Galardão

Galardão é o reconhecimento ou a recompensa por serviços, tendo um valor muito elevado.

Na Bíblia Almeida, o termo traduz o hebraico sakar e o grego misthós, salário, recompensa. O termo galardão veio ao português do gótico wiþralaun, via latim medieval guiderdonum.

No Novo Testamento, diversas palavras gregas são traduzidas como “recompensa” ou “galardão”, transmitindo nuances para a teologia.

A palavra mais comum e teologicamente significativa para “recompensa” ou “galardão” é Μισθός (Misthos). O seu significado mais comum é o de “salário”, “pagamento” ou “recompensa” ganho por um trabalho concluído ou serviços prestados, como se vê, por exemplo, em Mateus 20:8 ou Lucas 10:7. No entanto, em contextos teológicos, o seu significado frequentemente expande-se para além de uma ideia puramente transacional. Este termo aparece em passagens como Mateus 5:12, 6:1-2, 10:41-42, 1 Coríntios 3:8, 14 e Apocalipse 22:12. Embora mantenha o sentido de uma resposta adequada a uma ação, no contexto da economia de Deus, misthos não é um pagamento que Deus é obrigado a fazer. Em vez disso, descreve o resultado certo e gracioso que Deus prometeu àqueles que vivem numa relação fiel com Ele. É o “salário” apropriado para a fidelidade, concedido pela graça.

Outros conceitos importantes são os substantivos Ἀνταπόδοσις (Antapodosis) e Ἀνταπόδομα (Antapodoma), derivados do verbo antapodidōmi (“retribuir”). Estes termos carregam um sentido mais forte de “retribuição”, “repagamento” ou “recompensa” no sentido de reciprocidade. Antapodosis é usado em Colossenses 3:24, onde os crentes “receberão a recompensa da herança”. Este termo enfatiza a ideia de um reembolso justo e completo, seja positivo ou negativo, combinando os conceitos de dom gracioso (“herança”) e recompensa justa.

Uma metáfora recorrente para a recompensa é a palavra Στέφανος (Stephanos), que significa “coroa” ou “grinalda”. No mundo greco-romano, um stephanos era uma coroa de folhas ou flores concedida a vencedores de jogos atléticos, comandantes militares ou convidados de honra num banquete. Não se trata de uma coroa real. No texto bíblico, denota a recompensa eterna em passagens como 1 Coríntios 9:25-26 (a coroa incorruptível); 2 Timóteo 4:8 (a coroa da justiça); Tiago 1:12 e Apocalipse 2:10 (a coroa da vida); e 1 Pedro 5:4 (a coroa da glória). O stephanos simboliza, portanto, a vitória, a honra, a alegria e a festividade, representando a vitória final do crente através de Cristo e a honra de participar na Sua glória.

Para além destes, outros conceitos são significativos. Κλῆρος (Klēros), que significa “sorte”, “porção” ou “herança”, não significa diretamente “recompensa”, mas está intrinsicamente ligado a ela. A recompensa do crente é frequentemente descrita como receber uma herança (κληρονομία, klēronomia), que é a porção que lhe foi destinada no Reino de Deus, como detalhado em passagens como Efésios 1:14, Colossenses 3:24 e 1 Pedro 1:4.

Nem todos esses termos aparecem em referência à salvação, mas em contexto de serviço e ética na vida cristã. Por outro lado, em contextos soteriológicos, os termos “recompensa” (μισθός) e “coroa” (στέφανος) no Novo Testamento são apresentados como símbolos da herança dada a todos os crentes, em vez de indicadores de vários níveis de recompensa com base no mérito individual.

Doutrina das diferenças de galardão

A doutrina das diferenças de galardão, também conhecida como gradus gloriae, teologia dos galardões ou teologia das coroas é uma perspectiva teológica que sustenta a existência de recompensas celestiais diferenciadas para os crentes, baseadas em suas obras e fidelidade na vida terrena. Adeptos dessa doutrina sustentam que embora todos os crentes compartilhem igualmente da salvação, suas experiências no estado final variariam de acordo com o nível de obediência, sofrimento, fidelidade e serviço a Deus durante a vida pós-conversão.

Os diversos termos gregos traduzidos como galardão, recompensa ou salário acima não transmitem conceitos transacionais algo em troca de ações ou fidelidade, referente à soteriologia. Antes, operam como metáforas para a salvação. A salvação, em contextos bíblicos, muitas vezes requer reificação – um tratamento como algo concreto – para transmitir sua profundidade e abrangência.

Textos-provas

Os textos mais frequentemente citados nesta discussão incluem passagens como Mateus 25, Apocalipse 22 e 1 Coríntios 3. Em Mateus 25, a recompensa decorre da capacidade de enxergar Jesus Cristo no necessitado, enquanto em Apocalipse 21 a recompensa se manifesta como a perseverança dos santos em meio às provações, culminando no encontro final com o Senhor.

A Parábola dos Talentos (Mateus 25:14-30) ressalta a responsabilidade de usar os dons concedidos por Deus. O servo que enterrou seu talento exemplifica aqueles que negligenciam o chamado divino. A ênfase aqui não está em ganhar salvação ou recompensas maiores, mas em ser fiel e diligente com os recursos recebidos, sem importar a quantidade deles.

O Apocalipse, muitas vezes mal compreendido, é uma obra de encorajamento para a Igreja em meio a dificuldades. Não se limita às perseguições externas, mas aborda também desafios internos (como atestados nas cartas às sete igrejas). O argumento central do livro é que a fidelidade – traduzida do grego πίστις (pistis), que também significa “fé” – será vindicada no encontro com Cristo. Em Apocalipse 22:12, a “recompensa” não é sobre ganhar salvação ou galardões diferentes, mas sobre receber o que é esperado pela fidelidade a Deus nas situações descritas ao longo do livro. É um encorajamento para os crentes viverem sua fé ativamente. A graça capacita os crentes a fazer boas obras, não como um meio de ganhar o favor de Deus, mas como uma resposta à graça prontamente recebida.

Em 1 Coríntios 3:10-15, Paulo descreve os crentes como construtores sobre o fundamento que é Cristo. Suas obras são testadas pelo fogo no Dia do Juízo. O fogo revela a qualidade das obras, mas mesmo aqueles cujas obras são consumidas ainda serão salvos. Portanto, 1 Coríntios 3:13-15 não trata de determinar quem será salvo, mas da qualidade das obras realizadas sobre o fundamento de Cristo. As obras que resistem ao “fogo” simbolizam aquelas enraizadas na fé genuína e ao amor ao próximo, enquanto as que se queimam refletem ações superficiais e sem propósito divino.

Outras passagens também são empregadas em um método de textos-provas para argumentar tal teologia.

A parábola das minas em Lucas 19:11-27 mostra um nobre que recompensa seus servos proporcionalmente à administração das minas confiadas a eles. Para alguns, isso reforça a ideia de recompensas diferenciadas. A análise literária permite concluir que a narrativa seja sobre um chamado à fidelidade e à responsabilidade, sem implicar necessariamente diferenças eternas entre os crentes.

Nos diversos versos sobre coroa (1 Coríntios 9:24-26; Tiago 1:12; 2 Timóteo 4:8; 1 Pedro 5:4) as “coroas” são vistas por muitos como prêmios espirituais para perseverança e fé. Exegetas sugerem que essas coroas simbolizam a herança comum de todos os crentes, em vez de designar recompensas distintas baseadas em mérito.

Doutrina das coroas

Dentre os adeptos da teoria dos galardões diferenciados, há listas de ou coroas. O número de cinco ou sete coroas representariam o escopo completo das recompensas para os fiéis.

Mais comumente, porém, o conceito é referido como as Cinco Coroas. As cinco coroas são:

  1. A Coroa Incorruptível (ou Coroa do Vencedor): Mencionada em 1 Coríntios 9:25, esta coroa seria para aqueles que vivem uma vida disciplinada e autocontrolada, priorizando a vontade de Deus sobre os desejos mundanos. Simboliza a recompensa eterna pela resistência espiritual.
  2. A Coroa do Regozijo (ou Coroa do Ganhador de Almas): Encontrada em 1 Tessalonicenses 2:19, esta coroa seria para aqueles que ativamente compartilham o Evangelho e levam outros a Cristo. Representa a alegria de ver pessoas chegarem à fé e a importância eterna do evangelismo.
  3. A Coroa da Justiça: Referenciada em 2 Timóteo 4:8, esta coroa seria para aqueles que viveram uma vida justa e aguardam ansiosamente a segunda vinda de Cristo. É uma recompensa pela fidelidade e pelo anseio por Seu retorno.
  4. A Coroa da Vida: Mencionada em Tiago 1:12 e Apocalipse 2:10, esta coroa seria prometida àqueles que perseveram através de provações, tentações e perseguições, até mesmo ao ponto de martírio. Significa a vitória da fé sobre o sofrimento.
  5. A Coroa da Glória: Encontrada em 1 Pedro 5:4, esta coroa seria para pastores, líderes e professores fiéis dentro da igreja que servem ao povo de Deus com um coração disposto. É uma recompensa pela dedicação na liderança espiritual.

Embora algumas listas se refiram a um total de sete coroas, elas frequentemente incluem coroas que são mais simbólicas ou não são explicitamente declaradas como recompensas para os crentes da mesma forma que as cinco listadas acima. Exemplos disso podem incluir:

  • A Coroa de Espinhos: A coroa de espinhos de Jesus, embora não seja uma recompensa para os crentes, é um símbolo de Seu sofrimento e sacrifício.
  • As Coroas dos Anciãos: Em Apocalipse 4:4, os 24 anciãos ao redor do trono de Deus usam coroas, que simbolizam sua autoridade e papel na adoração.
  • A Coroa da Sabedoria: Em Provérbios 4:9, a sabedoria é personificada e se diz que ela confere uma “coroa de beleza” àqueles que a buscam. Esta é uma coroa simbólica que representa a honra e o favor que vêm da busca pela sabedoria.

O conceito dessas coroas como recompensas é distinto da salvação, que é um dom gratuito da graça de Deus. Em vez disso, essas coroas são vistas como honras e recompensas adicionais dadas aos crentes no “Tribunal de Cristo” (2 Coríntios 5:10) por seu serviço fiel e obediência.

Em contrapartida, as perspectivas tradicionais consideram as coroas mencionadas na Escritura como figuras simbólicas, representando o relacionamento entre o crente e Cristo em diversas funções, em vez de recompensas literais baseadas em desempenho. É a perspectiva de N. T. Wright para quem a linguagem de “recompensa” no Novo Testamento seria uma forma de descrever a nova qualidade de vida na nova criação para aqueles que perseveraram.

Diferentes Perspectivas

  • Recompensa uniforme – Perspectiva majoritária do cristianismo histórico, resumida por teólogos como Craig L. Blomberg, argumenta que todos os crentes recebem a mesma herança celestial, enfatizando a graça de Deus e a união em Cristo.
  • Recompensas baseadas em mérito – Defensores desta perspectiva acreditam que obras e serviço fiel resultam em galardões proporcionais no céu. Esta visão é defendida por alguns teólogos como Wayne Grudem, Thomas R. Schreiner e Robert N. Wilkin.

História da Doutrina

Durante a patrística, as discussões sobre recompensas eram frequentemente vinculadas à salvação comunitária e ao corpo coletivo de Cristo. A ênfase estava na unidade e na herança compartilhada, em vez do mérito individual.

Durante a Idade Média, refletindo um contexto social hierarquizado e o sistema penal-sacramental, emergiu uma doutrina de méritos. Assim, as boas obras aparecem como parte integrante da recompensa celestial. A Divina Commedia de Dante reflete essa perspectiva.

A doutrina católica romana sobre galardões diferenciados insere-se em uma estrutura teológica que integra fé e obras como aspectos inseparáveis da vida cristã e da salvação. Para a Igreja Católica, a salvação é um dom gratuito de Deus, recebido pela fé, mas que exige uma resposta concreta na forma de boas obras. Essas obras não apenas expressam a fé viva do crente, mas também desempenham um papel na manifestação da plenitude da recompensa celeste.

A teologia católica sustenta que a qualidade das obras realizadas ao longo da vida pode influenciar a recompensa eterna, em uma abordagem que combina o dom da graça divina com a cooperação humana. Esse entendimento está fundamentado na doutrina do mérito, que distingue dois tipos principais:

  • Mérito Congruente: refere-se a uma espécie de “meio-mérito”, em que Deus, por sua bondade, concede recompensas que excedem o valor estrito das obras humanas. Trata-se de um ato de condescendência divina, no qual Ele reconhece as ações do fiel de maneira generosa, sem que estas, por si só, sejam dignas de recompensa plena.
  • Mérito Condigno: denota um “verdadeiro mérito”, pelo qual as obras do crente, realizadas em estado de graça, atendem genuinamente às exigências divinas. Esse mérito é possível porque as ações humanas são realizadas com o auxílio da graça de Deus, permitindo que respondam plenamente à vontade divina.

Essa compreensão distingue a teologia católica de tradições protestantes que frequentemente rejeitam a ideia de mérito, enfatizando exclusivamente a graça como base para a salvação e a recompensa eterna. Para os católicos, entretanto, a recompensa proporcional às boas obras não contradiz a gratuidade da salvação, mas reflete o dinamismo da graça divina que transforma e eleva a cooperação humana. A recompensa, nesse sentido, não é uma compensação mecanicista, mas um reconhecimento do fruto da graça atuante no fiel.

Esse sistema de mérito também está profundamente enraizado na visão sacramental e comunitária da Igreja Católica. A graça é mediada pelos sacramentos e vivida no contexto de uma comunidade de fé, na qual as boas obras são entendidas como expressões concretas de amor a Deus e ao próximo. A teologia católica, portanto, interpreta os galardões celestes como parte de um horizonte escatológico que valoriza tanto a ação individual quanto a solidariedade no Corpo de Cristo.

O Concílio de Florença (1439) declarou: “as almas dos justos aperfeiçoados contemplam claramente o Deus trino e único como Ele é, mas, de acordo com a diferença de méritos, alguns mais perfeitamente do que outros”. (Laetentur Caeli).

Reformadores como Martinho Lutero, Menno Simons, João Calvino rejeitaram a ideia de recompensas baseadas em mérito, enfatizando a justificação pela fé e a salvação como um dom da graça. Contudo, Melanchton, na Apologia da Confissão de Augusburgo, V, 245, arguiu que as boas obras após a justificação pela fé acarretaria em um gradus praemiorum (gradação dos prêmios), doutrina geralmente passou sem elaboração significativa no luteranismo, sendo tratada como ato de amor do Pai aos filhos já adotados que um resultado mecânico das obras. Desde então, uma corrente minoritária na teologia protestante considera que haveria recompensas distintas na glorificação, sem implicar, contudo, maior ou menor bem-aventurança.

No protestantismo em geral, tal distinção teológica quanto acerca do galardão permanece ausente ou rejeitada. Os quakers, com sua ênfase na “luz interior” e na experiência pessoal de Deus, veem a vida cristã como um reflexo dos ensinamentos de Cristo, considerando o galardão um dom da graça e não algo que possa ser adquirido por méritos terrenos. De modo semelhante, os anabatistas privilegiam o discipulado e a vivência comunitária como expressões de fé e obediência a Deus, evitando enquadrar boas obras como instrumentos para a obtenção de recompensas celestiais.

Para os luteranos, boas obras são consequências da fé e não fundamentos de mérito, quer para salvação ou para recompensas diferenciadas. Tal visão reforça a centralidade da graça e da misericórdia divina, promovendo uma igualdade espiritual que evita qualquer hierarquia baseada em realizações humanas.

Entre os reformados, o Catecismo de Heidelberg ensina que as recompensas não são merecidas, mas são inteiramente da graça, visto que qualquer recompensa dada por Deus é resultado de Sua graça e não do esforço humano (P&R 63). Em termos similares, a Confissão Belga leciona que qualquer recompensa é através da graça de Deus e não baseada no mérito, o que leva a uma rejeição à ideia de recompensas diferenciadas baseadas em obras (Art. 24).

Os metodistas e wesleyanos enfatizam a salvação pela graça e a transformação espiritual como elementos centrais da fé cristã. Para esses grupos, a doutrina de diferenciação dos galardões é geralmente ignorada, visto suas compreensões da comunhão eterna como uma herança compartilhada por todos os crentes em Cristo. De maneira similar, os pentecostais clássicos que adotam uma soteriologia transformativa veem as boas obras como evidências de uma fé viva revestida de poder do Espírito Santo e não como instrumentos para acumular méritos divinos.

As teologias contemporâneas de galardão diferenciado cristalizaram-se em um ambiente sociocultural norte-americano, onde o capitalismo e o individualismo têm moldado interpretações teológicas. A noção de “salvação pela graça, mas recompensas pelas obras” encontra ressonância em um ethos meritocrático que atribui sucesso à iniciativa pessoal. A primeira forma cristalizada dessa doutrina aparece no livro de teologia leiga de Evans (1912) e disseminou-se em círculos dispensacionalistas. Hoje, essa perspectiva está alinhada com o neoliberalismo, que celebra a autodeterminação e transforma a fé em uma estrutura potencialmente transacional. Nesse contexto, boas obras podem ser percebidas como investimentos para retornos futuros, deslocando o foco da motivação altruísta para objetivos mais autointeressados.

A popularidade da doutrina dos galardões diferenciados em sermões e literatura cristã norteamericana reflete essa influência cultural. Muitas mensagens enfatizam a responsabilidade individual e a ideia de que ações terrenas moldam a posição eterna, reforçando valores meritocráticos e individualistas.

No século XX, o Dallas Theological Seminary tornou-se um centro de discussão sobre a teologia dos galardões, especialmente no debate da Graça Livre e Salvação pelo Senhorio. Proponentes como Lewis Sperry Chafer e Charles Ryrie defenderam a distinção entre salvação pela graça e recompensas baseadas em obras. Nos anos 1980 e 1990 essa visão foi apregoada por círculos novo calvinistas, adeptos da teologia da prosperidade e algumas vertentes do dispensacionalismo. Essa visão foi contestada por teólogos que temiam que ela pudesse incentivar um cristianismo motivado por interesses egoístas.

BIBLIOGRAFIA
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Taylor, T. Jeff. More Than Heaven: A Biblical Theological Argument for a Federal View of Glorification. Eugene, OR: Wipf & Stock, 2022.

Adultério

Adultério em seu sentido mais simples seria violar o compromisso matrimonial envolvendo-se com outra pessoa. Em sentido amplo, envolve descumprir o pacto matrimonal estabelecido pelo casal ou pela forma sancionada pela sociedade local.

O adultério é proibido nos Dez Mandamentos (Êxodo 20:12), que diz: “Não cometerás adultério”. Em Gênesis 20:9 o adultério é chamado de “o grande pecado”.

Em boa parte das sociedades do Antigo Oriente Próximo e no judaísmo rabínico é tradicionalmente interpretado adultério como relacionamento sexual entre um homem e uma mulher casada. No entanto, no Novo Testamento há uma interpretação expansiva para o adultério, tanto para os homens quanto para as mulheres, quando Jesus condena os homens por cobiçar outra mulher (Mt 5:32, 19:9).

Adultério em contextos bíblicos e do Antigo Mediterrâneo

No direito bílico e em todo o Mediterrâneo antigo, o adultério era definido juridicamente pelo estado civil da mulher, e não pelo do homem. Um ato sexual constituía adultério somente quando a mulher era casada ou prometida a outro homem. Um homem casado que mantivesse relações sexuais com uma mulher solteira cometia fornicação, ou stuprum no direito romano, e não adultério. Essa assimetria derivava da concepção jurídica do casamento como instituição econômica, na qual a esposa era considerada propriedade sexual exclusiva do marido.

No período bíblico, as fontes primárias do texto hebraico confirmam essa definição. O verbo hebraico naʾaph (נָאַף, “cometer adultério”) e seus derivados são usados de forma consistente para designar um homem que mantém relações com a esposa ou noiva de outro homem. Os textos legais jamais definem o adultério pelo estado civil do homem.

Levítico 20:10 declara: “Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo, certamente morrerão o adúltero e a adúltera”. A expressão “com a mulher de outro homem” integra a própria definição jurídica do delito. O crime era entendido como uma ofensa contra o marido da mulher.

Deuteronômio 22:22 afirma: “Se um homem for encontrado deitado com uma mulher casada, ambos morrerão”. Mais uma vez, o estado civil da mulher determina a natureza do crime.

Deuteronômio 22:23–24 estabelece que, se uma jovem virgem prometida em casamento consentisse em manter relações com outro homem dentro da cidade, ambos deveriam ser apedrejados: “a jovem, porque não gritou na cidade, e o homem, porque violou a mulher do seu próximo”. Uma mulher prometida em casamento já era juridicamente tratada como esposa.

Êxodo 22:16–17 dispõe que, se um homem seduzisse uma virgem solteira, deveria pagar o preço da noiva e casar-se com ela. Nenhuma pena de morte era aplicada, porque nenhum adultério havia ocorrido.

O ritual da sotá, descrito em Números 5:11–31, confirma a mesma assimetria jurídica. O texto prevê um julgamento por ordálio para uma esposa suspeita de infidelidade. Não existe ritual correspondente para um marido suspeito.

A Jewish Virtual Library observa: “A relação extraconjugal de um homem casado não constitui, por si mesma, um crime no direito bíblico nem no direito judaico posterior. Essa distinção deriva do aspecto econômico do casamento israelita: a esposa era posse do marido, e o adultério constituía uma violação do direito exclusivo do marido sobre ela; a esposa, como posse do marido, não possuía direito equivalente sobre ele”.

Abasili (2021) identifica quatro elementos constitutivos do adultério bíblico. O primeiro deles afirma que “a mulher envolvida deve ser casada ou ao menos prometida a um homem. Na medida em que a mulher ‘pertence’ a outro homem, qualquer relação sexual voluntária com um terceiro constitui adultério”. A proibição do Decálogo, loʾ tinʾaf (לֹא תִנְאָף, “não adulterarás”), em Êxodo 20:14, apresenta a única formulação igualitária. As leis casuísticas revelam, contudo, uma aplicação assimétrica entre homens e mulheres.

As leis cuneiformes do antigo Oriente Próximo preservam o mesmo princípio jurídico. O Código de Hamurábi, datado aproximadamente de 1754 a.C., fornece exemplos claros. A Lei 129 estabelece: “Se uma mulher casada (aššatum) for surpreendida tendo relações com outro homem, ambos serão amarrados e lançados na água”. Os dois eram condenados à morte.

A Lei 130 dispõe que, se um homem violasse “a virgem prometida a outro homem”, ele seria executado. A mulher seria poupada se fosse considerada inocente. Quando o homem violentava uma virgem solteira não prometida, pagava indenização e devia casar-se com ela, conforme as Leis 130 e 131.

Essas disposições demonstram que, na jurisprudência babilônica, a infração era concebida como uma ofensa contra o proprietário masculino da sexualidade da mulher, fosse marido ou noivo. Relações extraconjugais mantidas por um marido com uma mulher sem vínculos matrimoniais não eram classificadas como adultério.

O mundo greco-romano preservou a mesma distinção jurídica por meio da terminologia técnica adulterium e stuprum. O jurista Papiniano, no Digesto 48.5.6.1, escreveu: “o adultério é cometido com uma mulher casada; o stuprum é cometido com uma viúva, uma virgem ou um rapaz”.

Modestino, no Digesto 48.5.35.1, afirma: “propriamente falando, o adultério é cometido com uma mulher casada, sendo o nome derivado da concepção de filhos por outro homem; o stuprum, porém, é cometido contra uma virgem ou viúva”.

A Lex Iulia de adulteriis coercendis, promulgada em 18 a.C., criminalizou relações extraconjugais somente quando envolviam mulheres casadas ou mulheres livres consideradas respeitáveis, as matresfamilias. A esposa não possuía legitimidade jurídica para agir contra as infidelidades do marido. A lei negava expressamente a ela o direito de apresentar acusação.

Jacobs (2015), conclui: “De Rômulo a Augusto, o adultério ocorreu e foi considerado a relação extraconjugal praticada por ou com mulheres casadas. Segundo o direito desse período, o adultério da esposa infiel era sempre um crime, enquanto o do marido somente o era quando cometido com uma mulher casada”. A infidelidade masculina era punida apenas quando violava os direitos matrimoniais de outro homem. Tal infedelidade jamais era tratada como violação dos direitos da própria esposa.

BIBLIOGRAFIA

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