Jubileu

O Jubileu, celebrado a cada cinquenta anos, constitui um ano sabático especial no antigo Israel, conforme detalhado em Levítico 25. A palavra hebraica יובל (yovel), frequentemente traduzida como “jubileu”, também se refere ao toque do shofar, o chifre de carneiro usado para anunciar o ano do Jubileu. Este ano era marcado por reparações sociais e econômicas significativas.

Durante o Jubileu, as terras herdadas eram restauradas às suas famílias originais, uma medida que visava prevenir a acumulação excessiva de riquezas e a mitigar as desigualdades sociais. Escravos hebreus eram libertados, tendo uma nova oportunidade de recomeço e liberdade. Adicionalmente, o Jubileu era um tempo de descanso para a terra, que não era cultivada.

O significado teológico do Jubileu possui vários aspectos. O ano de jubileu relembrava a fidelidade de Deus à sua aliança com Israel, demonstrando sua preocupação com a justiça social e a equidade. O Jubileu também aponta para a redenção e a libertação, tanto física quanto espiritual, oferecendo um novo começo para indivíduos e para a sociedade como um todo.

Embora a Bíblia não ofereça uma lista completa dos anos do Jubileu, o Seder Olam Rabbah, uma cronologia hebraica do século II d.C., registra e calcula as ocorrências de dois jubileus notáveis, que são frequentemente referenciados em discussões talmúdicas.

  1. Décimo Sexto Jubileu: Ocorreu no 18º ano do reinado do rei Josias.
  2. Décimo Sétimo Jubileu: Mapeado para o Dia da Expiação (Yom Kippur) mencionado em Ezequiel 40:1, ocorrido exatamente 49 anos após o Jubileu de Josias.

O Seder Olam Rabbah é a fonte primária para a cronologia judaica tradicional, atuando como a espinha dorsal sobre a qual o Talmude constrói suas discussões históricas e haláquicas (leis). O Talmude não é uma obra cronológica, mas sim uma compilação de debates e interpretações. Portanto, ao se referir a datas históricas, o Talmude (especialmente nos tratados Megillah 14b e Arakin 12a) frequentemente aceita e utiliza a estrutura temporal estabelecida pelo Seder Olam, considerando-a autoritativa.

O décimo sexto jubileu teria ocorrido no 18º ano do reinado do rei Josias. Este ano é historicamente significativo, pois foi o momento em que o sumo sacerdote Hilquias encontrou o “Livro da Lei” no Templo. A coincidência desse reavivamento espiritual com o ano do Jubileu é vista como um evento de profundo significado, um tempo de retorno à lei e à herança de Israel. O cálculo para esta data no Seder Olam parte de um ponto fixo posterior, o ano sabático do cerco de Jerusalém por Herodes, e conta os ciclos de 49 anos para trás, chegando precisamente ao 18º ano de Josias.

O décimo sétimo jubileu coincide com o Dia da Expiação (Yom Kippur) do ano em que o profeta Ezequiel teve sua visão detalhada do Templo e da restauração de Israel (Ezequiel 40:1). O texto bíblico especifica que a visão ocorreu no 14º ano após a destruição da cidade. Ao adicionar 49 anos à data calculada do Jubileu de Josias, o Seder Olam chega ao ano da visão de Ezequiel. Essa notável precisão é interpretada como um sinal divino de esperança e redenção.

A ideia de remissão de dívidas e restituição de terras não era exclusiva do antigo Israel. Práticas semelhantes existiam em outras culturas do Oriente Próximo, demonstrando uma preocupação regional com a estabilidade social e a prevenção da pobreza extrema.

Códigos de Leis Mesopotâmicos: Vários éditos reais e códigos de leis, como o Código de Hamurabi (c. 1754 a.C.) e o Código de Ur-Nammu (c. 2100 a.C.), incluíam disposições para o cancelamento de dívidas e a libertação de escravos sob certas circunstâncias. Esses atos, geralmente proclamados no início de um reinado, tinham como objetivo restaurar a ordem social e a prosperidade.

O Cântico de Remissão de Dívidas Hurriano: Um texto bilingue (hurriano e hitita) recém-traduzido, conhecido como “O Cântico de Remissão de Dívidas”, oferece um paralelo notável. Nele, uma divindade ordena a remissão das dívidas da cidade de Ebla. O texto promete prosperidade e vitória militar como recompensa pela obediência, e destruição como punição pela desobediência. Este paralelo mostra que a ideia de perdão de dívidas era um tema culturalmente compartilhado, embora a base teológica do Jubileu de Israel fosse distinta.

Jejum

O jejum, prática presente em diversas culturas e religiões, ocupa um lugar de destaque na Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A palavra hebraica para jejum, צוֹם (tzom), e o termo grego νηστεία (nēsteia) carregam consigo a ideia de abstinência, seja de alimentos, água ou outros prazeres.

No Antigo Testamento, o jejum aparece como um ato de contrição, arrependimento e busca por Deus. Moisés jejuou quarenta dias no Monte Sinai (Êxodo 34:28), e o rei Davi o fez em momentos de luto e aflição (2 Samuel 12:16). O jejum também era praticado em ocasiões de perigo nacional, como no livro de Ester, onde o jejum de três dias de todos os judeus precedeu a intervenção divina.

Os profetas Isaías e Joel enfatizam a importância do jejum sincero, acompanhado de justiça e misericórdia, e não apenas como um ritual externo. O jejum, portanto, está ligado à transformação interior e à busca por uma vida de retidão.

No Novo Testamento, Jesus jejuou quarenta dias no deserto antes de iniciar seu ministério (Mateus 4:2). Ele também ensinou sobre a importância do jejum em secreto, como um ato de devoção pessoal a Deus (Mateus 6:16-18). A prática do jejum era comum entre os primeiros cristãos, como vemos em Atos dos Apóstolos, onde os discípulos jejuavam e oravam em momentos de decisão e necessidade (Atos 13:2-3).

O jejum, na perspectiva bíblica, não é apenas uma prática de abstinência, mas um meio de se humilhar perante Deus, buscar sua vontade e fortalecer a vida espiritual. Ele pode ser acompanhado de oração, confissão de pecados e busca por direção divina.