Parashá

O parashá, plural parashot, é um ciclo de leitura, similar aos lecionários cristãos, que divide a Torá para leituras cúlticas. Outras partes da Bíblia Hebraica seguem esquemas de leitura pública diferente. Há Haftarot no caso dos Profetas e leituras específicas dos Escritos para certas ocasiões.

Existem diferentes sistemas de divisão das parashot, baseados principalmente em tradições culturais e litúrgicas.

O ciclo anual é o mais amplamente utilizado hoje, com 54 parashot lidas ao longo de um ano. A Torá é dividida em 54 parashot, com uma porção lida a cada semana. Em alguns anos, certas parashot são combinadas para ajustar as 54 leituras em um ano de 50 ou 51 semanas (devido às variações do calendário hebraico). É seguido pela maioria das comunidades ashkenazi, sefarditas e mizrahim.

Em anos não bissextos, os seguintes parashot são combinados:

Vayakhel-Pekudei
Tazria-Metzora
Acharei Mot-Kedoshim
Behar-Bechukotai
Chukat-Balak
Matot-Masei
Nitzavim-Vayeilech

Já o ciclo trienal é menos comum, mas ainda é usado em algumas comunidades judaicas progressistas.

Os judeus caraítas, que não seguem a tradição rabínica, têm seu próprio sistema de leitura da Torá. Suas divisões são baseadas em quebras naturais do texto e não estão vinculadas a um ciclo anual ou trienal fixo.

SistemaNúmero de ParashotUso
Ciclo Anual54Maioria das comunidades judaicas no mundo
Ciclo Trienal154 ou 175Historicamente em Israel o período talmúdico (c. 200–500 dC); algumas comunidades Reformistas/Conservadoras
Ciclo Trienal Palestiniano~175Histórico (Israel antigo)
Ciclo Anual Babilônico54Base para o ciclo anual moderno
Tradição Iemenita (Baladi)54Comunidades judaicas iemenitas
Tradição caraítaVariaComunidades judaicas caraítas

Inteira Santificação

A Inteira Santificação, também conhecida como perfeição cristã ou santidade bíblica, é uma doutrina teológica central para o Metodismo e algumas denominações pentecostais. Desenvolvida por John Wesley, enfatiza a possibilidade de o crente, após a justificação, alcançar um estado de amor perfeito a Deus e ao próximo, sendo libertado da escravidão do pecado.

Diferente da justificação, que retifica a relação do crente como justo perante Deus, a Inteira Santificação é uma obra subsequente da conversão, realizada pelo Espírito Santo. Não implica ausência de falhas ou erros, mas sim a purificação das intenções e motivações, capacitando o crente a viver em santidade. Não significa que a pessoa não possa pecar, mas que não terá prazer no pecado.

A doutrina não é consensual entre os cristãos. Críticos questionam sua base bíblica e a possibilidade de sua realização plena nesta vida. Defensores, por outro lado, apontam para passagens bíblicas que falam sobre perfeição e santidade, argumentando que a Inteira Santificação é um processo contínuo de crescimento espiritual, alcançável pela graça divina.

BIBLIOGRAFIA
Fletcher, John. Checks to Antinomianism.

Palmer, Phoebe. The Promise of the Spirit.

Wesley, John. “A Plain Account of Christian Perfection.”

Teologia da Congregação Cristã no Brasil

A teologia da Congregação Cristã no Brasil insere-se no campo do protestantismo evangélico de matriz pentecostal clássica, com afinidades históricas e práticas com as igrejas livres do anabatismo, do pietismo e dos movimentos de avivamento europeus dos séculos XVIII e XIX.

Diferentemente de tradições com enraizada produção acadêmica e sistematização doutrinária formal, a CCB desenvolveu sua teologia predominantemente por via oral, litúrgica e comunitária. Seus hinos, orações, testemunhos e pregações constituem as fontes mais estáveis de sua identidade teológica. Em contrapartida, documentos normativos escritos — divulgados em reuniões gerais de ensinamentos — possuem caráter circunstancial e disciplinar, refletindo necessidades pastorais específicas de cada época e localidade.

A ausência de um vocabulário técnico padronizado não implica ausência de teologia, mas revela um modo distinto de elaboração doutrinária. A fé da CCB é articulada na prática do culto e na experiência comunitária, onde a interpretação bíblica ocorre na interação entre Escritura, Espírito Santo e assembleia de fiéis — dinâmica que corresponde ao que estudiosos descrevem como a tríade hermenêutica pentecostal. Trata-se de uma teologia narrativa e testemunhal, na qual a confissão de fé se expressa mais por relatos de intervenção divina na vida cotidiana do que por fórmulas proposicionais fixas.

No plano doutrinário, a CCB professa a fé trinitária histórica e a autoridade das Escrituras como regra suficiente de fé e prática. O evangelho é a mensagem de que Deus salva mediante Cristo Jesus, libertando o cativo ao quebrar o poder do maligno, do pecado e da morte. A salvação é entendida como obra da graça de Deus realizada por meio de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cuja morte expiatória e ressurreição garantem reconciliação, justificação pela fé e vitória sobre o mal. O Espírito Santo atua na regeneração, na santificação e na concessão de dons espirituais. A vida cristã é concebida como caminhada de transformação moral e espiritual, marcada pela separação do pecado e pela obediência aos ensinamentos apostólicos do Novo Testamento.

A prática sacramental inclui o batismo por imersão de crentes conscientes e a celebração da Santa Ceia como memorial do sacrifício de Cristo. A oração pelos enfermos com unção é mantida em consonância com a epístola de Tiago, porém sem ênfase em cerimônias públicos de cura. A escatologia é afirmada como esperança na volta de Cristo, na ressurreição dos mortos e no juízo final, evitando especulações cronológicas ou sistemas proféticos detalhados. Apesar de contatos e continuidades, a CCB não adere ao dispensacionalismo como arcabouço hermenêutico ou escatológico. Isso é similar ao evangelismo italiano que herdou a atitude em relação à Bíblia, conversionismo e eclesiologia de J. N. Darby, mas rejeitou seu dispensacionalismo.

Historicamente, a espiritualidade da CCB reflete influências do movimento de santidade, do keswickianismo, do pietismo centro-europeu e do pentecostalismo ítalo-americano ligado a Louis Francescon e aos círculos de avivamento do início do século XX. Essa herança resulta numa soteriologia mais experiencial e transformativa do que forense, o que dificulta sua classificação nos esquemas dicotômicos clássicos do protestantismo sistemático, como calvinismo versus arminianismo.

Eclesiologicamente, a CCB compreende a Igreja como corpo espiritual de Cristo e valoriza a dimensão comunitária da salvação. A adesão à comunidade é entendida como resposta à ação do Espírito Santo na consciência do crente, não como resultado de proselitismo organizado. Essa visão reforça uma identidade de igreja voluntária, com forte ênfase em disciplina interna, modéstia de costumes e preservação de práticas litúrgicas tradicionais, muitas das quais eram comuns em ambientes evangélicos do século XIX, como o ósculo santo, o uso de véu feminino e a centralidade do canto congregacional acompanhado por instrumentos de tradição erudita.

A produção teológica institucional é limitada; as instâncias administrativas concentram-se mais na preservação da ordem comunitária do que na formulação doutrinária sistemática. Essa característica, somada à postura reservada diante de polêmicas externas e à recusa em adotar modelos de marketing religioso, contribui para incompreensões e críticas frequentes por parte de setores apologéticos. Ainda assim, sob análise histórica e teológica comparada, a CCB permanece dentro dos contornos do cristianismo trinitário e bíblico.

Como em outros segmentos do cristianismo popular, há também desafios internos reconhecidos por observadores e membros: tendências ao anti-intelectualismo, expressões teológicas idiossincráticas, limitações na transparência administrativa e más práticas de autoritarismo. Vive também na encruzilhada entre o exercício do sacerdócio universal dos crentes — historicamente fundado na presença igualitária do Espírito Santo — e tendências hierarquizantes que tendem à burocratização e rotina do carisma. Tais tensões são recorrentes entre carisma, tradição e institucionalização presentes em diversos movimentos religiosos. Nesses desafios, há teologias implícitas também em constante tensão entre legitimar e questionar.

A teologia da Congregação Cristã no Brasil caracteriza-se por combinação de busca pela ortodoxia, ortopraxia e ortopatia bíblicas vivida em forma comunitária e narrativa, sustentada pela liturgia e transmitida pela experiência coletiva de fé.

REFERÊNCIAS

Alves, Leonardo Marcondes. Pontos de Doutrina e da Fé: Uma exposição bíblica. Uberlândia: Círculo de Cultura Bíblica, 2024. https://doi.org/10.5281/zenodo.11212073. ISBN 978 65 266 2284 1.

Hollenweger, Walter J. The Pentecostals. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1972.

Palma, Paul J. Italian American Pentecostalism and the Struggle for Religious Identity. Routledge, 2020.

Palma, Paul J. Grassroots Pentecostalism in Brazil and the United States: Migrations, missions, and mobility. Palgrave Macmillan, 2022.

Yuasa, Key. “Louis Francescon: A Theological Biography – 1866–1964.” PhD diss., Université de Genève, 2001.

Atualizado em 28 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é cientista da religião e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


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  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2025)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2025)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Teologia da Congregação Cristã no Brasil. Círculo de Cultura Bíblica, 2025. Disponível em: https://circulodeculturabiblica.org/2025/01/28/teologia-da-congregacao-crista-no-brasil/. Acesso em: 28 jan. 2026.

Versões etíopes

As versões etíopes da Bíblia, escritas em ge’ez, antiga língua litúrgica da Etiópia, e no moderno amárico, são adotadas pela Igreja Ortodoxa Tewahedo Etíope.

Lendas a associam suas origens na conversão do eunuco etíope em Atos 8:26-27, mas o Novo Testamento ainda não existia na época. Ademais, o termo “etíope” era usado genericamente pelos antigos para se referir a qualquer região ao sul do Egito.

As versões etíopes emergiram no Reino de Axum, que controlava rotas comerciais entre o Império Romano e a Índia no século III. A corte real falava grego, mas a população letrada usava o ge’ez, língua semítica aparentada ao árabe meridional. Com a conversão ao cristianismo em meados do século IV, os axumitas adotaram o termo “etíopes” (Αἰθίοπες), possivelmente por uma leitura errônea de Atos, onde a versão etíope menciona a “terra dos ge’ez” (ግዕዝ) em vez de Gaza (Γάζα).

O ge’ez, escrito em um alfabeto próprio que evoluiu de um sistema consonantal para um vocalizado, tornou-se a língua da Bíblia etíope. Textos informais em ge’ez, como grafites, usavam esse alfabeto. Ge’ez significa “língua”, enquanto “etíope” se refere à escrita. O ge’ez deixou de ser usado no dia a dia por volta do século X, mas permaneceu como língua litúrgica. A partir do século XIII, obras religiosas em árabe copta foram traduzidas para o ge’ez, o que levou a uma florescente tradição literária.

O rei Ezana converteu seu reino Axum ao cristianismo por volta de 340 d.C., evidenciado por símbolos da cruz em moedas e inscrições em grego invocando a Trindade. Ezana enviou Frumêncio, um grego de Tiro, para ser consagrado bispo por Atanásio de Alexandria. A versão ge’ez da inscrição, no entanto, omite as referências cristãs.

Em 356, o imperador bizantino Constâncio II substituiu Atanásio pelo ariano Jorge da Capadócia, solicitando a Ezana que Frumêncio fosse reeducado. Ezana ignorou o pedido e isolou Axum das controvérsias cristológicas do período. Esse isolamento pode ter motivado a tradução da Bíblia para o ge’ez. No final da década de 380, João Crisóstomo afirmou que o Evangelho de João havia sido traduzido.

A tradução, provavelmente iniciada com os Evangelhos e Salmos, foi prejudicada pelo conhecimento limitado do grego. Por exemplo, Atos 27 e 28 possuem terminologia náutica e foram omitidos. Os tradutores parafraseavam, adivinhavam ou omitiam trechos que não entendiam, resultando em leituras peculiares. A divisão incorreta de palavras e frases, o pouco domínio das partículas e dos casos gregos também geraram problemas.

A versão etíope, traduzida sem a influência de missionários ou do patriarcado alexandrino, incluiu todos os livros canônicos, além de obras como 1 Enoque, Jubileus, Ascensão de Isaías e Paralipômenos de Jeremias, e neotestamentárias como Pastor de Hermas e Atos de Marcos.

O debate sobre a conclusão da tradução se concentra na tradição dos “Nove Santos”, monges que cristianizaram áreas rurais de Axum nos séculos V e VI. Alguns estudiosos os consideravam tradutores, influenciados pela Peshitta siríaca. No entanto, essa narrativa não encontra respaldo nas fontes etíopes.

A hipótese mais aceita é que a Bíblia completa já existia em ge’ez no final do século V. Inscrições de 525 d.C. do rei Kaleb contêm citações de Êxodo, Salmos, Isaías e Mateus. Além disso, livros como 1 Enoque e Ascensão de Isaías, condenados por Atanásio em 367, só poderiam ter sido traduzidos durante o período de isolamento.

O cânone etíope, com 81 livros, é peculiar. A falta de clareza sobre quais livros o compõem e a flexibilidade do conceito de cânone na Igreja Ortodoxa Etíope dificultam sua definição.

A escassez de manuscritos medievais, devido à destruição causada por Ahmad Gragn entre 1531 e 1543, e a pouca qualidade das edições impressas ocidentais, dificultam o estudo da versão etíope. Edições críticas publicadas nos últimos cinquenta anos revelaram três tipos de textos: A-textos (descendentes da versão axumita), Ab-textos (A-textos corrigidos com base em manuscritos árabe-coptas) e B-textos (revisões do século XV/XVI influenciadas por modelos coptas).

Os Evangelhos de Garima, datados do século VI, são os manuscritos mais antigos e fornecem acesso ao texto-base axumita. A comparação com manuscritos medievais confirma que a tradução dos Evangelhos foi realizada de uma só vez.

Os A-textos apresentam características como: adição de sujeitos e objetos explícitos, intensificadores como “tudo” e “muito”, harmonização entre textos sinóticos e narrativas com contextos semelhantes, e dupla ou múltipla tradução do mesmo termo grego.

Os A-textos dos Evangelhos são considerados como um primeiro rascunho, com linguagem livre e simplificada, enquanto os outros textos do Novo Testamento são mais literais. Grande parte do Antigo Testamento é extremamente literal em relação à Septuaginta.

A versão etíope foi traduzida exclusivamente do grego, mas raramente é possível reconstruir o texto grego original com base nos A-textos. Os B-textos podem ter origem em versões árabes literais do siríaco, como no caso de Atos.

A comparação dos A-textos com variantes gregas do Novo Testamento revela afinidade com o texto alexandrino, especialmente em Atos, Apocalipse, cartas paulinas e católicas. Nos Evangelhos, a situação é mais variada, com maior proximidade ao texto bizantino em Mateus e João, e ao Codex Washingtonensis nos primeiros capítulos de Marcos.

O A-texto sempre apresenta o final longo de Marcos, Mateus 16:2-3 e 24:36 (incluindo “nem o Filho”), e omite a Pericope Adulterae em João 7:53-8:11. Uma leitura inesperada em João 5:3-4 inclui os versículos 3b e 4a, omitindo o restante do versículo 4.

Em Mateus 27:49, o A-texto apoia a leitura alexandrina, com Garima 2 apresentando a ordem “água e sangue” e Garima 1 e o restante da tradição A “sangue e água”. Essa leitura, ausente em versões ocidentais, era comum no Egito no século IV.

Bíblia Rorigo

A Bíblia Rorigo, atualmente preservada na Bibliothèque nationale de France como MS Latin 3, é uma Bíblia latina produzida em Tours por volta do ano 835 d.C., durante o auge das reformas carolíngias.

Composta em um único volume, possui 409 fólios, distribuídos em texto de duas colunas com 51 ou 52 linhas por página. Sua decoração inclui títulos e rubricas em prata ou ouro sobre fundos púrpura, além de iniciais pintadas e tabelas canônicas, refletindo a sofisticação artística da época. Fechada, a Bíblia mede 49,5 centímetros de altura por 38 centímetros de largura, sendo considerada um exemplar típico de volume de púlpito.

A produção da Bíblia Rorigo está intrinsecamente ligada ao contexto das reformas promovidas por Carlos Magno e seus sucessores, que enfatizavam a correctio, ou seja, a correção de erros textuais e a preservação da doutrina correta. O texto, baseado na Vulgata, foi cuidadosamente revisado para garantir sua exatidão, incluindo divisões por capítulos e marcas de kephaleia (κεφάλαια), elementos que evidenciam a preocupação com a organização e a clareza do texto sagrado.

A Bíblia recebeu esse nome devido à sua doação pelo conde Rorigo, um nobre franco que restaurou a abadia de Saint-Maur-de-Glanfeuil, próxima ao rio Loire, na década de 830. Conforme anotação do século X no manuscrito, Rorigo entregou pessoalmente o volume ao abade Gauzfred, seu irmão e monge da abadia de Saint-Maur-des-Fossés, pedindo orações por sua alma. Com a invasão viking no vale do Loire em 868, a comunidade de Glanfeuil transferiu-se para Saint-Maur-des-Fossés, levando a Bíblia consigo.

No século XVII, após o fechamento da abadia de Saint-Maur-des-Fossés, o manuscrito foi transferido para Saint-Germain-des-Prés, sobrevivendo à dissolução dessa abadia em 1789, durante a Revolução Francesa. Desde então, encontra-se preservado na Bibliothèque nationale de France.

A Bíblia inclui um acréscimo posterior de um caderno com dezesseis fólios contendo a Vida de São Mauro, fundador de Glanfeuil, e uma história da abadia.