Anna Trapnell

Anna Trapnell (ativa c.1650) foi um profetisa puritana popular e ativista do movimento Quinto-Monarquista na Inglaterra do século XVII. Tinha uma pregação apaixonada, transes dramáticos e desafios às estruturas religiosas e políticas de seu tempo.

Nasceu em Stepney, Londres, por volta de 1620, filha de um construtor de navios. Sua infância em um ambiente marcado por desigualdades sociais pode ter influenciado seu engajamento posterior. Cresceu durante as Guerras Civis Inglesas e o Interregno, período de intensas transformações religiosas e políticas que moldaram sua visão de mundo.

Tornou-se uma pregadora itinerante, atraindo multidões com seus sermões e profecias, que muitas vezes criticavam o governo de Oliver Cromwell e a igreja estabelecida. Suas mensagens enfatizavam justiça religiosa e social, incluindo papéis ampliados para as mulheres na vida religiosa. Trapnell era conhecida por seus transes, nos quais afirmava receber revelações divinas, o que reforçava sua reputação como profetisa e gerava tanto admiração quanto controvérsia.

Sua postura crítica levou a perseguições, incluindo prisões e exílio. Em 1654, foi banida para as Ilhas Scilly. Durante o encarceramento, escreveu Anna Trapnel’s Report and Plea, defendendo suas ações e crenças, e A Legacy for Saints, onde narrou sua jornada espiritual e ofereceu orientação a seus seguidores. Esses escritos são fontes valiosas para compreender suas motivações e os desafios que enfrentou.

Trapnell representa o radicalismo religioso do século XVII, desafiando hierarquias tradicionais e defendendo maior igualdade espiritual e social. Em um contexto dominado por homens, reivindicou o direito de pregar e profetizar, abrindo espaço para a participação de outras mulheres na liderança religiosa. Seus textos oferecem perspectivas únicas sobre o panorama religioso e político de sua época e sobre as experiências de mulheres e dissidentes.

Thérèse de Lisieux

Thérèse de Lisieux (1873–1897), também conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, foi uma monja carmelita descalça francesa com influência significativa no catolicismo. Sua vida e escritos moldaram práticas espirituais centradas na confiança e no amor a Deus.

Nascida Marie Françoise-Thérèse Martin em Alençon, França, cresceu em uma família católica devota. Seus pais, Louis e Zélie Martin, foram canonizados como santos. A morte de sua mãe, quando tinha quatro anos, marcou profundamente sua vida e moldou sua vocação. Desde cedo, demonstrou desejo de ingressar na vida religiosa e, superando obstáculos, entrou no convento carmelita em Lisieux aos 15 anos.

No convento, viveu uma rotina de oração, trabalho e dedicação religiosa. Sua filosofia, conhecida como “Pequena Via”, ensinava que a santidade podia ser alcançada através de ações simples realizadas com amor e confiança em Deus. Propunha que tarefas cotidianas, quando feitas com intenção pura, poderiam ser um caminho para Deus, tornando a espiritualidade acessível.

Sua autobiografia, História de uma Alma, foi publicada após sua morte e tornou-se amplamente reconhecida por sua profundidade espiritual. No livro, narrou sua vida, desafios e crença na bondade divina. Suas reflexões influenciaram muitos seguidores e inspiraram práticas espirituais.

Thérèse faleceu de tuberculose aos 24 anos. Foi canonizada em 1925 e declarada Doutora da Igreja em 1997, destacando a relevância de seus escritos teológicos.

Maria Tepedino 

Ana Maria de Azeredo Lopes Tepedino (1948–2018) foi uma teóloga católica brasileira, com contribuições à Teologia da Libertação, à eclesiologia e aos estudos sobre o feminino no contexto latino-americano.

Nascida no Estado do Rio de Janeiro, formou-se em Filosofia pela Universidade Católica de Petrópolis em 1963 e, posteriormente, em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1981. Obteve o título de Mestre em 1986 e Doutora em 1993, também pela PUC-Rio, instituição onde passou grande parte de sua carreira acadêmica. Em 2013, recebeu o título de Professora Emérita em reconhecimento por sua contribuição intelectual e pedagógica.

Tepedino foi uma das pioneiras entre as teólogas leigas na América Latina. Integrou o Departamento de Teologia da PUC-Rio e trabalhou que fosse um espaço de diversidade teológica. Buscou novas perspectivas para compreender o papel da mulher na teologia e na Igreja. Como membro da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER), participou da construção de um pensamento teológico engajado com a justiça social e a igualdade de gênero.

Além de sua produção acadêmica, Tepedino contribuiu em comissões da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB).

Teologia pós-conservadora

A teologia pós-conservadora é uma abordagem contemporânea dentro do evangelicalismo que busca superar as limitações percebidas da teologia conservadora tradicional, enquanto preserva um compromisso com os fundamentos da fé evangélica. Esse movimento emergiu nas últimas décadas do século XX em resposta às tensões entre a ortodoxia teológica e as transformações culturais, sociais e epistemológicas da modernidade e da pós-modernidade.

Desenvolvida em grande parte no evangelicalismo norte-americano, a teologia pós-conservadora surgiu como uma reação ao conservadorismo associado ao movimento fundamentalista e suas ligações com agendas políticas conservadoras. Influenciada por tendências como a teologia narrativa, o pensamento pós-moderno e críticas à epistemologia iluminista, ela propôs uma reavaliação das bases teológicas tradicionais. Essa abordagem também reflete um desejo de engajar questões contemporâneas, incluindo justiça social, diversidade cultural e diálogo inter-religioso.

Os teólogos pós-conservadores valorizam a tradição cristã, mas defendem que doutrinas e práticas herdadas devem ser revisadas à luz de novas interpretações das Escrituras e desafios contextuais. Para eles, a revelação divina tem um caráter transformador que vai além da mera transmissão de informações, sendo a teologia compreendida como um processo dinâmico e contínuo. Eles rejeitam o fundacionalismo epistemológico típico do Iluminismo, que busca certezas objetivas e neutras, favorecendo em vez disso uma abordagem que reconhece a influência do contexto, da linguagem e da comunidade. Em consequência, a teologia pós-conservadora se envolve em um relacionamento dialético com contextos seculares e pós-cristãos, permitindo um reexame da fé na sociedade moderna.

Essa perspectiva encoraja o diálogo com outras tradições cristãs e, em alguns casos, com outras religiões, partindo da premissa de que a verdade teológica é enriquecida por meio da interação com diferentes perspectivas. O engajamento crítico e criativo com a cultura contemporânea também é central, abordando questões como justiça social, direitos humanos e pluralismo. Além disso, os pós-conservadores destacam a importância da comunidade cristã na interpretação das Escrituras e na formação teológica, preferindo uma abordagem comunitária em vez de centralizada em líderes ou autoridades específicas. Para enfrentar novos desafios culturais e éticos, eles veem a imaginação como uma ferramenta essencial no discurso teológico.

Dentro dessa abordagem, a Escritura é afirmada como autoridade, mas com ênfase na necessidade de interpretação contextual. A tradição é valorizada, mas não é considerada infalível, e o diálogo com a modernidade é visto como indispensável. A experiência, tanto pessoal quanto comunitária, é reconhecida como uma fonte legítima de compreensão teológica. Muitos também colocam a justiça social como um elemento central, argumentando que a fé deve se manifestar na promoção da equidade e no cuidado com os marginalizados.

Figuras proeminentes incluem Roger E. Olson, que em Reformed and Always Reforming argumenta que ser menos conservador pode tornar o evangelicalismo mais autêntico; Stanley Grenz, que destacou a importância da comunidade e da relevância cultural na teologia; John R. Franke, com sua ênfase na teologia contextual e no diálogo entre cultura e fé; e Brian McLaren, que popularizou uma visão mais aberta e inclusiva do cristianismo.

A teologia pós-conservadora, no entanto, enfrenta críticas. Alguns apontam para uma falta de clareza em suas definições e critérios teológicos, enquanto outros temem que sua abertura ao contexto e à experiência possa levar ao relativismo. Ainda assim, sua influência é significativa. Ela tem ampliado os debates teológicos dentro do evangelicalismo, promovendo um reexame crítico de crenças tradicionais e incentivando o engajamento com questões contemporâneas.

Elsa Tamez

Elsa Támez (1950) é uma teóloga mexicana e biblista, associada à teologia da libertação e ao estudo bíblico feminista e contextual. Nascida em Victoria, no México, foi criada na Igreja Presbiteriana e, posteriormente, uniu-se à Igreja Metodista. Sua formação teológica começou na Costa Rica em 1969, onde enfrentou dificuldades por ser mulher ao tentar ingressar no seminário.

Támez graduou-se pela Universidade Nacional da Costa Rica em 1973 e obteve uma Licenciatura em Teologia pela Universidade Bíblica Latino-Americana em 1979. Formou-se também em Literatura e Linguística em 1986 e completou seu Doutorado em Teologia na Universidade de Lausanne, Suíça, em 1990. Sua tese, Contra toda condena: La justificación por la fe desde los excluidos, foi publicada em 1991. Ao longo de sua carreira, atuou como professora na Universidade Bíblica Latino-Americana, onde foi a primeira mulher a assumir a presidência em 1995. Também lecionou na Harvard Divinity School e na Vanderbilt University.

Entre suas principais obras, La Biblia de los oprimidos (1979), traduzida como Bible of the Oppressed (1982), analisa textos bíblicos sob a ótica da opressão e libertação. Outras publicações de destaque incluem The Amnesty of Grace (1993) e Struggles for Power in Early Christianity: A Study of the First Letter of Timothy (2007). Ela também contribuiu para antologias e volumes sobre teologia feminista. Támez teve papel importante na criação de uma comissão de mulheres na Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo, com o objetivo de promover a contribuição das mulheres na teologia.

Sua atuação teológica foi reconhecida com prêmios como o Prêmio Hans Sigrist em 2000. Atualmente, Elsa Támez reside na Colômbia com sua família e segue sendo uma voz de impacto no debate teológico contemporâneo.