Metástase de João

A Metástase de João é uma lenda não canônica que narra a morte do apóstolo João, com versões relacionadas encontradas em diversos manuscritos dos Atos de João (106-115). A narrativa inclui o relato da descida de João à sepultura que ele próprio ordena a seus discípulos que cavem.

As versões independentes da Metástase de João, provavelmente originadas em siríaco, datam dos séculos IV-V. Apesar de sua antiguidade, essa obra nunca alcançou grande aceitação nas igrejas primitivas.

Mashal

O termo hebraico מָשָׁל mashal designa um gênero literário que abrange desde provérbios curtos até parábolas e alegorias extensas. Seu propósito é didático e comparativo, transmitindo sabedoria por meio de analogias e figuras de linguagem.

No Antigo Testamento, mashal aparece em diversos contextos, como a literatura sapiencial (Provérbios, Eclesiastes), a profecia (Ezequiel) e as narrativas históricas (Juízes). Muitas vezes associado a חִידָה (khidah, “enigma”), pode assumir o formato de ditado moral, sátira, cântico ou sentença legal. Sua concisão e imagética vívida favorecem a memorização e a transmissão oral.

No judaísmo rabínico, mashal tornou-se um recurso pedagógico fundamental, especialmente em parábolas que ilustram verdades espirituais por meio de situações do cotidiano. Jesus utilizou esse estilo em seus ensinamentos, aproximando-se da tradição rabínica, mas com uma intencionalidade singular. Suas parábolas não eram meras ilustrações morais, mas veículos de revelação sobre o Reino de Deus. Diferiam das fábulas, pois evitavam personagens animais falantes, e da alegoria complexa, privilegiando um impacto direto sobre o ouvinte. Seu efeito era provocativo, desafiando a audiência a uma decisão ética e espiritual. Muitas parábolas de Jesus terminam com um desfecho surpreendente, que inverte expectativas e confronta o ouvinte com uma verdade inescapável.

A tradição rabínica e os evangelhos compartilham algumas imagens e estruturas narrativas, mas frequentemente aplicam-nas com propósitos distintos. Enquanto Jesus empregava mashal para revelar mistérios do Reino e questionar convenções religiosas, os rabinos o usavam para reforçar ensinamentos morais e haláquicos. A convergência estrutural sugere um fundo cultural comum, no qual o mashal funcionava como um meio privilegiado de ensino na sociedade judaica do período do Segundo Templo.

A natureza polissêmica dos mashalim reflete a versatilidade da linguagem figurada.

Roger Mehl

Roger Mehl (1912-1997) foi um teólogo protestante francês, cujas contribuições abrangem a teologia sistemática, a ética e a sociologia religiosa.

Professor na Faculdade de Teologia Protestante de Estrasburgo, Mehl dedicou-se a dialogar com as questões da modernidade, buscando conciliar a fé cristã com o pensamento contemporâneo.

Sua teologia possuía um realismo crítico, que reconhecia as ambiguidades da condição humana e a necessidade de discernimento ético. Enfatizava a importância da liberdade e da responsabilidade individual, mas também a necessidade de solidariedade e justiça social.

Mehl criticava tanto o individualismo excessivo quanto o coletivismo totalitário, defendendo uma visão de sociedade baseada no respeito à dignidade humana e na busca do bem comum. Sua obra aborda temas como a secularização, o pluralismo religioso, a bioética e a relação entre cristianismo e política.

Além de sua produção acadêmica, Mehl também se envolveu em atividades ecumênicas e no diálogo inter-religioso, buscando promover a compreensão e a cooperação entre diferentes tradições.

Pierre Maury

Pierre Maury (1890-1956) foi um teólogo protestante francês, parte do movimento da Teologia Dialética, influenciado por Karl Barth. Sua obra, embora não tão extensa quanto a de seus contemporâneos, exerceu um impacto no pensamento teológico do século XX.

Maury enfatizava a transcendência de Deus e na centralidade da revelação em Jesus Cristo. Ele criticava as teologias liberais que buscavam acomodar o cristianismo aos valores da cultura moderna, defendendo a necessidade de um retorno às fontes bíblicas e à tradição reformada.

Sua teologia ressaltava a importância da pregação da Palavra de Deus como um evento atual e transformador, capaz de confrontar o ser humano com a realidade do pecado e da graça divina. Maury também se envolveu ativamente no movimento ecumênico, buscando promover o diálogo e a unidade entre as diferentes denominações cristãs.

Maldição

A maldição (em grego: κατάρα; em hebraico: קְלָלָה) é um tema recorrente na Bíblia, presente em diversas narrativas e leis. Ela se manifesta como uma força misteriosa, capaz de trazer infortúnio, dor e até mesmo a morte sobre aqueles que a recebem.

No Antigo Testamento, a maldição aparece frequentemente associada à desobediência a Deus e à quebra de alianças. As maldições proferidas por Deus contra o pecado e a idolatria são exemplos de como a maldição pode ser uma consequência direta das ações humanas.

As maldições também podem ser proferidas por pessoas, como no caso da maldição de Noé sobre Canaã (Gênesis 9:20-27) ou das maldições presentes no Livro de Deuteronômio (Deuteronômio 27-28). Essas maldições podem ser vistas como expressões de ira, vingança ou mesmo como tentativas de invocar forças sobrenaturais para prejudicar alguém.

No Novo Testamento, a maldição perde um pouco de sua centralidade, com o foco se deslocando para a graça e o perdão oferecidos por Jesus Cristo. No entanto, a maldição ainda aparece em algumas passagens, como na maldição de Paulo contra aqueles que pregam um evangelho diferente (Gálatas 1:8-9).

A natureza exata da maldição e seu poder são temas complexos e debatidos. Algumas interpretações sugerem que a maldição é uma força real, capaz de influenciar o mundo físico e espiritual. Outras interpretações veem a maldição como uma expressão simbólica de desaprovação divina ou humana, ou como uma forma de linguagem que enfatiza as consequências negativas de certas ações.