Teologia da Congregação Cristã no Brasil

A teologia da Congregação Cristã no Brasil insere-se no campo do protestantismo evangélico de matriz pentecostal clássica, com afinidades históricas e práticas com as igrejas livres do anabatismo, do pietismo e dos movimentos de avivamento europeus dos séculos XVIII e XIX.

Diferentemente de tradições com enraizada produção acadêmica e sistematização doutrinária formal, a CCB desenvolveu sua teologia predominantemente por via oral, litúrgica e comunitária. Seus hinos, orações, testemunhos e pregações constituem as fontes mais estáveis de sua identidade teológica. Em contrapartida, documentos normativos escritos — divulgados em reuniões gerais de ensinamentos — possuem caráter circunstancial e disciplinar, refletindo necessidades pastorais específicas de cada época e localidade.

A ausência de um vocabulário técnico padronizado não implica ausência de teologia, mas revela um modo distinto de elaboração doutrinária. A fé da CCB é articulada na prática do culto e na experiência comunitária, onde a interpretação bíblica ocorre na interação entre Escritura, Espírito Santo e assembleia de fiéis — dinâmica que corresponde ao que estudiosos descrevem como a tríade hermenêutica pentecostal. Trata-se de uma teologia narrativa e testemunhal, na qual a confissão de fé se expressa mais por relatos de intervenção divina na vida cotidiana do que por fórmulas proposicionais fixas.

No plano doutrinário, a CCB professa a fé trinitária histórica e a autoridade das Escrituras como regra suficiente de fé e prática. O evangelho é a mensagem de que Deus salva mediante Cristo Jesus, libertando o cativo ao quebrar o poder do maligno, do pecado e da morte. A salvação é entendida como obra da graça de Deus realizada por meio de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cuja morte expiatória e ressurreição garantem reconciliação, justificação pela fé e vitória sobre o mal. O Espírito Santo atua na regeneração, na santificação e na concessão de dons espirituais. A vida cristã é concebida como caminhada de transformação moral e espiritual, marcada pela separação do pecado e pela obediência aos ensinamentos apostólicos do Novo Testamento.

A prática sacramental inclui o batismo por imersão de crentes conscientes e a celebração da Santa Ceia como memorial do sacrifício de Cristo. A oração pelos enfermos com unção é mantida em consonância com a epístola de Tiago, porém sem ênfase em cerimônias públicos de cura. A escatologia é afirmada como esperança na volta de Cristo, na ressurreição dos mortos e no juízo final, evitando especulações cronológicas ou sistemas proféticos detalhados. Apesar de contatos e continuidades, a CCB não adere ao dispensacionalismo como arcabouço hermenêutico ou escatológico. Isso é similar ao evangelismo italiano que herdou a atitude em relação à Bíblia, conversionismo e eclesiologia de J. N. Darby, mas rejeitou seu dispensacionalismo.

Historicamente, a espiritualidade da CCB reflete influências do movimento de santidade, do keswickianismo, do pietismo centro-europeu e do pentecostalismo ítalo-americano ligado a Louis Francescon e aos círculos de avivamento do início do século XX. Essa herança resulta numa soteriologia mais experiencial e transformativa do que forense, o que dificulta sua classificação nos esquemas dicotômicos clássicos do protestantismo sistemático, como calvinismo versus arminianismo.

Eclesiologicamente, a CCB compreende a Igreja como corpo espiritual de Cristo e valoriza a dimensão comunitária da salvação. A adesão à comunidade é entendida como resposta à ação do Espírito Santo na consciência do crente, não como resultado de proselitismo organizado. Essa visão reforça uma identidade de igreja voluntária, com forte ênfase em disciplina interna, modéstia de costumes e preservação de práticas litúrgicas tradicionais, muitas das quais eram comuns em ambientes evangélicos do século XIX, como o ósculo santo, o uso de véu feminino e a centralidade do canto congregacional acompanhado por instrumentos de tradição erudita.

A produção teológica institucional é limitada; as instâncias administrativas concentram-se mais na preservação da ordem comunitária do que na formulação doutrinária sistemática. Essa característica, somada à postura reservada diante de polêmicas externas e à recusa em adotar modelos de marketing religioso, contribui para incompreensões e críticas frequentes por parte de setores apologéticos. Ainda assim, sob análise histórica e teológica comparada, a CCB permanece dentro dos contornos do cristianismo trinitário e bíblico.

Como em outros segmentos do cristianismo popular, há também desafios internos reconhecidos por observadores e membros: tendências ao anti-intelectualismo, expressões teológicas idiossincráticas, limitações na transparência administrativa e más práticas de autoritarismo. Vive também na encruzilhada entre o exercício do sacerdócio universal dos crentes — historicamente fundado na presença igualitária do Espírito Santo — e tendências hierarquizantes que tendem à burocratização e rotina do carisma. Tais tensões são recorrentes entre carisma, tradição e institucionalização presentes em diversos movimentos religiosos. Nesses desafios, há teologias implícitas também em constante tensão entre legitimar e questionar.

A teologia da Congregação Cristã no Brasil caracteriza-se por combinação de busca pela ortodoxia, ortopraxia e ortopatia bíblicas vivida em forma comunitária e narrativa, sustentada pela liturgia e transmitida pela experiência coletiva de fé.

REFERÊNCIAS

Alves, Leonardo Marcondes. Pontos de Doutrina e da Fé: Uma exposição bíblica. Uberlândia: Círculo de Cultura Bíblica, 2024. https://doi.org/10.5281/zenodo.11212073. ISBN 978 65 266 2284 1.

Hollenweger, Walter J. The Pentecostals. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1972.

Palma, Paul J. Italian American Pentecostalism and the Struggle for Religious Identity. Routledge, 2020.

Palma, Paul J. Grassroots Pentecostalism in Brazil and the United States: Migrations, missions, and mobility. Palgrave Macmillan, 2022.

Yuasa, Key. “Louis Francescon: A Theological Biography – 1866–1964.” PhD diss., Université de Genève, 2001.

Atualizado em 28 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é cientista da religião e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


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Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Teologia da Congregação Cristã no Brasil. Círculo de Cultura Bíblica, 2025. Disponível em: https://circulodeculturabiblica.org/2025/01/28/teologia-da-congregacao-crista-no-brasil/. Acesso em: 28 jan. 2026.

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Autor: Círculo de Cultura Bíblica

Leonardo Marcondes Alves é um pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University (Noruega). Especialista em ciências da religião, antropologia, migração, direito e ciências bíblicas, integra a equipe editorial da EDUFU (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil). Biblista e investigador há muito tempo sobre a Congregação Cristã no Brasil, o movimento pentecostal italiano e grupos correlatos. Mantém os sites https://ensaiosenotas.com/ (humanidades e ciências sociais) e https://circulodeculturabiblica.org/ (ciências bíblicas, CCB) para a divulgação científica.

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