Hadadezer

Hadadezer, filho de Reobe, foi um rei arameu que lutou contra Davi, conforme registrado em 2 Samuel 8:3–8 (1 Crônicas 18:3–8) e 2 Samuel 10:15–19 (1 Crônicas 19:16–19).

As narrativas bíblicas sobre Hadadezer, rei arameu de Zobá, apresentam discrepâncias que geram diversas interpretações. Os relatos de seus conflitos militares com Davi, em 2 Samuel 8 e 2 Samuel 10, sugerem duas ou três batalhas distintas, mas ambos os capítulos afirmam a subjugação de Zobá por Davi. Isso levanta a possibilidade de serem o mesmo evento, ou de uma inversão na ordem cronológica, com a batalha menos conclusiva de 2 Samuel 10:15–19 ocorrendo antes da vitória decisiva de 2 Samuel 8.

A menção de Hadadezer como rei de Zobá no reinado de Salomão (1 Reis 11:23) complica a reconstrução histórica, questionando como ele poderia ter mantido o poder após a derrota por Davi. Alguns estudiosos propõem que “ben-Reobe” seja interpretado como “Bete-Reobe”, indicando que Hadadezer governava duas regiões, Zobá e Bete-Reobe, correspondentes a reinos que enfrentaram Salmanaser III em 853 a.C.

A localização e extensão do reino de Hadadezer são temas de debate. Enquanto 2 Samuel 8:3 e 1 Reis 11:23 o situam em Zobá, ao norte de Damasco, 2 Samuel 10:16 o coloca no comando de forças arameias a leste do Eufrates, sugerindo um território vasto. Essa expansão poderia ter ocorrido durante um período de fraqueza assíria, permitindo que reinos arameus se consolidassem. A vitória de Davi em 2 Samuel 8, nesse contexto, implicaria a incorporação de um império significativo. Alternativamente, o relato bíblico pode ter exagerado o controle de Davi sobre os reinos arameus.

A historicidade das narrativas é contestada. Alguns estudiosos buscam reconstruir a história por trás dos relatos, enquanto outros, como Na’aman, argumentam que o historiador deuteronomista do século VII a.C. modificou uma crônica judaíta do século VIII a.C. sobre as guerras entre Hazael, rei de Aram, e Israel. Segundo essa visão, Hadadezer seria uma criação literária baseada em Hazael, com a vitória invertida para Davi. Outros relatos de guerra em 2 Samuel 8 também são considerados ficções que invertem derrotas sofridas por Israel e Judá no final do século IX a.C., como a perda da Transjordânia para Mesa de Moabe.

Hadade (divindade)

Hadade (הדד, hdd) é uma divindade da tempestade do noroeste mesopotâmico e sírio, um dos primeiros deuses desse tipo venerados no Levante, também conhecido como Baal.

Na Bíblia, “Hadad” ocorre apenas uma vez, em Zacarias 12:11, como Hadad-rimom (הדד־רמון, hddrmwn), cuja interpretação varia entre uma referência à morte do rei Josias, uma manifestação local da divindade, ou um topônimo. “Rimon” provavelmente deriva do acádio ram(m)an, “trovejador”, e não do hebraico “romã”, como atestam nomes teofóricos como Tabrimom e a “Casa de Rimom”.

Baal, título comum de Hadade, aparece frequentemente no Antigo Testamento, notadamente em 1 Reis 18:20–40, onde seus profetas são derrotados, enfatizando a impotência de Baal e o poder de Yahweh. Baal manifesta-se localmente como Baal de Peor, Baal-berite e Baal-zebube, provavelmente Baal-zebul. Seu nome integra topônimos e nomes pessoais, como Baal-gad e Baal-hanan. No primeiro século d.C., Baal persiste no pensamento judaico, mas com conotações demoníacas, como Beelzebul no Novo Testamento.

A Bíblia registra a adoração de Baal/Hadade entre os israelitas, indicando uma interação com a sociedade israelita e judaíta, embora em conflito com a adoração exclusiva de Yahweh. A mitologia de Baal/Hadade pode ter influenciado o desenvolvimento teológico do yahvismo, com Yahweh assumindo atributos de deus guerreiro e controlador dos elementos, comparáveis a Baal, mas Yahweh é distinto por sua intervenção histórica e não cíclica.

O nome “Hadade” aparece em nomes pessoais como Hadorã, Hadadezer e Ben-Hadade, atestando seu culto na Síria e entre os edomitas. Hadade é atestado desde o final do quarto milênio a.C. na Suméria, com o elemento teofórico Adad. No período Ur III, “dIM” representava Ishkur e Adad. Em iconografia mesopotâmica, Adad é retratado como um touro ou um guerreiro barbudo.

Na Síria, Hadade, filho de Dagon, era centralizado em Yamhad (Alepo). Em Ugarite, Hadade, chamado Baal, é proeminente nos épicos míticos, como o Ciclo de Baal, que narra suas batalhas e morte/ressurreição, ligadas ao ciclo sazonal. Estelas de Ugarite o representam como um guerreiro.

Em Canaã, Hadade era conhecido desde o segundo milênio a.C., com nomes teofóricos em textos egípcios e nas Cartas de Amarna. No período da Idade do Ferro II, seu culto é evidenciado pelas narrativas bíblicas de rivalidade com Yahweh e nomes pessoais teofóricos.

Terafins

Os terafins (תְּרָפִים, θεραφίμ) são mencionados na Bíblia Hebraica como objetos associados a práticas religiosas e divinatórias. A palavra hebraica terafim é plural, mas pode se referir a um único objeto ou a um conjunto deles. A etimologia da palavra é incerta, com possíveis ligações a termos acádios e ugaríticos relacionados a deuses domésticos ou ancestrais.

A natureza exata dos terafins é debatida. Algumas interpretações sugerem que eram ídolos ou imagens representando divindades, enquanto outras os veem como objetos utilizados para comunicação com os mortos ou para adivinhação. A Bíblia não oferece uma descrição detalhada de sua aparência ou função, o que contribui para a variedade de interpretações.

Os terafins são mencionados em diversos contextos bíblicos.

Em Gênesis 31:19, 30, 34-35: Raquel furta os terafins de seu pai, Labão. Embora o texto não descreva sua aparência, o fato de Raquel escondê-los sob a sela de um camelo sugere que eram portáteis. Labão os chama de “meus deuses”, indicando seu significado religioso ou familiar.

Em Juízes, Juízes 17:5; 18:14, 17-18, 20: Mica, um efraimita, possui um santuário doméstico com um terafim, juntamente com um ídolo esculpido e um éfode. Isso associa os terafins a outros objetos de culto e sugere seu uso em práticas religiosas familiares.

Em 1 Samuel 19:13, 16: Mical, esposa de Davi, usa um terafim para enganar os enviados de Saul, colocando-o na cama e fingindo que era Davi doente. Essa passagem indica que o terafim tinha forma humana, possivelmente em tamanho natural. Também indica sua presença entre cultuadores de Yahweh.

Os profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel condenam o uso de terafins, associando-os à idolatria e práticas religiosas proibidas. Esta perspectiva sugere que, em certos momentos da história de Israel, os terafins eram considerados incompatíveis com a adoração a Yahweh.

Ezequiel 21:21 menciona terafim no contexto da adivinhação de Nabucodonosor. O rei da Babilônia usa a adivinhação para decidir se deve atacar Jerusalém ou Rabá dos amonitas. Ele “consultou os terafins” como um de seus métodos de adivinhação, além de olhar para o fígado de animais sacrificados e usar flechas para adivinhação.

Isaías 2:6 menciona terafim também. O versículo afirma que Judá está cheio de “adivinhadores e adivinhos, como os filisteus”, e eles “fazem acordos com os filhos de estrangeiros”. A menção de adivinhação neste contexto, juntamente com a associação com práticas estrangeiras, vincula este versículo ao uso de terafim para fins de adivinhação.

Oseias 3:4: O profeta menciona os terafins em conjunto com o éfode e as imagens de escultura, condenando seu uso como parte da idolatria de Israel.

Zacarias 10:2: Os terafins são criticados por darem “oráculos vazios”, indicando seu uso em práticas de adivinhação.

Apesar da condenação profética, a presença de terafins em alguns relatos bíblicos indica que esses objetos faziam parte da religião popular em Israel, especialmente em contextos domésticos. A relação exata entre os terafins e a religião oficial de Israel é complexa e objeto de debate entre os estudiosos.

Estudos arqueológicos revelaram a existência de objetos que podem ser relacionados aos terafins, como pequenas estatuetas e placas votivas encontradas em sítios arqueológicos do antigo Oriente Próximo.

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Alfabeto grego

O alfabeto grego, um sistema de escrita composto por 24 letras. Cada letra possui um nome e um valor numérico, o que confere ao sistema uma dimensão simbólica e mística. As letras são usadas não apenas para registrar a língua grega, mas também em práticas matemáticas, científicas e filosóficas. Para a Bíblia, sua importância aparece em seu uso na Septuaginta e no Novo Testamento.

A forma como conhecemos o alfabeto grego hoje é resultado de um longo processo de evolução. Esse alfabeto deriva-se do alfabeto fenício, que por sua vez influenciou outros sistemas de escrita, como o alfabeto latino.

Evidências como a similaridade entre os primeiros sinais gregos e monumentos semíticos como a inscrição de Ahiram comprovam essa origem. Os nomes das letras gregas, sem significado em grego, mas com correspondentes semíticos claros, reforçam essa conexão. Inicialmente, a escrita grega seguia o padrão semítico, da direita para a esquerda, evoluindo para o “boustrophedon” (alternando o sentido das linhas) e, finalmente, adotando a escrita da esquerda para a direita.

A principal inovação grega foi a incorporação de vogais, ausentes no alfabeto semítico. Letras semíticas que representavam sons guturais inexistentes em grego, como aleph, he e ayin, foram adaptadas para as vogais “a”, “e” e “o”, enquanto um novo sinal foi criado para “u”. Inicialmente, o alfabeto grego possuía 23 letras, uma a mais que o semítico, com a adição de um sinal no final. Com o tempo, novas letras foram incorporadas, como phi, chi e psi, chegando ao alfabeto de 24 letras conhecido hoje.

Manuscritos gregos utilizavam duas formas principais: uncial (letras maiúsculas), predominante em textos literários até o século XII d.C., e cursiva, inicialmente usada em correspondências e posteriormente adaptada para textos literários (minúscula) a partir do século IX d.C. A forma impressa do grego deriva dessa última.

Tabela do Alfabeto Grego

Letra GregaNome em GregoTransliteraçãoLetra aproximada em português Valor Numérico
ΑAlfaAA1
ΒBetaBB2
ΓGamaGG3
ΔDeltaDD4
ΕÉpsilonEE5
ΖZetaZZ7
ΗEtaHE8
ΘTetaThT9
ΙIotaII10
ΚKappaKC20
ΛLambdaLL30
ΜMiMM40
ΝNiNN50
ΞXiXX60
ΟÓmicronOO70
ΠPiPP80
ΡRoRR100
ΣSigmaSS200
ΤTauTT300
ΥÍpsilonYU400
ΦFiPhF500
ΧQuiChC600
ΨPsiPsPS700
ΩÓmegaOO800

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Dídimo, o cego

Dídimo, o Cego (c. 313-398 d.C.), também conhecido como Didymus, foi um teólogo e exegeta cristão do século IV.

Nascido em Alexandria, Dídimo foi contemporâneo de Atanásio e Gregório de Nissa. Apesar disso, poucos detalhes de sua vida são conhecidos. Ele foi cego desde a infância, o que não impediu sua produtividade intelectual. Dídimo escreveu comentários sobre diversos livros da Bíblia e tratados teológicos, sendo muitos deles preservados até hoje.

Com uma mente perspicaz. Dídimo valorizava a interpretação alegórica. Buscava o sentido espiritual dos textos sagrados, e enfatizava a importância da vida ascética e da contemplação divina. Sua teologia trinitária e cristológica, marcada pela influência de Orígenes, contribuiu para o desenvolvimento do pensamento cristão no século IV.