Creatio ex nihilo

Criação ex nihilo (do latim, “criação a partir do nada”) é a doutrina teológica segundo a qual Deus criou o universo, incluindo o espaço, o tempo e toda a realidade finita, não a partir de matéria ou substância preexistente, mas por Sua vontade soberana e Sua palavra onipotente. Antes do ato criador, nada existia além do próprio Deus: nenhuma matéria, nenhuma energia, nenhum espaço, nenhum tempo. A doutrina constitui o consenso do teísmo clássico nas três grandes tradições abraâmicas, cristianismo, judaísmo e islamismo, e distingue a compreensão bíblica da criação de formas de dualismo, emanacionismo e da tese de que Deus ordenou um caos preexistente.

Definição e implicações centrais

O termo “nada” (nihil), neste contexto, não designa espaço vazio ou vácuo, mas ausência completa de realidade, entidade, propriedade ou potencialidade. Deus não criou a partir de algo; criou de modo que não havia nada a partir do qual a criação pudesse ocorrer.

A criação é concebida como ato livre da vontade divina, não como emanação da substância de Deus nem como produto necessário de Sua natureza. Deus poderia não ter criado. O ato criador pressupõe dois atributos fundamentais: a onipotência, pela qual Deus traz o ser à existência a partir do não ser, e a transcendência, pela qual Deus é distinto da criação, que não constitui extensão de Seu ser.

Um corolário é que o tempo pertence à criação. Deus, eterno e incriado, não criou no tempo, mas criou o tempo com o universo, o que evita um regresso temporal infinito. A criação ex nihilo refere-se ao ato originário de trazer o universo à existência e distingue-se da conservatio, a preservação contínua do mundo, e do concursus, a ação divina no mundo criado.

Desenvolvimento histórico

Cosmogonias do Antigo Oriente Próximo, como o Enuma Elish e mitos egípcios, pressupõem matéria caótica preexistente, muitas vezes personificada como divindade aquática primordial. A filosofia grega, de Platão no Timeu a Aristóteles, também admite a eternidade da matéria e concebe o demiurgo como ordenador de um substrato eterno.

A formulação explícita da criação ex nihilo emerge no judaísmo do período do Segundo Templo, em parte como resposta ao dualismo helenístico. Em 2 Macabeus 7:28, lê-se que Deus fez o céu e a terra de coisas que não existiam. Trata-se da afirmação pré-cristã mais direta da doutrina.

Nos séculos II a IV, a doutrina torna-se elemento central da apologética cristã contra o dualismo gnóstico. Teófilo de Antioquia emprega a expressão ex ouk onton em contexto cristão. Ireneu de Lião sustenta que Deus cria livremente a partir do nada, não de substância própria nem de matéria preexistente. Tertuliano e Orígenes apresentam hesitações, este último inclinado a uma concepção de criação eterna. A posição é consolidada por Atanásio, Basílio de Cesareia e Agostinho de Hipona.

Agostinho oferece a formulação patrística mais sistemática. Argumenta que, se a matéria fosse coeterna a Deus, Deus não seria soberano. Nas Confissões, esclarece que a criação não ocorre no tempo, mas constitui a origem do próprio tempo.

Na Idade Média, a doutrina é amplamente aceita no cristianismo, no judaísmo rabínico e no islamismo. Maimônides a defende contra posições que afirmam a eternidade da matéria. Al-Ghazali a sustenta contra o aristotelismo de Avicena e Averróis. Tomás de Aquino afirma que a criação ex nihilo é conhecida pela fé e não demonstrável apenas pela razão natural.

Fundamentos bíblicos

Gênesis 1:1–2 afirma que Deus criou os céus e a terra no princípio; a interpretação tradicional entende o estado “sem forma e vazio” como condição inicial da criação, não como matéria preexistente. Romanos 4:17 descreve Deus como aquele que chama à existência o que não existe. Hebreus 11:3 declara que o visível não foi feito do que é aparente, o que exclui a formação a partir de matéria visível preexistente.

Posições alternativas e opostas

A creatio ex materia sustenta que Deus formou o mundo a partir de matéria eterna, posição associada a Platão e Aristóteles. A creatio ex deo concebe o universo como emanação da substância divina, como no neoplatonismo e em Espinosa. A tese do universo eterno afirma que o cosmos não teve início nem causa. A creatio continua sustenta que Deus cria continuamente a cada momento e que o mundo não possui existência independente, posição ligada ao ocasionalismo. Há ainda leituras que tratam a doutrina como linguagem simbólica da soberania divina.

Duas correntes modernas divergem explicitamente da criação ex nihilo. O mormonismo ensina que Deus organizou o universo a partir de realidades eternas preexistentes. A teologia do processo rejeita a criação a partir do nada e propõe uma relação cocriativa entre Deus e o mundo.

Significado teológico

A criação ex nihilo implica a liberdade divina: a criação não é necessária, mas dom. Estabelece distinção ontológica entre Deus, que existe por si, e o mundo, que é contingente. Afirma a bondade da matéria, pois procede de Deus sem fonte concorrente de mal, o que sustenta doutrinas como a encarnação e a ressurreição corporal. Afirma também a soberania divina, ao negar qualquer substrato eterno independente.

A doutrina constitui ponto de convergência entre tradições abraâmicas, em contraste com pressupostos da filosofia grega clássica.

Relação com a cosmologia moderna

A cosmologia contemporânea indica que o universo teve início finito, estimado em cerca de 13,8 bilhões de anos, conforme o modelo do Big Bang. Muitos teólogos consideram essa descrição compatível com a criação ex nihilo, embora não constitua prova. Georges Lemaître, proponente do modelo, sustentou essa compatibilidade.

A ciência não verifica a criação ex nihilo, pois não investiga um estado anterior ao espaço e ao tempo. Propostas que afirmam que o universo surgiu do nada frequentemente definem “nada” como vácuo quântico ou estrutura física, o que não corresponde ao sentido metafísico do termo. Filósofos da religião defendem a doutrina por meio do argumento cosmológico de Kalam, que infere uma causa transcendente para o início do universo.

Referências

AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões, livro XI.
AQUINO, Tomás de. Summa Theologiae, I, q. 45.
IRENEU DE LIÃO. Contra as Heresias.
COPAN, Paul; CRAIG, William Lane. Creation out of Nothing: A Biblical, Philosophical, and Scientific Exploration. Baker Academic, 2004.
MAY, Gerhard. Creatio ex Nihilo: The Doctrine of ‘Creation out of Nothing’ in Early Christian Thought. T&T Clark, 1994.
SOKOLOWSKI, Robert. The God of Faith and Reason. Catholic University of America Press, 1982.

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Autor: Círculo de Cultura Bíblica

Leonardo Marcondes Alves é um pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University (Noruega). Especialista em ciências da religião, antropologia, migração, direito e ciências bíblicas, integra a equipe editorial da EDUFU (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil). Biblista e investigador há muito tempo sobre a Congregação Cristã no Brasil, o movimento pentecostal italiano e grupos correlatos. Mantém os sites https://ensaiosenotas.com/ (humanidades e ciências sociais) e https://circulodeculturabiblica.org/ (ciências bíblicas, CCB) para a divulgação científica.

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