Chave

Na Bíblia, o motivo literário das chaves transcende a função prática, adquirindo significados simbólicos e teológicos, refletindo autoridade, acesso, conhecimento e controle. Em uso desde o antigo Egito e Mesopotâmia, o uso de chaves e fechaduras para segurança de portas e portões era conhecido nos contextos bíblicos.

A chave da casa de Davi, em Isaías 22:22, simboliza autoridade delegada, ecoada em Apocalipse 3:7, onde Cristo possui a chave de Davi, indicando seu poder exclusivo sobre o acesso ao reino de Deus.

Em Mateus 16:19, as chaves do reino dos céus conferidas a Pedro representam a autoridade para declarar o que é permitido ou proibido, ligando-se à revelação da identidade de Cristo e à proclamação do evangelho.

A chave do conhecimento, mencionada em Lucas 11:52, salienta a responsabilidade dos líderes espirituais em guiar outros à verdade divina. Em Apocalipse 1:18, as chaves da morte e do Hades nas mãos de Jesus simbolizam sua vitória sobre a morte e autoridade sobre a vida após a morte, reiterando o controle divino sobre forças cósmicas e o cumprimento do plano redentor de Deus, como também demonstrado em Apocalipse 9:1 e 20:1.

O motivo das chaves frequentemente implica mordomia, alinhando-se com a ideia de responsabilidade confiada, como na parábola do servo fiel e prudente.

As chaves em contextos escatológicos, como a abertura do abismo e a prisão de Diabo, significam o controle de Deus sobre o tempo e a execução de seu plano redentor.

Correspondência entre Paulo e Sêneca

A correspondência entre Paulo e Sêneca é um conjunto de cartas apócrifas, geralmente datadas do final do século IV d.C., que pretendem ser uma troca de correspondências entre o apóstolo Paulo e o filósofo estoico romano Sêneca. Apesar de sua popularidade em certos períodos históricos, a correspondência é atualmente considerada espúria pela maioria dos estudiosos bíblicos.

As cartas, oito de Sêneca e seis de Paulo, abordam temas como a natureza de Deus, a virtude e a vida moral. Embora a linguagem e o estilo das cartas se assemelhem superficialmente aos escritos de Paulo e Sêneca, várias inconsistências históricas e teológicas levaram à rejeição de sua autenticidade. Por exemplo, as cartas retratam Sêneca com um conhecimento do cristianismo que ele provavelmente não possuía em vida, e Paulo com uma familiaridade com a filosofia estoica que não é evidente em seus escritos autênticos.

A correspondência de Paulo e Sêneca provavelmente surgiu em um contexto de crescente interesse pelo cristianismo entre intelectuais romanos. A figura de Sêneca, conhecido por sua sabedoria e vida virtuosa, era atraente para os primeiros cristãos, que buscavam estabelecer conexões entre sua fé e a filosofia greco-romana. A falsificação de cartas entre Paulo e Sêneca serviu para promover a imagem do cristianismo como uma filosofia respeitável e atrair convertidos entre a elite romana.

Chreia

A chreia, em grego χρεία, no plural chreiai, χρεῖαι, é uma breve anedota centrada em um dito ou ação memorável de uma figura proeminente. Na retórica antiga, era uma técnica de atribuir um contexto a um dito, usualmente a alguém importante.

Originária da retórica grega, a chreia significa “o que é útil”, especialmente em confrontos. A chreia consiste em uma referência a uma pessoa conhecida e um comentário ou gesto marcante. A figura central pode ser o agente ou o receptor da ação. Como forma oral, a chreia era flexível, permitindo expansões com detalhes sobre encontros, ocasiões e reações. Filósofos estoicos usavam chreiai como ilustrações em discursos, enquanto cínicos as empregavam em confrontos sociais e como modelos de comportamento.

Na pesquisa do Novo Testamento, muitos estudiosos descrevem as anedotas de Jesus nos evangelhos sinóticos como chreiai, por abrangerem mais histórias e ditos do que termos anteriores como “história de pronunciamento” ou “apoftegma”. A sequência de chreiai nos sinóticos sugere semelhanças sociais entre o cristianismo primitivo e os cínicos helenísticos.

Os fragmentos de Papías (c. 125 d.C.) tratam o evangelho de Marcos como chreiai (“anedotas”) sobre Jesus formuladas por Pedro, que Marcos havia “recordado” (apomnēmoneusen). (Papías, citado em Eusébio, Hist. eccl. 3.39.14–16).

Um exemplo de chreia nos evangelhos é quando Lucas descreve o início do ministério de Jesus na Galileia, na sinagoga de Nazaré (4:16–30). Lucas transforma a história de uma simples chreia ou anedota ilustrando como o “profeta não tem honra” em sua própria casa, na história do sermão inaugural de Jesus.

Georges Casalis

Georges Casalis (1917-1987) foi um teólogo protestante francês, notável por seu engajamento com as teologias da libertação e por sua crítica às estruturas de poder. Casalis refletia sobre a relação entre fé e ação política. Articulava uma teologia que dialogasse com as lutas por justiça social.

Casalis defendia uma leitura crítica da Bíblia, que ressaltava o compromisso de Deus com os oprimidos e a necessidade de a Igreja se engajar na transformação do mundo. Criticava a teologia tradicional por sua passividade diante das injustiças, defendendo uma teologia da práxis que colocava a ação transformadora no centro da fé cristã.

Sua obra aborda temas como a luta de classes, o racismo, a violência e a esperança, buscando articular uma teologia que inspirasse a ação em favor dos marginalizados. Casalis também se envolveu ativamente em movimentos sociais e políticos, defendendo os direitos humanos e a democracia.

Cal

Calcário, é uma rocha sedimentar composta principalmente de carbonato de cálcio (CaCO3), geralmente na forma de calcita ou aragonita. Embora o calcário seja abundante na Palestina e em outras regiões mencionadas na Bíblia, não existe um termo hebraico ou grego único e específico que corresponda diretamente ao termo geológico moderno calcário.

As palavras hebraicas e gregas traduzidas como “pedra” nas Escrituras (por exemplo, אֶבֶן, ‘even, em hebraico; λίθος, líthos, em grego) são termos genéricos que podem se referir a diversos tipos de rocha, incluindo o calcário, mas não o distinguem especificamente de outras rochas, como arenito, basalto, etc. A Bíblia menciona o uso de pedras para construção de casas, muros, altares e outros edifícios (Levítico 14:40-42; 1 Reis 5:17; Mateus 24:2), mas não especifica o tipo de rocha utilizada.

A cal (CaO), obtida pela queima do calcário, é mencionada em alguns textos. Em Isaías 27:9, a destruição dos altares idólatras é comparada à transformação de pedras em cal (כְּאַבְנֵי־גִר, ke’avnei-gir, “como pedras de cal”). Amós 2:1 descreve a profanação de um túmulo, onde os ossos de um rei foram queimados até virarem cal. A palavra hebraica usada aqui é שִׂיד (sid), que é traduzida como “cal”. No Novo Testamento, não há referência explícita nem à cal nem ao calcário.