Avivamento Continental

O Avivamento Continental, Réveil genebrino, Risveglio italiano ou Erweckungsbewegung alemão são uma série de avivamentos entre evangélicos da Europa Continental durante o século XIX.

HISTÓRIA

A origem do Avivamento Continental remonta a uma reação contra o racionalismo teológico dominante nos seminários e sistema paroquial protestante francófono e germânico no final do século XVIII e início do XIX.

Em Genebra, então uma república associada à Suíça, alguns jovens seminaristas protestantes reuniram-se entre 1802 e 1805 em um pequeno grupo de oração organizado pelo pai de Ami Bost, da União dos Irmãos Morávios.

Após um sermão do Pastor Moulinié sobre os costumes dos primeiros cristãos no final de novembro de 1812, alguns desses jovens — Guers, Empeytaz e Pyt — fundam a Sociedade dos Amigos com objetivo de ajudar os pobres e aflitos por todos os meios.

Nos anos próximos à queda de Napoleão, visitantes estrangeiros como a baronesa Barbara von Krüdener, os britânicos Richard Wilcox, Robert Haldane, Henry Drummond e Charles Cook visitaram Genebra e reacenderam um interesse por reuniões privadas de oração, cânticos de hinos (na época só se cantavam salmos) e leitura da Bíblia.

Os estudos bíblicos conduzidos por Robert Haldane por alguns meses focaram na exposição de Romanos de um modo que muitos seminaristas jamais tinham visto. Sua ênfase era na justificação e na conversão pessoal.

O movimento de 1817 foi chamado pejorativamente de momiers (“murmuradores”) e se expandiu rapidamente pelas regiões vizinhas de Genebra. Nas décadas de 1830 e 1840 houve outra onda de avivamento na Suíça.

Na França, várias regiões foram alcançadas pelo Réveil. Em Paris seu centro foi na Chapelle Taitbout, reunia numerosos membros da alta burguesia e nobreza como a filha da Madame de Stael.

O ex-soldado Félix Neff, o”Apóstolo dos Alpes”, pregou em áreas montanhosas na fronteira da França, Suíça e Piemonte, e entre os valdenses. A emancipação dos valdenses e a consequente liberdade de culto, primeiro no Reino Sardo-Piemontês e depois para toda a Itália, levou à propagação do Risveglio entre os italianos.

No vale do Reno o movimento atingiu reformados, unidos e luteranos de língua alemã na Alemanha, Suíça e Alsácia, muitos deles já participando de um avivamento entre pietistas desde o final do século XVIII. O avivamento fundiu-se com o ministério social e espiritual de J.F. Oberlin. De modo similar, a família de pregadores Krummacher em Wuppertal influenciaram o oeste da Alemanha. Na Saxônia, o Castelo de Hermsdorf foi um centro liderado por Heinrich Ludwig Burggraf zu Dohna, neto de Nikolaus Ludwig von Zinzendorf. O ministro Johann Christoph Blumhardt e seu filho Christoph Friedrich Blumhardt promoveram um ministério de cura divina, expulsão de demônios e reforma social entre os povos de língua alemã. Christoph Friedrich também buscou na esfera política concretizar os mandados do Reino de tratar os mais necessitados enquanto se esperava o segundo advento.

Nos Países-Baixos o movimento foi liderado por Willem Bilderdijk, Willem de Clercq, os judeus convertidos Isaac da Costa e Abraham Capadose. Mais tarde influenciaria Abraham Kuyper.

Na Europa Oriental o movimento ganhou corpo entre alemães bálticos e do Volga. Na Finlândia russa ocorreu o Herännäisyys, liderado pelo camponês Paavo Ruotsalainen. A Escandinávia foi impactada por um forte movimento de igrejas livres e movimentos neo-pietistas que incorporaram outros movimentos nativos de renovação. Teve impacto social e político tão grande que a moderna socialdemocracia nórdica em parte é fruto do avivamento das igrejas livres.

O movimento passou por severas críticas e perseguições pelas igrejas estabelecidas. Na Suíça, o Venerável Conselho de Pastores de Genebra expulsou ou recusou a ordenar pastores associados ao movimento e similares ações aconteceram em outros cantões. Protestantes racionalistas e mais tarde os liberais viam como excessivos as manifestações piedosas dos avivamentos bem como seu conteúdo teológico como incompatíveis à luz da razão. Na França, intelectuais católicos e conservadores como Louis de Bonald, Joseph de Maistre e Lamennais direcionaram um ataque cerrado contra o avivamento, considerando-o como mais uma expressão revolucionária a ser contida.

TEOLOGIA

Embora teologicamente reenfatizasse muito das teologias calvinista, luterana, pietista e anabatista, o Avivamento Continental tinha suas próprias nuances.

O Avivamento Continental caracterizou-se pela insistência na leitura e na pregação da Bíblia, a qual era lida menos com interesse histórico e mais como uma comunicação existencial. A doutrina de inspiração foi uma elaboração basilar desse movimento.

A centralidade doutrinária residia na salvação por meio do sacrifício de Cristo na cruz, insistindo na experiência de conversão do pecado e do novo nascimento. Por conversão significava passar de uma fé costumeira para uma fé ativa. A experiência de salvação perspassava as diferenças teológicas.

A amplitude da graça expressa pelo propósito, alcance da morte de Cristo levaram a uma reelaboração — por parte dos avivados de extração calvinista — da doutrina da expiação limitada. As transformações da natureza humana pela obra regeneradora do calvário alcançavam a humanidade pela graça comum. Assim, todo cristão convertido deve contribuir para a divulgação do evangelho por meio de palavras e obras, anunciando a liberdade e a salvação já concedidas por Jesus Cristo em sua morte.

Entretanto, o avivamento não foi teologicamente uniforme. Dentre as tendências com suas respectivas ênfases, o historiador Émile Léonard distingue três grupos dentro do Avivamento francófono:

  • Um avivamento pietista, centrado na emoção e no acesso de cada cristão a uma relação pessoal com Jesus Cristo (Haldane, Empeytaz, Ami Bost e os metodistas).
  • Um avivamento ortodoxo, voltado para um retorno às afirmações fundamentais do cristianismo (César Malan, Félix Neff, Adolphe Monod, Louis Gaussen e Jean de Visme).
  • Um avivamento intelectual, de tendência liberal, com ênfase na cultura da Reforma e na humanidade de Cristo (Samuel Vincent, Louis-Ferdinand Fontanès, Timothée Colani e os membros da “Escola de Estrasburgo”).

PRIMITIVISMO
Em geral, a atitude romântica para o retorno do cristianismo simples, movido pelo coração, do avivamento continental gerou formas de culto e eclesiológicas de base. Em várias ocorrências, os avivados eram liderados por pregadores leigos, cuja liberdade de pregar era somente pela ação do Espírito Santo. As ênfases em práticas cristãs primitivas — ósculo santo, uso de véus, diaconia — e em um biblicismo foram preservadas em várias denominações herdeiras desse movimento.

O réveil também teve várias manifestações carismáticas principalmente na década de 1830. Ami Bost registra cura pela fé. Outras manifestações esporádicas incluíam cânticos espirituais e pregações espontâneas, falar em línguas e profecias. Como tais manifestações estavam acontecendo entre os irvingitas britânicos, foram enviados em 1835, os missionários Pierre Méjanel e Collings Manger Carré para visitar o movimento na Suíça. Bost visitou Irving e Henry Drummond em Albury em 1831.

Na área de Yverdon, Suíça, em 1832 o pastor Marc Louis Lardon (falecido c. 1834) liderou um avivamento. Lardon tinha renunciado sua posição e membresia na Igreja Reformada estatal em 1827 e encorajava sua congregação livre de Yverdon a buscar os dons do Espírito. Praticava expulsão de demônios, profecias e foi reconhecido como apóstolo. Um ano após sua morte seu movimento terminou.

Na Prússia em 1817 ocorreram várias manifestações carismáticas no grupo de oração organizado pelo militar Gustav von Below.

PERSONALIDADES

  • Henri-Louis Empaytaz
  • César Malan
  • Louis Gaussen
  • Ami Bost
  • Henri Pyt
  • Antoine Jean-Louis Galland
  • Adolphe Monod
  • Alexandre Vinet
  • Paolo Geymonat

LEGADOS EM DENOMINAÇÕES, MOVIMENTOS E INSTITUIÇÕES

  • A maioria dos avivados de Genebra saiu da igreja Reformada estatal em 1831 e fundou a Sociedade Evangélica, com sua própria “escola de pregadores” construída em 1832.
  • Em 1848, os vários dissidentes congregações uniram-se para formar a Igreja Evangélica Livre.
  • No cantão de Vaud foi formada uma Igreja Livre Reformada.
  • Várias sociedades missionárias, como a de Basileia, enviaram missionáriosn o redor do globo.
  • Várias assembleias livres se uniram em torno da eclesiologia defendida por John Nelson Darby, formando as Assemblée des frères larges e outros grupos menores.
  • Os Neutäufer (Fröhlichianer ou Nazarenos) resultantes da missão de Samuel Heinrich Fröhlich entre falantes do alemão, húngaro e línguas eslavas da Europa Central. Nos Estados Unidos estão reunidos em denominações com nomes de Apostolic Christian Churches e no Brasil nas Igrejas da Paz (na Amazônia) ou Igreja Evangélica Nazareno (não confundir com a Igreja do Nazareno) no centro-sul, principalmente entre descendentes de húngaros e sérvios.
  • Vários grupos locais se uniram aos metodistas, batistas e quakers.
  • O movimento dos Irmãos Menonitas entre teuto-russos.
  • O movimento dos Stundistas na Rússia e Ucrânia, do qual emergiram o movimento dos Cristãos de Fé Evangélica, mais tarde organizados em batistas e pentecostais.
  • Vários movimentos de renovação entre luteranos. No Brasil, várias organizações são herdeiras desses movimentos como a Igreja Evangélica Congregacional no Brasil, a Missão Evangélica União Cristã dentro da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil e a Igreja do Cristianismo Decidido.
  • Exército de Salvação.
  • A Cruz Vermelha.
  • A profissão de diaconisa e, posteriormente, as profissões de enfermagem e serviço social.

BIBLIOGRAFIA

Bost, Ami. Mémoires pouvant servir à l’histoire du réveil religieux des Eglises protestantes de la Suisse et de la France, et à l’intelligence des principales questions théologiques et ecclésiastiques du jour, 1854.

Macchia, Frank D. Spirituality and Social Liberation: The Message ofthe Blumhardts in the Light of Wuerttemberg Pietism. Scarecrow Press, 1993.

Maillebouis , Christian. Les momiers (1820-1845) La dissidence religieuse à Saint-Voy, canton de Tence. Mazet-Saint-Voy: Société d’histoire de la montagne, 1990.

Mutzenberg, Gabriel. A l’écoute du Réveil, Emmaüs, 1991

Spini (Giorgio) L’Evangelo e il berretto frigio. Storia delle Chiesa Cristiana Libera in Italia, 1870-1904. Turim: Claudiana, 1971.

Stewart, Kenneth J. Restoring the Reformation: British Evangelicalism and the Francophone’Réveil’1816-1849. Wipf and Stock Publishers, 2006.

Wemyss, Alice. Histoire du Réveil 1790-1849, Paris, Les Bergers et les Mages. Lausanne, Librairie de l’Aie, 197

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