Galicanismo

O Galicanismo designa um conjunto de doutrinas e práticas eclesiásticas e políticas que afirmavam a autonomia da Igreja Católica na França, conhecida como Igreja Galicana, em relação à autoridade papal.

Este movimento, com raízes que remontam à Idade Média, como evidenciado pela Pragmática Sanção de Bourges em 1438, buscou limitar a jurisdição do papado sobre os assuntos temporais e espirituais do reino francês. Esse posicionamento valorizava os direitos do monarca francês e as antigas liberdades e costumes da Igreja local. O galicanismo atingiu seu apogeu no século XVII, sob o reinado de Luís XIV, com a promulgação da Declaração do Clero da França em 1682, redigida em grande parte por Jacques-Bénigne Bossuet.

Estes Quatro Artigos Galicanos constituíram o cerne da doutrina. Primeiro, o poder papal era estritamente espiritual, não se estendendo aos soberanos temporais. Segundo, a autoridade dos concílios gerais era superior à do Papa, em linha com os decretos do Concílio de Constança. Terceiro, o exercício da autoridade apostólica papal deveria respeitar os cânones, regras e instituições estabelecidas e aceitas no Reino e na Igreja da França. Quarto, embora o Papa tivesse o papel principal nas questões de fé, seus julgamentos não eram irreformáveis a menos que tivessem o consentimento da Igreja universal.

Essa afirmação de autonomia frequentemente entrelaçava-se com o poder real, que via no galicanismo um instrumento para consolidar o controle sobre a Igreja dentro de suas fronteiras, influenciando nomeações episcopais e a administração dos bens eclesiásticos. As teses galicanas suscitaram forte oposição de Roma, com papas como Inocêncio XI condenando os Artigos. Apesar da resistência papal e das complexas negociações políticas subsequentes, os princípios galicanos exerceram influência considerável na França até a Revolução Francesa.

A Concordata de 1801, firmada entre Napoleão Bonaparte e o Papa Pio VII, redefiniu as relações Igreja-Estado, e o Primeiro Concílio Vaticano em 1870, com a definição da infalibilidade papal, efetivamente minou as bases teológicas do galicanismo, embora certos sentimentos e práticas de autonomia eclesial tenham persistido em alguns círculos.

Conciliarismo

O Conciliarismo foi um movimento de reforma e uma teoria eclesiológica na Igreja Católica Romana, proeminente entre os séculos XIV e XVI, que sustentava que a autoridade suprema na Igreja residia num concílio ecumênico, e não exclusivamente no Papa.

Em tempos medivieis, esse princípio foi invocado principalmente como resposta à crise do Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), quando múltiplos papas reivindicavam legitimidade, gerando a necessidade urgente de uma solução que transcendesse as reivindicações papais individuais e restaurasse a unidade da Igreja. Teóricos como Marsílio de Pádua, em seu Defensor Pacis, e Guilherme de Ockham já haviam lançado bases para questionar a plenitude do poder papal, mas foram juristas e teólogos como Jean Gerson, Pierre d’Ailly e Francisco Zabarella que articularam mais diretamente os argumentos conciliaristas durante o cisma. Eles argumentavam, com base em interpretações do direito canônico e da história da Igreja primitiva, que o Papa, embora detentor de um ofício de grande importância, era um membro da Igreja e, como tal, sujeito ao corpo da Igreja universal, representado mais adequadamente por um concílio geral.

O Concílio de Pisa (1409) tentou, sem sucesso, resolver o cisma aplicando princípios conciliaristas, mas acabou por adicionar um terceiro pretendente ao papado. Foi o Concílio de Constança (1414-1418) que representou o ápice prático do Conciliarismo. Este concílio conseguiu depor os papas rivais e eleger Martinho V, restaurando a unidade. De fundamental importância foram seus decretos Haec Sancta (1415), que afirmava a superioridade do concílio sobre o Papa em questões de fé, reforma da Igreja “em sua cabeça e em seus membros” e a resolução do cisma, e Frequens (1417), que determinava a convocação regular de concílios ecumênicos para assegurar a continuidade da reforma e da boa governança.

O Concílio de Basileia-Ferrara-Florença (iniciado em 1431) buscou dar continuidade a essa agenda reformista, reafirmando a autoridade conciliar. Contudo, entrou em conflito prolongado com o Papa Eugênio IV, que defendia a primazia papal. As divisões internas no concílio e a habilidade política papal em transferi-lo para Ferrara e depois Florença, focando na união com as Igrejas Orientais, enfraqueceram gradualmente a posição conciliarista. Apesar de alguns sucessos iniciais, o radicalismo de uma facção em Basileia acabou por desacreditar o movimento aos olhos de muitos.

Papas subsequentes trabalharam ativamente para reverter os ganhos conciliaristas. Pio II, com a bula Execrabilis (1460), condenou os apelos a um concílio futuro como uma tentativa de escapar da jurisdição papal, declarando-os heréticos. Embora o Conciliarismo como teoria dominante tenha sido suplantado pela reafirmação da monarquia papal, consolidada dogmaticamente no Concílio Vaticano I (1869-1870) com a definição da infalibilidade e primazia jurisdicional do Papa, suas ideias não desapareceram por completo. Elas influenciaram movimentos como o Galicanismo na França e outras formas de episcopalismo, e continuaram a informar debates sobre a estrutura de poder e a governança eclesial. O Concílio Vaticano II (1962-1965), ao enfatizar a colegialidade episcopal e o papel do colégio dos bispos em união com o Papa no governo da Igreja, revisitou de certa forma a dinâmica entre a autoridade papal e a participação mais ampla do episcopado, embora dentro de um quadro que reafirma a primazia do Pontífice Romano como sucessor de Pedro e cabeça do colégio episcopal.

Anna Larsen Bjørner

Anna Vilhelmine Johanne Dorthea Larssen (Larsen) Bjørner (1875-1955), atriz e ministra pentecostal dinamarquesa

Anna Larsen nascida de pai italiano e mãe dinamarquesa, tornou-se uma atriz de teatro e ópera bem-sucedida. Cresceu nos bastidores dos pais artistas. Seu primeiro papel no palco em 1882, como filhas de Nora, em Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen.

O movimento pentecostal chegou à Dinamarca em 1907, e a conversão de personalidades como Anna Larssen, que posteriormente adotaria o sobrenome Bjørner, gerou impacto considerável. Fontes indicam que sua conversão esteve entre os fatores que, já em 1909, incitaram ataques de jovens socialistas a encontros pentecostais, também provocados pela penetração do movimento entre a classe trabalhadora.

A partir da década de 1920, Larssen Bjørner engajou-se ativamente no movimento, colaborando com o pastor pentecostal sueco Lewi Pethrus e o noruguês T. B. Baratt. Atuou para a consolidação do pentecostalismo dinamarquês por meio de pregações, publicações e organização de encontros de avivamento. Em 1919, junto a Sigurd Bjørner, passou a liderar uma nova congregação em Copenhague. Anos depois, em 1924, os Bjørner, com uma delegação de líderes britânicos, foram instrumentais em persuadir mais da metade dos pentecostais dinamarqueses a se filiarem à Igreja Apostólica, uma denominação com uma estrutura organizacional mais definida, bem firmada no País de Gales, Inglaterra e Escócia.

Sua influência transfronteiriça alcançou a Itália quando, na década de 1930, sentiu o chamado para o trabalho missionário naquele país. Previamente, o pastor batista italiano Del Rosso, ao encontrar uma revista intitulada “Riches of Grace” que narrava a conversão da então famosa atriz, escreveu-lhe para conhecer sua experiência. A resposta de Larssen Bjørner, recebida quatro anos depois, detalhando a obra divina na Dinamarca e a comunhão com a Igreja na Grã-Bretanha, inspirou o pastor a convidar irmãos dinamarqueses. A visita destes a Civitavecchia e Grosseto, com sua pregação e testemunho em lares simples, preparou o caminho para que, em fevereiro de 1927, os pequenos grupos de irmãos nessas cidades se unissem oficialmente à Igreja Apostólica, por ocasião de uma visita dos pastores D.P. e W.J. Williams e de alguns irmãos dinamarqueses.

SAIBA MAIS

Christensen, Nikolaj. Unorganized Religion: Pentecostalism and Secularization in Denmark, 1907-1924. Vol. 42. Brill, 2022.

Jørgensen, Chris. Anna Larssen Bjørner: verdens dejligste rose. 1988.

Valentinianismo

O Valentinianismo, um sistema gnóstico do cristianismo primitivo, floresceu principalmente no século II d.C., derivado dos ensinamentos de Valentino de Roma. Embora nunca tenha constituído uma igreja separada no sentido estrito, seus adeptos formavam escolas de pensamento que ofereciam uma interpretação esotérica e mais completa da doutrina cristã, reivindicando uma linhagem de ensino que remontava ao apóstolo Paulo através de mestres como Teudas.

A cosmologia valentiniana era complexa, postulando um reino espiritual superior, o Pleroma, habitado por éons divinos. A criação do mundo material imperfeito era vista como resultado de uma falha ou paixão de Sofia, um dos éons. Um demiurgo ignorante, embora não inerentemente mau, era considerado o criador deste mundo inferior, inconsciente do Pleroma superior. A humanidade, nessa visão, continha uma centelha divina (pneuma) aprisionada na matéria (hyle) e na alma psíquica (psychē). A salvação, ou libertação dessa centelha, era alcançada através da gnose, um conhecimento intuitivo e espiritual das realidades divinas, trazido por Cristo, um ser superior do Pleroma.

As práticas valentinianas incluíam rituais de iniciação e uma compreensão distinta dos sacramentos cristãos, com alguns textos sugerindo diferentes tipos de batismo e eucaristia para os iniciados. A ética valentiniana variava, com alguns grupos tendendo ao ascetismo como forma de negar a matéria, enquanto outros supostamente adotavam uma postura mais libertina, argumentando que o espiritual estava imune à corrupção material.

O Valentinianismo foi combatido pela patrística, como Irineu de Lyon em sua obra “Contra as Heresias”, que viam suas doutrinas como desvios perigosos do cristianismo ortodoxo. Apesar da controvérsia e da eventual supressão, o Valentinianismo exerceu influência significativa no desenvolvimento do pensamento cristão primitivo. Seus textos, descobertos em Nag Hammadi, continuam a fornecer informações sobre a diversidade das crenças religiosas nos primeiros séculos da era cristã.

Marcionismo

O Marcionismo, doutrina cristã dualista fundada por Marcião de Sinope por volta de meados do século II, propunha uma distinção radical entre o Deus do Antigo Testamento, considerado um criador imperfeito e zeloso, e o Deus do Novo Testamento, um ser de puro amor e graça revelado em Jesus Cristo.

Marcião rejeitava todo o Antigo Testamento e grande parte do Novo, aceitando apenas uma versão editada do Evangelho de Lucas e dez epístolas paulinas, por ele purgadas de referências ao judaísmo. Sua teologia enfatizava a salvação pela fé em Cristo, contrastando com o legalismo judaico. A rápida disseminação do Marcionismo levou a Igreja primitiva a definir seu cânon bíblico e a formular o Credo Niceno para refutar suas ideias, consideradas heréticas. Apesar da forte oposição e de ter sido eventualmente extinto como movimento religioso organizado, o Marcionismo forçou a Igreja a confrontar questões cruciais sobre a autoridade das Escrituras, a natureza de Deus e a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, deixando um legado importante no desenvolvimento do pensamento cristão.