Valentinianismo

O Valentinianismo, um sistema gnóstico do cristianismo primitivo, floresceu principalmente no século II d.C., derivado dos ensinamentos de Valentino de Roma. Embora nunca tenha constituído uma igreja separada no sentido estrito, seus adeptos formavam escolas de pensamento que ofereciam uma interpretação esotérica e mais completa da doutrina cristã, reivindicando uma linhagem de ensino que remontava ao apóstolo Paulo através de mestres como Teudas.

A cosmologia valentiniana era complexa, postulando um reino espiritual superior, o Pleroma, habitado por éons divinos. A criação do mundo material imperfeito era vista como resultado de uma falha ou paixão de Sofia, um dos éons. Um demiurgo ignorante, embora não inerentemente mau, era considerado o criador deste mundo inferior, inconsciente do Pleroma superior. A humanidade, nessa visão, continha uma centelha divina (pneuma) aprisionada na matéria (hyle) e na alma psíquica (psychē). A salvação, ou libertação dessa centelha, era alcançada através da gnose, um conhecimento intuitivo e espiritual das realidades divinas, trazido por Cristo, um ser superior do Pleroma.

As práticas valentinianas incluíam rituais de iniciação e uma compreensão distinta dos sacramentos cristãos, com alguns textos sugerindo diferentes tipos de batismo e eucaristia para os iniciados. A ética valentiniana variava, com alguns grupos tendendo ao ascetismo como forma de negar a matéria, enquanto outros supostamente adotavam uma postura mais libertina, argumentando que o espiritual estava imune à corrupção material.

O Valentinianismo foi combatido pela patrística, como Irineu de Lyon em sua obra “Contra as Heresias”, que viam suas doutrinas como desvios perigosos do cristianismo ortodoxo. Apesar da controvérsia e da eventual supressão, o Valentinianismo exerceu influência significativa no desenvolvimento do pensamento cristão primitivo. Seus textos, descobertos em Nag Hammadi, continuam a fornecer informações sobre a diversidade das crenças religiosas nos primeiros séculos da era cristã.

Marcionismo

O Marcionismo, doutrina cristã dualista fundada por Marcião de Sinope por volta de meados do século II, propunha uma distinção radical entre o Deus do Antigo Testamento, considerado um criador imperfeito e zeloso, e o Deus do Novo Testamento, um ser de puro amor e graça revelado em Jesus Cristo.

Marcião rejeitava todo o Antigo Testamento e grande parte do Novo, aceitando apenas uma versão editada do Evangelho de Lucas e dez epístolas paulinas, por ele purgadas de referências ao judaísmo. Sua teologia enfatizava a salvação pela fé em Cristo, contrastando com o legalismo judaico. A rápida disseminação do Marcionismo levou a Igreja primitiva a definir seu cânon bíblico e a formular o Credo Niceno para refutar suas ideias, consideradas heréticas. Apesar da forte oposição e de ter sido eventualmente extinto como movimento religioso organizado, o Marcionismo forçou a Igreja a confrontar questões cruciais sobre a autoridade das Escrituras, a natureza de Deus e a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, deixando um legado importante no desenvolvimento do pensamento cristão.

Bardesanitas

Os bardesanitas constituíram uma seita que floresceu do século II ao XII. Bardesanes (c. 154 – c. 222 d.C.) foi um intelectual sírio, nascido em Edessa. Educado na corte real de Abgar VIII, converteu-se ao cristianismo, embora sua teologia tenha sido considerada heterodoxa por autores posteriores como Eusébio e Hipólito.

Bardesanes escreveu extensivamente em siríaco sobre uma variedade de temas, incluindo teologia, filosofia, cosmologia e astrologia. Fragmentos de seus escritos e relatos de seus ensinamentos sugerem um sistema complexo que incorporava elementos do pensamento cristão, do gnosticismo e da filosofia helenística. Debatia com diversas correntes de pensamento da época e atraiu um número significativo de seguidores, conhecidos como bardesanistas, desdobrando em vários grupos.

Harmônio, filho de Bardesanes e educado em Atenas, integrou à astrologia caldeia paterna conceitos gregos sobre a alma, o nascimento e a dissolução dos corpos, aventando uma forma de metempsicose. Marino, um adepto de Bardesanes e dualista previamente confrontado no “Diálogo sobre Adamâncio”, propagou a doutrina de um deus primordial dual, postulando que o diabo não teria sido criado por Deus. A seita adotava uma visão docetista, negando o nascimento de Cristo de uma mulher, e a configuração final do gnosticismo de Bardesanes exerceu influência sobre o gnosticismo em geral. Segundo Efrém, os bardesanitas de sua época nutriam ideias pueris e obscenas, venerando o Sol e a Lua como entidades masculina e feminina, com uma concepção celestial que denotava admiração pelos astros. Rábula de Edessa (431-432) encontrou a seita difundida. Sua existência no século VII foi confirmada por Tiago de Edessa e por Jorge, bispo dos árabes, no mesmo século. No século X, o historiador Almaçudi também atestou sua presença, assim como Xaxrastani no século XII. Este último descreveu os seguidores de Daisan (uma ramificação) como crentes em dois princípios, luz e escuridão. A luz seria a causa do bem, agindo deliberadamente e com livre arbítrio, enquanto a escuridão seria a origem do mal, operando através de forças naturais e da necessidade. A luz era concebida como viva, dotada de conhecimento, poder, percepção e entendimento, sendo a fonte do movimento e da vida. Em contraste, a escuridão era tida como morta, ignorante, frágil, rígida e inanimada, sem atividade ou discernimento, defendendo que o mal neles residia como resultado de sua natureza, fora de seu controle.

Cerdo

Cerdo (em grego: Κέρδων), um gnóstico sírio considerado herege pela Igreja primitiva por volta de 138 d.C., com doutrinas similares ao marcionismo.

Segundo a tradição, iniciou sua trajetória como seguidor de Simão Mago, a exemplo de Basilides e Saturnino, ensinando aproximadamente na mesma época que Valentino e Marcião. Segundo Ireneu, Cerdo foi contemporâneo do bispo romano Higino, residindo em Roma como um membro proeminente da Igreja até ser expulso.

Sua doutrina centralizava-se na existência de dois deuses distintos: um que exigia obediência, identificado como o Deus do Antigo Testamento e criador do mundo, e outro, superior, bom e misericordioso, conhecido apenas através de seu filho, Jesus. Alinhado com gnósticos posteriores, Cerdo era docetista, negando a ressurreição corporal dos mortos.

Ireneu relata que Cerdo não pretendia fundar uma seita separada da Igreja, comparecendo repetidamente para confessar publicamente seus erros, mas persistindo em ensinar sua doutrina secretamente, sendo eventualmente condenado e afastado da comunhão dos irmãos. Alguns interpretam seu afastamento como voluntário, enquanto outros entendem que foi uma exclusão. A doutrina atribuída a Cerdo por Ireneu contrastava o Deus justo do Antigo Testamento com o Pai bom de Jesus Cristo, sendo o primeiro conhecido e o segundo desconhecido.

Pseudo-Tertuliano, possivelmente ecoando o Syntagma de Hipólito, descreve Cerdo como introdutor de dois princípios primordiais e dois deuses, um bom e outro mau, sendo o último o criador do mundo. Uma diferença notável é que, para Ireneu, ao deus bom se opunha um deus justo, enquanto para Hipólito, um deus mau. Na posterior Refutação de Hipólito, Cerdo é dito ter ensinado três princípios do universo: o bom (agathon), o justo (dikaion) e a matéria (hylen).

Pseudo-Tertuliano acrescenta que Cerdo rejeitava a lei e os profetas, renunciando ao Criador. Afirmava que Cristo era filho da divindade superior e boa, que não veio em substância carnal, mas apenas em aparência, e que não morreu nem nasceu verdadeiramente de uma virgem. Adicionalmente, reconhecia apenas a ressurreição da alma, negando a do corpo. Pseudo-Tertuliano, sem o apoio de outras autoridades, alega que Cerdo aceitava apenas o Evangelho de Lucas, em uma forma mutilada, rejeitando algumas epístolas de Paulo e partes de outras, além de descartar completamente os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse. Há forte indicação de que Pseudo-Tertuliano atribuiu a Cerdo ideias que, em sua fonte, eram referentes a Marcião.

Donatismo

O Donatismo, cisma que emergiu no norte da África um ano após a conversão de Constantino, renovou as questões levantadas anteriormente pelo Novacianismo. Liderado por Donato, bispo de Cartago, o movimento defendia que bispos que haviam vacilado durante as perseguições não poderiam permanecer em suas funções, invalidando os batismos e sustentando que a eficácia dos sacramentos dependia da santidade do ministro. Essa postura levou ao estabelecimento de bispos rivais em diversas cidades e fomentou movimentos radicais entre os camponeses africanos.

Em 314, um concílio de bispos reunido em Arles condenou os donatistas e ordenou seu retorno à igreja, sob pena de perderem direitos civis e propriedades a partir de 316. Contudo, um breve período de tolerância foi concedido cinco anos depois, em decorrência do Edito de Milão.

Dentro do Donatismo, surgiram diversas seitas. Os Rogatistas, pacifistas, rejeitavam os excessos dos circumceliões e dos próprios donatistas. Os Claudianistas foram reconciliados com a Igreja por Primiano de Cartago, enquanto os Urbanistas representavam outra facção. Ticônio, um pensador influente expulso pelos donatistas, rejeitava o rebatismo. Houve também os seguidores de Maximiano e os controversos circumceliões, grupos extremistas que vagavam pelo campo, vivendo dos camponeses que buscavam doutrinar. Consideravam o martírio a maior virtude cristã e defendiam a condenação da propriedade e da escravidão, pregando o amor livre, o cancelamento de dívidas e a libertação de escravos. As pouco conhecidas igrejas apostólicas buscavam emular os apóstolos. Na Mauritânia e Numídia, os grupos dissidentes eram tão numerosos que os donatistas não conseguiam nomeá-los a todos.

Apesar da condenação em concílios e da oposição de figuras influentes como Agostinho de Hipona, o movimento persistiu por séculos, tornando-se uma força religiosa e social dominante em algumas regiões. A controvérsia teológica e eclesiológica levantada pelos donatistas impactou o desenvolvimento da doutrina cristã sobre a Igreja, os sacramentos e a autoridade clerical. A radicalização de alguns grupos donatistas, como os circumceliões, também gerou instabilidade social e violência.

As últimas referências históricas concretas aos donatistas são escassas, mas indicam que o movimento sobreviveu até o século VII, após a conquista islâmica do norte da África. Alguns estudiosos sugerem que comunidades donatistas isoladas podem ter persistido por mais tempo, mas faltam evidências documentais para confirmar essa hipótese.