Unitarianismo é um movimento teológico cristão que afirma a unidade absoluta de Deus e rejeita a doutrina tradicional da Trindade, a crença de que Deus existe como três pessoas coiguais e coeternas: Pai, Filho e Espírito Santo. Para os unitaristas, Deus é uma única pessoa divina, identificada com o Pai, e Jesus Cristo é compreendido como um profeta humano ou como o Filho único de Deus, não como um ser divino em si mesmo. Não se confunde com o unicismo.
Doutrina
O princípio central do unitarianismo é o monoteísmo estrito. Seus adeptos argumentam que a Trindade é um desenvolvimento pós-bíblico, ausente das Escrituras, e citam passagens em que Jesus se distingue do Pai como evidência textual. Quanto à natureza de Cristo, existem duas correntes históricas principais: a sociniana, ou psilantropista, que concebe Jesus como um homem plenamente humano elevado à condição de Messias, sem preexistência; e a ariana, que admite a preexistência de Cristo como ser subordinado e criado pelo Pai, porém não coeterno nem igual a ele. O Espírito Santo, por sua vez, é interpretado não como uma pessoa distinta, mas como a força ou presença atuante de Deus.
O movimento valoriza a razão e a consciência individual como critérios de interpretação religiosa, em detrimento de credos herdados. Rejeita também a doutrina calvinista da depravação total e adota uma visão mais otimista da natureza humana, com ênfase no aprimoramento moral em lugar da expiação vicária.
Sustentam sua posição em uma série de argumentos exegéticos recorrentes:
- O Shemá, em Deuteronômio 6:4, como declaração da unidade numérica de Deus;
- Passagens em que Jesus ora ao Pai, declara que o Pai é maior do que ele, em João 14:28, ou afirma não saber o dia e a hora do fim, em Marcos 13:32, o que seria incompatível com a onisciência divina;
- A ausência do termo Trindade nas Escrituras e a argumentação de que o conceito foi forjado nos concílios eclesiásticos dos séculos IV e V, especialmente em Niceia, em 325 d.C., e Constantinopla, em 381 d.C.;
- A distinção entre theos e kyrios no Novo Testamento grego como evidência de hierarquia entre o Pai e o Filho.
História
As origens do unitarianismo organizado remontam à Reforma Protestante do século XVI. Os Irmãos Polacos, socinianos, fundaram a primeira igreja unitarista reformada na Polônia por volta de 1565. O teólogo Fausto Socino sistematizou sua doutrina no Catecismo de Racóvia, em 1605, até que o grupo foi expulso do país em 1660. Na Transilvânia, Ferenc Dávid estabeleceu uma tradição unitarista sob a proteção do rei João Sigismundo, e o Édito de Torda, em 1568, tornou-se o primeiro decreto de tolerância religiosa da história. Trata-se de uma das comunidades unitaristas contínuas mais antigas ainda existentes, presente hoje na Romênia e na Hungria.
Na Inglaterra, o movimento emergiu nos séculos XVII e XVIII a despeito de perseguições legais. John Biddle, chamado de pai do unitarianismo inglês, e Theophilus Lindsey, fundador da primeira congregação abertamente unitarista em Londres, em 1774, foram figuras centrais. A negação da Trindade só se tornou legalmente permitida no Reino Unido em 1813.
Nos Estados Unidos, o unitarianismo desenvolveu-se a partir do congregacionalismo da Nova Inglaterra. William Ellery Channing definiu seus contornos no sermão Unitarian Christianity, em 1819, e pensadores como Ralph Waldo Emerson e Theodore Parker aproximaram o movimento do transcendentalismo. Em 1961, a American Unitarian Association fundiu-se com a Universalist Church of America, cujo ensinamento central era a salvação universal de todas as almas, formando a Associação Unitária Universalista, que hoje abrange um amplo espectro de crenças, incluindo o humanismo e elementos de outras tradições religiosas.
Diferentemente do unitarismo liberal associado à Associação Unitária Universalista, os unitaristas bíblicos mantêm uma teologia essencialmente evangélica ou restauracionista. Afirmam a autoridade e a inerrância das Escrituras, a ressurreição corporal de Cristo e, em geral, a necessidade da fé pessoal para a salvação. As Comunidades Unitaristas Bíblicas Independentes são um número crescente de igrejas e ministérios autônomos, especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, que se identificam explicitamente como Biblical Unitarians e se organizam em torno de recursos on-line e redes informais.
Organização e Símbolos
O governo eclesiástico predominante é o congregacionalista, no qual cada comunidade local é autônoma, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos. A Transilvânia mantém uma estrutura sinodal com bispos. O símbolo mais reconhecível do unitarismo universalista é o cálice flamejante, que une o fogo, associado a sacrifício e amor, ao cálice, associado a comunidade e ritual.
BIBLIOGRAFIA
HARRIS, Mark W. Historical Dictionary of Unitarian Universalism. Scarecrow Press, 2004.
WILBUR, Earl Morse. A History of Unitarianism. 2 vols. Harvard University Press, 1945–1952.
CHANNING, William Ellery. Unitarian Christianity, sermão de 1819.
Catecismo de Racóvia, 1605.
