ḥabab

O termo hebraico ḥabab (חבב), é um hapax legômena, encontrado exclusivamente em Deuteronômio 33:3.

Diferentemente de ʾāhab (אהב), a palavra hebraica predominante para “amar”, que ocorre quinze vezes no mesmo livro, ḥabab é uma ocorrência singular. A tradução quase sempre de ḥabab como “amor” é, na realidade, uma conjectura baseada em paralelos com termos semíticos cognatos. No entanto, o significado preciso de ḥabab permanece incerto. A ausência de outras ocorrências textuais na Bíblia Hebraica dificulta a determinação de seu sentido específico. A distinção entre ḥabab e ʾāhab em um mesmo contexto literário sugere uma possível nuance semântica, mas a falta de evidências textuais conclusivas impede uma definição definitiva.

Chave

Na Bíblia, o motivo literário das chaves transcende a função prática, adquirindo significados simbólicos e teológicos, refletindo autoridade, acesso, conhecimento e controle. Em uso desde o antigo Egito e Mesopotâmia, o uso de chaves e fechaduras para segurança de portas e portões era conhecido nos contextos bíblicos.

A chave da casa de Davi, em Isaías 22:22, simboliza autoridade delegada, ecoada em Apocalipse 3:7, onde Cristo possui a chave de Davi, indicando seu poder exclusivo sobre o acesso ao reino de Deus.

Em Mateus 16:19, as chaves do reino dos céus conferidas a Pedro representam a autoridade para declarar o que é permitido ou proibido, ligando-se à revelação da identidade de Cristo e à proclamação do evangelho.

A chave do conhecimento, mencionada em Lucas 11:52, salienta a responsabilidade dos líderes espirituais em guiar outros à verdade divina. Em Apocalipse 1:18, as chaves da morte e do Hades nas mãos de Jesus simbolizam sua vitória sobre a morte e autoridade sobre a vida após a morte, reiterando o controle divino sobre forças cósmicas e o cumprimento do plano redentor de Deus, como também demonstrado em Apocalipse 9:1 e 20:1.

O motivo das chaves frequentemente implica mordomia, alinhando-se com a ideia de responsabilidade confiada, como na parábola do servo fiel e prudente.

As chaves em contextos escatológicos, como a abertura do abismo e a prisão de Diabo, significam o controle de Deus sobre o tempo e a execução de seu plano redentor.

Correspondência entre Paulo e Sêneca

A correspondência entre Paulo e Sêneca é um conjunto de cartas apócrifas, geralmente datadas do final do século IV d.C., que pretendem ser uma troca de correspondências entre o apóstolo Paulo e o filósofo estoico romano Sêneca. Apesar de sua popularidade em certos períodos históricos, a correspondência é atualmente considerada espúria pela maioria dos estudiosos bíblicos.

As cartas, oito de Sêneca e seis de Paulo, abordam temas como a natureza de Deus, a virtude e a vida moral. Embora a linguagem e o estilo das cartas se assemelhem superficialmente aos escritos de Paulo e Sêneca, várias inconsistências históricas e teológicas levaram à rejeição de sua autenticidade. Por exemplo, as cartas retratam Sêneca com um conhecimento do cristianismo que ele provavelmente não possuía em vida, e Paulo com uma familiaridade com a filosofia estoica que não é evidente em seus escritos autênticos.

A correspondência de Paulo e Sêneca provavelmente surgiu em um contexto de crescente interesse pelo cristianismo entre intelectuais romanos. A figura de Sêneca, conhecido por sua sabedoria e vida virtuosa, era atraente para os primeiros cristãos, que buscavam estabelecer conexões entre sua fé e a filosofia greco-romana. A falsificação de cartas entre Paulo e Sêneca serviu para promover a imagem do cristianismo como uma filosofia respeitável e atrair convertidos entre a elite romana.

Atos dos mártires scilitanos

Os Atos dos Mártires Scilitanos são um registro do julgamento de um grupo de cristãos em Cartago, datado de 17 de julho de 180 d.C. Este texto em latim, o mais antigo documento datado da igreja latina, descreve o interrogatório e a sentença de doze mártires pelo procônsul P. Vigellius Saturninus. Apesar de algumas adições posteriores por redatores cristãos, o texto é considerado uma das representações mais próximas de registros judiciais históricos entre os atos de mártires do cristianismo primitivo.

O documento destaca o contraste entre a autoridade do imperador romano e a fé cristã. Speratus, um dos mártires, afirma não reconhecer o “império deste mundo”, defendendo a obediência às leis e o pagamento de impostos como deveres para com Deus, e não para com o imperador. Essa postura contrasta com a visão mais conciliatória de outros textos cristãos primitivos, que promoviam o respeito às autoridades romanas, como a atitude da mártire Donata.

Metatron

Metatron, em aramaico מטטרון , em hebraico מטטרון e em grego Μετατρόν é uma figura enigmática na tradição mística judaica, conhecido como um anjo exaltado e mediador entre Deus e a humanidade.

Seu nome tem origens obscuras, com possíveis ligações a termos gregos que significam “aquele que está atrás do trono” ou “o que serve”. Na literatura rabínica e cabalística, Metatron recebe vários títulos, como “o Príncipe da Presença”, “o Anjo da Face” e até mesmo “o Menor YHWH” (Yahweh katan), indicando sua proximidade com o divino. Em algumas tradições, acredita-se que Metatron tenha sido originalmente o patriarca Enoque, transformado em anjo após sua ascensão ao céu. Como escriba celestial, ele registra as ações da humanidade e supervisiona o fluxo de energia divina no cosmos.

A literatura apócrifa, particularmente o 3 Enoque, descreve a experiência do rabino Ismael, que ascende ao céu e descobre que Enoque foi transfigurado em Metatron. Esse texto, datado entre os séculos V e VI d.C., apresenta Metatron como o mais elevado dos anjos, conferindo-lhe uma posição singular na hierarquia celestial. Na tradição rabínica, ele é descrito como secretário celestial e mensageiro divino, identificando-se com a figura de Moisés, que teria alcançado um estado angelical após sua morte. Esse conceito está ligado a interpretações midrásicas de passagens bíblicas, como êxodo 33:11, onde Moisés é descrito como aquele que “falava com Deus face a face”.

Embora Metatron não seja mencionado explicitamente na Bíblia Hebraica ou no Novo Testamento, sua figura se desenvolveu em contextos místicos, onde ele é visto como detentor de vasto conhecimento dos mistérios divinos. Associado à Merkabah, o “carro celestial” da visão profética de Ezequiel, ele guia aqueles que buscam ascender aos reinos celestiais por meio da meditação e do misticismo. Sua função de transmissor dos decretos divinos e de autoridade sobre outros anjos reforça sua posição de intermediário entre Deus e a humanidade. Além de sua função celestial, Metatron também é invocado em orações e rituais ligados à justiça e à misericórdia.

BIBLIOGRAFIA

Boyarin, Daniel. “Beyond Judaisms: Metatron and the Divine Polymorphy of Ancient Judaism.” Journal for the Study of Judaism in the Persian, Hellenistic, and Roman Periods, vol. 41, no. 3, 2010, pp. 323–365

Orlov, Andrei A. The Enoch-Metatron Tradition. Mohr Siebeck, 2005.