Tipologia das Misericórdias

Agostinho, em sua obra “A Cidade de Deus”, identifica sete perspectivas sobre a salvação que circulavam na Igreja primitiva. Ele as chama de “misericordi nostri” – “nossos compassivos” – por sua ênfase na misericórdia divina. Com exceção da visão de Orígenes, Agostinho não as condena como heréticas, mas as analisa e debate com respeito.

Essas visões, embora diversas, compartilham a crença na abrangência da salvação, diferindo quanto a quem seria salvo e como. Algumas defendem a salvação universal de todos os seres, incluindo o diabo (De Civitate Dei 21.17, 23), enquanto outras limitam a salvação aos humanos (De Civitate Dei 21.17, 23).

A intercessão dos santos (De Civitate Dei 21.18, 24; Enchiridion 29), a participação nos sacramentos (De Civitate Dei 21.19, 25) e a Eucaristia (De Civitate Dei 21.20, 25) também são apresentadas como meios de salvação. Outras perspectivas enfatizam a necessidade da fé e das obras (De Civitate Dei 21.21, 26; Defide et operibus 15; Enchiridion 18; De octo Dulcitii quaestionibus 1) ou das obras de misericórdia (De Civitate Dei 21.22, 27; Enchiridion 19-20).

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PerspectivaDescriçãoReferência Bíblica
Visão de OrígenesTodos os seres, incluindo o diabo e seus anjos, eventualmente seriam salvos após passarem por punições purgatórias.De Civitate Dei 21.17 e 21.23
Salvação para Todos os HumanosTodos os seres humanos, mas não os demônios, experimentarão a salvação após passarem por punições de durações variadas.De Civitate Dei 21.17 e 21.23
Intercessão dos SantosTodos os seres humanos, excluindo os demônios, seriam salvos por meio da intercessão dos santos no Dia do Juízo, poupando-os de qualquer punição no inferno.De Civitate Dei 21.18 e 21.24; Enchiridion 29 (112)
Participação nos SacramentosTodos que participam dos sacramentos cristãos, incluindo os hereges, alcançarão a salvação.De Civitate Dei 21.19 e 21.25
Eucaristia CatólicaTodos que participam da Eucaristia Católica serão salvos.De Civitate Dei 21.20 e 21.25
Fé e Obras CatólicasAqueles que permanecem na Igreja Católica (mantendo a fé católica) serão salvos, embora aqueles que viveram de maneira ímpia passem por punições temporárias.De Civitate Dei 21.21 e 21.26; Defide et operibus 15 (24-26); Enchiridion 18 (67-69); De octo Dulcitii quaestionibus 1
Obras de MisericórdiaAqueles que realizam obras de misericórdia serão salvos.De Civitate Dei 21.22 e 21.27; Enchiridion 19-20 (70-77)

Agostinho, em resposta, apresenta sua própria compreensão da salvação, baseada na graça divina e na predestinação. Ele reconhece a importância da misericórdia, mas a equilibra com a justiça e a soberania divinas. Sua análise das “misericordi nostri” revela a diversidade de pensamentos na Igreja primitiva e contribui para o debate sobre a salvação que perdura até hoje.

BIBLIOGRAFIA

  • Agostinho. A Cidade de Deus. De Civitate Dei XXI.17-25
  • Richard Bauckham, O Destino dos Mortos (1998), pp. 150-151.

Três vias

A teologia cristã desenvolveu diferentes abordagens para descrever a natureza de Deus, reconhecendo a transcendência divina e as limitações da linguagem humana. Três vias clássicas se destacam: a via eminentiae, a via negativa e a via causalitatis.

A via eminentiae (via da eminência) atribui a Deus qualidades em grau superlativo, baseando-se na perfeição divina. Deus é descrito como onisciente (Sl 139:1-4), onipotente (Jr 32:17) e sumamente bom (Sl 100:5). Essa via enfatiza os atributos divinos de forma positiva, afirmando a grandeza e majestade de Deus.

A via negativa (via da negação) busca definir Deus pelo que Ele não é, negando limitações e imperfeições humanas. Deus é descrito como incorruptível (1 Tm 1:17), imutável (Ml 3:6) e infinito (1 Rs 8:27). Essa via reconhece a incapacidade humana de compreender plenamente a Deus, ressaltando sua alteridade e mistério.

A via causalitatis (via da causalidade) relaciona os efeitos observados no mundo à sua causa primeira, Deus. A criação (Gn 1:1), a providência divina (Mt 6:26) e a redenção (Ef 1:7) são vistas como manifestações do poder e do amor de Deus. Essa via busca compreender Deus através de suas ações no mundo.

Embora distintas, essas três vias se complementam, oferecendo diferentes perspectivas sobre a natureza de Deus. A via eminentiae celebra a glória divina, a via negativa preserva o mistério transcendente, e a via causalitatis reconhece a ação de Deus na história.

VEJA TAMBÉM

Teologia dos atributos

Midot

Transjordânia

A Transjordânia, região montanhosa a leste do rio Jordão, nos atuais países da Jordânia e parte da Síria.

A região caracteriza-se por vales férteis e nascentes de importantes afluentes como Zered, Arnon, Jaboque e Jarmuque (Nm 21:12; Dt 2:13, 36; 3:16). No período do Êxodo, essa área abrigava diversos reinos, incluindo Edom, Moabe, Amom, Gileade e Basã (Nm 21:13; Dt 2:24).

A Transjordânia desempenhou papel crucial na história de Israel. Foi palco de conflitos e alianças entre os israelitas e os povos da região. Moisés conquistou parte da Transjordânia dos amorreus (Nm 21:21-35), e as tribos de Rúben, Gade e meia tribo de Manassés se estabeleceram ali (Nm 32:1-5).

A região também foi lar de importantes personagens bíblicos, como Jefté (Jz 11:1) e Elias (1 Rs 17:1).