Softwares para estudos bíblicos

Softwares para estudos bíblicos proporcionam ferramentas para pesquisadores explorarem as Escrituras e outras fontes. Esses programas oferecem recursos para análise textual, pesquisa em múltiplas traduções e acesso a bibliotecas de comentários, dicionários e outras obras de referência. A capacidade de anotação, ligação, busca e arquivamento superam as leituras feitas com cópias físicas.

Seguem alguns deles:

Bible Works permite a análise do texto original em hebraico e grego, com ferramentas para analisar a morfologia, a sintaxe e a semântica das palavras. Oferece busca por raiz de palavras e comparação de diferentes traduções.

Accordance também se concentra nos idiomas originais, com ferramentas para pesquisa e análise textual, incluindo recursos para busca e comparação de textos. Possui interface e integração com dispositivos móveis.

e-Sword, um software gratuito e de código aberto, disponibiliza traduções bíblicas, comentários e dicionários, além de ferramentas para estudo e memorização de versículos.

Logos oferece uma vasta biblioteca digital com livros, revistas e outros recursos, além de ferramentas para pesquisa, análise e organização de informações. Contém recursos de busca semântica, mapas interativos e diagramas.

Sodoma

Sodoma, cidade mencionada na Bíblia, tornou-se sinônimo de corrupção e depravação, servindo como advertência contra a imoralidade e a desobediência a Deus. Localizada na planície do Jordão, próxima ao Mar Morto (Gênesis 13:12), Sodoma é descrita como uma cidade próspera, mas moralmente decadente. Gênesis 13:13 afirma que “os homens de Sodoma eram maus e pecadores contra o Senhor em extremo” e Ezequiel 16:49-50 relata soberba, negligência com o pobre e o necessitado.

A narrativa de Gênesis 18-19 detalha a visita de três mensageiros a Abraão, que intercede em favor de Sodoma. Deus revela a Abraão sua intenção de destruir a cidade devido à grave perversidade de seus habitantes. Dois anjos vão a Sodoma e se hospedam na casa de Ló, sobrinho de Abraão. Os homens da cidade cercam a casa de Ló, exigindo que ele entregue os visitantes. Ló oferece suas filhas em troca, mas os homens persistem em sua violência.

Deus então destrói Sodoma e Gomorra, cidade vizinha com pecados semelhantes, com chuva de fogo e enxofre (Gênesis 19:24-25). Ló e sua família são poupados, mas sua esposa, desobedecendo à ordem de não olhar para trás, é transformada em uma estátua de sal (Gênesis 19:26).

A destruição de Sodoma serve como exemplo da justiça e do juízo divinos contra o pecado. Profetas como Isaías (1:9-10), Jeremias (23:14) e Ezequiel (16:49-50) citam Sodoma como símbolo de corrupção e desobediência, advertindo contra a repetição de seus erros. Jesus também menciona Sodoma em Mateus 10:15 e Lucas 10:12, afirmando que o juízo sobre ela será mais tolerável do que sobre as cidades que rejeitarem o Evangelho.

Sátrapa

Sátrapa, termo de origem persa, designava um governador de província no Império Persa, responsável por administrar a justiça, coletar impostos e manter a ordem em seu território. Essas figuras detinham grande poder e influência, respondendo diretamente ao rei. No contexto bíblico, os sátrapas aparecem em livros como Esdras, Neemias e Ester, que narram eventos ocorridos durante o domínio persa sobre o povo judeu.

Em Esdras 8:36, os sátrapas são mencionados como autoridades que auxiliaram no retorno dos exilados judeus à Jerusalém e na reconstrução do templo. Já em Neemias, o sátrapa Sambalá é retratado como um dos principais adversários da obra de reconstrução dos muros de Jerusalém, liderando a oposição e tentando impedir o progresso dos judeus (Neemias 2:19; 4:1-3).

O livro de Ester apresenta outro exemplo de sátrapa, neste caso, Hamã, o agagita, que ocupa alta posição na corte do rei Assuero e planeja o extermínio dos judeus em todo o império (Ester 3:1-15). A história de Ester ilustra o poder e a influência que um sátrapa podia exercer, bem como os perigos da perseguição e da discriminação.

Daniel 6 narra a história de Daniel na cova dos leões, acusado pelos sátrapas e outros oficiais de desobedecer à ordem do rei Dario. Esse episódio demonstra a complexidade das relações entre os judeus e as autoridades persas, marcadas por intrigas, inveja e perseguição.

Jeová

A palavra “Jeová” é uma invenção relativamente recente, surgida de uma combinação de mal-entendidos e adaptações linguísticas do nome original hebraico de Deus, YHWH (יהוה), também conhecido como o Tetragrama sagrado.

Em hebraico antigo, o nome de Deus era escrito como YHWH, formado por quatro consoantes, sem vogais. A pronúncia exata desse nome foi perdida ao longo do tempo devido à tradição judaica de evitar sua vocalização por reverência.

Entre os séculos VI e X d.C., escribas judeus chamados massoretas buscaram preservar a pronúncia do texto bíblico hebraico adicionando pontos vocálicos ao texto consonantal. Quando encontravam YHWH, inseriam os pontos vocálicos de “Adonai” (Senhor) ou “Elohim” (Deus), para lembrar os leitores de substituir essas palavras ao lerem o texto em voz alta.

Na Idade Média, escribas cristãos transliteraram o texto hebraico para o latim. Eles substituíram a letra hebraica “Yod” (י) pelo “I” ou “J” latinos (intercambiáveis na época), resultando em “IHVH” ou “JHVH”.

Os pontos vocálicos adicionados pelos massoretas, combinados com as consoantes latinizadas, levaram à forma “IeHoVaH”, que eventualmente se transformou em “Jehovah” (Jeová). Essa pronúncia foi influenciada pelas línguas vernáculas da Europa medieval, onde o “J” inicial era pronunciado de forma distinta do latim.

Assim, “Jeová” é um construto artificial, não uma representação fiel da pronúncia original do nome de Deus. A pronúncia mais provável de YHWH é “Yahweh”, baseada em análises linguísticas e transcrições gregas antigas. Contudo, a pronúncia exata permanece incerta.

Elohim

Elohim (אֱלֹהִים), forma plural masculina de El (אֵל), é uma palavra geralmente traduzida como “Deus” ou “deuses”. Na Bíblia, Elohim frequentemente se refere a Yahweh (יהוה), o Deus de Israel, como visto em Gênesis 1:1, onde Elohim cria os céus e a terra. Essa forma também é predominante nos Salmos Eloísticos (Salmos 42-83).

Entretanto, Elohim também pode designar deuses estrangeiros, como nos casos de Êxodo 12:12 e 18:11, que mencionam os deuses do Egito, e Josué 24:20, 23, que adverte contra a adoração de outras divindades. Outros deuses também são mencionados no plural quando se fala apenas de um ser:

Eles me abandonaram e adoraram Astarote, a deusa [elohim] dos sidônios, Quemós, o deus [elohim] de Moabe, e Milcom, o deus [elohim] dos filhos de Moabe. 1 Reis 11:33.

Outra conotação de Elohim pode se referir a seres celestiais, como anjos. Em Salmos 29:1, a frase בְּנֵ֣י אֵלִ֑ים (beney elim), traduzida como “filhos de Deus” ou “seres celestiais”, alude a esses seres. Similarmente, em Jó 1:6, a mesma frase é frequentemente traduzida como “filhos de Deus” ou “anjos”.

O Targum Onkelos e a Peshitta vertem Elohim até mesmo como “juízes” ou “governantes”, como em Êxodo 21:6 e 22:7-8, os quais tratam de casos judiciais. No entanto, a Septuaginta perifrasticamente interpreta essa passagem como “tribunal de Deus”.

Em João 10:34-35, Jesus faz referência ao Salmo 82:6 para defender-se contra a acusação de blasfêmia por afirmar ser o Filho de Deus. Jesus cita Salmo 82:6, onde se lê: “Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo.” A palavra traduzida como “deuses” aqui é ‘elohim’ (אֱלֹהִים) no hebraico, para descrever autoridade, poder ou domínio para o concílio divino.

No Antigo Testamento, Elohim é amplamente utilizado, especialmente nos Salmos, onde aparece 404 vezes, geralmente referindo-se ao Deus de Israel, em contraste com as 731 ocorrências de Yahweh. Nos livros dois e três dos Salmos (42-89), Elohim surge 301 vezes e Yahweh 110 vezes. Em muitos casos, Elohim é usado em conjunto com Yahweh (Salmo 18:28), formando pares paralelos (Salmos 18:6, 21; 24:5; 29:3; 55:16; 69:13; 94:22).

A raiz linguística de Elohim, “El” (אֵל), é um termo genérico para divindade presente em diversas línguas semíticas, como acádio, amorita, ugarítico e hebraico, além de babilônico, fenício e aramaico. El era o nome do deus principal do panteão cananeu, como revelam textos ugaríticos descobertos a partir de 1929, e também era proeminente em textos acádicos e amoritas. Nesses textos semíticos, El é retratado como pai e criador, sendo frequentemente chamado de “o antigo” ou “o eterno”, e caracterizado por sua misericórdia e benignidade, atributos também associados a Yahweh no texto bíblico. É possível que Yahweh tenha substituído El como nome próprio e Elohim tenha substituído El como termo genérico para Deus.

Estudos recentes, como o de Joel S. Burnett, dissipou a hipótese de interpretação de Elohim como “plural de majestade”. Burnett argumenta que Elohim deve ser entendido como um “plural abstrato concretizado”, traduzível como “divindade” ou “deus”, com vários significados aplicável a Deus, deuses e até mesmo seres humanos em certos contextos. Essa interpretação, baseada em textos do antigo Oriente Próximo, sugere que Elohim reflete uma concepção mais ampla de divindade.

Essa proposta baseia-se em diversos exemplos e evidências que sustentam a ideia de que o uso do plural para designar uma entidade singular tem respaldo tanto em outras línguas semíticas quanto na estrutura linguística do hebraico.

Há paralelos claros em outras línguas semíticas. No acádio, a palavra ilanu, que significa “deuses”, também é usada para se referir a uma entidade singular. Essa ocorrência pode ser encontrada em textos como as Cartas de Amarna — correspondências diplomáticas entre sírio e egípcios — além de registros acádicos de Ugarit, Taanach e Qatna. De forma semelhante, no fenício, o termo ‘lm é empregado para designar uma divindade singular. Esses exemplos demonstram que a prática de usar formas plurais para uma entidade única não é exclusiva do hebraico, mas um fenômeno compartilhado entre línguas semíticas, sugerindo tanto uma origem comum quanto uma função linguística equivalente.

Além disso, o hebraico oferece exemplos de uma construção conhecida como “plural abstrato”, em que o plural de substantivos ou adjetivos é usado para expressar qualidades abstratas. Por exemplo, o termo ‘abot (plural de ‘ab, “pai”) refere-se à “paternidade”, enquanto zequnim (plural de zaqen, “velho”) significa “velhice”. Da mesma maneira, “Elohim” pode ser interpretado como uma referência à “divindade” em sua essência abstrata, ainda que o termo possa se concretizar em um ser específico.

Há exemplos bíblicos que ilustram como o plural abstrato pode ser aplicado a indivíduos. Em Daniel 9:23, o anjo Gabriel refere-se a Daniel como hamudot, um termo que no plural abstrato significa “desejabilidade” ou “preciosidade”. Nesse caso, Daniel personifica essa qualidade, sendo descrito como alguém extremamente estimado. Da mesma forma, o uso de “Elohim” pode ser entendido como a concretização da “divindade” em um ser singular que incorpora a essência do termo.

Não há evidências substanciais que sustentem a existência de um “plural de majestade” no hebraico bíblico. Este conceito é considerado uma projeção anacrônica, pois se originou em períodos posteriores, particularmente durante a era bizantina, em vez de ser uma característica da língua hebraica antiga.

A forma plural de Elohim, apesar de frequentemente usada em referência a sujeitos singulares, encontra paralelo em outras línguas semíticas, como o acádio e o fenício. Essa peculiaridade gramatical, possivelmente derivada do plural abstrato, como em ‘abot (“paternidade”) e zequnim (“velhice”) em hebraico, sugere que Elohim pode ser entendido como “divindade” ou “deus”, representando a concretização da divindade na figura do Deus de Israel.

BIBLIOGRAFIA

Burnett, Joel. A Reassessment of Biblical Elohim. Atlanta, Ga.; Society of Biblical Literature, 2001, 7–24.

Gordon, Cyrus H. “םיהלא in Its Reputed Meaning of Rulers, Judges.” Journal of Biblical Literature (1935): 139-144.

Heiser, Michael. ‘Monotheism and the Language of Divine Plurality in the Hebrew Bible and the Dead Sea Scrolls’ Tyndale Bulletin, 65.1 (2014) pp. 85-100.