Religião popular

A religião popular define-se como um complexo dinâmico de práticas, representações e elaborações simbólicas — abrangendo textos, narrativas, rituais e sistemas morais — produzidos e vivenciados por grupos subalternos da sociedade.

Longe de ser um sistema doutrinário rígido ou uma “forma degradada” da religião oficial, ela constitui uma ferramenta fundamental de orientação e sobrevivência, permitindo que indivíduos lidem com tensões sociais, assimetrias de poder e a escassez de recursos materiais. De acordo com a perspectiva de Paulo Nogueira, fundamentada em autores como Gurevich e Brandão, a religião popular caracteriza-se por uma linguagem concreta e pragmática, voltada para funções cotidianas, mas que simultaneamente carrega uma profunda força poética e polissemia.

Características gerais

Diferente da cultura das elites, a religião popular não busca a coerência lógica ou o caráter sistemático; sua natureza é predominantemente metafórica e narrativa, manifestando-se de forma fragmentária, ambígua e, por vezes, grotesca ou contraditória aos olhos do observador externo.

A religião popular possui um caráter de circularidade constante: não está isolada em seitas, mas perpassa diversos setores da sociedade, influenciando e sendo influenciada pela cultura erudita através de processos de recepção ativa, que podem incluir a emulação, a paródia ou a inversão de gêneros literários dominantes. Embora circule globalmente, sua organização é essencialmente local e concreta, estruturada em torno de grupos, imagens e rituais específicos que funcionam como espaços de disputa de poder e agência. Além disso, a religião popular frequentemente coexiste com retóricas de exclusividade religiosa — como o conceito de “povo santo” —, embora, na prática, esteja profundamente imersa nos sistemas de valores e linguagens do seu entorno cultural.

Cristianismo primitivo

No contexto do Mediterrâneo antigo, o cristianismo primitivo pode ser compreendido como uma forma de elaboração cultural das camadas subalternas que utilizavam a narrativa e o mito para processar sua realidade social. Segundo Nogueira (2018, 2019), baseando-se em Meggitt (2004), o movimento cristão não era apenas uma resistência política, mas uma recepção ativa de gêneros da elite adaptados à mentalidade popular.

  • Agentes intermediários: Como propõe Gurevich (1990), a transição entre mundos culturais exige mediadores. Paulo de Tarso, um fabricante de tendas que dominava a retórica grega, exemplifica o sujeito que transita entre os estratos sociais, traduzindo elementos da alta cultura para a gramática das classes subalternas.
  • Narrativa e sobrevivência: As histórias de milagres e os relatos fantásticos do Novo Testamento e apócrifos funcionam como “instruções mágicas” e orientações de vida para aqueles que enfrentavam a violência e a marginalidade do Império Romano.

Pentecostalismo

Aplicando a teoria de Brandão (2007) e os pressupostos de Parker (2011) sobre a cultura popular, o pentecostalismo contemporâneo manifesta a vivacidade da religião popular em sua capacidade de adaptação e pragmatismo.

  • Concretude e pragmatismo: Assim como no cristianismo primitivo, a religiosidade pentecostal foca em resultados concretos (cura, prosperidade, libertação), utilizando uma linguagem acessível e emocional que prioriza a experiência mística sobre a sistematização teológica acadêmica.
  • Disputa de espaço: O movimento ocupa as periferias urbanas como um espaço de agência, onde o fiel encontra uma nova identidade social que o protege das “tensões e assimetrias” mencionadas na definição de cultura popular, reconfigurando símbolos da cultura de massa para fins de resistência espiritual e social.

Bibliografia

Brandão, Carlos Rodrigues. Os Deuses do povo. Um estudo sobre a religião popular. 3. ed. Uberlândia: EDUFU, 2007.

Gurevich, Aron. Medieval Popular Culture: Problems of Belief and Perception. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

Meggitt, Justin J. “Sources: Use, Abuse, Neglect. The Importance of Ancient Popular Culture”. In: Christianity at Corinth. Louisville: Westminster John Knox Press, 2004.

Nogueira, Paulo A. S. Narrativa e cultura popular no cristianismo primitivo. São Paulo: Paulus, 2018.

Nogueira, Paulo A. S. El cristianismo primitivo como religión popular. Salamanca: Sígueme, 2019.

Parker, Holt N. “Toward the Definition of Popular Culture”. History and Theory 50 (2011), 147-170.

Elizabeth H. Prodromou

Elizabeth H. Prodromou é uma acadêmica e especializada em Ortodoxia grega, relações internacionais, política e direitos humanos. Professora no Boston College, trabalha com formuladores de políticas e o Patriarcado Ecumênico, promovendo paz, serviço e a importância da alfabetização religiosa nas relações internacionais.

Religionsgeschichtliche Schule

A Religionsgeschichtliche Schule ou Escola de História das Religiões foi uma tendência de estudos cristãos da Alemanha do século XIX e início do século XX que buscava entender o desenvolvimento do cristianismo dentro de seu contexto histórico e cultural.

Os estudiosos da Religionsgeschichtliche Schule buscavam nas crenças e práticas religiosas de outras culturas e religiões para lançar luz sobre as origens do cristianismo. Pressupunham que o cristianismo não se desenvolveu isoladamente, mas foi influenciado pelas crenças e práticas religiosas de outras culturas e religiões.

Os membros da Religionsgeschichtliche Schule foram influenciados pelo trabalho de filósofos e estudiosos como Friedrich Nietzsche, Franz Overbeck e Wilhelm Dilthey.

Uma das figuras-chave associadas à Religionsgeschichtliche Schule foi Albert Schweitzer, que argumentou que Jesus deveria ser entendido como uma figura histórica que viveu dentro de um contexto cultural e religioso particular.

A Religionsgeschichtliche Schule foi controversa em seu tempo. Recebeu críticas de ser reducionista ao considerar a religião a um fenômeno cultural puramente humano, dependente de outras variáveis culturais. Foi criticada por suas generalizações, presumindo uma semelhança universal entre todas as religiões e por não levar em conta a diversidade dentro e entre as diferentes tradições religiosas. Também supervalorizam o mito, em detrimento de outros aspectos, como ritual, ética e teologia. Apesar do nome, a Escola da História das Religiões negligenciava a especificidade histórica ao atomizar elementos da religião fora de seu contexto histórico e cultural para fins comparativos.

Revelação progressiva

Revelação progressiva é um princípio hermenêutico e uma doutrina de que as passagens das Escrituras posteriores contêm uma revelação mais completa de Deus do que as passagens anteriores. Alguns teólogos e religiões aplicam o conceito também para a história.

Relacionada com a doutrina da acomodação, a teoria da revelação progressiva argumenta que Deus não ensinou ou divulgou pleno conhecimento teológico, legal, moral ou científico à humanidade desde o início de sua revelação especial. Em vez disso, Deus gradualmente revelou verdades durante um longo período, de acordo com suas necessidades, e em um ritmo lento o suficiente dentro da medida humana para absorvê-las completamente.

A ideia de revelação progressiva é proposta por um espectro amplo de pensadores religiosos. Alguns representantes reivindicam um veículo de revelação final, quer na pessoa de um profeta, quer definitivamente em uma escritura sagrada em um estágio final.

Uma das mais antigas formulações de revelação progressiva aparece no zoroastrismo. O zoroastrismo postula a crença que de tempo em tempo haverá uma pessoa que comunicará as verdades divinas de forma mais ampla, mais profunda e mais plena que a comunicação anterior.

Nesse sentido, apareceu no maniqueísmo, no islã, na fé baha’i, na ahmadiyy, ano mormonismo, bem como suas variantes no cristianismo, principalmente liberal, reformado e dispensacionalista.

Na teologia liberal, aparece no ensaio “Sobre a interpretação das escrituras” de Benjamin Jowett. Como adepto da revelação progressiva, Jowett considerava que os livros da Bíblia escritos mais tarde estariam mais próximos da revelação final de Deus em Jesus Cristo, conforme revelado nos Evangelhos. As epístolas e outros escritos do Novo Testamento deveriam ser vistos em retrospectiva a figura do Jesus dos evangelhos. Assim, a revelação estaria em andamento e as Escrituras estariam sempre sujeitas a reinterpretação à cada geração.

Entre algumas vertentes reformadas, principalmente na Escola de Princeton e no Novo Calvinismo, a idea de revelação progressiva é vista como aplicação do conhecimento disponível em uma aliança não necessariamente seria a mesma na próxima aliança. Nesses termos, Geerhardus Vos dizia que revelação seria “a atividade divina, não um produto finalizado dessa atividade”. Em termos similares o dispensacionalismo apresenta um desabrochar progressivo da verdade. Contudo, ambas vertentes rejeitam a ideia de revelação continuada extracanônica.

Proponentes da revelação progressiva pode restringí-la às Escrituras ou à história da Igreja, utilizando essa doutrina para justificar doutrinas desenvolvidas teologicamente.

O cristianismo tradicional normalmente tende a rejeitar a teoria de revelação progressiva. Há nas diversas tradições cristãs históricas algumas doutrinas com traços semelhantes, porém distintas da revelação progressiva.

A doutrina da Heilsgeschichte (história de salvação) considera aspectos fenomenológicos ou de acomodação das pessoas que experimentaram os eventos da revelação especial de Deus registrada nas Escrituras.

O luteranismo e o pensamento de Barth enfocam na revelação plena em Jesus Cristo como um único evento, sobre o qual as Escrituras dão testemunhos.

No catolicismo romano há a noção de magistério eclesiástico e revelação privada. Na ortodoxia grega há o conceito de sobor, ou revelação situacional no corpo da Igreja em consenso. Em comum, consideram a revelação completa em Cristo, mas com estágios para se tornara explícitas para a fé cristã.

No pentecostalismo as revelações carismáticas (profecias, sonhos, visões, palavra do conhecimento, interpretação de línguas) são circunscritas às audiências específicas da comunidade ligada a Cristo, enquanto a revelação especial de Jesus Cristo nas Escrituras é recebida de forma sincrônica. Assim, no pentecostalismo clássico rejeita-se tanto a esquemas de revelação progressiva diacrônica, quanto de novidades de revelações particulares contradizentes ao que já é compreendido pelo Espírito Santo como revelado nas Escrituras canônicas. Alguns teólogos acadêmicos pentecostais (como Yong), tende a ver as Escrituras e a Criação como polifônicas. Assim, sendo a obra consumada de Cristo sua plena e final revelação até seu retorno, o que há na Igreja é um desenrolar de entendimento. Vale atentar, todavia, que em alguns meios pentecostais o termo “revelação” possui uma campo de significações amplas, por vezes igualado com “entendimento” ou “carismata”. Há também muitos pentecostais que aderem às ideias dispensacionalistas de revelação progressiva.

VEJA TAMBEM

Acomodação

Dispensacionalismo

Alicancismo

Heilsgeschichte

BIBLIOGRAFIA

Catecismo da Igreja Católica.

Boyce, Mary. A History of Zoroastrianism. Vol. I, Leiden: Brill, 1975.

Hodge, Charles. Systematic Theology, vol. 1, Peabody: Hendrickson, 2003, p. 446.

Jowett, Benjamin “On the Interpretation of Scripture” , Essays and Reviews. Londres: Longman, Green, Longman and Roberts, 1861, pp. 330-433

Kärkkäinen, Veli-Matti. Trinity and revelation: A constructive Christian theology for the pluralistic world; v. 2. Grand Rapids: Eerdmans, 2014.

Niebuhr, H. Richard; Ottati, Douglas F. The Meaning of Revelation. Library of Theological Ethics. Louisville, KY: John Knox Press, 2006.

Packer, J. I. “Evangelical view of progressive revelation”. Honouring the Written Word of God. The Collected Shorter Writings of J.i. Packer, V.3. Carlisle: Paternoster, 1999.

Sproul, R.C. “Progressive Revelation”, Ligonier, 2016. https://www.ligonier.org/learn/devotionals/progressive-revelation

Vos, Geerhardus. Biblical Theology: Old and New Testament. Grand Rapids: Eedmans, 1948, p.5.

Wright, George Ernest. “Progressive Revelation.” The Christian Scholar 39, no. 1 (1956): 61–65.