pôncio Pilatos, ordenou que Jesus fosse executado.

Após um breve período em que o reino foi reunido sob o neto de Herodes, Herodes Agripa I (39-44 d.C.), os romanos governaram toda a Judeia por meio de oficiais militares, os procuradores. Nesse período, os seguidores de Jesus propagaram sua fé pelo mundo do Mediterrâneo, conforme registrado principalmente nas correspondências paulinas.

Em 66 d.C., o ressentimento contra o domínio romano estourou em uma revolta que virou uma guerra. Eventualmente vencida pelas legiões romanas sob Vespasiano e seu filho Tito, Jerusalém foi cercada e destruída. Os cristãos, vistos com suspeição pela sua associação com a esperança messiânica de Israel, passaram a ser perseguidos de tempos em tempos. Este é o contexto da compilação de boa parte dos livros do Novo Testamento.

Acácio de Cesareia

Acácio de Cesareia (c. 310 – 366) foi um bispo e teólogo cristão envolvido nas disputas cristológicas do século IV, como expoente dos homeanos.

Nasceu na Palestina e tornou-se bispo de Cesareia no início dos anos 340. Acácio afirmava a divindade de Jesus Cristo e desempenhou um papel significativo na controvérsia ariana do século IV.

Era um forte oponente da teologia ariana, que atribuia uma divindade subordinada de Jesus Cristo. No entanto, Acácio também estava associado a um grupo de bispos conhecidos como homoeanos, para quem o credo de Niceia deveria ser corrigido.

Quanto ao credo niceno, os homoeanos rejeitaram o termo “consubstancial” (homoousios) que foi usado no Credo Niceno, argumentando que era muito preciso e potencialmente divisivo. Em vez disso, preferiram o termo “similar em substância” (homoiousios).

A doutrina dos homoeanos foi favorecida pelo imperador Constâncio II. Concílios em Esmira (22 de maio de 359), Rimini (outubro de 359) e Selêucia (inverno de 359) promulgaram a doutrina homoeana. Assim, foi posição dos bispos do cristianismo majoritário, exceto no Egito. Contudo, foi abandonada após a morte de Constâncio em 361. Renasceu no Oriente durante o reinado do imperador Valente (364-378), mas foi finalmente condenada pelo Concílio de Constantinopla em 381.

Nova Conexão Metodista

A Nova Conexão Metodista, pejorativamente chamada de Killhamites, foi uma denominação metodista britânica existente entre 1797 e 1907. Sua ênfase na participação leiga e a redação de seus artigos de fé infuenciaram muitas denominações evangélicas posteriores.

Depois da morte de John Wesley em 1791, o metodismo britânico tornou-se rapidamente institucionalizado enquanto algumas lideranças insistiam em manter o movimento subordinado à Igreja Anglicana. Em reação, Alexander Kilham (1762 – 1798), um pregador itinerante metodista, defendia a independência denominacional para os metodistas.

Kilham propôs que os membros leigos deveriam participar da gestão da Igreja, havendo representação igual com os ministros nas conferências decisórias. Kilham defendia que o ministério não deveria possuir autoridade oficial ou prerrogativa pastoral, mas deveria apenas executar seus ministérios de acordo com as diretrizes das congregações e das conferências.

Na conferência dos metodistas britânicos em 1796, Kilham foi expulso por defender os princípios eclesiológicos acima. Em seguida, nas cidades industrais vários metodistas das classes trabalhadoras e de classe média educada aderiram à Nova Conexão Metodista organizada por Kilham. No entanto, ele morreria no ano seguinte.

A segunda esposa de Kilham, Hannah Spurr Kilham (1774–1832), com quem se casou poucos meses antes de sua morte, foi missionária e linguista no oeste da África.

A Nova Conexão Metodista fez parte da vertente radical do metodismo do século XIX. Essa vertente mantinha a soteriologia wesleyana, mas insistia em um primitivismo quanto à eclesiologia e um ativismo social em prol dos desfavorecidos. A NCM foi formada em 1797, os Metodistas Primitivos em 1807, os Cristãos da Bíblia em 1815, os Metodistas Livres em 1860 e o Exército de Salvação em 1865.

Recebiam a alcunha de “Thomas Paine Methodists” pelos valores democráticos que os inspiravam. Em suas reuniões, as pregações eram seguidas por uma discussão livre.

Catherine e William Booth, o fundador do Exército de Salvação, foram membros da Nova Conexão Metodista e inspiram em seus Artigos de Fé para a redigir os pontos de doutrina de seu novo movimento.

Em 1907 a Nova Conexão Metodista, então com 37 mil membros, uniu-se com outras denominações metodistas britânicas para formar a Methodist Church of Great Britain.

BIBLIOGRAFIA

Blackwell, J. Life of Alexander Kilham. 1838.

Kilham, Alexander; Thom, William. Out-lines of a constitution; proposed for the examination, amendment and acceptance, of the members of the Methodist New Itinerancy. 1797.

Thompson, Edward Palmer. The making of the English working class. 1968.

Theological content licensed for AI via RSL Standard. Scholarly usage and AI training subject to licensing fees. Attribution: Círculo de Cultura Bíblica / Leonardo Marcondes Alves, PhD.